A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 35 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 35

TRINTA E CINCO

 

Tac.

Os poucos reféns que eles m antinham serviam de com ida, ou de coisa pior.

Eles se aproxim avam . Tão perto que ouvia os cascos dos cavalos batendo nas pedras e os grunhidos dos cavaleiros. O cachorro de Griffin estava todo encolhido, trem endo debaixo da folhagem de um arbusto. Estávam os a postos, com a m unição preparada. Era hora de nos separarm os.

“É agora”, eu disse. Apoiados nos om bros uns dos outros, fizem os um círculo. Então, encostam os nossas cabeças.

“Vam os acabar com esses filhos da puta”, disse Griffin.

Ben nos abraçou forte e disse, “Eles nem vão saber o que os acertaram . E depois vam os com er m ais balas.”

Griffin abriu um sorriso.

“E tom ar uísque”, com pletei.

“O que faz você pensar que eu trouxe o uísque?”, Ben perguntou.

“Eu volto ao trem se você não trouxe.” E quando Ben sorriu, falei, “Merda, eu vou andando até aquele trem se escaparm os dessa”.

E Ben disse, “Nós vam os nos sair bem , e você não vai andando a lugar nenhum ”.

O posto de Griffin ficava sobre um a pedra de granito, atrás de onde faríam os a em boscada. De lá, podia ver quase todo o cam inho até o m ar de cruzes ao longe. Ben e eu cobriríam os seus flancos, m ais ao alto e m ais expostos, uns trinta m etros de distância para cada lado.

“Cuidado pra não m e acertar”, disse Griffin enquanto subíam os.

O pelotão m archava pela encosta escarpada, entre as trilhas pedregosas, as fendas e os traços de vegetação rasteira. Vinham cavalgando ou a pé, dois a dois. Eram cerca de quarenta, estim ei. Levavam arm as prim itivas m anchadas de sangue. Eram feitas de m adeira, pele, pedra, pedaços de m etal, vidro e ossos. Não havia m ulheres nem crianças. Assim era aquele m undo.

Coloquei o seletor de disparo do m eu rifle em m odo autom ático.

Você ainda não conseguiu escapar de nada.

Quase todos usavam tangas feitas de cabelo hum ano, algum as de fios loiros ou brancos. Alguns deles vinham totalm ente nus, exceto por seus troféus e adereços: m ãos secas presas a cordas de tripa em torno da cintura, chaves de porta ou carro penduradas nas orelhas e tornozeleiras feitas de dentes. Alguns tinham m anchas nas linhas laterais do corpo. Através da pele coriácea, esporas recurvadas em ergiam das vértebras protuberantes dos m ais velhos. E cada um deles tinha sua própria m arca verm elha, que fulgurava m esm o durante o dia, todas diferentes um as das outras. Ficava m e lem brando da im agem do dia anterior: a m arca de Conner era pequena, com o um peixe ou um oito incom pleto na horizontal, alguns centím etros abaixo do um bigo, entre os prim eiros fios dos pelos pubianos. Procurei Conner entre eles, m as não o encontrei. Não queria encontrá-lo.

Estava preocupado; então olhei para cada um deles, sabendo que m esm o à distância reconheceria o andar de Conner Kirk. Eles subiam . Estavam tão perto que quase via o reflexo do que procuravam em seus olhos negros e brancos. Nossos dedos suavam nos gatilhos.

Esperando.

Griffin se escondeu; j á estavam perto dem ais. Ele tinha de esperar até que todos passassem . O plano era sim ples: Ben e eu com eçaríam os a atirar assim que o últim o deles passasse por Griffin, e o m enino não deixaria nenhum deles voltar.

Aquela m ontanha era nossa, dissem os.

Enquanto passavam inadvertidam ente, pensei que, se o cachorro atravessasse o cam inho correndo, teria de atirar. Fiquei firm e. Com a m ira do rifle, seguia o peito do cavaleiro que vinha à frente da fila.

Olhei para Ben. Ele m e observava e. acenou com a cabeça.

Voltei a m irar.

O últim o deles, que cavalgava solitário atrás dos que vinham a pé, sem o antebraço esquerdo, passou pelo posto de Griffin.

Naquele m om ento, tive vertigens e senti frio. Todo m eu corpo doía e m e dei conta de que a últim a noite de sono que tive tinha sido dois dias antes, no trem dos corpos m um ificados. Notei que m al conseguia suportar o peso do rifle.

Virei o rosto. Ben acenava com a m ão. Era hora.

Abaixei m inha arm a e os gestos de Ben ficaram m ais insistentes. Sabia que ele se perguntava por que eu ainda não estava atirando. Vi Seth agachado sobre a rocha atrás de m im . Ele estava indo em bora.

“Seth”, sussurrei.

Sua voz era apenas um suspiro, fora de sincronia com seus lábios. “Não, Jack. Tenho que fugir.”

Eram os necrófagos, eu sabia.

Então, ele desapareceu.

Nossos perseguidores j á quase cruzavam a linha que ligava m eu posto ao de Ben. Os três prim eiros estavam sob a m inha m ira. O da dianteira vinha em um cavalo m alhado que levava um colar de m andíbulas hum anas no pescoço. Parecia usar perneiras de couro preto, m as sua arm adura era, na verdade, um punhado de necrófagos. Vinham agarrados a suas pernas, estalando suas carapaças, m exendo as m andíbulas e vibrando as asas. Aguardavam pacientem ente os espólios do m assacre. O soldado estava tão perto que eu sentia seu cheiro. Tinha a cabeça raspada e o couro cabeludo coberto por cicatrizes em ziguezague e um a série de espetos escuros que perfuravam suas bochechas, com o o bigode de um tigre. Estava relaxado e levava um a besta arm ada com um a flecha negra.

Via suas feições claram ente e m e perguntava se j á não o conhecia de algum lugar. Talvez j á o tivesse visto no parque ou na lanchonete de Glenbrook.

Quando puxei o gatilho, a raj ada de tiros quase o cortou ao m eio, borrifando um a m assa disform e de grum os verm elhos sobre o abdom e dos dois cavaleiros que vinham atrás. Eles não tiveram tem po de reagir ao choque. Atirei nos dois seguintes no rosto, até descarregar o pente da m inha arm a, e ouvi os cavalos à frente cair soltando bufadas e lam entos agonizantes, bloqueando a passagem , girando seus olhos negros e soltando esguichos de sangue de suas narinas. A fila de dem ônios parou e apenas olhou, boquiaberta de terror enquanto os que estavam em sua frente caíam , desfazendo-se em poças de sangue.

Ouvi os disparos m ais altos e secos das pistolas de Ben, que cuidadosam ente escolhia seus alvos do posto do outro lado da trilha.

Pânico.

Gritos.

Não estavam preparados para aquilo.

Éram os deuses.

Liberei o carregador e recarreguei.

Flechas cruzavam o ar acim a de m im . Um m artelo acertou o granito com tanta força que faíscas voaram com o im pacto. Fiquei abaixado atrás das pedras, olhando enquanto Ben atirava calm am ente contra o pelotão. Um a das criaturas se aproxim ava do posto dele. Estava coberta de sangue e tinha um a alça feita dos intestinos de outro soldado em volta do pescoço. Fui atrás dele por um a depressão, sem que os outros m e vissem . Ele puxou um a lança delgada com um a lâm ina serrilhada na ponta e calm am ente a apontou para Ben.

Mais flechas.

Ouvi outra arm a, a de Griffin. Os sobreviventes tentavam bater em retirada.

Sem m irar, atirei no soldado que em boscava Ben com a lança, fazendo-o desabar sobre as pernas dilaceradas. A criatura rolou pelo chão escarpado, girando seu bizarro cachecol de vísceras, e perdeu a arm a pelo cam inho. Caiu ao lado de Ben, com as pernas destroçadas e j orrando sangue. Rolou para cim a dele e tentou segurá-lo pelos cabelos, dando dentadas no ar.

Ben grunhiu e rolou para o lado por baixo de seu agressor. Levantou sua .45 por baixo do braço da criatura e atirou duas vezes. Ouvi o chiado do esguicho que saía por suas costas. Com o se apenas se livrasse de um contratem po, Ben afastou o cadáver e voltou a atirar contra o caos que tinha se tornado o pelotão.

Fiquei de pé novam ente e atirei, varrendo o cam po de batalha com balas para acabar com os que ainda tentavam fugir. Seguindo a trilha verm elha que ia m ontanha abaixo, depararam -se com a em boscada de Griffin.

Agora de pé, Ben e eu correm os atrás dos dem ônios que sobraram .

O últim o m orreu com um tiro de Ben na nuca, a m enos de dez m etros da linha que tinham cruzado poucos m inutos antes.

Caiu com o rosto no chão.

E, então, silêncio.

Não tínham os um arranhão sequer. As roupas de Ben estavam cobertas de sangue, nada m ais.

“Eles nunca viram uns filhos da puta com o a gente”, disse Ben. “Nunca.”

Griffin se levantou, descalço, sua pele coberta de areia se esticava sobre as costelas a cada respiração. Ainda segurava as arm as acim a da cabeça e gritava, “Isso aí, porra!”.

Um a faixa escura e envernizada com eçava a cobrir as escarpas, vindo em nossa direção.

Necrófagos.

“Olhem as m arcas”, pedi. “Preciso encontrar um deles.”

Conner.

Ben e Griffin guardaram as arm as.

“Ele tem um a m arca assim .”

Com as m ãos paralelas, cruzei os indicadores estendidos e os polegares curvados.

“É pequena, parece um peixe. Bem aqui.” Desenhei a m arca com o dedo logo acim a da virilha. “Foi o que m e m ordeu ontem . Preciso ver se ele está aqui.”

Griffin m e encarava. “É aquele que você sabe o nom e, não é?”

Levantei o rosto do últim o que Ben tinha acertado. “É.”

“Tá bom , Jack. Tá bom ”, Ben concordou, m as eu podia ouvir sua respiração pesada enquanto m e afastava deles indo em direção ao próxim o corpo. “Vem , Griffin. Vai ser rápido.”

Griffin suspirou. “Vão se foder, seus bostas.” Então desabotoou a braguilha e com eçou a m ij ar em um dos corpos. Ben olhou para o m enino e balançou a cabeça, m as Griffin insistiu, “Fodam -se eles, Ben. Isso é pelo que eles fizeram com o Henry e com a gente. Vão se foder!”. Então o cachorrinho dele saiu do esconderij o na vegetação, cheirou o m ij o de Griffin, e levantou um a pata no m esm o lugar para com em orar a vitória.

“Isso aí, Spot!”

Um tiro.

Girei o corpo e vi Griffin, com a braguilha ainda aberta, de pé sobre um dos soldados com a arm a apontada para baixo.

“Esse ainda estava vivo. Mas não era o que você está procurando, Jack.”