A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 7 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 7

SETE

 

O barulho de um a televisão vinha de algum lugar da casa. Era um daqueles canais de com pras. A Hora da Ametista. Eu estava desorientado, m as bem . A cam a era confortável. Não sentia m eu tornozelo doer. Tentei subir m inha cueca.

Você não pode dormir, Jack.

Agora não.

Parece que fiquei ali, olhando para as cortinas, sem piscar, sentindo um leve form igam ento sob a pele, com o se tivesse borboletas dentro de m im batendo as asas sem parar, m e sentindo tão relaxado, tão relaxado, por horas. Mas talvez tenha sido apenas alguns m inutos. A voz da televisão parecia repetir a m esm a frase sem parar.

Até que ouvi algo diferente. Tive a im pressão de que vinha de debaixo da cam a. Im aginei um m enino rolando um a bola de m adeira e depois batendo com ela no chão.

Rolando.

Tac. Tac. Tac.

Achei que estava ouvindo coisas. Mas o som m e era fam iliar, com o se fosse um a m ensagem que eu entendia inconscientem ente, m as não conseguia traduzir em palavras, irritante com o um espirro que não sai.

Você está ficando doido, Jack.

Mexa-se.

Levante-se.

Jack, levanta daí.

Rolando. Tac. Tac. Tac.

Acho que aquele desgraçado já foi embora.

Com dificuldade, consegui m e sentar. Quase caí da cam a. Torci o corpo para o lado, enfiei a m ão através no forro do estrado do box da cam a, tateando entre as m olas. Eu lem brei que havia algum m otivo para procurar algo ali. Senti algo m etálico na base da cam a.

Um pedaço de m ola ou um a presilha de algum tipo. Abaixei a cabeça e a apoiei no chão para olhar em baixo da cam a: escuridão total. Meus dedos estavam descoordenados. Senti um puxão forte no tornozelo.

Isso.

Peguei.

Algo que conseguia entortar. Para frente e para trás. Para frente e para trás. Cortei a m ão. Não doía. Sentia o sangue escorrer pelo pulso, caindo em espessas gotas no chão de Freddie.

Exatam ente com o nascer de novo.

Eu estava fazendo aquilo durar mais.

Ele tinha feito isso antes. Qual tinha sido o fim dos outros garotos? Por que não lutaram? Como o filho da puta conseguia sair impune todas as vezes?

O que aconteceu com os outros?

Eu estava prestes a desm aiar. Soltei a m ola e m e alavanquei de volta para a cam a. O sangue estava subindo para a cabeça. Precisava m e m exer e fiz abdom inais. Era ridículo. Não por estar m e contorcendo sem inu, preso a um a cam a, m as pelo que tinha feito para term inar ali. Torci o corpo para o lado m ais um a vez e derrubei o urinol com o m ovim ento. Com ecei a entortar a m ola novam ente.

Pic.

Ele era m uito idiota.

Devia ter m e deixado em paz no parque.

Com aquele pedaço de m etal, arranquei o lacre de ny lon do pé em cinco segundos.

O sangue escorria da m inha m ão e do m eu tornozelo, cobrindo a quina da cam a. Coberto de sangue, eu devia parecer um assassino, se alguém m e visse. Não tinha percebido o quanto aquele lacre tinha ferido m eu tornozelo.

De ouvidos atentos, m e levantei.

Silenciosam ente, tateei pelo quarto. Não havia nada, a não ser a cam a. Eu m e deparei com um a porta corrediça dupla, que deduzi que fosse um arm ário, e por baixo da única porta do recinto vinha um resquício de luz. Eu m e abaixei e colei o rosto no chão, tentando enxergar pela fresta. Não via nada, apenas um a lâm pada acesa refletida no chão. Senti que estava adorm ecendo, e m e pus de j oelhos.

Tontura.

Espere.

Abri as cortinas. Havia um lado de fora do outro lado da j anela, e era noite lá. Vi um telhado m ais abaixo. O quarto em que estava preso ficava no segundo andar. Na luz difusa, consegui vislum brar um a cerca branca, um a caixa de correio, carvalhos e lum inárias sobre pilares de tij olos na entrada de um a garagem .

Tinha de sair por ali, não podia m e arriscar a sair pela porta e passar pelo interior da casa. Era de lá que Freddie vinha, arrastando aquela cadeira, era lá que a Hora da Ametista ainda estava passando.

Encostei o rosto no vidro gelado. Tentei pensar. Queria m inhas roupas, m inha cam inhonete, m eu celular.

Queria poder pedir aj uda a Conner.

Queria que estivessem preocupados com igo ou ao m enos tentando m e ligar.

Fuja.

Queria chorar, queria até deitar de novo naquela cam a e ficar ali m orrendo de m edo.

Mas Jack não chora.

Talvez.

Abri o arm ário e enfiei a m ão lá dentro. Nada. Estava escuro. Fiquei de j oelhos, tateando o chão. Um pano. Talvez fosse apenas um pano de chão, nada m ais. Peguei e fui para a j anela. Eram calças verdes de m édico. Havia m anchas escuras de sangue em um a perna. Eram da m inha m ão.

Enquanto vestia as calças e am arrava o cordão, tentava não pensar em quem as teria usado antes de m im .

Abri o trinco, em purrei a j anela e pulei para fora.

Era boa a sensação das telhas sob m eus pés descalços.

Quando pulei do telhado, não dava para ver o chão. A queda foi forte. Bati o queixo num dos j oelhos e fiquei tonto novam ente. Tive de m e sentar no gram ado por alguns segundos. Olhei para o sangue espalhado pelas calças dele e para a entrada da garagem onde ele tinha estacionado para buscar aquela garrafa d’água.

A entrada da garagem estava vazia.

Eu era o único por lá.

Sai dali e peguei e a rua à direita.

A casa m ais próxim a ficava a uns quinhentos m etros. Não queria ver ninguém , nem ser visto. Ao longe, podia enxergar as luzes em baçadas e o som abafado dos carros passando pela rodovia 101.