A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 13 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 13

TREZE

 

Olhei o celular. Um dia tinha se passado, e eu estava do outro lado do planeta. Realm ente, m e sentia com o se tivesse sido arrancado do m eu m undo, m esm o que ainda perm anecesse aquele vazio – com o se tivesse de esperar o resto de m im m e alcançar.

Se é que alcançaria.

O trem até Londres estava vazio, pelo m enos onde eu m e sentei. Wy nn insistiu para que com prasse um bilhete de prim eira classe no Heathrow Express, m as percebi que os viaj antes norm alm ente optavam por m eios de transporte m ais baratos até a cidade. Senti que estava dentro de um ovo ou de um a bolha. Minha atenção se voltava para o repórter da TV à frente e o estranho m undo verde e cinza que passava rapidam ente pela j anela ao lado.

Meus avós tinham reservado um quarto para m im e Conner em um dos m elhores hotéis da cidade. Ficava próxim o ao Regent’s Park, a poucos m etros da estação Great Portland Street. Foi fácil encontrá-lo, m esm o sendo a m inha prim eira vez na cidade.

Quando entrei no quarto, j oguei a m ochila na cam a. Minhas costas suavam com o calor úm ido do verão londrino. O quarto era até bom , m as nada do que estava acostum ado nos Estados Unidos. Era m uito pequeno, claustrofóbico.

Tinha só um a cam a, que era enorm e e estava forrada com um edredom grosso e vários travesseiros. A cabeceira era tão alta quanto eu e tinha um espelho circular no centro. Pensei, Que ótimo, vou ter que dividir a cama com o Conner. Com um a m esa de com putador, um arm ário com um a TV de tela plana, um a poltrona, um espelho de chão e dois criados-m udos, quase não dava para ver o piso. Tirei os tênis – os m esm os Vans que usava na noite em que fui sequestrado por Freddie Horvath. O hom em que havíam os m atado.

Chega, Jack.

Fui até o banheiro. Tam bém era pequeno. Percebi que só dava para abrir a porta do chuveiro se a porta do banheiro tam bém estivesse aberta – ou eu teria de subir pela banheira que tinha quase um m etro de altura.

Estranho.

Enchi um copo de água da torneira e bebi. Era m eio viscosa.

Conferi o fuso-horário no celular. Estava m uito cedo para ligar para Conner e ainda não queria conversar com Stella.

Fui até a j anela.

Havia algo no céu londrino que parecia plano e sufocante. Estava m uito acostum ado às m ontanhas e às colinas da Califórnia. Então o horizonte de Londres m e fazia sentir que estava atrás de um a lente. Mas o ar era m uito m ais leve. Definitivam ente, não tinha o m esm o cheiro da Califórnia. Um a cerca alta delim itava o parque do outro lado da rua. Em com paração a onde eu m orava, as coisas pareciam perfeitas dem ais. Tudo era bem cuidado, verde e vivo. Vi grupos de pessoas correndo, entrando e saindo pelo portão de ferro.

Boa ideia.

Abri a m ochila. Estava com sono, m as decidi ficar acordado até a noite para com eçar a m e aj ustar à m udança de horário. Peguei m inhas roupas de corrida e m e despi. Por um m om ento, fiquei sentado na cam a olhando para o espelho, m as sacudi a cabeça – com o um cão m olhado – e am arrei m eus tênis de corrida.

Se conseguir fazer isso, disse a m im m esm o, j á devo estar m elhorando.

O saguão do hotel era com o um a caverna com terraço. Do elevador, tive de descer um lance curto de escadas até o salão principal, que estava lotado. Todos ali pareciam estar vestidos para algum evento form al. Tentei m e convencer de que olhavam para m im só porque não esperavam ver um m enino cansado, franzino e despenteado, usando apenas um a berm uda e um a cam isa furada em um lugar com o aquele.

Percebi, então, que não tinha bolsos para guardar o cartão do quarto. Fiquei nervoso só de pensar em deixá-lo com alguém . Olhei para o balcão da recepção. O suj eito atrás dele olhava para m im , sorridente. Parecia saber o que eu estava pensando. Coloquei o cartão dentro do forro da berm uda, torcendo para que não caísse. Nada confortável. Ele continuava m e olhando.

Fui até a entrada onde hom ens uniform izados estavam de pé. Tentei m anter m eu olhar no chão. Madeira escura. Igual ao do piso onde eu tinha nascido, pensei. Eu estava tão envergonhado por algum m otivo, era com o se m inha pele queim asse sob tanta atenção.

Parem de olhar para mim, caramba!

Os porteiros estavam a postos. Com suas luvas brancas, indicavam a saída.

Passei pelo bar do saguão.

Algum a coisa m e fez parar.

Aquela foi a prim eira vez em que vi o hom em dos óculos roxos.

E, apesar de não ter percebido naquele m om ento, era a prim eira vez que via o outro lado.

Acho que preciso desacelerar um pouco aqui para m e lem brar exatam ente com o tudo aconteceu.

Com o as coisas com eçaram a desm oronar para Jack.