A Lente de Marbury
Capítulo 32
TRINTA E DOIS
Sem pre parecia o m esm o, sem pre parecia com o m orrer, a pior parte do pesadelo.
Um a hora depois, eu os vi se aproxim ando; um pequeno m ar de m arcas verm elhas fulgurando pela escuridão do deserto.
“Ben”, sussurrei, sacudindo seu om bro. “Eles estão vindo.”
Ben se levantou rapidam ente, olhando ao redor. Podia ver que ele tentava se localizar, entender o que estava acontecendo.
“Tem os tem po”, eu o acalm ei. “Pega as botas. Vou acordar o Griffin.”
Ben esfregou os olhos e, de m eias, andou até o barranco para ver.
“Não são m uitos.”
“Era o que estava pensando.” Quando m e aproxim ei, o cachorro de Griffin correu para os arbustos.
“Ei, Griff”, pus a m ão sobre o peito dele. “Griff, tem os que levantar.”
Griffin abriu os olhos lentam ente. Ficou im óvel, deitado, todo contorcido naquelas roupas largas. Olhava para m im com a testa franzida, confuso.
“Cadê o Ben?”
“Está aqui. Está tudo bem , m as tem os que ir.”
Mais acim a na m ontanha, antes de a luz difusa da m anhã branca nos revelar, encontram os um lugar onde poderíam os nos defender. Griffin levou os cavalos para um lugar seguro e voltou correndo, descalço, sem cam isa, com as arm as presas às calças, seguido de seu novo am igo.
Tínham os estocado dezenas de caixas de m unição, e os carregadores das pistolas estavam cheios. Tudo pronto. Além disso, eu levava m unição extra presa à correia do rifle. Estávam os em vantagem . Tudo o que tínham os de fazer era esperar, m as aquilo, sim , era m uito difícil.
Os olhos de Ben seguiam a poeira levantada pelos cavalos deles e pelas carroças que puxavam . Tiveram de abandoná-las ao pé da m ontanha; era m uito escarpada para chegarem até onde estávam os.
“Se não errarm os a m ira, não vam os nem precisar recarregar. Não parece ser m aior que um pelotão”, Ben calculou. “São m enos dos que enfrentam os quando Henry e os outros m orreram . Talvez os m esm os. Mas hoj e a vantagem é nossa.”
“Talvez nem nos encontrem ”, eu ponderei.
“Não com ele aqui.” Ben apontou para Seth com a cabeça. Estava agachado, quase invisível.
Necrófagos seguiam fantasm as. Ainda que fossem lentos, aqueles insetos seguiam espíritos, e os dem ônios vinham no rastro deles.
Com o braço dobrado e a arm a apontada para cim a, Griffin observava o chão do deserto, escondido atrás de um a crista de granito.
“Ainda estão longe”, inform ou. “É m elhor o fantasm a entrar em você, Jack.”
“Não sei.”
“Tira a cam isa para eu trocar o curativo, de qualquer m odo.”
“Não precisa.”
“Não discute, porra!”, Griffin m e fuzilou com o olhar.
Suspirei, pus o rifle no chão e tirei a cam isa. Então, m e sentei de frente para a Griffin. Cada um tinha sua função. Tinha de obedecer ao garoto.
Ben ficou de guarda.
“Abaixe-se.” Griffin abriu o estoj o de prim eiros socorros e espalhou m ais daquela pom ada nas duas feridas no m eu quadril. Doía quando ele esfregava. Talvez Griffin quisesse m ostrar o quanto era forte e que era capaz de fazer o trabalho que tínham os dado a ele. A ferida da flecha que tinha atravessado m eu corpo ainda não estava totalm ente curada.
“Ainda está feio, Jack.”
“É de tanto cavalgar, estou bem . De verdade.”
Griffin retirou o esparadrapo do m eu peito. A gaze estava presa dentro da ferida, solucei de dor enquanto ele arrancava aquilo. O curativo cheirava m al e tinha um a m ancha am arela. O cachorro cheirou a bandagem e a pegou com a boca quando Griffin o espantou de perto de nós.
Griffin pegou outra gaze do estoj o e colocou sobre m inha barriga. Curvado sobre m eu peito, apertou a ferida com os dedos.
“Porra!”, afastei Griffin instintivam ente.
“Está cheia de pus, Jack.”
Griffin lim pou a ferida, apertou e lim pou novam ente.
Meus olhos lacrim ej aram .
Ele levantou a cabeça e perguntou a Ben, “Já ouviu falar de alguém que foi m ordido por esses m erdas?”
Conner é meu melhor amigo.
Ben olhou para nós e balançou a cabeça. “Está m uito feio?”
Griffin deu de om bros e passou m ais antibiótico sobre a m ordida, usando os polegares. Ele olhou bem nos m eus olhos, e sabia que Griffin se sentia m al por ser tão duro com igo às vezes, m esm o que ele não dissesse. ”Você vai ficar bem , Jack?”
“Está tudo bem , Griff.”
Percebi que Seth m e observava por cim a dos om bros de Griffin. O m enino se transform ou em um a fum aça, fazendo um redem oinho sobre m eu peito. Sentia quando ele entrava por cada fenda da m ordida, sentia-o com o um a substância m orna e gelatinosa. Isso m e fez ficar tonto, com o se tivesse respirado m uito rápido, então fechei os olhos e tentei relaxar até Griffin term inar o curativo.
Por um instante, vi tudo: o hom em que Seth cham ava de papai, tio Teddy, Hannah... E tam bém ouvi a voz de Conner, parecia vir do fim de um longo túnel, tentando falar com igo.
Eu caí fora de Marbury.
“E aí, m ané.”
Quando abri os olhos, estava no chuveiro. A luz que vinha da porta era um alaranj ado de fim de tarde. Conner usava um a cam isa branca, calça de m alha, um a gravata desam arrada em torno do pescoço, m eias m olhadas e estava pulando de pé para pé no m eio de um a poça de água que escorria da banheira, enquanto m e falava algum a coisa e segurava m eu celular.