História e Memória
3. As ideologias modernas da decadência: Spengler, Lukács, Toynbee
No século XVI, já Bodin [1566, cap. VI] criticava a teoria dos Quatro Impérios e punha questões sobre a idéia
da Idade do Ouro.
No século XVIII, alguns autores recusam a identificação das formações históricas com os organismos vivos, a
metáfora biológica. Turgot afirma-o e Marmontel escreve: "Tudo morre, os próprios Estados, sei-o; mas não acredito que a natureza lhes trace o círculo da existência... A sua decadência não está marcada, como a nossa, pelo declínio dos anos; o seu envelhecimento é uma quimera" [Bélisaire, 1767, pp. 130-31]. Por sua vez, Hume, depois de ter negado a ligação entre luxo e declínio da liberdade, coloca-se na linha dos modernos, exprimindo fortes dúvidas quanto à "juventude" e "vigor" do mundo antigo. Gibbon volta finalmente ao assunto, não vendo na palavra decadência (decline) mais do que uma metáfora.
3. As ideologias modernas da decadência: Spengler, Lukács, Toynbee
Na era da revolução industrial acentua-se o descrédito do conceito de decadência. Os ideólogos do progresso –
embora (repete-se) os dois conceitos não se oponham diretamente – não são adeptos do vocábulo declínio. Entretanto, o termo instala-se, sob as suas diversas formas lingüísticas, no vocabulário corrente. Apenas são significativas as teorias que, para além de simples instrumento verbal, o consideram um utensílio intelectual.
Para o século XX escolhi três destas teorias: uma, do alemão Oswald Spengler, que se pode situar no meio
ideológico do nazismo, embora Spengler não tenha tido ligações diretas com o hitlerismo; a segunda, a do húngaro György Lukács, que se define como teórico marxista, tendo, contudo, defendido teses variadas e mantido ligações oscilantes com a ortodoxia comunista; por fim, a terceira, a do inglês Amold Toynbee, historiador liberal, representativo das tradições, ao mesmo tempo conservadoras e iconoclastas da inteligentzia universitária anglo-saxônica, mais precisamente britânica. Contudo, parece que os três, a diversos títulos e a partir de situações muito diferentes, ficaram marcados pelo trauma da Primeira Guerra Mundial (desde a sua aproximação, em 1911, com a crise marroquina, em Spengler) e da idéia de vulnerabilidade das civilizações.
3.1 Spengler
Na sua grande obra, O Declínio do Ocidente [1918-221, Spengler propõe-se a esclarecer o declínio do Ocidente
no século XIX e princípios do século XX formulando uma teoria da história universal. Para o autor, a oposição fundamental é entre a natureza e a vida, o mecânico e o orgânico. A história – enquanto ciência que pretende explicar a história, enquanto realidade vivida – segue uma via errada do ponto de vista materialista e mecanicista. Só uma história que encara a História como organismo vivo pode dar-se conta disso. Spengler aceita e utiliza todos os termos, todos os conceitos que exprimam este caráter vivo, orgânico e biológico dos fenômenos históricos. Escreve na Introdução: "Existe uma lógica da história?... É possível, na própria vida – porque a história humana é o conjunto de imensas correntes vitais que o uso lingüístico, o pensamento ou a ação assimilam já sem querer, como a "pessoa" e o "eu", individualidades de ordem superior, quando se fala de "antiguidade clássica", "cultura chinesa" ou "civilização moderna" – será possível encontrar degraus que devemos ultrapassar segundo uma ordem que não admite exceções? Os conceitos de nascimento, morte, juventude, velhice, duração de vida, que estão na base de todos os organismos, terão talvez, neste sentido restrito, uma direção que nunca foi encontrada?" [ibid.].
Spengler reclama-se discípulo de dois grandes mestres, Goethe e Nietzche, e afirma que pede o método ao
primeiro, enquanto que o segundo fica a dever a maneira de colocar os problemas. A história que procura é uma história faustiana, uma história do "Sturm und Drang", do "morre e devém" (stirb und werde), da "morte e transfiguração". Spengler situa-se numa posição de vitalismo exacerbado, para quem morrer é ainda viver até o fim. Torna-se evidente que a noção de decadência é também da competência dos psicanalistas.
O que importa em Spengler, para a interpretação da história, com a ajuda do conceito de decadência, é o
conteúdo original – senão preciso – que dá à decadência na sua visão da história. Para ele, as grandes personagens da história são as civilizações (distingue oito principais: egípcia, babilônica, indiana, chinesa, mexicana, árabe, clássica, ocidental). Não há continuidade entre estas civilizações. Cada uma delas, fechada sobre si mesma, sem contatos, nasce, cresce, envelhece e morre. Spengler rejeita o esquema "Antiguidade – Idade Média – Idade Moderna" não é só por lhe parecer mecanicista, nem por privilegiar a Antiguidade – período que considera estático e sem vida –, mas, acima de tudo, porque institui uma falsa e insuportável continuidade entre cultura antiga e cultura ocidental.
Cada cultura realiza um ciclo vital. A sua velhice é o momento em que se transforma em civilização. "A
civilização é o destino inevitável de uma cultura... As civilizações são os estágios mais exteriores e mais artificiais que uma espécie humana superior pode atingir. São um fim, o estático que sucede ao devir, a morte que sucede à vida, à evolução e à cristalização, à transparência e pureza de alma, visíveis no dórico e no gótico, como a velhice espiritual e a "cidade mundial" petrificada e petrificante" [ibib., p. 79].
A civilização é a exploração de uma herança histórica morta. É a fase necrofágica – autonecrofágica, se assim
se pode chamar – de uma cultura.
"A passagem da cultura a civilização acontece na Antiguidade, no século IV, e no Ocidente no século XIX"
[ibid., p. 801.
Como se manifesta o declínio do Ocidente? Pela passagem da idéia de pátria ("palavra profunda, que adquire o
seu verdadeiro significado quando o bárbaro se torna um homem de cultura, e que o perde de novo quando o civilizado adota a divisa: ubi bene, ibi patria" [ibid., p. 1425, nota 25]), à de cosmopolitismo, pela hipertrofia de alguns centros de decisão nas "cidades mundiais". O Ocidente decadente de Spengler é a Metropolis (1926) de Fritz Lang. Nesta "cidade universal", o padrão não é o espírito mas o dinheiro. Para Spengler, o Ocidente é, no início do século XX, apenas o princípio de um processo de decadência. Como este processo é para ele fatal, foi imediatamente rotulado de pessimista, acusação que rejeita. As obscuras profecias das últimas páginas de O Declínio do Ocidente, que são um apelo a um sobressalto faustiano, a uma esperança numa luta contra o dinheiro, em nome de um direito que poderá ser o socialismo (um socialismo que voltasse as costas ao marxismo), tomam, à luz da história, um lúgubre tom nazista. Contudo, talvez seja mais justo ligar Spengler aos milenaristas da Idade Média que acabam por invocar o Anticristo, prelúdio necessário ao Reino dos Mil Anos e confundir o apocalipse do furor com o apocalipse da luz. Não se referiu Spengler freqüentemente a Joaquim da Fiore?
3.2 Lukács
O panorama é completamente diferente com György Lukács. Primeiro, o conceito de decadência ocupa na sua
obra um lugar limitado. Esta obra muitíssimo mais variada do que a de Spengler (de quem as outras obras não tiveram qualquer ressonância), organiza-se em períodos e ainda não é conhecida na sua totalidade. Enfim, Lukács pretendeu, quase sempre, situar o seu próprio pensamento sobre a decadência no interior do sistema marxista, o que lhe confere uma espécie de existência de segundo grau.
Apenas se referem aqui os trabalhos escritos durante o período em que Lukács esteve refugiado na URSS (1933-
45) onde, por razões em que é difícil separar as convicções íntimas e a pressão do meio, a obra de Lukács é, de uma maneira geral, influenciada por aquilo a que se convencionou chamar o 'estalinismo' – embora Lukács tenha estado muitas vezes em conflito aberto com a intelectualidade oficial soviética, com quem convivia, mas que considerava "vulgar". A reflexão de Lukács acerca do conceito de decadência parte em duas direções. Situa-se no campo da estética e no da ideologia. Na verdade, porém, o seu campo de investigação é sempre o da criação artística, quer na teoria do romance histórico (prolongamento dos seus trabalhos de juventude sobre o romance, por ele renegados), quer a questão do realismo – estão intimamente ligados.
Para Lukács não existe estética pura. O valor literário de uma obra está ligado a sua posição na sociedade. Não
pode haver boa literatura que não seja realista. Se uma obra literária se alheia desta realidade ou se coloca ao serviço das forças conservadoras ou reacionárias, não pode ser boa. O romance histórico é um teste particularmente interessante, porque parece assentar num postulado de fuga diante do presente. De fato, o verdadeiro romance histórico é aquele que através do passado sabe exprimir os problemas e os sentimentos do presente e assumir uma posição progressista. O romance histórico que surge no princípio do século XIX, com a revolução industrial, o nascimento do capitalismo e a ascensão da burguesia, exprime com os seus heróis que, em vez de subirem na vida, enfrentam dificuldades, o futuro histórico e o dinamismo da nova sociedade. É o que Lukács chama a idade clássica do romance histórico.
Com a ruptura entre burguesia e povo, em 1848, a burguesia alia-se às forças reacionárias. O romancista burguês
afasta-se do verdadeiro realismo, o romance histórico torna-se um refúgio face à realidade, um álibi. A história é apenas um cenário. Para Lukács, os dois melhores – e deploráveis – exemplos desta decadência do romance histórico são Salom nbó (1862) de Flaubert e os romances de Meyer, a partir da Tentação do Pescara (Die Versuchung des Pescara, 1887). "Ouvimos as explicações, quer de Flaubert, quer de Meyer, sobre as razões que os levaram a tratar temas históricos... Nos dois casos as motivações não resultaram de uma compreensão da ligação entre o presente e a história, mas, pelo contrário, do repúdio pelo presente..." [193637, trad. francesa, 1965, p. 260]. Lukács situa esta "decadência" do romance histórico entre "as tendências gerais da decadência". A decadência literária nada mais é do que um aspecto e conseqüência da decadência da burguesia: "Para o nosso caso, o fato mais importante é a transformação da democracia burguesa, revolucionária e progressista, num liberalismo pusilânime, inclinado ao compromisso, tomando-se cada vez mais reacionário[ibid., p. 267].
A problemática que lhe está mais próxima é a dos textos reunidos sob o título Problemas do Realismo [1971] e
que pertencem ao grupo dos "Escritos de Moscou". Aqui o problema literário é o do expressionismo alemão do início do século XX. Lukács levanta a questão da "decadência ideológica" e, ainda mais do que no Romance Histórico, socorre-se de Marx. Os principais capítulos são Grandeza e Decadência do Expressionismo [19341, Marx e o Problema da Decadência Ideológica [ 1938a], Existirá o Realismo? [ 1938b].
Os expressionistas começaram como "movimento literário de oposição" e, se essa oposição, primeiro ao
espírito burguês, depois à guerra 1914-18, não pode ser menosprezada, a mesma oposição, para Lukács, acaba por não ser válida pois, em lugar de se dirigir contra o capitalismo e contra a guerra imperialista, dirigia-se contra vagas noções: "o" burguês, "a" guerra, "a" violência, etc.
Por fim, novembro de 1918 foi tão revelador como os dias de junho de 1848 tinham sido para o realismo
burguês na França. Os expressionistas, na sua grande maioria, aliaram-se aos inimigos da classe operária alemã e da revolução e, assim, à decadência estética do expressionismo seguiu-se a decadência política dos expressionistas.
Lukács, aprofundando mais a questão, analisa depois a maneira como Marx esclarece a preparação ideológica
da Alemanha na revolução de 1848 e a dissolução do hegelianismo nos anos 40 do século XIX. Segundo Lukács, Marx teria analisado a decadência ideológica da burguesia na primeira metade do século X, o que explica bem o naufrágio ideológico e literário dos escritores burgueses (por exemplo, os historiadores Carlyle e Guizot e o filósofo Bentham) e a "falência da democracia burguesa em 1848, causada, de fato, pela sua traição ao povo [ 1938a].
Assim, Lukács, para as grandes transformações da história das idéias, coincidentes com as grandes
transformações da história política, concede uma atribuição primordial ao fator "decadência ideológica" das classes estrategicamente situadas na luta, a saber: a burguesia, em 1848, ou em 1918. Esta concepção é responsável pela maior parte das críticas que serão dirigidas à noção de decadência expostas no final deste artigo. Contudo, podem também ser-lhe dirigidas outras objeções, mais específicas. Formularei apenas duas, situando-me no campo da teoria de Lukács, ou seja, no interior do movimento marxista. A romancista marxista Anne Seghers, que, nesta época, dialoga amigável mas firmemente com Lukács, admira-se da importância que ele atribui à luta contra a decadência. O importante, segundo a autora, é a luta contra o fascismo. "Poderemos colocar, no mesmo plano, esta luta e a luta contra a decadência?" [Seghers, 1939]. Não se trata, porém, de situar a questão da oportunidade do combate político e ideológico. Seja como for, a autora não está totalmente convencida pelo conceito de decadência.
Em primeiro lugar, Seghers acha que não é necessário procurar uma explicação para a obra de arte fora de si
mesma: "É na obra de arte que se situam as ligações do artista ao tema. É aqui que a crítica deve descobrir onde começa o esforço para atingir a realidade e o trabalho de criação do escritor" [ibid.].
Em segundo lugar, Anne Seghers prefere chamar período de transição ao que Lukács define como período de
decadência; quando se olha para períodos análogos no passado, apercebemonos que eles viram nascer tantas coisas novas, quantas viram morrer de velhas: "Nesses períodos é necessário medir seriamente as coisas, não por medo da posteridade ou dos erros de apreciação, mas para que nada de vivo seja, ao mesmo tempo, destruído" [ibid.].
Por fim, Lukács quase utiliza a expressão "decadência ideológica", sob a influência de Marx. Contudo – salvo
erro – o próprio Marx nunca a utilizou. Em compensação, é certo que Marx e Engels empregam, a propósito da burguesia de 1848, o termo Untergang, o que tanto acontece no 18 do Brumário, como no Manifesto do Partido Comunista. "Esta [a burguesia] produz, antes de mais nada, sua própria destruição. A sua decadência e a vitória do proletariado são um todo indissociável" [1848]. Neste processo pelo qual a burguesia produz os seus próprios coveiros, o que conta não é a sua decadência mas a vitória do proletariado, a outra face desta decadência. Como os teólogos medievais do Anticristo, que viam menos o próprio Anticristo, do que os Mil Anos que viriam depois, Marx não se limitava ao declínio da burguesia mas procurava ver mais longe. A decadência não é uma noção-chave dos milenarismos – incluindo neles o marxismo.
3.3 Toynbee
Surge agora um professor de Oxford que teve também a experiência da guerra de 1914-18, o conhecimento da
Idade Média e da política internacional, mas que é um historiador profissional. Os seus seis volumes de A Study of History são datados de 1934 a 1939; um compêndio realizado por Somervell, em 1946, foi traduzido em várias línguas; quatro volumes suplementares surgem em 1954, seguidos de um volume com atlas e índices e, finalmente, um décimo segundo volume de resposta às críticas, Reconsiderations (1961).
Toynbee, tal como Spengler, toma como unidades históricas significantes as civilisations, mas não opõe cultura
a civilização e não tem uma idéia pejorativa da palavra civilisation. Longe de isolar as civilizações, faz delas desafios externos – desafios do meio, desafios dos bárbaros e também desafios de outras civilizações –, as provas fundamentais em que as civilizações se forjam (ou prematuramente se arrasam). Toynbee distingue vinte e seis civilizações, das quais dezesseis já pereceram e, das dez que restaram, três são sociedades imobilizadas, estando duas destas, a polinésia e a nômade, em agonia, enquanto que a terceira, a esquimó, estacionou na infância. Das sete que restam, seis – a cristã-ortodoxa do Próximo Oriente e a sua projeção russa, a islâmica, a hindu, a chinesa e a sua projeção japonesa – estão sob a ameaça de aniquilação, ou assimilação, pela sétima, que é a ocidental. Não sendo obrigatória a morte das civilizações, é incerta a morte da civilização ocidental, em pleno período de expansão. Toynbee, embora use mecanicamente alguns termos ambíguos, não acredita, de forma alguma, no caráter biológico e orgânico da evolução das civilizações.
Para ele a noção de declínio é fundamental em história. Por outro lado, acredita que a grande maioria das
civilizações passa, ou irá passar, por duas fases de decadência: o declínio e a desagregação (breakdown, disintegration).
O declínio manifesta-se apenas por ações externas: justiça divina, agressão da natureza, assassínio por outras sociedades. As civilizações suicidam-se. Nesta primeira fase há uma perda da autodeterminação: recusa do novo, idolatria do efêmero, autodestruição do militarismo, intoxicação da vitória. Acerca da idolatria de uma "personalidade efêmera", o erro histórico dos judeus afigura-se-me como característico do pensamento de Toynbee e, de uma maneira geral, da natureza eminentemente subjetiva do conceito de decadência. "Numa época da sua história que começa com a alvorada da civilização síria e culmina no século dos profetas, os povos de Israel e da Judéia ultrapassaram as outras comunidades sírias que os rodeavam, elevando-se a uma concepção monoteísta da religião. Mas, nesta etapa, deixaram-se arrastar pela idolatria notável mas transitória, do seu crescimento espiritual... Persuadiram-se de que a descoberta do único e verdadeiro Deus, designava, ao mesmo tempo, Israel como povo eleito. Esta meia-verdade arrasta-os para o erro fatal de considerarem uma grandeza espiritual momentânea, atingida através de sofrimentos e trabalhos, como um privilégio dado por Deus, sob a forma de uma aliança eterna. Obcecados pelo brilho do ouro que perversamente tinham tornado improdutivo, escondendo-o na terra, rejeitaram o tesouro incomparavelmente maior que Deus lhes oferecia, com a vinda de Jesus de Nazaré" [1934-39].