A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 54 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 54

CINQ UENTA E Q UATRO

 

“Jack!” Conner j á tinha nos visto antes de perceberm os que ele havia descido do trem .

Ele sorriu e m e abraçou. Tam bém abraçou Nickie e deu um beij o no rosto dela.

Conner estava radiante, vivo, com o eu queria estar.

“Cara”, ele disse. “Parece que você perdeu uns vinte quilos! E qual é a dessa calça rasgada?”

Conner não m udava nunca. Gostava disso nele.

Enquanto voltávam os pela plataform a em direção ao m etrô, Nickie disse o que eu tem ia.

“Acho m elhor ir para casa agora. Tenho certeza de que vou ter problem as quando m eus pais perceberem que eu não dorm i em casa.”

Conner m e deu um tapa na bunda. “Cara.”

“É nossa últim a noite, Nickie.” Minha voz soava patética e chorosa. “Eu e Conner vam os sair. Vem com a gente tam bém , por favor.”

“Opa! Vai rolar um ménage”, Conner disse.

“Cala a boca, Con.”

“Não sei”, disse Nickie. “Ligo para você m ais tarde. Se não puder ir, prom eto que vou ao aeroporto am anhã para m e despedir.”

Suspirei.

Assim que m e despedi dela com um beij o na estação de m etrô, Conner m e deu um tapinha no om bro e disse, “Só para constar: eu e a Rachel finalm ente tam bém fizem os o que você está pensando”.

“É m esm o? Que alívio”, respondi, revirando os olhos.

“Eu que o diga, cara.”

Fom os correr pela últim a vez no Regent’s Park. Tentei não m e distrair – com a lente, Marbury, Nickie ou a volta para casa –, m as não conseguia m e concentrar. Suados, andam os em direção ao hotel pela Mary lebone Road. Conner não conseguia disfarçar seu andar orgulhoso e radiante.

“Você está diferente”, ele disse.

“Você j á falou.” Passei a m ão pelos cabelos. “Estou m ais m agro, né?”

“Não, é a sua cara, Jack. O sexo fez bem para você, m eu caro.”

“Tá bom .”

“Você am a ela?”

“Estou totalm ente apaixonado por ela, Con.”

“E ainda tá puto com igo?”

“Nem um pouco. E com o você está com a Rachel?”

“Pois é, vou sair do Glenbrook e vir estudar aqui no próxim o sem estre.”

“Eu tam bém .”

Enquanto Conner tom ava banho, voltei a suar e a trem er. Minhas pernas e costas colavam ao vinil da cadeira. Não tirava os olhos das calças j eans em boladas ao lado da cam a.

Não faça isso, Jack.

Será que você não consegue ficar uma noite sem estragar a vida de quem você gosta?

Estava enj oado, olhei para o telefone, queria ouvir a voz de Nickie. Talvez ela pudesse m e salvar dos m eus pensam entos.

Fui ao frigobar, abri duas cervej as e, no banheiro, estendi um a garrafa para Conner. “Tom a. Hora da balada.”

Tentava Fazer qualquer coisa para ficar longe da lente de Marbury.

“Agora sai logo desse chuveiro porque eu quero m e arrum ar tam bém ”, eu disse.

Odiava quando aquilo acontecia. Quando andava de um lado para outro segurando o celular, esperando um a ligação, olhando e olhando a tela vazia. O telefone com eçou a tocar quando entrei no banho. Girou m eio círculo sobre a pia de m árm ore, vibrando.

Fechei a torneira e sacudi a água dos braços e das pernas. Atendi.

Não era ela.

“Henry ”, eu disse.

“Queria saber se você tinha voltado. Você não estava aqui de verdade quando veio m e visitar na terça, ou estava?”

“Não m e lem bro.”

Jack não se lem bra de nada.

Peguei um a toalha e m e enrolei, tentando m anter a voz baixa para que Conner não viesse. A televisão estava ligada no quarto. Parecia um a versão inglesa de A Hora da Ametista.

“Está tudo bem então?”

“Os m eninos estão bem agora.”

“E você?”

“Todo fodido, com o sem pre. Volto para casa am anhã.”

Silêncio.

“Sei.”

“Pois é.”

“Jack? Depois m e conta com o tudo term inou?”

“Depois”, respondi. “Tchau, Henry.”

Desliguei o telefone.

Fiquei pensando se ele estaria m agoado em relação a Marbury. Ele disse que não, m as eu não acreditava. Ficava im aginando Henry naquele exato m om ento, segurando o telefone em algum lugar de seu apartam ento im undo, sozinho e im potente, apenas esperando que as coisas acontecessem .

E não im portava m ais que Conner não o tivesse visto naquela noite ou ouvido sua voz ao telefone, nem m esm o se Henry Hewitt era real ou não, porque, assim que desliguei, estava certo de que nunca m ais falaria com ele.

Me sequei e vesti um a cam iseta e um a cueca lim pas. Era bom . Fazia m uito tem po que não m e sentia lim po. Tentava m e concentrar em sair com Conner e aproveitar nossa últim a noite em Londres, m as, quando entrei no quarto, ainda segurava o telefone, esperando aquela ligação.

Conner estava sentado, com um pé no chão e o outro sobre a cam a. Já estava calçado. Era o Conner de sem pre: o cara legal da propaganda de roupa de m arca, que parece estar sem pre arrum ado para sair e se divertir. Mas o ouvi dizer “te am o” ao telefone, desligar o aparelho, olhar para tela e guardá-lo no bolso.

Lim pei a garganta. “Nam oro sério, hein, Con?”

“Cara.” Pelo tom de voz, era m ais um a das piadas de Conner Kirk. “Era um a m ensagem de voz surpresa para você.”

“Sei, sei.”

Conner parou de sorrir. “O que aconteceu, Jack?”

“Ah, nada. Tudo bem .”

Com ecei a procurar um a calça.

“Nossa. Está tudo suj o”, eu reclam ei.

“Se você não vivesse com o um drogado, isso não aconteceria.”

Então, m e lem brei de que Nickie tinha deixado um a sacola de roupas lim pas. Ainda estava perto da porta. Quando abri a sacola, foi quase com o voltar no tem po. Todas as roupas que tinha usado naquele dia estavam lim pas e dobradinhas. Até as m eias. Peguei-as e m e sentei na cam a para calçá-las.

Foi aí que vi que Nickie tinha deixado um bilhetinho. Ela escreveu “Te am o”. Peguei o papel e fiquei olhando.

Conner veio bisbilhotar. “É pra m im ?”

“Ela lavou m inhas roupas.”

Tirei as calças j eans da sacola. Estavam m uito bem passadas, com o se fossem novas. Tinham o cheiro da casa de Nickie.

“Isso aqui”, Conner provocou, “se cham a dobrar. As pessoas norm ais dobram as roupas para elas não ficarem iguais a um j ornal velho achado no lixo. Observe, zé ruela.”

Em sua dem onstração, Conner pegou as calças de Ander ao lado da cam a e as sacudiu.

Foi quando a lente de Marbury caiu do bolso.

Não sei o que veio prim eiro, o “Puta que pariu!” de Conner ou o m eu singelo “Caralho!”, ou se dissem os ao m esm o tem po. Sei que o quarto foi tom ado por um clarão e um túnel de luz se abriu sobre a cam a. Tão poderoso que sentia o cheiro e ouvia os sons de Marbury. Olhei para as lentes ali, disparando um buraco sobre os lençóis am arrotados, um a abertura para outra eternidade.

Conner viu tam bém . “Com o essa porra veio parar aqui?”

Olhei para ele, seus olhos vidrados na lente.

“Consigo te ver lá, Jack!”

Olhei para baixo, vi um inseto preto do tam anho do m eu antebraço andando pela cam a.

Depois, não sabia de m ais nada.