A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 10 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 10

DEZ

 

“Se divertiu no Conner?”, Stella m e beij ou na bochecha enquanto tentei passar despercebido, vestindo a m esm a berm uda de basquete e a cam iseta que usava no sábado de m anhã, quando tinha saído.

Sabia que parecia abatido e m e sentia culpado, com o se carregasse um a placa com os dizeres “Jack fez algo horrível” e, do outro lado, “dá para ver que o Jack foi dopado e quase estuprado, não é?”.

Vi Wy nn no fim do corredor, sentado no sofá, assistindo a um j ogo de beisebol na sala de estar. Ele olhou na m inha direção e acenou.

Acenei de volta e abaixei a cabeça.

“É, foi legal”, respondi.

Quase engasguei.

Stella apoiou as m ãos em m eus om bros, m e olhou de cim a a baixo e disse, “O que vai ser de nós sem você aqui, Jack? Estava tão sozinha. Senti sua falta no fim de sem ana.”

“Deixa m enino em paz pra fazer o que quiser, Stella! Ele está indo bem , pelo m enos até agora!”, interrom peu Wy nn, da sala.

“Jack, deixa o celular sem pre carregado quando estiver na Inglaterra, por favor”, ela pediu.

“Prom eto que vou deixar, Stella. Desculpa.”

Tentei passar por ela para ir logo para o quarto.

“O j antar sai em um a hora”, ela avisou.

Com ecei a subir a escada.

“Vou sair com o Conner. Preciso com prar roupas para a viagem .”

Parei. “Ah, perdi m inha carteira. Acho que vou precisar de outro cartão de crédito.”

“Estou vendo com o você está indo bem ”, Stella falou alto para que m eu avô ouvisse, m as ele não ouviu.

“Desculpa, Stella.”

Continuei a subir.

“Jack, m eu bem , o que aconteceu com o seu pé?”

Travei. Eu não m entia bem , e Stella sabia. Não tinha pensado em com o responder àquela pergunta.

“Enrosquei o pé em algum a coisa”, respondi. “Correndo... com o Conner.”

“Parece até que foi aram e farpado.”

Senti m eu rosto ficar verm elho e torci para que estivesse escuro o suficiente para que ela não notasse.

“Bom , passa um a pom ada para não infeccionar”, ela disse.

“Já passei.”

“Quer ir ao m édico?”

“Não precisa.”

Subi.

Sozinho no quarto, sentei-m e na quina da cam a e m e olhei no espelho estreito do closet. Era a prim eira vez que realm ente sozinho desde que fugi de Freddie. A cam inhada assustada até a casa de Conner não contava, porque aquilo foi com o nadar contra um a correnteza de pânico, com a presença de Freddie por todo o cam inho.

E eu nunca choro. Aquilo na casa de Freddie não foi choro. Era m ais com o se m eu corpo estivesse se preparando para m orrer.

Por que naquele m om ento, a m orte parecia m esm o inevitável.

Olhei para m eu tornozelo. Estava m uito m achucado.

Tirei a cam iseta e j oguei pela porta. As m arcas na barriga tinham se tornado dois pequenos hem atom as, com o um a m ordida de cobra. Meu cabelo estava todo desarrum ado. Tinha duas m anchas escuras sob os olhos e parecia ter perdido cinco quilos. Eu consegui ver m inhas costelas.

Tirei a berm uda e desfiz o nó do cordão, puxando por um lado até ele sair por inteiro. Joguei a berm uda no chão e m e sentei apenas de cueca. Olhando no espelho, enrolei o cordão em volta do m eu tornozelo. Era com o assistir a um film e bizarro.

Bem apertado.

A dor era boa. Um alívio.

Am arrei o tornozelo ao pé da cam a e fiquei ali, encarando m eu reflexo patético no espelho. Puxava o cordão, abrindo m ais a ferida, até quase gritar de dor.

Mas não chorei.

Por que ele tinha feito aquilo comigo?

O que ele queria de mim?

Eu sei que é estranho, m as parte de m im queria voltar para a casa de Freddie. Com o se tivesse deixado algum a coisa para trás, que só recuperaria se voltasse àquele quarto, para aquela cam a.

Era com o se aquele fosse o m eu lugar.

Era com o se eu m erecesse aquilo.

Fiquei ali até que estivesse escuro dem ais para ver no espelho o reflexo daquele cara sem roupas, suj o e doente.

Foi a prim eira vez na vida em que quis m e m atar.

“Que porra é essa, cara? Tá doido?” Ouvi o sussurro desesperado de Conner enquanto ele se esprem ia pela porta entreaberta de m eu quarto e a fechou com as costas.

Eu continuava sentado, sua voz era com o um a corda m e puxando das profundezas de um abism o.

“Jack?”, Conner acendeu a luz. O film e recom eçava no espelho.

“Ah. Caralho! Foi m al, Conner.” Balancei a cabeça e cobri os olhos com a m ão.

“Tira essa m erda do pé.” Conner com eçou a desatar os nós em torno do m eu tornozelo. Meu pé j á estava roxo e sangrava novam ente. “Cara, você precisa de aj uda. Tira essa porra do pé!”

Deitei na cam a enquanto Conner desenrolou o cordão encharcado de sangue e foi até a porta do quarto.

“Vou pegar algum a coisa pra fazer um curativo.”

Cobri o rosto com o braço.

“E para com essa m erda, Jack, senão vou cham ar alguém . Vou falar com Stella.”

“Não!”

Conner saiu.

Não tinha notado o tem po passar. Talvez ainda estivesse drogado. Tinha esquecido que ia sair com Conner naquela noite.

Ele voltou do banheiro com um kit de prim eiros socorros nas m ãos e se aj oelhou ao pé da cam a. Espalhou um a pom ada antibiótica sobre os cortes e, cuidadosam ente, espalhou com a ponta dos dedos, com o se queim asse ao encostar em m im , ou com o se eu fosse tóxico. Depois, enrolou gaze em torno do m eu tornozelo, fechando o curativo com esparadrapo. Eu não disse nada durante todo o processo.

“Você não acha m elhor ir ao hospital, Jack? Eu te levo. Acho que você devia ir.”

“Não... Sei lá.” Eu m e sentei e olhei para ele. Meus olhos deviam estar horríveis. “Acho que essas drogas que ele inj etou em m im estão m e deixando doido. E não com o nada faz dois dias. Vou ficar bem , Con. Valeu.”

“Vem cá. Levanta e troca de roupa. Vam os com er.”

Conner m e levantou para que eu pudesse andar.

Mantive o olhar distante do espelho.