A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 29 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 29

VINTE E NOVE

 

Naquela noite, fom os nos em bebedar no Prince of Wales.

E não foi por acaso: era um a das coisas que tínham os planej ado desde que decidim os ir para Londres.

Conner m e fazia rir tanto que eu quase m olhava as calças.

Era bom . Finalm ente algum a coisa boa.

Havia poucas pessoas no pub; o garçom até tinha se sentado conosco para tom ar um a cervej a. Queria falar sobre basquete e pensou que o assunto nos interessava, j á que éram os da Califórnia. Ele contou que torcia para os Lakers, m as a gente não ligava m uito para basquete.

“Aquele rapaz que te pagou um a cervej a outro dia veio aqui ontem . Falei que você estava com os óculos dele, m as ele disse que eles são seus, não dele.”

Conner olhou para m im . Tudo o que eu queria é que ele estivesse m uito bêbado e se esquecesse logo daquilo.

Não m e preocupava que Henry estivesse m e procurando. Ele devia estar sofrendo m uito, querendo voltar para Marbury, m as lá ele estava m orto. Game over. E sentado ali no bar, naquele estado, não conseguia parar de pensar em Ben e Griffin, ainda que ficasse com raiva de m im m esm o.

“Bem , acho que houve um a confusão”, respondi. Mesm o j á satisfeito, tom ei toda a cervej a. Queria que o garçom calasse logo a boca e fosse encher m eu copo.

“Mas a m enina”, ele continuou, “não a vej o desde aquela noite em que vocês estavam j untos. Bonita ela, hein?”

“Ela está em Blackpool”, eu disse. “E, sim , ela é bonita.”

“Então liga pra ela, Jack”, interrom peu Conner.

“Cara, eu não vou ligar pra ela bêbado.”

“Então eu ligo.”

“Nem vem .”

O garçom recolheu os copos e voltou para o bar.

Conner apertava m eus bolsos. “Me dá esse celular.”

“Chega, cara, tá bom por hoj e”, eu disse, rindo.

“Só m ais um a”, pediu Conner.

“Tá bom , m as é a últim a.” Pedi m ais duas cervej as e m e levantei. “Já volto. Preciso m ij ar.”

Menti novam ente. Só queria ficar longe de Conner. Queria ligar para Nickie, m as não perto dele. Assim que fechei a porta do banheiro, liguei para ela.

“Desculpa estar ligando tão tarde, m as o Conner está aqui. Só queria dar um oi e ouvir a sua voz.”

“Por quê?” Sabia que ela sorria enquanto falava.

“Para ter certeza de que você é de verdade m esm o”, sussurrei. Queria que soasse com o um elogio, um a frase de efeito, m esm o que, para m im , significasse outra coisa com pletam ente diferente.

“Não sabia que você era tão carente, Jack.”

“Eu tento m e controlar.”

Ela riu. “Seu am igo está se divertindo?”

“Acho que agora ele finalm ente cansou e vai dorm ir.”

Conversam os por alguns m inutos e prom eti a ela que iria a Blackpool antes que a sem ana term inasse. Ela parecia anim ada.

“Você é diferente, Jack.”

“Eu sei, espero que você não pare de gostar de m im por causa disso.”

Ao sair do banheiro, vi que Conner estava na m etade da cervej a. Um copo cheio ainda m e esperava. Conner estava escorregando no banco. Se deixasse, ele dorm iria ali m esm o.

Eu estava satisfeito. Minhas pernas estavam m oles.

Então, olhei para o bar.

Apoiado sobre o braços cruzados, estava Henry Hewitt, usava a m esm a blusa e o m esm o sobretudo, com a barba por fazer e desgrenhado com o da últim a vez. Seus olhos não conseguiam se decidir entre m im e Conner. Estava apavorado, atordoado, com o se testem unhasse um a execução.

Você ainda não conseguiu escapar de nada, Jack.

Conner não percebeu a presença dele.

Andei apressadam ente até a nossa m esa, abaixei a cabeça e disse, “Vou pagar a conta, Con. É hora de ir dorm ir.

Conner acenou com a cabeça e term inou a cervej a.

Fui até o bar perto de Henry e, enquanto tirava o dinheiro, sussurrei sem olhar na direção dele, “Espera aqui. Preciso falar com você. Volto logo. Não vá em bora”.

Henry não respondeu.

“Por favor?”, insisti.

Então, m e virei e saí puxando Conner pelo braço.

Acho que parecíam os bêbados caricatos, eu e Conner, trocávam os as pernas, um apoiado no outro, cam baleando até ao hotel. Adm ito que exagerei, pois não estava tão m al quanto ele. Na verdade, enquanto Conner tagarelava desafinadam ente sobre qualquer coisa sem im portância, tudo o que eu pensava era o que dizer a Henry Hewitt – e o que fazer com ele.

Quando finalm ente chegam os ao quarto, Conner não conseguia ficar de pé sem se apoiar em m im . Eu levei m eu am igo até a cam a e o aj udei a deitar do lado m ais próxim o.

“Então, vai ser esse lado, Con.

“Esse lado o quê?”, Conner perguntou.

“Onde você vai dorm ir.”

“Ah, tudo bem . Tira m inha roupa, Jack?”

“Deixa de ser gay ”, respondi. “Pronto.” Tirei seus tênis. “Agora se vira. Boa noite.” Joguei os tênis dele no chão, perto da m inha m ochila.

“Boa noite. Que bom que você resolveu se divertir. Essas férias vão ser m uito legais.”

“Talvez.” Abri a m ochila e enfiei o braço no m eio das coisas que tinha guardado antes. “Vou dar um a saída para falar com a Nickie. Já volto.”

“Não precisa sair. Fale aqui, para eu ouvir.”

“Vai dorm ir.”

Senti o relevo das hastes entre os dedos.

Rolando... Tac. Tac. Tac.

“O que você está fazendo?”

“Nada”, respondi.

O barulho insistia.

“Que barulho é esse?”

Tirei os óculos de dentro da m ochila. No escuro do quarto, via claram ente através das lentes. O céu branco e o ar parado, os picos negros das m ontanhas, Griffin olhando para m im de cim a de seu cavalo...

Apertei os olhos. Estava entre o pânico de que Conner prestasse atenção ao insistente ruído de Seth e a necessidade de ver – apenas um a olhadinha – se Griffin estava bem .

“Não é nada. Está vindo da rua. Vai dorm ir.”

Conner se deitou de lado e tentou tirar as calças, m as desistiu.

Encontrei um a m eia dentro do tênis de corrida e coloquei as lentes dentro dela. Não queria olhar para os óculos.

Mas estava enganando a m im m esm o. Queria tanto colocá-los que trem i até ficar com pletam ente sóbrio, suando com o se tivesse engolido um vidro de com prim idos de cafeína.

Guardei a m eia com os óculos no cós da m inha calça..

A respiração de Conner estava pesada. Ele dorm ia.

Olhei para ele por um m om ento. Parecia tão relaxado e feliz. Tinha invej a dele. E pensei, Não importa o que aconteça em qualquer outro lugar, Con, você sempre será meu melhor amigo.

Prometo.

Apaguei as luzes e corri de volta para o Prince of Wales.

Ao longo de todo o cam inho, pingando de suor, aos tropeços, um a vez quase sendo atropelado por olhar na direção contrária ao atravessar a rua, continuava querendo colocar aqueles óculos, só m ais um a vez.

Vai ser rápido, Jack.

Só uma olhadinha.

Ben.

Griffin.

Queria urrar, bater em alguém , bater em m im m esm o.

Não aguento mais essa merda!

Não me aguento mais!

Tinha de parar. Apoiado em um a lata de lixo na Warren Street, tentava refrear o vôm ito.

Minha barriga doía.

Rolando... Tac. Tac. Tac.

Algo se m oveu no chão, vibrando enquanto passava pelo chão ao lado do m eu pé.

Eu senti.

Tac.

Tac.

Minhas m ãos trem iam incontrolavelm ente. Tirei a m eia com os óculos, com o um viciado que prepara sua inj eção. O suor descia pelo m eu rosto. Enfiei os dedos dentro da m eia.

“É difícil se controlar um a vez que se aproxim a da beira do abism o, Jack.”

Meu corpo se contraía todo. Cada respiração era um esforço enorm e. Sentia o estôm ago revirar.

Henry saiu da escuridão do beco, olhando para m im .

Derrubei os óculos na lata de lixo.

Rolando e... Tac.

“Vai se foder!”, gritei. “Vai se foder, seu filho da puta!”

Corri até ele, com os punhos fechados, esm urrando o m ais forte que conseguia, em todos os lugares que conseguia, até Henry cair na calçada, tentando se defender. Continuei a acertá-lo até que m inhas m ãos doessem . Caí ao lado dele.

Não chorei.

O Jack não chora.

“Vai se foder, Henry.”

Vai se foder, Freddie.