A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 16 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 16

DEZESSEIS

 

Deixei a televisão ligada enquanto tom ava banho. Ainda não conseguia entender com o aqueles quartos eram proj etados, porque não havia com o entrar ou sair da banheira com a porta fechada, a não ser que você se esprem esse por debaixo da porta de vidro do box. Era m uito ridículo ter de fazer aquilo, pensei. Mas dava para ver a im agem invertida do j ogo de futebol que passava na TV pelo espelho, então até que tinha sua vantagem .

Já estava escuro quando m e vesti e desliguei o telefone após conversar com Stella. É claro que ela reclam ou por eu ter esquecido o carregador do celular. Wy nn repetia ao fundo: “Fala com o Jack que a visita dele e Conner ao St. Atticus está m arcada para quinta”. Pelo m enos tinha um a desculpa para encerrar logo a conversa, precisava econom izar a bateria do celular.

Segui para leste assim que saí do hotel naquela noite e encontrei um lugar perto da Warren Street cham ado The Prince of Wales, um pub onde caras que pareciam ter a m inha idade tom avam cervej a e com iam .

Percebi com o estava com fom e, e com o seria bom estar num lugar que serviria cervej a para m im , então entrei.

Foi m eio estranho ficar ali sozinho. Tive de m e sentar em um a m esa com prida com garotos barulhentos que riam e bebiam . Depois de com er um sanduíche com batatas fritas, tom ei coragem e pedi um a cervej a que, com o pacientem ente tinha m e explicado um a m enina da m esa, devia ser pedida pelo nom e, para que eu não “desse um a de turista”.

Todos m e cum prim entaram e perguntaram se eu era da Califórnia, por causa da m inha berm uda, então m e ignoraram depois de m e desej arem um a boa estadia nas m inhas “férias”. Saíram quando eu estava na segunda cervej a. Finalm ente m e senti relaxado, quase feliz, por ter superado todos os percalços e ter chegado até ali.

Queria ligar para Conner e contar o que estava fazendo, m as deixei o celular cair quando o tirava do bolso. Quase tive que m e arrastar por baixo da m esa para alcançá-lo. Enquanto olhava rente ao chão, vi o hom em dos óculos roxos entrar no pub e se sentar perto do bar, de frente para m im ..

Ele continuava a m e observar.

Endireitei o corpo e guardei o celular no bolso. Ele afastou os óculos do rosto. Tinha certeza de que ele estava m e seguindo, e agora eu estava encurralado. Era com o se estivesse sendo descoberto por todas as coisas horríveis que j á tinha feito na vida, e não conseguia deixar de pensar que aquele suj eito sabia o que eu tinha feito com Freddie Horvath, que talvez estivesse planej ando fazer algo pior com igo.

Senti vontade de vom itar.

Peguei o dinheiro na carteira e deixei ao lado do prato. Quando com ecei a m e levantar do banco para sair dali, o hom em se levantou com um a cervej a na m ão e ficou de pé perto da m esa, bem à m inha frente.

De repente tudo ficou quieto.

“Olá.” Sua voz era am igável, e ele tinha sotaque inglês. “Posso m e sentar aqui, Jack?”.

Meu coração quase parou quando ele disse m eu nom e.

O que eu podia fazer?

Sentia m inhas costas escorregando pela parede atrás de m im , talvez em um desej o involuntário de escapar através dela.

O hom em se sentou e colocou a cervej a na m esa. Ele sorriu para m im , com o se esperasse que o reconhecesse. Mas nunca o tinha visto antes, a não ser pelas poucas vezes naquele m esm o dia.

“Você m e conhece?” Eu girava autom aticam ente o copo de cervej a em cim a da sobre a m esa. Em sentido horário. Já estava vazio.

O hom em olhou para trás, em direção ao bar. “Você quer outra cervej a?”

“Não.”

Sufoquei de pânico; m eu coração disparou enquanto eu era estrangulado por um a m ão invisível. Me sentia com o se estivesse am arrado novam ente. Pensei em sair correndo.

“Só queria saber se você m e conhecia”, ele disse. “Não queria incom odar.”

Olhei para ele. Ainda havia algo de hum ano naqueles olhos, não eram com o os de Freddie. Os olhos de Freddie Horvath não se im portavam com nada.

“Não te conheço”, eu disse. “Por que você está m e seguindo?”

O hom em tom ou um gole.

Pensei que estava prestes a ser preso, ou pior.

“Peço desculpas se fui m al-educado”, ele disse. “Não era m inha intenção assustar você.” Então ele estendeu a m ão por cim a da m esa e se apresentou. “Meu nom e é Henry Hewitt”

Era com o cair de um penhasco. Apertei sua m ão.

“Sério”, ele continuou, “você parece estar com m edo de m im . Posso te garantir...”

“De onde você m e conhece?”, perguntei. Olhei bem em seus olhos e fiz o que pude para intim idá-lo.

Henry aproxim ou o rosto. “Conheço você há m uito, m uito tem po, Jack. Não de Londres. De Marbury. Quando te vi, quando finalm ente te encontrei em Heathrow, sabia que era você.”

Deve ser um a coincidência, pensei. Talvez ele conhecesse alguém parecido com igo de algum outro lugar.

“Acho que você se confundiu”, respondi. “Não conheço nenhum lugar com esse nom e.”

“Marbury ?”

“É, onde fica esse lugar?”

“Tem certeza, então?”

“Tenho. Deve ser outro Jack.”

“Mas você se cham a Jack”, ele insistiu, com o se pedisse satisfações ou tentasse provar a si m esm o quem eu era. Ou tentar m e convencer. “Jack Whitm ore.”

Meus olhos lacrim ej avam . Eu reprim i um bocej o e bati de leve com a m ão na m esa. “Olha só, eu estou m uito cansado. Passei o dia todo no avião. Vou em bora. Desculpa, m as você se confundiu, tá legal?”

Quando com ecei a m e levantar, Henry sacou seus óculos do bolso atrás da lapela do casaco. Quando vi o brilho das lentes, a luz parecia cintilar de form a peculiar dentro delas.

Henry colocou os óculos e olhou para m im por um segundo, com o se tirasse um a foto. Em seguida, ele os dobrou e os deixou sobre a m esa sem dizer um a palavra.

Henry virou a cervej a.

Olhei para os óculos e depois para aquele hom em do outro lado da m esa.

“Jack, por favor, cuide bem dos seus am igos por lá. Quero dizer em Marbury.”

“Nunca estive nesse lugar, j á falei.”

“Olha só”, ele disse, aproxim ando o rosto. “Tem certeza de que não quer tom ar outra cervej a com igo?”

Meus pensam entos estavam em baralhados. Precisava dorm ir, m as algo m e m antinha ali, conversando com ele.

“Não, m as obrigado.”

“Acho que vou beber m ais um a”, Henry declarou, enquanto voltava para o balcão do bar.

Os óculos estavam à m inha frente. Ele era definitivam ente estranho. Havia algo se m exendo dentro deles. Eu podia ver, m as tinha m edo de olhar. Queria encostar neles, abri-los, m as sabia que isso seria m eio rude. Ainda assim , algum a coisa m e dizia que ele era um obj eto único e interessante – e ele estava na m esa à m inha frente, com o se Henry estivesse m e tentando.

Olhei para o bar.

Henry Hewitt não estava m ais lá.

Som ente um copo cheio de cervej a sobre o balcão e um garçom olhando para m im , de braços cruzados.

Fiquei de pé. Estava tonto. De repente, o lugar tinha ficado vazio. Havia apenas dois hom ens m ais velhos, sentados em um canto escuro ao lado dos banheiros. E m ais ninguém .

Perguntei ao garçom , “Você conhece o suj eito que pediu a cervej a? Sabe aonde ele foi?”

Ele levantou o queixo. “Ele pagou um a para você, cam arada.”

Ele em purrou a cervej a para m im . O copo gelado deixou um rastro úm ido sobre o balcão de m adeira do bar, com o um a lesm a.

Um cartão de visita estava preso pela borda debaixo do copo.

Saí do pub, olhei para os dois lados da rua, m as nem sinal de Henry.

Entrei de novo.

“Vai querer a cervej a?”, perguntou o garçom .

Peguei o cartão. Era um cartão branco. Nada além de rabiscos de tinta preta, letras de form a borradas pela força da escrita: NÃO ME PROCURE, JACK. CUIDE-SE. LEMBRE-SE DO QUE EU DISSE. – H.H.

“Não, obrigado.”

Fui até m inha m esa, guardei os óculos no bolso da berm uda e voltei para o hotel.

Não estava entendendo.

Henry disse que m e conhecia há m uito tem po. De um lugar cham ado Marbury. Mas eu nunca tinha ouvido falar de lá. Ele só podia estar errado.

Ele tinha m e seguido o dia todo. Não podia ser por coincidência que ele deixou os óculos na m esa. Tudo parecia m uito proposital, planej ado. Mas eu não conseguia entender a m ensagem . Seria um j ogo psicológico de um cara m aluco? Ou um program a de TV?

Bebi dem ais, pensei.

Freddie Horvath deixou minha cabeça assim.

Às vezes, quase podia ouvir sua voz tentando m e assustar, m as sabia que estava im aginando coisas.

Você ainda não conseguiu escapar.