A Lente de Marbury
Capítulo 30
TRINTA
Henry gem eu e rolou, tentando se afastar.
Cuspiu sangue em um a pequena poça no chão bem em baixo de seu rosto.
Ele lim pou os lábios e disse, “soubesse que era para isso que você queria m e ver.”
Abracei os j oelhos enquanto recuperava o fôlego. Observava a rua. “Bem .” Henry se levantou. Podia sentir que olhava para m im , m as não m e m exi. “Se servir de consolo, eu tam bém m e sentia assim , Jack.”
“Por que ainda está m e seguindo?”
“Sabe, não consigo parar. Em parte, fico feliz por estar livre daquele lugar, m as, no fundo, o que eu m ais quero é voltar para lá, desesperadam ente.”
“Então traga os m eninos de volta.”
“Não tenho com o voltar. E você não pode abandoná-los j usto agora.” Henry deu um passo em m inha direção. Queria bater ainda m ais nele. “Daria tudo para poder voltar. Os óculos não m e levam m ais a lugar nenhum . As lentes não m e m ostram nada. Você viu o que aconteceu com igo em Marbury ? Você viu, não viu?”
Eu vi sua cabeça empalada naquele maldito muro.
“Vi.”
“Não é um m undo m uito acolhedor, não acha?”
“Qual deles?”
Henry riu. “Gosto de você. Sem pre gostei. E aqueles m eninos te am am . Você é tudo que Ben e Griffin têm agora.”
“Não tem m ais ninguém vivo do lado de lá?”
“Não sei.” Henry se aj oelhou atrás de m im , quase sussurrando. “Não sabia sobre o seu am igo, aquele do pub. Juro que não sabia.”
“Você j á tinha visto ele em Marbury ?”
“Já.” Henry pôs a m ão no m eu om bro, m as m e afastei. “Eu não sabia. Se soubesse, não tinha procurado você, Jack. Teria procurado o Ben. Você tem que acreditar em m im , Jack. O nom e dele é Conner.”
“Mas o que eu posso fazer?”
“Não sei. É por isso que disse que você precisa ter cuidado com quem procura, principalm ente se são seus am igos. Não sei. Acho que j á não tem quase ninguém vivo naquele lugar. Muito m enos de nós que deles. Mas sei que nossas conexões neste m undo estão relacionadas às nossas conexões em Marbury. Foi por isso que nunca perdi as esperanças de encontrar você. Juro que tam bém pensei em procurar Ben e Griffin.” Henry se levantou e deu um passo para trás. “É assim que todos os m undos com eçam , Jack. E é assim que todos eles acabam . Em guerra. Não sei dizer se é o com eço ou o fim de Marbury.”
Mas não m e interessava o que ele dizia.
“Você só fala m erda.”
“Olha, vou em bora. Vou tentar te deixar em paz, prom eto. Só m ais um a coisa: m e diz o que aconteceu com vocês desde a prim eira vez que foi pra lá? Se m e contar, tento esquecer tudo e deixo você em paz. Pode ser?”
“Vai se foder.”
Não olhava para ele, não queria. Henry era só m ais um m onstro roubando algum a coisa de m im . Já estava farto dele, de Marbury, de tudo.
Fiquei sentado na calçada, olhando para a rua, enquanto ouvia os passos de Henry Hewitt se afastando.
Tac. Tac. Tac.
Debruçado sobre a lata de lixo, estendi o braço até encontrar a m eia que envolvia os óculos. Virei para trás e vi que Henry m e olhava.
“É difícil se controlar quando você j á está à beira do abism o, Jack.”
Guardei as lentes na parte de dento da calça e segui pela rua, para longe dele.
Henry gritou, “Se cuida, Jack. Eu não vou sum ir.”
“Vai se foder, Henry ”, falei para m im m esm o.
Um a da m anhã.
Eu trem ia.
Estava sentado com os cotovelos na escrivaninha, olhando para aquele em brulho branco sobre a m adeira envernizada.
Como um bebê que acaba de nascer.
Um a da m anhã.
Observava Conner dorm ir, queria estar dorm indo.
Escrevi as horas em um papel com a m ão trêm ula: Uma da manhã.
Rolando e...
Tac.
Tac.
Tac.
“Shhh...”
“Seth”, ele disse.
“Meu nom e é Jack”, sussurrei.
“Eu sei.”
“Por que não te vej o aqui?”
“Estou com m edo.”
“De m im ?”
Então, percebi que Seth estava bem ali ao m eu lado, entre a cam a e a parede. A m esm a im agem translúcida do garoto que tinha visto em Marbury, na caverna e, depois, no trem . Estava bem ali, im óvel, o rosto sereno, com os olhos negros nos m eus. Era Seth, descalço e sem cam iseta, vestia as m esm as calças rasgadas presas ao quadril por um cordão. Logo que olhei para ele, desapareceu novam ente, fazendo aquele ruído debaixo da cam a: rolando e batendo, rolando e batendo.
“Shhh...”, eu disse, engolindo em seco. “Eu deveria voltar, não é? Você quer que eu volte?”
Tirei os óculos da m eia.
Via o céu m orto de Marbury do outro lado das lentes.
Um m undo entre m eus dedos.
Não posso fugir e não quero fugir.
Mereço tudo isso.
Vai se foder, Jack.
Os óculos trem iam nas m inhas m ãos enquanto eu desdobrava a haste.
Um a da m anhã.
Ficarei só um pouco por lá.