História e Memória
7. As condições históricas de uma tomada de consciência do modernismo
Mas será que se pode falar de modernidade onde os supostos modernos não têm consciência de sê-lo ou não o dizem?
7. As condições históricas de uma tomada de consciência do modernismo
Não se irá tentar explicar as causas das transformações aceleradas das sociedades ao longo da história, nem explorar a difícil história das mutações das mentalidades coletivas, mas procurar esclarecer a tomada de consciência das rupturas com o passado e da vontade coletiva de as assumir, que se chama modernismo ou modernidade.
Serão postos em evidência quatro elementos que, muitas vezes, entram em jogo separadamente ou em conjunto, nesta tomada de consciência.
O primeiro é a percepção daquilo que se passou a chamar, em certas épocas, a aceleração da história. Para que haja conflito entre modernos e antigos é contudo preciso que esta geração permita um conflito de gerações. É a querela dos nominalistas contra os aristotélicos, dos humanistas contra os escolásticos (lembremos aqui a astúcia da história que chama modernos aos partidários da Antiguidade), dos românticos contra os clássicos, dos partidários da arte nova contra os defensores do academismo, etc. A oposição antigo/moderno, que é um dos conflitos através dos quais as sociedades vivem as suas relações contraditórias com o passado, agudece-se sempre que se trata de lutar contra um passado recente, um presente sentido como passado, ou quando a querela dos antigos e modernos assume as proporções de um ajuste de contas entre pais e filhos.
O segundo elemento é a pressão que os progressos materiais exercem sobre as mentalidades contribuindo para as transformar. As mutações de mentalidade raramente são bruscas e situam-se, em primeiro lugar, no plano das próprias mentalidades. O que muda é a estrutura mental. A tomada de consciência da modernidade exprime-se, muitas vezes, pela afirmação da razão – ou da racionalidade – contra a autoridade ou a tradição. É a reivindicação dos pensadores modernos da Idade Média contra as "autoridades" dos homens das Luzes, de Fontanelle a Condorcet, dos católicos modernistas contra os tradicionalistas, no início do século XX. Mas a modernização também pode, para um Ruysbrook ou um Girard Grote, um Baudelaire ou um Roland Barthes, privilegiar a mística ou a contemplação contra a intelectualidade, "o transitório, o fugidio, o contingente" contra o eterno e o imutável" (Baudelaire). Henri Lefebvre acrescenta o "aleatório" como característica da modernidade moderna. A "revolução' tecnológica dos séculos XII e XIII, a ciência do século XVII, as invenções e a revolução industrial do século XIX, a revolução atômica da segunda metade do século XX são, porém, estimulantes da tomada de consciência da modernidade, cuja ação deveríamos estudar de perto.
Em certos casos um choque exterior ajuda a tomada de consciência. A filosofia grega e as obras dos pensadores árabes alimentaram a tomada de consciência modernista dos escolásticos medievais; se não a desencadearam, as técnicas e o pensamento ocidental criaram o conflito antigo/moderno nas sociedades não-européias; a arte japonesa e a arte africana desempenharam o seu papel na tomada de consciência da arte nova ocidental, cerca de 1900.