A Lente de Marbury
Capítulo 20
VINTE
Isto é real.
Meu pé dentro do tênis.
O barulho dos carros na rua.
Enfio a m ão em baixo da cam isa e aliso o lado direito do m eu tronco.
Isto é real.
Os óculos de Henry estão enrolados na m eia e sei que estão no bolso de trás.
Não consegui fugir de nada ainda.
Sábado à noite.
O pub estava cheio; um trio tocava folk com violão, bandolim e tam bor, em um palco im provisado ao fundo. Vi o m esm o garçom da noite anterior e, assim que com ecei a ir em sua direção, senti alguém colocando a m ão sobre m eu om bro.
Era um toque delicado. Me parou e virou m eu corpo.
“Achei que você não vinha m ais. Quase fui em bora.”
Senti que estava ficando pálido, com o se todo sangue fosse drenado de m eu corpo, e m eus olhos encontraram os dela.
“É a Nickie, com i-e”, explicou, soletrando devagar. Naquele m om ento m e lem brei que tinha salvado o núm ero dela no celular, m ais cedo, antes de a bateria acabar. Foi ela que tirou m inha foto, após nos conhecerm os no barco. Lem brava agora, com o ela tocara de form a tão suave m inha m ão enquanto eu fotografava, perguntando se eu queria que ela tirasse um a foto m inha, j á que eu estava sozinho, para enviar aos m eus am igos. Nickie.
Que raios está acontecendo comigo?
Suspirei e sorri. “Des... desculpa. Não vi o tem po passar. Acho que é o j et lag... Vou m elhorar.”
Ela sorriu de volta.
“Que bom que você chegou”, ela disse, e acrescentou, “Jack.”
Então segurou m inha m ão.
Engoli em seco. Provavelm ente era a m enina m ais bonita que j á tinha conversado com igo.
Ela usava um a daquelas calças j eans que são apertadas nos tornozelos e um suéter cor-de-rosa que m arcava sua cintura e que tinha um decote V que deixava à m ostra a pele perfeita e m acia do seu colo. E olhava para m im com doces olhos azuis – e um leve sorriso em seus lábios, e o brilhante cabelo negro se esparram ando sobre os om bros –, com o se quisesse m e contar um segredo.
Nickie.
“Quer beber algum a coisa? Com er algo?”, gaguej ei.
“Está m uito cheio aqui, Jack”, ela disse “Vam os dar um a volta?”
Olhei para trás, em direção ao garçom . Ele nos observava.
Todos estão olhando para você, Jack.
Segurei a m ão de Nickie. “Vam os.”
Na calçada, Nickie passou o braço por baixo do m eu e perguntei, “Para onde?”
Nickie sorriu e disse, “Vem , vou te m ostrar um lugar”.
Enquanto cam inhávam os em direção ao m etrô, decidi ficar calado e deixar Nickie falar. Afinal, não era todo dia que um cara com o eu deixava um a garota com o ela esperando. Quanto m enos eu falasse, m elhor. Senão, acabaria assustando a m enina.
Ei, Nickie, já te disse que fui sequestrado por um maníaco chamado Freddie Horvath? Pois é, ele injetou umas drogas em mim, me eletrocutou e achei que ele fosse me matar? E, ah, depois ele tentou me estuprar também.
Mas eu fugi dele.
VOCÊ AINDA NÃO CONSEGUIU ESCAPAR DE NADA, JACK.
Freddie Horvath deixou minha cabeça assim.
E, então, eu e meu melhor amigo, Conner, matamos o cara. Foi um acidente, mas o fato é que o filho da puta acabou morrendo. Te contei isso, Nickie? Ou te contei que não consigo nem lembrar como te conheci porque fiquei a tarde toda alucinando pessoas sendo esquartejadas e devoradas por insetos gigantes. Achei até que tinha levado uma flechada.
Contei sobre essas coisas, Nickie?
Porque dessas coisas eu lembro.
Passei a m ão sobre o bolso de trás e senti o volum e daqueles óculos.
Ela m e levou até Ham pstead, a região de Londres onde m orava com a fam ília. Com em os com ida tailandesa em um café e depois fom os de m etrô até Piccadilly.
Nickie m e flagrou enquanto eu a observava no m etrô. Na verdade, eu não olhava diretam ente para ela, olhava para a j anela, para as m anchas e reflexo que passavam . Vi m eu rosto refletido, e em alguns m om entos eu parecia assustado.
Então Nickie disse, “Você tem um segredo, não é, Jack?”
Desviei o olhar, desconcertado.
“Não sei, o que você acha?”
“Por m im , tudo bem .”
Ela disse aquilo com o se soubesse, com o se pudesse m e curar. Talvez fosse apenas m eu desej o de que aquilo fosse verdade, porque j á não sabia m ais em que acreditar.
Eu disse, “Obrigado por j antar com igo, Nickie. Estou com eçando a m e sentir bem , m enos sozinho”.
Estava quente e úm ido, e nos sentam os nos degraus sob a estátua de Eros, olhando para as luzes e para os carros. Eu ficava m uito à vontade com ela, m as, ao m esm o tem po, era com o se não estivesse totalm ente ali.
“Por que você fez aquilo?”, eu disse. “Perguntar se eu queria que você tirasse aquela foto, quero dizer?”
Nickie estava sentada ao m eu lado, a perna dela encostada na m inha.
“A Rachel apostou que eu não teria coragem .”
Então lem brei. Ela estava com um a am iga. Estavam de vestidos, uniform es, com o se tivessem saído da escola.
“Ah, a Rachel.”
“Era só de brincadeira.” Nickie sorriu. “Quer dizer, a gente nunca faria um passeio turístico em qualquer outro dia. Mas, quando vi você na fila, precisava te seguir.”
“Você me seguiu?”
Todos estão te seguindo.
“Você cham ou a m inha atenção. Não sei por quê, m as tinha que ver o que você estava fazendo ali, sozinho. A gente riu observando sua tentativa de pedir um café no barco. Quando o garçom perguntou se você queria um am ericano você ficou todo perdido e disse, ‘eu sou am ericano’. Aquilo foi tão... bem ...”
A voz dela foi sum indo devagar, se m isturando aos sons daquela praça e daquela noite de verão perfeita.
Isto é real.
Não é?
“Bom , sej a com o for, o café era horrível”, eu relem brei.
Como você pode se lembrar do gosto do café e não de Nickie?
Freddie Horvath deixou minha cabeça assim.
Você precisa de ajuda.
“Então, im agino que você pensou que eu precisava de aj uda ou algo parecido.”
“Eu disse que te achava interessante”, Nickie confessou. “E Rachel apostou que eu não conseguiria nem te cum prim entar.”
“Interessante?”
Nickie riu. “Ah, você sabe, um charm e algo assim . Bem . Você é m uito bonito. Quando eu finalm ente m e aproxim ei, você foi sim pático e aberto. E não fez cerim ônias para pedir m eu telefone.”
“Não pude evitar.”
Ela pegou a m inha m ão.
“Por que você não com pra um carregador para o seu celular am anhã, Jack?”
Pensei por um m om ento. “Acho que não. Não quero ficar m uito conectado ao m undo lá de casa. E o Conner vai trazer m eu carregador na segunda.”
“Se quiser, pode ligar para ele do m eu celular”, ela disse, enquanto conferia as horas em seu relógio. “Ainda não é noite lá. E j á está ficando tarde aqui.”
Ela m e estendeu o telefone.
“Podem os fazer algo am anhã?”, perguntei.
“Vou à igrej a com m eus pais de m anhã. Posso ligar para o seu hotel à tarde.”
“Que horas?”
Peguei o celular dela.
“Às três”, disse Nickie.
“Estarei lá, sem falta.”
“Não m e deixe esperando de novo, Jack. Vem cá, vou colocar o código.” A m ão de Nickie se apoiou sobre a m inha enquanto ela digitava o código dos Estados Unidos. Olhei para seu rosto e, quando teclei o telefone de Conner, ela se aproxim ou um pouco e seu cabelo roçou m eu rosto.
“Pronto”, ela disse.
Quase esqueci o telefone de Conner.
“Alô?”, ele atendeu.
“Fala, Con”, eu parecia chocado, até m esm o pra m im .
“Jack? O que aconteceu? Já sei. Sua bateria acabou de novo.”
“Pois é.”
“Tentei te ligar. Tudo bem , aí?”
“Tudo bem . Fala pro Wy nn e pra Stella que está tudo bem . Estou ligando do celular de um a am iga.”
“Um a am iga? Quem ?”, Conner perguntou.
“Conheci um a m enina hoj e.”
“E aí, cara, se deu bem ? Já posso contar pra todo m undo que você não é gay ? Acho que a Dana vai ficar chateada.”
“Deixa de ser babaca, Con.” Afastei o celular do ouvido. “Vou te colocar no viva-voz.”
Segurei o celular à frente de Nickie e ela apertou um botão.
“Tá m e ouvindo?”, perguntei.
“Estou.”
“Conner, essa é a Nickie.”
“Oi, Conner”, Nickie cum prim entou. “Acho que você tem um am igo m uito legal!”
“Nossa!”, foi tudo o que Conner disse. E então, “Jack, m e tira do viva-voz.”
Estava com vergonha, coloquei o celular ao ouvido novam ente.
“Que foi?”
“Cara”, ele disse. “Voz de m ulher gostosa!”
Senti que estava ficando verm elho enquanto olhava para Nickie. Tenho certeza de que ela sabia o que ele estava dizendo.
“Ela é, Con.”
“Qual que é o defeito dessa m ulher? Ela tem um olho só ou o quê?”
“Até segunda, seu babaca.”
Já era quase m eia-noite, e cham ei um táxi para Nickie voltar para Ham pstead.
“Até am anhã”, eu disse. Soltei m eu braço do dela e fiquei olhando para seus olhos enquanto o taxista esperava com a porta aberta.
Era tão estranho. Queria beij á-la na boca, m as nunca tinha beij ado ninguém .
“Boa noite, Jack”, ela disse.
Nos abraçam os, e eu fiquei olhando para Nickie enquanto ela se afastava de m im em direção ao carro. Estávam os os dois frustrados, im agino. Quando o táxi partiu, eu chutei o chão. Me odiava. Devia ter dado um beij o de boa noite e agora ela nunca vai ligar para m im am anhã.