A Lente de Marbury
Parte Quatro: A Lente de Marbury
Parte quatro
A LENTE DE MARBURY
Q UARENTA E TRÊS
Vou te contar algum as coisas sobre Jack.
Meu pai se cham a Mike Heath. Apesar disso, m e cham o John Wy nn Whitm ore IV, com o o pai de Am y, conhecido com o Wy nn.
Nunca vi Mike sequer um a vez na vida. Na verdade, som ente soube dele olhando alguns álbuns de fotos do colégio de Am y. Não tinham se preocupado em escondê-los.
Nem ao m enos pensaram que o pequeno Jack pudesse ter tal curiosidade.
Mike Heath e Am y se form aram no m esm o ano: 1994, um ano antes de o pequeno Jack sair para o m undo por entre as pernas de Am y, escorregando pelo chão da cozinha. Mike parecia ser um suj eito de poucas palavras. Tinha escrito apenas “Te am o, Am y ” abaixo de sua fotografia. Olhar para aquela foto era com o m e ver no espelho. Não restava qualquer dúvida no triste caso de paternidade de Jack Whitm ore.
Mike era do tim e de basquete, alto e m agricela – todo j oelhos e cotovelos, exatam ente com o seu garoto aqui –, e m esm o que todos os garotos do colégio usassem cabelos curtos e perfeitam ente penteados em 1994, os cabelos castanhos de Mike eram exatam ente com o os do filho: com pridos, na altura do queixo, um a onda que term inava em pontas levem ente loiras. Mike inclusive tinha o m esm o sorriso torto que Jack m ostrava nas fotos de seu próprio álbum .
Meu pai.
Meio que dá um nó na garganta, não é?
Vai se foder, Jack.
Tinha descoberto que Mike tinha se m udado para San Luis Obispo depois de se form ar. Sem pre o procurava pela internet. Ainda m orava lá. Algum as vezes, com eçava a dirigir até lá para tentar ver seu rosto, apenas para saber com o seria o Jack de 30 anos, m as Conner sem pre m e convencia a desistir da ideia. Para quê, afinal? O papai de Jack não estava lá m uito interessado em passar as tardes no parque j ogando beisebol com seu filhinho.
É, vai se foder também, Mike.
Am y não se form ou no Glenbrook. Wy nn e Stella a transferiram para outro lugar assim que Jack se esparram ou pelo belo chão da cozinha deles. Mas não im porta. Não precisavam m e contar a história. Era fácil adivinhar que Mike tinha dado um pé na bunda da pobre garota logo que soube onde seu sêm en tinha ido parar: não em um a privada ou em um pedaço de papel higiênico qualquer, m as sim na incrível fábrica de fazer Jacks da Am y. E assim que m eus avós m andaram Am y para longe, e longe a m antiveram , Jack nunca m ais viu sua m am ãezinha.
Quando com pletei 16 anos, Am y estava m orando na Indonésia com um artista australiano que era um ano m ais velho que Wy nn.
Ah, que gracinha. A mamãe do Jack.
Vai se foder, Amy.
Era isso. Odiava os dois: Mike e Am y. Mas não odiava Wy nn e Stella. Era diferente. Não sentia nada por eles. Nada. Se fossem m obília ou papel de parede, não faria diferença.
Apesar de tudo, não sinto pena de m im m esm o. As coisas eram assim e, depois de dezesseis anos, Jack j á estava acostum ado. Na verdade, para ser sincero, a única pessoa que am ava de verdade era Conner. Além de Ben e Griffin, do outro lado. Desconfiava de que estava com eçando a sentir o m esm o por Nickie tam bém – e não só porque eu e ela notam os que ela m e deixava de pau duro.
Mas Jack j á estava estragando as coisas com Conner e não dem oraria a fazer o m esm o com Nickie.
Não gostava daquilo.
Não gostava de não saber por onde com eçar.
Fom os a um restaurante indonésio em Blackpool e durante o j antar contam os nossas pequenas autobiografias. Não m e senti envergonhado por falar sobre Mike Heath e Am y e do quanto os odiava, ainda m ais naquele m om ento em que tinha pisado na bola com Conner e por tudo o que acontecia em Marbury. É claro que não contei a parte sobre Ben e Griffin e o quanto Nickie m e estim ulava ereções, m as olhei diretam ente nos olhos de Conner quando disse que ele era a única pessoa no m undo que eu realm ente am ava.
Sei que aquilo tam bém era im portante para ele porque não fez nenhum a piada de gay, com o sem pre fazia. Conner apenas deu um tapinha na m inha m ão sobre a m esa, com um olhar um tanto desconcertado. Pelo m enos, sabia que Conner estava arrependido de ter falado daquele j eito com igo, m esm o que eu m erecesse.
“E então aconteceu um a coisa m uito ruim um as três sem anas atrás”, falei, olhando para as pequenas porções de com ida sobre a m esa. “Um cara m e drogou, m e sequestrou e tentou m e estuprar. Ele m e deixou sem roupa por dois dias e pode-se dizer que m e torturou tam bém . Com um a arm a de choque. Mas eu consegui fugir. Às vezes, acho que as drogas que inj etou em m im para m e dopar fizeram algum a coisa com a m inha cabeça.”
Freddie Horvath fez alguma coisa.
Conner m ordeu o lábio.
Nickie e Rachel ficaram olhando para m im e depois para Conner, tentando decifrar se eu falava sério ou não.
Tom ei um gole de água. Estava sufocado. “Desculpa. Só estava vendo se conseguia contar. Nunca tinha falado sobre isso com ninguém além do Conner. Ele salvou m inha vida. Olha só, foi por aqui que fiquei preso.”
Arrastei a cadeira para trás, tirei o calcanhar do tênis e abaixei a m eia para m ostrar a cicatriz que Freddie tinha deixado em Jack. Nickie olhou para m im com o se tam bém sentisse a dor que senti. Ou talvez fosse o alívio de finalm ente saber algum a coisa de verdade sobre m im , não sei. Colocou os dedos sobre a cicatriz e a acariciou levem ente. Ela acreditava em m im . Beij ou a m inha bochecha e disse, “Você é m uito coraj oso, Jack”.
“Pronto. Agora é a vez da Rachel”, falei, pigarreando.
Desconfortável, Rachel se aj eitou na cadeira, olhando para cada um de nós. “Moro perto de Harrogate, com quatro irm ãos m ais novos, m inha m ãe e m eu pai, que é m édico num a clínica em Leeds. Minha vida é bem norm al. Estou sem pre visitando a Nickie. Já fui para os Estados Unidos, m as nunca para a Califórnia e, até pouco tem po, não dava m uita bola para m eninos am ericanos.” Rachel deixou escapar um a risadinha e colocou a m ão sobre a de Conner.
Conner sorriu. Ele sem pre tinha aquela expressão quando ficava nervoso. Essa era um a coisa que nunca tinha entendido a seu respeito: ele sem pre ficava se m ostrando quando estava com igo, m as ficava envergonhado quando era o centro das atenções. “Nasci e cresci em Glenbrook. O Jack foi m eu prim eiro am igo, e é m eu m elhor am igo. Faço qualquer coisa por ele. Eu am o esse cara.”
Então, m e olhou de relance e continuou, “A gente sabe tudo um do outro, sem segredos. Fazem os cross-country j untos, dirigim os o m esm o tipo de cam inhonete, som os praticam ente irm ãos. Meus pais são corretores, e tam bém am o os dois”.
Enquanto falava, Conner olhava para m im , franzindo um pouco a testa, m as j á deveria saber que não precisava se preocupar. Não m e sentia m al com o que ele estava falando. Sabia o quanto era próxim o da fam ília.
“Tenho um irm ão m ais velho, o Ry an, que estuda em Berkeley, então sou o único que sobrou em casa. Ah, e eu não tenho nam orada, não im porta o que o Jack disse. E o Jack e eu decidim os vir estudar em Kent no próxim o sem estre. Pronto, agora é a vez da Nickie.”
Já sabia o que ela diria. O nom e dela é Nickie Strom berg, o pai trabalha em um a em presa do ram o portuário em Estocolm o, onde a fam ília tem outra casa. “Tenho um irm ão m ais novo, o Ander. Ele tem 15 anos e j oga futebol. Ele é m uito engraçado, vocês iam gostar dele. Espero que vocês dois venham m esm o estudar na Inglaterra, porque j á m e considero um a de vocês.
“De qual dos dois?”, Nickie ficou verm elha com a pergunta de Conner.
Nickie deslizou a m ão por m inha coxa. Aquilo m e deixou louco. Naquele m om ento, adm ito, queria fazer sexo com Nickie m ais que tudo. E, quando sua m ão subiu para a m inha virilha, tam bém descobri outra coisa sobre Jack e o sexo: não queria ser o m esm o filho da puta que Mike Heath tinha sido com igo e com Am y.
“Vou continuar a sessão biográfica”, falei. A m ão de Nickie estava dobrada por debaixo da m inha perna. Não queria m e levantar. Com certeza iam perceber. Gaguej ei e tentei não pensar na m ão dela. “É um a história de fantasm a, de um m enino que viveu na Califórnia nos anos 1880. Seu nom e era Seth Mansfield.”