Oncologia em Cães e Gatos
26 Neoplasias Cutâneas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Diagnóstico citopatológico
A CAAF é útil na definição do grupo denominado tumores sebáceos, considerando a palavra tumores no lato sensu, isto é, lesões cutâneas neoplásicas e não neoplásicas (p. ex., hiperplasia nodular sebácea). De forma geral, as células que compõem esse grupo são representadas por sebócitos diferenciados e células basais sem sinais de atipia. Em alguns casos, observa-se reação inflamatória supurativa, xantogranulomatosa ou piogranulomatosa, em decorrência de ruptura de ductos císticos ou incitação de reação inflamatória secundária ao extravasamento de queratina e/ou sebo na derme.
As HSN e os adenomas sebáceos apresentam predomínio de sebócitos diferenciados e raras células basais de reserva.
Os epiteliomas sebáceos apresentam predomínio de grupos de células basais de reserva e sebócitos diferenciados com localização central ou excêntrica. Ainda, nos tumores melanizados, pode haver grânulos de melanina no citoplasma basocelular.
Os carcinomas sebáceos apresentam sebócitos maduros diferenciados, células com grau intermediário de lipidização e células de reserva em proporções diferentes, com maior grau de atipia celular.
Diagnóstico histopatológico
A hiperplasia sebácea nodular é representada pela hiperplasia simétrica dos lóbulos sebáceos e preservação da arquitetura folículo-sebácea. Os lóbulos sebáceos são compostos por células basais periféricas e sebócitos centrais maduros e diferenciados. Alguns ductos podem apresentar ectasia marcada. Em machos, pode ocorrer metaplasia hepatoide. Os diagnósticos diferenciais incluem os adenomas sebáceos e os nevus sebáceos.
Figura 26.18 Exemplo de adenoma de glândulas sebáceas, localizado em região escapular de cão da raça Samoieda.
Figura 26.19 Adenoma sebáceo simples em cão. Hematoxilina-eosina, 50 ×. Imagem cedida por Leonardo Dourado Costa.
Figura 26.20 Adenoma/hiperplasia sebácea em cão. Giemsa, 200 ×. Imagem cedida por Leonardo Dourado Costa.
Figura 26.21 Epitelioma sebáceo em cão. Hematoxilina-eosina, 200 ×. Imagem cedida por Leonardo Dourado Costa.
Os adenomas sebáceos de Meibomius são classificados em simples ou compostos, dependendo da quantidade relativa de estruturas lobulares e ductais. Os adenomas sebáceos simples são caracterizados pelo predomínio de sebócitos diferenciados maduros e quantidade normal de ductos, frequentemente císticos. O índice mitótico é baixo e restrito às células de reserva basais. Podem ocorrer melanização, metaplasia hepatoide e reação inflamatória xantogranulomatosa. Os adenomas sebáceos compostos, por sua vez, são caracterizados por quantidades variáveis de lóbulos e ductos; células basais, sebócitos com diferenciação intermediária e ductos císticos são mais frequentes. Os epiteliomas de Meibomius tendem a apresentar maior melanização. A atividade mitótica é discreta a moderada e restrita às células basais. Os diagnósticos diferenciais incluem as HSN e os epiteliomas sebáceos.
Nos epiteliomas sebáceos, há predomínio de células basais de reserva dispostas em grupos irregulares com menos de 10% de sebócitos maduros. As margens dos epiteliomas podem ser circunscritas ou infiltrativas. Não há organização em paliçada das células periféricas. O índice mitótico varia de moderado a alto e pode ocorrer diferenciação sebo-apócrina. Os epiteliomas de Meibomius apresentam alta tendência de melanização. Os diagnósticos diferenciais incluem os adenomas sebáceos e os carcinomas sebáceos epiteliomatosos.
Os carcinomas sebáceos são classificados em sebocíticos e epiteliomatosos. Os carcinomas sebáceos sebocíticos são tumores nodulares que geralmente infiltram o subcutâneo e as estruturas vizinhas. As células apresentam atipia considerável e ausência de maturação ordenada centrípeta das células basaloides até sebócitos maduros diferenciados. O índice mitótico é moderado a alto, com figuras de mitose atípicas frequentes. A presença de células gigantes lipidizadas bizarras, células com características sebo-apócrinas e hepatoide podem ser observadas. Os diagnósticos diferenciais daqueles tumores menos diferenciados incluem o carcinoma basocelular e carcinoma espinocelular com alta quantidade de glicogênio citoplasmático, lipossarcomas e carcinomas anaplásicos. Nos carcinomas sebáceos epiteliomatosos, há o predomínio de células basais de reserva atípicas, estruturas ductais pequenas, infiltração dos tecidos vizinhos e invasão linfática – vascular em alguns casos. Focos de diferenciação sebácea podem ser observados, à semelhança dos epiteliomas sebáceos. O índice mitótico é alto e podem ocorrer mitoses em sebócitos diferenciados, ao contrário do observado na HSN, nos adenomas e epiteliomas sebáceos. Os principais diagnósticos diferenciais incluem o epitelioma sebáceo e o carcinoma basocelular sólido.
Marcadores diagnósticos e/ou prognósticos A imunofenotipagem pode auxiliar na diferenciação de tumores sebáceos anaplásicos, carcinomas basocelulares e carcinomas espinocelulares. Em humanos, a maioria dos carcinomas sebáceos apresenta imunomarcação para AE1 (CK 10, 14, 15, 16 e 19), LP34 (CK 1, 5, 6, 8, 10, 14 e 18), CK8 e CK19; e são negativos para CK1 e CK13. Outros marcadores, como EMA, CA15-3, AR, Ber-EP4, ADP e CA19-9, também podem ser utilizados.
Os principais marcadores imuno-histoquímicos usados no diagnóstico dos tumores sebáceos de cães e gatos são:
• 34βE2 (CK 1, 5, 10 e 11)
• MNF116
• LP34
• AE1/AE3
• CK10
• CAM 5.2 (CK7/8).
Os padrões de marcação de cada anticorpo são variáveis, isto é, tipo e percentual de células marcadas, grau de expressão e distribuição da marcação. Recomenda-se a consulta aos artigos nas referências bibliográficas e outras fontes.
Estadiamento
Os carcinomas sebáceos seguem o modelo TNM para o estadiamento clínico.
Tratamento
Nos casos dos adenomas, pode-se optar pelo acompanhamento clínico. Entretanto, a remoção cirúrgica, assim como a ablação a laser e a criocirurgia, e método curativo nos casos de neoplasias sebáceas benignas. A exérese cirúrgica também é recomendada nos casos de adenocarcinoma de glândulas sebáceas.
Em cães com múltiplos nódulos de hiperplasia/adenoma sebáceos, o tratamento sistêmico com isotretinoína (1 a 2 mg/kg VO/24 h) pode favorecer a regressão das lesões, sendo os efeitos satisfatórios observados em aproximadamente 45 dias de tratamento. A vitamina A (8.000 a 10.000 UI/10 kg/dia) pode ser uma alternativa, porém menos efetiva. Pode-se optar também pelo tratamento com emulsões à base de ciclosporina, com o objetivo de controlar a inflamação e prevenir a ulceração das lesões (para um cão de 10 kg, diluir 2 cápsulas de ciclosporina 100 mg em 50 mℓ de óleo mineral e aplicar sobre as lesões ou até mesmo pelo corpo do animal, exceto nas áreas próximas aos olhos e à boca. Aguardar 30 min e utilizar um xampu comercial para seborreia oleosa a fim de auxiliar na remoção do produto. Recomendam-se aplicações semanais até a melhora clínica).
Prognóstico
O prognóstico para os adenomas e para a hiperplasia sebácea nodular é bom. Já para os epiteliomas sebáceos e os carcinomas sebáceos, torna-se reservado, em virtude das possibilidades de recidiva pós-cirúrgica, assim como de metástase para linfonodos regionais.
Perspectivas futuras
Os receptores de estrógenos (ER) e progesterona (PR) apresentam diferenças significativas entre as glândulas sebáceas normais e os tumores sebáceos humanos. Semelhantemente, diferentes padrões de expressão de ER e PR foram detectados em glândulas sebáceas normais e tumores sebáceos caninos.
A redução/ausência de expressão de β-catenina de membrana em tumores sebáceos de cães é importante na aquisição do fenótipo maligno e pode apresentar papel nas metástases e infiltração tumorais. Semelhantemente, a survivina tem demonstrado ser um potencial marcador de malignidade em tumores sebáceos de cães.
Diferenças na expressão de β-catenina em tumores malignos e benignos epidérmicos e foliculares em cães, incluindo os tumores sebáceos, sugerem que possa haver correlação entre a aquisição do fenótipo maligno, infiltração tumoral e metástase.
O conhecimento dos padrões de expressão dos marcadores descritos anteriormente, embora incipientes, nas diferentes fases da progressão tumoral e transformação maligna pode, no futuro, apresentar valor diagnóstico e prognóstico nos distúrbios neoplásicos e não neoplásicos sebáceos.
■ Neoplasias de glândulas ceruminosas As glândulas ceruminosas são glândulas apócrinas modificadas localizadas no canal auditivo externo de cães e gatos. Os tumores das glândulas ceruminosas são mais comuns em gatos, mas podem ocorrer também em cães. Comumente, são divididos em adenomas e adenocarcinomas das glândulas ceruminosas.
Estudos de incidência e prevalência desses tumores em cães e gatos são escassos. Os adenomas ceruminosos representaram 12% (n = 33) e 37,5% (n = 8) de todos os tumores benignos do canal auditivo externo de cães e gatos, respectivamente. Em relação ao total de tumores malignos do mesmo sítio anatômico, os adenocarcinomas ceruminosos representaram 47,91% (n = 48) e 39,28% (n = 56) dos tumores em cães e gatos, respectivamente.
A média de idade dos cães e gatos com adenomas ceruminosos é de 7 e 10 anos, respectivamente. As raças Poodle, Shi Tzu, Cocker Spaniel e Pastor-alemão são predispostas. Porém, não há predisposição sexual.
Os adenocarcinomas são mais comuns em gatos, com picos de incidência entre 7 e 13 anos de idade. Em cães, ocorrem com maior frequência entre 9 e 11 anos. Pacientes felinos das raças domésticas de pelo curto e cães da raça Cocker Spaniel são predispostos. Estudos relatam que o risco de desenvolvimento de adenocarcinomas é maior nas raças Cocker Spaniel e Pastor-alemão.
Entre as potenciais causas, o processo inflamatório crônico parece exercer ação sobre a carcinogênese, uma vez que, curiosamente, pacientes com histórico de otite crônica externa aparentam maior incidência.
Sinais clínicos e comportamento biológico Os sinais clínicos envolvem graus variados de meneios cefálicos, assim como de prurido ótico, otorreia, odor necrótico e hemorragia. É comum a ocorrência de otite externa bacteriana e/ou fúngica secundária. Manifestam-se como nódulos bem circunscritos, menores de 1 cm de diâmetro, de coloração rosa ou branca, ulcerativos, hemorrágicos e com infecção bacteriana secundária. Costumam causar muito desconforto quando há a progressão das lesões.
Diagnóstico citopatológico O diagnóstico citopatológico das neoplasias do conduto auditivo externo apresenta considerável acurácia e concordância histopatológica. De forma geral, os achados podem ser categorizados em dois grupos: adenoma/hiperplasia de glândulas ceruminosas e adenocarcinomas ceruminosos.
Os adenomas/hiperplasias são representados por granulação azul-negra de fundo e células epiteliais poligonais dispostas em mosaico. Sinais de displasia (i. e. anisocitose, anisocariose etc.) são comuns nessa categoria. Sessenta e três por cento dos casos, isto é, 7 casos de um total de 11, foram corretamente classificados como adenomas/hiperplasias no exame citológico.
Os adenocarcinomas de glândula ceruminosa também são representados por células epiteliais poligonais, dispostas em mosaico, granulação azul-negra de fundo e displasia. Entretanto, outros arranjos tridimensionais (i. e. papilífero, tubular e acinar), atipia celular moderada a marcada, células multinucleadas, amoldamento nuclear e figuras de mitose são mais frequentes. Algumas amostras podem conter apenas células epiteliais marcadamente anaplásicas e individualizadas. Oitenta e cinco por cento dos casos, isto é, 6 casos de um total de 7, foram corretamente classificados como adenocarcinomas no exame citológico.
Apesar dos resultados descritos anteriormente, é importante lembrar que alguns adenocarcinomas bem diferenciados podem mimetizar adenomas no exame citopatológico. Portanto, após a triagem citológica, recomenda-se a análise histopatológica visando a identificar sinais de invasão da cartilagem auricular, vasos linfáticos, além de outros critérios.
Diagnóstico histopatológico
Os aspectos histopatológicos dos adenomas e adenocarcinomas ceruminosos são similares aos tumores de glândulas apócrinas. Entretanto, as células epiteliais demonstram acúmulo de material globular marrom intracitoplasmático e na luz glandular. Critérios como pleomorfismo, invasão dos tecidos adjacentes e lâmina própria auxiliam na diferenciação dos tumores benignos e malignos. Quando há proliferação de mioepitélio e/ou diferenciação condroide/osteoide, ambas as categorias podem ser denominadas adenomas/carcinoma complexos ou mistos.
Marcadores diagnósticos e prognósticos Não aplicável.
Estadiamento
Não se aplica.
Tratamento
O tratamento ideal é a excisão cirúrgica por meio da ressecção lateral do canal auditivo ou da ablação do conduto auditivo. Os melhores resultados são observados quando se faz a ablação do conduto auditivo associada à osteotomia lateral da bula timpânica. A recidiva descrita nos casos de ressecção lateral do canal auditivo é de até 70%. Faz-se necessário o tratamento das otites externas secundárias ao processo, de acordo com o agente envolvido.
Prognóstico
O prognóstico é reservado para os adenomas e ruim para os adenocarcinomas de glândulas ceruminosas, em virtude do quadro clínico associado e das consequências das manobras cirúrgicas terapêuticas. Os adenocarcinomas de glândulas ceruminosas são infiltrativos e destrutivos para os tecidos adjacentes e podem promover metástase para os linfonodos mandibulares e para a glândula parótida.
■ Neoplasias dos folículos pilosos
As neoplasias de folículos pilosos (Figura 26.22) em cães correspondem de 5 a 10% de todos os tumores cutâneos e 1% em gatos. Os principais
tumores foliculares incluem os tricofoliculomas (Figura 26.23),
pilomatricomas, tricolemomas, tricoepiteliomas (Figura 26.24) e tricoblastomas benignos e malignos. Geralmente, quando não há referência à malignidade, subentende-se que a neoplasia folicular é benigna.
O tricofoliculoma é considerado uma variante do hamartoma folicular, podendo também ser classificado como uma neoplasia folicular extremamente bem diferenciada. Os tricofoliculomas apresentam diferenciação intermediária entre os nevus folicular e os tricoepiteliomas. Os tricofoliculomas são raros em cães e gatos e não há predisposição racial, sexual ou anatômica descrita. Embora se desconheça a etiologia, acredita-se que os tricofoliculomas humanos resultem da diferenciação abortiva de células pluripotentes cutâneas.
Os tricoepiteliomas são tumores que se originam de ceratinócitos capazes de diferenciação em três segmentos foliculares, isto é, infundíbulo, istmo e segmento inferior. Em humanos, as causas estão relacionadas com a síndrome hereditária e não hereditária. Alguns estudos sugerem que mutações no oncogene CTNNB1 ou em moléculas relacionadas em cães e humanos possam estimular a proliferação celular pelo acúmulo de β-catenina citoplasmática e translocação nuclear. Os tricoepiteliomas ocorrem em cães e gatos com idades superiores a 5 anos e representam cerca de 0,4 a 4% de todos os tumores cutâneos em cães e 0,3 a 0,8% em gatos. Entretanto, há estudos que citam incidência de até 9% em cães e 4,5% em gatos. Não há predisposição sexual. Os pacientes das raças Persa, Golden Retriever, Basset Hound, Pastor-alemão, Cocker Spaniels, Setter Irlandês, Springer Spaniel Inglês, Schnauzer miniatura e Poodle Standard são predispostos. Os tricoepiteliomas múltiplos ocorrem com mais frequência no Basset Hound. Os tricoepiteliomas malignos são raros e, portanto, não há dados de prevalência segundo raça, sexo e idade.
Os tricolemomas são tumores benignos raros em cães e gatos e se originam dos ceratinócitos da bainha folicular radicular externa. A causa é desconhecida. Em humanos, são descritos na síndrome de Cowden como resultado de mutações do gene PTEN. Alguns autores postulam que alguns papilomavírus humanos podem participar na oncogênese. Os tricolemomas podem ser divididos em dois tipos: tricolemoma bulbar, que ocorre em 0,05 a 0,2% dos cães e os pacientes apresentam média de idade de 10 anos, sem aparente predisposição racial; e tricolemoma ístmico, incomum em ambas as espécies e, aparentemente, não há predisposições racial, sexual ou etária.
Figura 26.22 Exemplo de neoplasia de folículos pilosos em porção distal do membro pélvico de um cão. Imagem cedida por Reinaldo J. G. Palacios Junior.
Figura 26.23 Pilomatricoma em cão. Hematoxilina-eosina, 100 ×. Imagem cedida por Leonardo Dourado Costa.
Figura 26.24 Tricoepitelioma em cão. Hematoxilina-eosina, 100 ×. Imagem cedida por Leonardo Dourado Costa.
Os pilomatricomas (sinonímia: pilomatrixoma e epitelioma calcificado de Malherbe) são neoplasias benignas que representam 1% dos tumores cutâneos em cães e casos raros em gatos. Os pilomatricomas são originários das células germinativas da matriz pilosa folicular e ocorrem em pacientes com mais de 5 anos de idade. Não há predisposição sexual. As raças Poodle, Bichon Frise, Schnauzer, Basset Hound, Old English Sheepdog e Kerry Blue Terrier apresentam predisposição. Alguns autores sugerem que o crescimento piloso contínuo e, portanto, o alto índice mitótico nas células germinativas contribua para uma frequência maior desse tipo tumoral nessas raças. A proteína p27 exerce efeitos inibitórios na proliferação celular. Acredita-se que a expressão reduzida de p27 observada nos pilomatricomas caninos atue em sua gênese. Os pilomatricomas malignos são raros e, portanto, não se conhecem as prevalências quanto a idade, sexo e raça.
Os tricoblastomas são tumores benignos originários das células do epitélio tricoblástico/germinativo primitivo que detém propriedades tronco. Curiosamente, os níveis de p27 elevados e PCNA reduzidos indicam baixo potencial replicativo. Em cães, os tricoblastomas apresentam dados de incidência de 3,7 a 12% e 2,6% dependendo do estudo; em gatos, 2% dos casos. Não há predisposições sexual e racial descritas.
Sinais clínicos e comportamento biológico O tricofoliculoma é caracterizado por nódulos solitários, em forma de cúpula, que podem apresentar uma depressão ou abertura central que contém pelo ou material sebáceo.
O pilomatricoma se apresenta como uma massa subcutânea ou dérmica firme, na forma de placa, bem delimitada, alopécica e, algumas vezes, ulcerada ou calcificada. Pode, ainda, ser cística ou pigmentada, com tamanho que varia de 1 a 10 cm. São mais frequentemente observadas no tronco e nas porções proximais dos membros.
O tricoepitelioma é uma neoplasia multilobulada, solitária na maioria das vezes e múltipla em cães da raça Basset Hound, alopécica, firme, de coloração branca a acinzentada. Pode ocorrer ulceração. São tumores pequenos, de 1 mm a 2 cm, e mais observados no tronco e nos membros em cães, e na cabeça, na cauda e nos membros em gatos.
O tricoblastoma se manifesta com tamanho de 1 a 2 cm e assemelha-se a um nódulo único alopécico, firme, podendo se observar ulceração, mais comumente localizado na cabeça (principalmente na base da orelha) e no pescoço, em cães, e na metade cranial do tronco, em gatos.
O tricolemoma se apresenta com tamanho de até 7 cm, é circunscrito, firme e sua ocorrência na cabeça e no pescoço é comum. A epiderme adjacente pode estar espessada.
As neoformações do folículo piloso não costumam ser infiltrativas, embora possa haver recidivas locais pós-cirúrgicas, assim como metástase para linfonodos regionais ou a distância, relacionadas com os exemplares de tumores malignos.
Diagnóstico citopatológico
O exame citopatológico pode ser utilizado na triagem dos tumores foliculares. Entretanto, há considerável sobreposição entre as características microscópicas observadas nessa categoria e em outras. Portanto, o diagnóstico histopatológico é essencial.
Os pilomatricomas são caracterizados por células matriciais “fantasmas”, ceratinócitos basais típicos individualizados ou em grupos e material amorfo queratinizado. Os pilomatricomas malignos exibem maior atipia, células binucleadas, figuras de mitose e metástase nodal caracterizada por células marcadamente atípicas. Os diagnósticos diferenciais incluem tricoblastomas, tricoepiteliomas, cistos matriciais e híbridos e neoplasias de células basais.
Os tricoblastomas são caracterizados, em sua maioria, por grupos de células epiteliais basais e/ou células epiteliais fusiformes/alongadas (tricoblastomas trabeculares ou de células fusiformes). Os diagnósticos diferenciais incluem outros tumores com predomínio de células basaloides e, no caso do histotipo trabecular/fusiforme, tumores mesenquimais fusocelulares benignos e sarcomas de baixo grau de malignidade.
As demais neoplasias não apresentam descrições claras e conclusivas na literatura.
Diagnóstico histopatológico
O conhecimento da estrutura histológica dos folículos pilosos e das alterações morfológicas durante o ciclo folicular é essencial para compreensão e classificação das neoplasias foliculares. Os estudos de
Souza et al.12 e Müntener et al.13 apresentam descrições pormenorizadas da estrutura e do ciclo folicular em cães gatos.
Os tricofoliculomas são caracterizados por folículos primários e secundários em padrão arboriforme com hastes pilosas típicas e glândulas sebáceas em quantidade variável. Apesar de neoplásico, apresentam grau extremo de similaridade às unidades folículo-sebáceas normais. Os principais diagnósticos diferenciais são os hamartomas fibroanexiais.
Os tricoepiteliomas são representados, em linhas gerais, por ilhas e múltiplos cistos primários e secundários compostos predominantemente por epitélio basaloide que apresenta aspecto em paliçada na periferia. Áreas com diferenciação infundibular e ístmica podem estar presentes. Os cistos são preenchidos por ceratina matricial, tricolemal ou infundibular em quantidades variáveis. Os diagnósticos diferenciais incluem os pilomatricomas, carcinoma basocelular ceratinizante e AIC. Os tricoepiteliomas malignos tendem a exibir mitoses atípicas, invasão linfática e maior pleomorfismo celular. Os diagnósticos diferenciais incluem tricoepiteliomas benignos inflamados, pilomatricoma maligno e carcinoma basocelular.
Os tricolemomas são divididos na variante bulbar e do tipo ístmico e são caracterizados de forma geral por nódulos dérmicos circunscritos compostos por células epiteliais poliédricas claras dispostas em lóbulos (bulbar) e trabéculas com diferenciação tricolemal (ístmico). Os diagnósticos diferenciais incluem os tricoblastomas trabeculares, AIC, carcinoma basocelular e algumas variantes dos tricoblastomas.
Os pilomatricomas são caracterizados por múltiplos cistos revestidos por células basais da matriz folicular. Os cistos são preenchidos por ceratina do tipo matricial. Pode ocorrer metaplasia óssea. Curiosamente, há ainda relatos de matricomas/pilomatricomas melanocíticos em cães e no homem. Os diagnósticos diferenciais incluem os cistos matriciais simples e proliferativos, pilomatricomas pigmentados e tricoepiteliomas com predomínio de células basais. Os pilomatricomas malignos tendem a exibir mitoses atípicas, invasão linfática, áreas similares a carcinoma de células escamosas, bordas infiltrativas e maior pleomorfismo celular. Os diagnósticos diferenciais incluem o tricoepitelioma maligno, pilomatricoma benigno e carcinoma basocelular ceratinizante.
Os tricoblastomas são divididos em trabeculares, tipo fita, com diferenciação em bainha radicular folicular externa, de células fusiformes, granulares e tipo células claras. Apesar de serem todos compostos por células basais pequenas, podem assumir distintos padrões e características de acordo com a variante considerada, a saber: colunas radiantes por vezes em paliçada; aspecto medusoide; estroma fibromucinoso com corpúsculos mesenquimais papilíferos foliculares; alongamento das células epiteliais; células epiteliais diferenciadas semelhantes àquelas da bainha radicular folicular externa (i. e. glicogenadas ou com diferenciação ístmica); predomínio de células vacuolizadas e/ou com granulação citoplasmática; e, ainda, abundante estroma com células fusiformes positivas para o imunomarcador nestina. Os diagnósticos diferenciais incluem tricolemomas bulbares e ístmicos, carcinomas basocelulares e os adenomas ductulares apócrinos.
Marcadores diagnósticos e prognósticos As células-tronco/iniciadoras tumorais exercem papel fundamental na gênese de tumores humanos e têm sido estudadas amplamente em
neoplasias cutâneas, principalmente de cães. Brachelente et al.14 não encontraram correlação entre a expressão dos marcadores CK15 e nestina em tumores foliculares e critérios histológicos, como o histotipo tumoral, o fenótipo maligno e infiltrado inflamatório.
Alguns tricoblastomas, incluindo as variantes fusiformes, precisam ser diferenciados de outras neoplasias com morfologia similar. Os principais marcadores imuno-histoquímicos usados no diagnóstico diferencial são:
• 34βE2 (CK 1, 5, 10 e 11)
• CK14
• CK5/6
• AE1
• LP34
• Vimentina
• CK13
• CK8
• CK18.
Os padrões de marcação de cada anticorpo são variáveis, isto é, tipo e percentual de células marcadas, grau de expressão e distribuição da marcação. Recomenda-se a consulta aos artigos nas referências bibliográficas e outras fontes.
Estadiamento
Não se aplica.
Tratamento
Para os tumores benignos do folículo piloso, pode-se optar pelo acompanhamento clínico, apenas. Entretanto, a remoção cirúrgica é curativa nesses casos. A intervenção cirúrgica também é indicada nos casos de neoplasia maligna, entretanto pode haver recidiva local pós-cirúrgica, especialmente nos casos de tricoepiteliomas malignos.
Prognóstico
O prognóstico é excelente nos casos de tumores benignos e de bom a reservado nos malignos, uma vez que podem ocorrer recidivas locais pós-cirúrgicas, assim como metástases para linfonodos regionais e até mesmo a distância, a exemplo de relatos de metástases ósseas e neurológicas centrais associadas ao pilomatricoma maligno.
Perspectivas futuras
A expressão de marcadores de células-tronco em tumores foliculares de cães tem apresentado resultados promissores, indicando a participação ativa de células iniciadoras tumorais na carcinogênese folicular. Obviamente, maiores estudos são necessários em sua comprovação.
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