A Lente de Marbury
Capítulo 24
VINTE E Q UATRO
Não queria m e despedir dela naquela noite.
Nos beij am os m ais um a vez e ela desceu as escadas do m etrô. Antes, param os e pedim os para um casal m ais velho tirar um a foto nossa. Queria ir com ela, m as Nickie m e pediu para ficar; disse que só deveria ir encontrá-la se realm ente não suportasse Londres sem ela, então deveria ligar e pegar um trem
Queria ser m ais com o Conner e convidá-la, descaradam ente, para subir para o quarto, m esm o que o m otivo fosse o m edo de voltar para o hotel sozinho.
Porque eu sabia o que ia fazer assim que chegasse.
Não com i nada à noite, não queria vom itar novam ente.
Logo que entrei no quarto, com ecei o procedim ento: colei os papéis na porta. Conner está vindo. Seis e quinze. Deixei as passagens do trem ao lado do telefone. Tinha pressa. Minhas m ãos trem iam com o as de um viciado à procura de outra dose.
E estava com m uita raiva de m im m esm o. Tirei as lentes de onde as tinha escondido e j oguei a m ochila no chão, ao lado da porta.
“Caralho!”, gritei. “Caralho, Jack! Para com isso!”
Não podia parar, m esm o que quisesse.
Chutei m inhas roupas espalhadas pelo chão, onde as havia deixado.
Vi que tinha guardado os lacres plásticos que Conner tinha tirado do carro de Freddie.
“Vai se foder, Jack!”
Enfurecido e trem endo, chutei a m ochila.
“Vai se foder, Freddie!”
Então m e despi, rasgando as roupas, e prendi m eu tornozelo ao pé da cam a.
Doeu.
Coloquei os óculos.
Até onde sabíam os, éram os os únicos seres hum anos vivos no m undo. Quem poderia contestar?
Na m anhã do segundo dia, bebíam os nossa própria urina antes de cruzarm os a terra esturricada e salgada do deserto. Destilar o próprio m ij o usando o calor do chão, um pedaço de plástico e a garrafa de água de Griffin era apenas m ais um a rotina de sobrevivência a que j á estávam os acostum ados.
Se não encontrássem os água, seria nosso últim o dia.
Os cavalos tam bém m al ficavam de pé.
Pus esverdeado escorria da m inha ferida e colava a cintura da calça ao m eu quadril. Fizem os um buraco em um dos cobertores para que eu pudesse usá-lo com o um poncho e cobrir m eu peito, dim inuindo a desidratação, m as acho que não servia de nada.
Não conversávam os m ais.
Griffin e Ben m e seguiam . Cavalgam os em direção às espirais negras dos picos rochosos ao norte, onde prom eti que encontraríam os água. Eles acreditavam em m im , j á eu, apenas pensava qual de nós m orreria prim eiro.
Não via Seth desde que tínham os partido, m as sentia o que ele fazia por m im e sabia tudo sobre ele – que fora um a criança abandonada e que tinha m atado alguém . Tam bém acho que sabia o m otivo de Seth esperar por m im por tanto tem po. Um dia, contaria sua história aos m eninos, para que soubessem que ele não era um a pessoa ruim .
Apenas teve m uito azar na vida.
Assim com o eu.
No prim eiro dia depois de partirm os, observei a planície seca e pude ver um rio negro brilhante, avançando para nós com o um a inundação. Eram necrófagos, procurando a caverna onde estávam os escondidos. Atrás do m ar cintilante de insetos, subia a poeira levantada pelos cavaleiros que nos seguiam .
Eram os Rastreadores. Dem ônios, nós os cham ávam os. Caçadores. O que m ais poderiam ser? Seria sem pre assim , agora quase nenhum de nós sobrara. Por isso cavalgávam os, queríam os encontrar alguém . Qualquer pessoa.
Quando saím os com Henry em busca de outros, éram os vinte.
Os garotos não se lem bravam de nada além daquela vida – a guerra, e eu m e perguntava se m inhas m em órias vinham dali ou se seriam de outro lugar. Estar em Marbury era com o estar aprisionado por Freddie Horvath: eu não tinha tem po ou forças para pensar no que era ou não real. Eu podia estar im aginando tudo: Marbury, Londres, Conner, Nickie.
Griffin se inclinou para frente e abraçou o pescoço de seu cavalo. Nenhum dos anim ais tinha sela, e eles eram guiados apenas por rédeas feitas de cordas toscas. Era agoniante cavalgá-los daquela form a.
“Tudo bem aí?” Perguntei. Aproxim ei m eu cavalo do dele para alcançá-lo.
“Não.” Sua voz estava áspera.
Ben cavalgava à frente. Parou o cavalo e olhou para gente.
“Sabe o que é aquilo, Jack?”
Apontou para frente e segui seu braço.
“Não sei.”
Vim os o que parecia ser um m uro de caixas escuras, distribuídas ao longo de um cam inho coberto de sal, a alguns quilôm etros dali. “Continuam os nessa direção?”, perguntou Ben.
Olhei para Griffin.
Ele vai ser o prim eiro a m orrer, pensei.
“Vam os”, respondi.
“Que porra é essa?”, Ben perguntou.
Griffin levantou a cabeça. Seus olhos eram fendas negras.
Eu sabia o que era. Conseguia m e lem brar.
Estendido no cam inho adiante, coberto de sal até o rodapé das portas, estava um trem de passageiros: sete vagões e um a locom otiva. Parecia que tinham colocado aquilo com o decoração, no m eio do nada, pois não havia trilhos em direção algum a.
Cutuquei o cavalo para aum entar o passo. Ele se contorcia um pouco e balançava a cabeça. Talvez sentisse cheiro de água.
“É um trem ”, eu disse. “Vam os.”
“E isso é bom ?”, perguntou Griffin, que tinha deitado o rosto sobre o pescoço do cavalo novam ente. “Vai servir para algum a coisa, Jack?”
“Vai, sim ”, respondi. “Eu prom eto.”
Levam os os cavalos até um dos lados do trem , dando a volta por trás da locom otiva, onde os vagões nos protegiam do vento seco. Mesm o m ontados, não conseguíam os alcançar as j anelas e ver o que havia lá dentro.
Fui o prim eiro a desm ontar, depois Ben. Griffin precisou da m inha aj uda.
Puxei a calça no ponto em que ela colava em m inha cintura.
“Está tudo bem ?”, Ben perguntou.
“Estou aguentando.”
Saquei m inha faca.
Ben tinha um a lança feita de um vergalhão afiado. Era tudo o que tínham os. Por isso, tínham os decidido ir com Henry Hewitt até o assentam ento, na esperança de encontrar algo m elhor.
Descalço, Griffin Goodrich não tinha nada. Apenas suas m ãos e sua m aldade, com o dizia Ben. O garoto não conhecia nada além da guerra e nem m esm o se lem brava de seus pais. Cavalgadas, fugas, lutas e pessoas m orrendo foi tudo o que aconteceu desde que Ben im plorou a Henry Hewitt que o levasse com seus cavaleiros. Os dois teriam virado com ida para os Caçadores anos atrás se Henry tivesse negado o pedido.
Na m aior parte do tem po, Griffin se recusava a usar roupas, dizendo não precisar delas. Tirei o poncho e j oguei sobre o cavalo. Depois, coloquei a m ão sobre o om bro de Griffin e disse, “Vam os dar um j eito de entrar neste trem . Mas tem os que ter cuidado. E precisam os ficar j untos. Faça um esforço para isso, certo, Griffin? Vou procurar água.”
“Tudo bem .”
“Jack”, Ben m e cham ou, “se conseguirm os entrar e tiver algum a coisa m orta ali dentro... Você sabe.”
“Tanto faz”, respondi. “Eles j á estão nos seguindo de qualquer m aneira.”
Os garotos m e seguiram até a traseira do últim o vagão. Havia um a porta corrediça retangular com um a pequena j anela. Servia para que as pessoas pudessem observar o que deixavam para trás, pensei.
A porta era delim itada por um a calha preta e grossa, um a borracha j á descam ada e esbranquiçada. Forcei a faca através da calha e alavanquei a porta o suficiente para abrir um a greta onde eu e Ben enfiam os os dedos para em purrar.
Foi fácil.
Entram os e fecham os a porta novam ente.