A Lente de Marbury
Capítulo 42
Q UARENTA E DOIS
Quando nossos cavalos chegaram ao topo da cordilheira, o ar estava úm ido e soprava constantem ente do oeste. Parecia que havia um oceano por perto, pensei, m esm o que tudo o que pudéssem os ver fosse a constante neblina branca que escondia o horizonte, com o se cavalgássem os para o fim do m undo.
E o fim do m undo continuava a se afastar de nós, a nos tentar: se quiser sair de Marbury, tem de se esforçar mais.
Do outro lado da cordilheira, encontram os m ais água. Havia vida ali.
Fazia dois dias desde a em boscada no desfiladeiro e tínham os um a ligeira segurança de que não estávam os sendo seguidos. Estávam os os três cansados e doloridos da cavalgada, então concordam os em acam par por pelo m enos um dia, em um lugar que tínham os encontrado no vale de um cânion. Assim , os cavalos poderiam descansar e nós teríam os tem po para pensar sobre o que fazer em seguida.
A paisagem do cânion era form ada por um largo riacho que serpenteava no m eio do vale.. Havia m uitas paineiras e salgueiros nas encostas, e sinais de que havia anim ais para caçar. Era o lugar m ais decente do qual pudem os nos lem brar, m as tam bém sabíam os que não podíam os ficar ali por m uito tem po.
Tínham os de continuar.
Os Caçadores estavam atrás de nós.
Prendem os os cavalos com cordas com pridas para que pudessem com er e beber. Ben descarregou as sacolas, ainda cheias do que tínham os encontrado no trem . Desde a em boscada, não tínham os parado por m ais de algum as horas para descansar e com er. Griffin, descalço com o sem pre, desceu até a m argem do rio, deixou as calças com as arm as no chão e pulou na água. Seu cachorro o observava, confuso, testando a correnteza com a pata. O cãozinho trem ia, choram ingando e ganindo para o m enino.
Ben soltou o cinto com as arm as e se sentou ao m eu lado. Apoiávam os as costas sobre o tronco liso e bipartido de um a paineira, de frente para o rio, para observarm os Griffin nadando e batendo os braços na água.
“Eu poderia dorm ir aqui”, disse.
“Não vou m entir, Jack, acho que esse é o m elhor lugar que eu j á vi na vida.”
“Sim .”
Para além daquelas m ontanhas íngrem es, no m undo desbotado de Marbury, tínham os encontrado um oásis verde e vivo, ainda que pálido e tem porário.
Vi a cabeça de Griffin desaparecer sob o reflexo da água e aparecer novam ente rio abaixo. O cachorro agoniado ainda uivava para ele, m as o m enino apenas ria e brincava com a água. Cuspiu para cim a com o um chafariz e acenou com o braço para nós. “Vem pra água tam bém ! Vocês dois estão precisando de um banho m esm o! Nunca vi água assim na vida! Nunca!”
“Já estam os indo, Griff”, disse.
Desam arrei as botas e tirei as m eias.
“Então, eu trouxe aquela garrafa de uísque”, disse Ben. “Vam os beber?”
“Não sei.”
“A gente está se saindo m uito bem . O Henry ia ficar orgulhoso de você.”
“Será?”
“É com o ele falou. Não sei por que, m as ele falou m esm o. Você não se lem bra m esm o, não é?”
“Não m uito bem .”
“Você era com o um filho para ele, Jack. O favorito. Confiava em você m ais que tudo.”
“Queria que nunca tivesse confiado.”
“Sem pre falava que você era com o ele. Que eram do m esm o lugar horrível. Você não se lem bra?”
“O que é m ais horrível que aqui?”
De repente, Griffin com eçou a se debater e gritar. “Caralho! Tem um peixe aqui! Pega a arm a, Ben. Eu vi um peixe!”
Ben e eu rim os.
Ben descalçou as botas e as m eias, e com eçou a esvaziar os bolsos das calças. “Acho que é um a boa ideia lavar as calças se a gente entrar na água. Ele não vai m esm o sossegar até a gente entrar.” Então m e olhou, confuso. “Dá para pescar atirando?”
“Não, não dá. Mas vou pensar em algum a coisa para pegar aquele peixe. E talvez a gente tom e um pouco de uísque tam bém .”
Ben se levantou e foi até um a m ala que tinha am arrado a um alforj e e olhou para Griffin, que não tirava os olhos da superfície da água, com o um gato encurralando um a presa.
“Não vai sair atirando. Já estam os indo. Vem cá e esvazia seus bolsos tam bém , para você lavar suas calças.”
Havia algum a m unição dentro dos m eus bolsos. Desafivelei o cinto da arm a e deixei m inha faca ao lado dele. Então, tirei as em balagens de com ida que daria à freira e ao velho doido dois dias antes. Ben viu.
“Você não deu a com ida para eles”, ele disse. Não era um a pergunta.
“Não.”
“Foi m elhor m esm o não falar nada para o Griffin.”
A água estava ótim a. A única coisa pura e refrescante desde o prim eiro dia naquele lugar onde tinha visto a cabeça de Henry Hewitt em palada em um m uro. De onde estava, com água até a cintura, no m eio do riacho, via Seth, esperando no lugar onde Ben e eu deixam os a garrafa de uísque pela m etade, olhando para gente enquanto nadávam os e brincávam os um com o outro. Mas, quando olhei para ele novam ente, desapareceu entre as árvores.
Naquele m om ento, estava convencido de que Seth iria em bora.
Lavam os nossas roupas, m as as de Ben ficaram com m anchas pretas de sangue. Quando ficam os todos cansados de nadar, prom eti aos m eninos que os ensinaria a pescar.
Usando um anzol feito de um pino de segurança e um a linha do kit de prim eiros socorros de Griffin, e com nada m ais que algodão de curativo com o isca, pegam os dois peixes. Sentado sem roupas à m argem do rio, cortei os peixes com a m inha faca e com i a carne crua enquanto nossas roupas secavam sob o calor da tarde, penduradas nos galhos de um salgueiro.
Nenhum dos dois tinha com ido peixe antes e Griffin disse preferir peixe a balas.
“Podem os m orar aqui?”, perguntou.
“Acho que não estam os longe o suficiente, Griff”, respondi. “Podem os ficar aqui alguns dias e ver o que acontece.”
Ben j ogou um pouco de com ida para o cachorro de Griffin. “Até onde a gente precisa andar?”
“Não sei. Acho que estam os no cam inho certo. Estou sentindo cheiro de m ar. Talvez, continuando a descida pelas m ontanhas. Tenho um pressentim ento de que vam os encontrar gente lá.
“Gente norm al”, disse Ben.
“Tudo bem ”, disse Griffin. “Você esteve certo até agora, Jack. Se encontrarm os gente, talvez sej am de todos os tipos. Quem sabe algum as m eninas tam bém .” – Ele aproxim ou o rosto do m eu peito ferido. “Parece que m elhorou. Ainda está doendo?”
“Agora só está coçando.”
“Que bom .”
O cachorro latiu um a vez. Ficam os a postos, ouvindo, observando, esperando algum a coisa acontecer. O cão agora rosnava, com as orelhas em pinadas.
Algo vinha pelas árvores.
Então os vi.
– Duas das criaturas.
Pararam quando o cachorro latiu m ais um a vez, m as dava para ver o verm elho flam ej ante de um a das m arcas.
Era Conner.
Ouvi batidas insistentes.
O som de um a m açaneta girando.
“Dorm iu na banheira, cara?”
Abri m eus olhos, tive de pensar onde estava.
Conner estava ao m eu lado.
Esticou o braço para fechar a água.
“Tá gelada, cara. Você entrou naquelas de novo?”
Apalpei o rosto, m as não senti os óculos.
Era com o se apenas tivesse feito um passeio por lá. Era a única explicação: Marbury estava se tornando m ais e m ais com o esse m undo. Tão fácil quanto entrar em outro côm odo da casa, ou m udar o canal da TV.
Isto é real.
Você estragou tudo de novo, Jack.
Preciso voltar.
“Não, eu... eu...”
“Jack? Conner? Tudo bem aí?”, era a voz de Nickie, do outro lado da porta.
“Tudo bem . Acho que ele dorm iu na banheira”, disse Conner.
Ele parecia puto.
Esfreguei os olhos e senti o enj oo que j á com eçava. Mas não sentia as pernas. Não conseguia m e m exer.
Conner se abaixou e, com força, tentou m e levantar pelo braço. Não tinha cuidado, não parecia Conner. Doía. Conner aproxim ou o rosto do m eu e sussurrou, “Você tava fazendo m erda de novo, não é?”.
Conner tentou m e levantar novam ente.
“Não, Con, eu j uro! Eu... acabei dorm indo.”
“Olha pra você. Sua boca tá roxa, porra. Levanta.”
Logo que m e sentei, virei o corpo de lado para vom itar no vaso.
“Você estava lá, não é?”
“Não.”
Onde coloquei aquelas lentes malditas?
Conner apenas olhou para m im e sacudiu a cabeça.
Ele sabia que eu estava m entindo.
Jack, seu mentiroso de merda.
“Agora veste a roupa, seu bosta. As m eninas estão esperando.”
Meu am igo nunca tinha falado assim com igo. Era com o um soco na cara. Mas eu m erecia.
Vai se foder, Jack.
Conner j ogou um a toalha sobre a m inha cabeça e soltou um suspiro exasperado.
“Você falou que ia dar um j eito naquela m erda, Jack. E agora olha o que tá acontecendo com você. Olha no espelho, porra!”
Conner saiu e fechou a porta. Ouvi quando ele falou com Nickie, “Não sei o que está acontecendo com ele. Dorm iu na banheira, m as falou que está tudo bem e que j á está vindo”.
Me senti horrível, m ais por ter decepcionado m eu m elhor am igo, por m entir para ele. Conner devia estar pensando que eu não m e im portava, que tudo o que eu queria era foder m inha cabeça com aqueles óculos.
Sequei o rosto com a toalha. Estava pálido, com os m úsculos travados de frio.
Tac. Tac. Tac.
Ah, não.
“Jack?”
Era apenas Nickie que batia à porta com a palm a da m ão.
Suspirei.
Vai se foder, Jack.
Nickie olhava para m im pela porta entreaberta.
Aflito, tentava cobrir o corpo com aquela toalha m inúscula, enrolada desaj eitadam ente em volta da cintura.
“Desculpa”, Nickie disse, escondendo-se atrás da porta, com o se a tivesse assustado.
“Está tudo bem ”, respondi, vestindo a toalha com o um a saia.
“Se não estiver se sentindo bem , a gente pode ficar no hotel pra você descansar.”
Estava m e sentindo ridículo. Olhava para m inha m ochila aberta com as roupas e depois para a porta. Entre um a e outra, ficava ali, parado, sem saber o que fazer. Acabei abrindo a porta, para que ela pudesse m e ver.
“Estou bem . Mesm o.” Tentei sorrir. “Lem bra que te falei que eu estava cansado? Eu acabei dorm indo, só isso.”
Nickie m e fitava com um sorriso confiante. Nem se preocupava em disfarçar enquanto seus olhos desciam pelo m eu corpo.
Fiquei tão acanhado. Mesm o com a m ão agarrada ao nó na cintura, tinha m edo de que aquele paninho de nada estivesse m ostrando algum a coisa. O olhar de Nickie m exia com igo, tanto que j á com eçava a sentir aquela toalhinha ridícula se esticando. Tentei disfarçar o volum e inconveniente que em ergia.
Queria um buraco para m e esconder.
“Olha!”, ela disse, um tanto surpresa. “É seu?”
Nickie se abaixou tão perto da m inha cintura que senti a brisa de seus cabelos esvoaçantes na m ão que eu tinha colocado na frente do m eu pinto. Ela pegou os óculos entre as roupas dentro m ochila.
“Que m odernoso.” Ela disse. E riu. “E roxos ainda por cim a!”
Afobado e confuso, quase entrei em pânico.
“Não, Nickie...”
E fiquei ali, indefeso, totalm ente paralisado, um a m ão lutando contra a ereção im placável e a outra agarrada àquela toalhinha, tudo aquilo enquanto Nickie desdobrava as hastes e colocava os óculos em seu lindo rosto.
“Nickie...”
Quando Nickie se virou para m im , vi as lentes ganharem vida, com o se fossem buracos profundos brotando da cabeça dela, ilum inando um outro m undo.
As árvores.
Vej o Conner em pé no m eio delas.
E Griffin.
Assustado, Griffin foge de algum a coisa. Corre m uito. Está sem roupas e ainda m olhado da água do rio. Suas calças balançam ao vento, penduradas ao galho do salgueiro.
Correndo.
Não olhe, Jack.
Estendo os braços e seguro os óculos pelas hastes.
“Tá bom , Nickie. Já chega.”
Enquanto tiro as lentes de seus olhos, eu o vej o.
Freddie Horvath.
Ele está lá tam bém .
Freddie Horvath deixou minha cabeça assim.
Socorro.
Ouvia os gritos de Griffin.
Ele precisava de aj uda.
Nickie sorriu e, confusa, franziu a testa. “Não m e diga que você consegue enxergar por essas lentes, Jack?”
“Ahn, sim .” Estiquei a toalha com as m ãos.
Nada rolava lá embaixo depois do que Jack viu essa merda.
Então, sem olhar, dobrei os óculos e os enrolei em um a cueca, que enterrei no fundo da m ochila.
Freddie Horvath estava lá.
E tinha me visto.
Griffin precisa de ajuda.
Engoli seco, endireitei o corpo e acertei a toalha na cintura. “Você conseguiu enxergar algum a coisa?”
“Não”, Nickie levantou os om bros. “Não dá para ver nada. Tudo escuro.”
“Ah, tá.” Suspirei.
Alívio.
Talvez.
“Então anda logo”, ela disse, passando a m ão pelo m eu peito. “A gente está m orrendo de fom e. Você precisa pelo m enos vestir um a calça ou algum a coisa que dê para cobrir... suas partes m ais salientes, Jack.”
Nickie sorriu, piscou para m im , girou nos calcanhares e, saiu do banheiro.