A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 6 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 6

SEIS

 

Foi assim que acabei naquele quarto enfum açado.

Freddie fum ava um cigarro atrás do outro.

Só depois de quase 24 horas - j á era dom ingo à noite – que recuperei a consciência e entendi que estava em um a situação surreal, com o aquelas coisas que você vê na TV, m as acha que nunca vai acontecer com você.

Mas estava acontecendo.

Tem alguma coisa machucando meu pé.

Esse é o prim eiro pensam ento claro que tenho: está doendo.

Me sento. Sinto algo se apertar cada vez m ais ao redor do m eu tornozelo à m edida que tento puxar m inha perna. É isso que está m e prendendo. Estou deitado em um a cam a sem lençol, sinto as ranhuras do colchão.

Minhas m ãos estão livres. Eu sento e esfrego m eu tornozelo. Parece que estou preso por um daqueles lacres grossos de plástico que a polícia usa. É isso m esm o. Sinto onde a parte denteada se prende.

Vej o um estreito facho de luz no chão. Um a porta.

Passo as m ãos pelo corpo. Verifico tudo. Aparentem ente, não estou m achucado. Não acho que ele tenha feito nada com igo. Não fez. Tenho certeza disso. Mas estou aqui, despido de tudo que m e lem brava estar vestindo, exceto pela m inha cueca, a m esm a que usei para ir à festa de Conner.

Há quanto tem po estou aqui?

Tento pensar enquanto tateio ao redor da cam a procurando m inhas roupas, m inha carteira, ou algum a coisa para cortar aquele m aldito lacre...

Nada. Passo os dedos pela beira da cam a até o m áxim o que alcanço, m inha m ão esprem ida entre o colchão e o estrado, tentando achar algo no chão gelado. Não acho nada, m as consigo alcançar bem longe. Enfio a m ão entre as m olas. Sinto algo m etálico. Alcanço o obj eto com os dedos e com eço a puxar.

Um a som bra passa debaixo da porta.

Tem alguém lá fora.

Volto a m e deitar. Meu tornozelo arde. O m ovim ento m e deixa sem ar. Estou suando, m eus olhos bem abertos; observo a luz que vem da fresta da porta.

Ela se abre.

Fecho os olhos.

Ouço se aproxim ar da cam a. Ele coloca a m ão aberta sobre m eu peito.

“Eu sei que você está acordado, John.”

Abri os olhos.

“Com o você está?”

Pensei, como esse filho da puta acha que eu estou?. Queria gritar, urrar, m as perm aneci calado. Mais que tudo, eu queria fazer várias perguntas. Elas estavam m artelando em m inha cabeça, m as não queria dizê-las.

Que porra é essa que você tá fazendo comigo??

“Aposto que você está com sede”, Freddie disse.

E estava.

“Quer um gole, John? Cham am você de Johnny ou só de John?”

Jack, seu filho da puta!

“Prom eto que desta vez é só água”, ele continuou.

Freddie saiu e deixou a porta aberta. Meus olhos se aj ustaram à luz. Ele ainda usava o traj e de m édico. Vi tam bém o crachá. Ele nem ao m enos tinha escondido o nom e. Isso era ruim , pensei. E ele parecia enorm e, com o se eu nunca pudesse lutar contra ele, m esm o se fosse m uito forte.

Logo, Freddie Horvath voltou, em purrando um a cadeira de escritório com rodinhas. Havia algum as caixas de plástico sobre o assento – não conseguia ver o que tinha dentro delas – e um a garrafa de água m ineral, da m esm a m arca que ele tinha m e dado na noite anterior.

Um cigarro apontava da boca dele em m inha direção. A fum aça subia através do cabelo despenteado que cobria um de seus olhos. Tentava guardar cada detalhe de Freddie, m as eu virava o rosto sem pre que olhava para m im . Ele devia ter uns trinta anos. Talvez m enos. Sua boca e seus olhos pareciam m ortos, com o se ele estivesse entediado.

Retirou as caixas da cadeira e as colocou no chão, ao lado da cam a. Tragou o cigarro e, afastando-o da boca, exalou duas nuvens cinzentas pelas narinas.

“Eu sei”, ele sorriu, “um m édico que fum a.”

Ele segurou a garrafa de água à sua frente e sentou-se.

Eu podia voar no pescoço desse escroto!

“Está com sede?”

Estendi a m ão, m as Freddie afastou a garrafa.

“Prim eira lição, John.” Deu outra tragada e continuou, através da fum aça. “Você tem que pedir.”

Eu olhava para ele, seu crachá e a água.

Ele se recostou na cadeira.

“Você tem que pedir.”

“Posso, por favor, beber um pouco de água?” Minha voz soava débil e distante do m eu corpo.

“Muito bem ”, disse. “É assim que se faz.”

Então, m e estendeu a garrafa.

“Viu?” Freddie disse. “Está fechada. Não fiz nada.”

Bebi e derram ei um pouco sobre m eu pescoço e sobre o colchão.

“O que você fez com igo?”, perguntei.

“Não fiz nada, você é quem fez a si m esm o.”

Tam pei a garrafa.

Então é assim, seu filho da puta?!

“Essa coisa está m achucando m eu tornozelo.” Estava tentando m edir as reações dele. Precisava ser cuidadoso. “Poderia m e soltar, por favor?”

Freddie se inclinou sobre a cam a. Colocou um a m ão no m eu calcanhar e a outra sobre o m eu pé. A m aneira com o girou m eu pé e olhou para m im realm ente era a de um m édico.

“Então para de puxar”, ele sentenciou. “Posso passar um a pom ada para não infeccionar. Am anhã talvez troque o lacre para o outro tornozelo, se você quiser.”

Talvez m e forçasse a pedir “por favor” por aquilo tam bém . Ele se abaixou até o chão. Ouvia ele m exendo em algum a coisa, o barulho de um a tam pa de plástico se abrindo. Tirou o cigarro dos lábios com os dedos, estendendo-o em m inha direção.

“Quer?”

Desviei o olhar.

“Achei m esm o que não ia querer. Seu negócio é beber, não é?”

Freddie deixou o cigarro em algum lugar. Eu não conseguia ver. Esprem eu um a pom ada transparente de um tubo prateado na ponta de seus dedos e a aplicou sobre m eu tornozelo ferido. Cuidadosam ente. Olhei para a j anela, im aginando o que havia lá fora.

“Melhorou?”

Não respondi. Tom ei outro gole e tam pei a garrafa.

“Quer ir ao banheiro? Aposto que você precisa m ij ar, não é, John?”

Minha bexiga estava prestes a explodir.

“Meu nom e é Jack.”

Olhei bem para ele em busca de qualquer reação. Seus olhos não diziam nada, era assustador. Sabia que eu tinha de cooperar para que nada pior acontecesse, m as tudo o que queria era avançar sobre ele e bater o m ais forte que conseguisse. A única explicação para ele m e cham ar de John era se tivesse vasculhado m inha carteira. Fiquei im aginando o que ele teria feito com ela e com m inhas roupas. Com o tinha m e levado até aquele quarto. Sabia que a culpa de estar ali era m inha e que ninguém tinha dado falta de m im .

Conner provavelm ente achava que eu ainda estava chateado.

Devia ter ficado com ele e com Dana quando m e cham aram .

Eu m e sentia enj oado.

“Você m e deixa levantar para ir ao banheiro?”

Freddie se inclinou e pegou algo no chão: um recipiente de plástico branco que parecia um a garrafa, de boca larga, com um a tam pa de borracha verm elha presa a um a alça, por onde o segurava. Quando retirou a tam pa, vi a guim ba de seu cigarro lá dentro.

“Urinol m asculino”, explicou. “Cortesia do hospital, com o deu para ver.” Ele inseriu o dedo na boca do urinol, apontando para baixo. “Assim . Pode usar.”

Meu estôm ago em brulhou. Freddie estendeu o obj eto para m im , m as o afastou provocativam ente quando tentei pegá-lo.

“Tem que pedir.”

Com ecei a pensar se ele não iria m e m achucar. No quanto iria doer. Me perguntei se ele iria m e m atar. E quando.

“Posso, por favor?”, repeti.

“Muito bem .”

Então, ele entregou o recipiente. Não queria usá-lo ali, bem na frente dele, m as não tive escolha. Sabia que era algum j ogo doentio para que m e sentisse com o um anim al acuado, m as estava a ponto de m e m olhar todo. Não queria dar a ele essa satisfação.

Tentei não olhar para ele m e assistindo, deitado, m ij ando naquela coisa de plástico. Tentei m e im aginar bem longe dali, m as era im possível.

Freddie acendeu outro cigarro enquanto m e observava enchendo o urinol.

“Jack, seus pais são hippies ou o quê?”

Estava nervoso, não conseguia dizer nada. Não sabia o que ele queria de m im .

Freddie apontou o cigarro para as m inhas m ãos. “Você sabe. Não foi circuncidado.”

Parei, subi a cueca. Engoli seco. “Nasci no chão. Nunca entrei em um hospital na vida.”

Não consegui term inar. Molhei a cueca. Tentei cobrir o círculo úm ido com um a das m ãos. Fiquei com m edo de que ele visse e ficasse nervoso. Com ecei a trem er. Nunca tinha trem ido de m edo. Era com o se estivesse testando m eus próprios lim ites: tinha ouvido falar de pessoas que trem iam incontrolavelm ente quando estavam assustadas, m as não acreditava. Até aquele m om ento.

Freddie pegou o urinol. Colocou a tam pa e levantou, agitando, cheio m ais da m etade. Eu podia ver o vulto negro da guim ba do cigarro boiando lá dentro. Ele m e m ediu de cim a a baixo com o se fosse fazer um caixão. “Você vai precisar de um banho am anhã. Vou lavar a sua cueca tam bém , m as só se você se com portar e pedir por favor.”

Então, ele deu um im pulso com os pés e deslizou a cadeira para longe da cam a e se levantou. Colocou o urinol quase cheio sobre a cadeira, pegou a caixa de plástico que tinha deixado no chão. Colocou outro urinol vazio, um a garrafa de água cheia e um penico ao lado da cam a.

“Você poderia m e devolver m inhas roupas?”

“Por quê? Está com frio?”

Eu suava. Ele sabia que não estava com frio. Não disse nada.

“Por favor?”

“Preciso ir agora, Jack. Mas você m e verá em breve. Prom eto. Não faça nada estúpido. Não tente gritar porque ninguém vai ouvir. Bem , se alguém ouvir, serei eu. E você não quer m e deixar nervoso, não é? Você tem sido um bom garoto até agora, Jack Wy nn Whitm ore, que acabou de fazer 16 anos em abril. Bom garoto. Continue assim .

Todo o m eu corpo trem ia. É claro que Freddie via o quanto eu estava assustado, m as não dava a m ínim a. E dava para perceber – eu sabia – que ele tinha feito aquilo outras vezes.

“Quer que eu te dê algum a coisa para relaxar?”

“Não, por favor.”

Tinha de forçar as palavras para fora, m eu queixo travava.

“Se quiser, eu posso te dar”, respondeu.

Então virou a cadeira e a deslizou em direção à porta.

Então gritei, “Vai se foder, seu filho da puta!”, E j oguei a garrafa de água nele. Não consegui evitar. A garrafa o acertou entre os om bros e caiu no chão.

Freddie parou e deu m eia volta. Pegou algo em cim a da cadeira, um obj eto preto e m etálico.

Um a arm a de choque.

Freddie disse, “Você está fazendo essa parte durar m ais que os outros”.

Tentei desviar, m as, antes que eu pudesse reagir, as pontas de m etal j á estavam encostadas na m inha barriga.

Era com o ser esfaqueado m il vezes. Tentei gritar e m e m exer, m as estava m udo e paralisado. Ainda assim , em m eio à dor que latej ava em m eus ouvidos, ouvi Freddie gritar, “Vou te m atar agora, é isso que você quer? É isso que você quer? É só pedir! É só pedir, Jack!”.

Ele parou.

Meu corpo estava a ponto de ceder.

Sentia lágrim as correndo pelo rosto enquanto tentava encher os pulm ões e m e recuperar dos espasm os.

Mas Jack não chora.

Nunca chorou.

Fechei bem os olhos. Então, Freddie colocou o aparelho debaixo do m eu braço e m e eletrocutou m ais um a vez, por m ais tem po ainda.

Pensei que fosse m orrer.

Quando ele parou, eu estava m e esforçando para não chorar. Freddie colocou a arm a de volta sobre a cadeira, com o se estivesse m e dando um presente. “Quer m orrer agora, Jack?”

“Não.”

“Tem que pedir.”

“Por favor, não quero m orrer, doutor.”

Freddie estalou a língua. Talvez não gostasse de ser cham ado de doutor. Então ouvi a cadeira sendo em purrada para fora do quarto.

Perm aneci de olhos fechados. Estava com m uito m edo. Quase pude sentir a som bra de Freddie sobre m im quando ele voltou e parou ao pé da porta. Abri os olhos e virei o rosto para ele. Segurava um a seringa e tinha a arm a de choque no bolso.

“Agora vai ser do m eu j eito, Jack.”

Se aproxim ou da cam a.

Eu trem i.

Ele apoiou a m ão na m inha coxa e puxou m inha cueca para cim a. Senti o álcool gelado sobre a pele.

Virei a cabeça e senti a seringa penetrando o m úsculo.

“Pode ficar tranquilo”, ele disse. “Só vai te acalm ar um pouco. Só isso.”

Retirou a agulha e esfregou o lugar da inj eção. Depois lam beu m inha perna, bem devagar. Tive vontade de vom itar enquanto sentia seus dentes e a sua língua sobre m inha pele, m as m eu estôm ago estava vazio.

Pude ouvi-lo engolir, ao term inar.

“Tenta ficar calm o, Jack.”

Ele pousou a m ão sobre m inha testa e depois m ediu m eus batim entos cardíacos.

Correu os dedos pelos m eus cabelos.

Fechei os olhos e virei o rosto.

Freddie tentava m e levantar pelos om bros e m e virar de bruços. “Preciso que você deite de barriga para baixo. Faça isso.”

Eu podia sentir o efeito da inj eção. Estava leve, estranho.

“Não! Me deixa em paz!!”

“Jack?”

Ele passou a arm a de choque pela m inha garganta.

Eu não ia suportar outro choque. Fiquei encolhido, contendo os soluços. Mas, estranham ente, de repente nada m ais parecia ter im portância. Era tudo um a grande piada, afinal. Eu m e sentia com o se estivesse derretendo. Com ecei a m e virar sobre a cam a e Freddie m e em purrou até eu ficar com pletam ente de bruços, com o rosto quase enfiado no colchão. Tentava fingir que nada estava acontecendo, que estava em algum outro lugar. Era assim que m e sentia m esm o. Então, a outra m ão dele deslizou por m inhas costas e puxou a cueca para baixo.

Freddie afastou m inhas pernas, a cueca j á estava dependurada no lacre que m e prendia. Sua m ão, coberta por algo gelado e escorregadio, subia por dentro das m inhas coxas. Tentei m e afastar, m as estava preso. Não m e im portava m ais. A culpa era m inha. Com eçava a perder a consciência enquanto ouvia um telefone tocar ao longe.

Ele tirou as m ãos de m im . Ouvi Freddie lim pá-las no colchão.

“Porra, você m e atrasou.”

Freddie m e agarrou pelos cabelos e apertou m eu rosto contra o colchão.

Saiu batendo a porta.