A Lente de Marbury
Capítulo 59
CINQ UENTA E NOVE
Glenbrook.
Um dia após nossa chegada.
Estam os os dois pálidos e suados na picape de Conner. Ele dirige.
Sinto calor, m esm o sem cam isa e com o ar-condicionado virado para m im .
O fim do verão é sem pre m uito quente em Glenbrook.
“Talvez dessa vez sej a só um m inuto”, Conner diz.
Estou trem endo tanto que m al consigo pronunciar as palavras. “Estaciona aqui, Con.”
Só uma olhadinha.
É um a piada, certo? Percebo que estam os no estacionam ento do Steckel Park. Tínham os voltado para onde tudo com eçou.
“Anda, Jack. Estou passando m uito m al. Parece que vou m orrer, ou sei lá.”
“Eu sei.”
Olho para cim a. “Preciso de ar.”
Abro a porta. “Desce, Con.”
Estou segurando a m eia. Não tinha tirado as lentes de lá desde quando as guardei em Londres. Posso senti-las, com o se vibrassem ali dentro: um inseto zum bindo entre m eus dedos, querendo voar. Conner se abaixa ao lado da porta. Ouço enquanto tenta vom itar, m as não consegue.
“Conner, levanta. Vem com igo.”
Ele vem atrás de m im e nos sentam os na gram a sob um a árvore.
“Não dá pra acreditar no que está acontecendo”, ele diz. “Fiquei com m edo de te m ostrar antes, m as olha só o que aconteceu com igo.”
Conner afasta o elástico da berm uda e m e m ostra um a pequena cicatriz, alguns centím etros abaixo da barriga. É um oito incom pleto, na horizontal, com o o contorno de um peixe.
“Eu não tinha isso”, Conner diz. “Nunca tive.”
Balanço a cabeça. “Não sei o que isso significa, Con.”
Dois m eninos j ogam basquete.
Com as pernas dobradas, Conner esconde o rosto entre os j oelhos.
Desenrolo a m eia e tento não olhar.
Pronto.
Seguro a lente de Marbury na m ão. Fico feliz apenas de senti-la entre os dedos.
Jack está feliz.
“Estão aqui”, eu digo. “Está pronto?”
Conner levanta o rosto. Parece ter chorado, m as sei que é só o suor. Respiro fundo, enrolo a m eia e guardo no bolso de velcro da berm uda.
Um a bola de basquete rola até os pés de Conner.
“Joga pra cá, por favor?”
Os dois m eninos que j ogavam agora estão à nossa frente. Ben Miller e Griffin Goodrich.
Ben convida, “Querem j ogar?”.
Conner agarra m eu braço. “Puta m erda, Jack!”
“Ei! Vocês são surdos? Joga a bola, por favor?”, Griffin insiste.
Eu fico apenas olhando para eles.
Vê-los no parque m e deixa aliviado, um pouco pelo m enos. Penso em Marbury, em Henry, e no espaço entre aqui e lá.
“São eles”, Conner diz.
“Acho que é real, Conner, m as preciso ter certeza.”
Conner respira com dificuldade e trem e. “Não, Jack. Vam os parar com isso.”
Não podemos parar.
Conner pega a bola e arrem essa para Griffin.
“Valeu. Vam os j ogar dois contra dois?”
Com as pernas trêm ulas, Conner se levanta e vira o rosto para m im , ele parece estar doente. “Jack, levanta! Vam os j ogar.”
Abro a m ão.
Griffin olha hipnotizado para as lentes e, atrás dele, Ben fica parado na beira da quadra, nos observando.
Nos olhos dos m eninos, consigo ver um reflexo pálido.
Algo enorm e.
Um céu sem cor.
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Andrew Smith
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