A Lente de Marbury
Capítulo 38
TRINTA E OITO
Pegam os o ônibus para Blackpool na estação Victoria antes das oito da m anhã. Não tínham os dorm ido m uito depois daquela m erda de noite. Esvaziam os o frigobar de tudo o que fosse vagam ente alcoólico, m as não aj udou. Tenho certeza de que ficam os deitados a noite inteira, pensando sobre o que o outro teria visto, ou descoberto. Mal nos falam os depois de Conner ter se levantado do chão do banheiro.
A viagem duraria seis horas.
Quando o ônibus saiu da cidade, liguei para Nickie. Era quase com o se tivesse de ouvir a voz dela para ter certeza de que aquilo estava acontecendo, para saber que havia m esm o um lugar cham ado Blackpool e de que ela estaria lá, nos esperando, quando o ônibus chegasse no fim da tarde.
Tirei um a foto de Conner com o celular e enviei para Nickie: “olha aqui um a foto do conner. não se preocupa, ele nao ta pelado, pra variar um pouco. eh so pra rachel ver com o ele eh feio! hahaha”. Conner estava encostado na j anela, com olhos sonolentos, usando um capuz preto, torto. Seu cabelo loiro-claro caía sobre um dos olhos e ele sorria com o canto da boca. Sem pre sorria assim : com o se soubesse de algum a coisa que você não sabe. Era um a ótim a foto dele, porque assim era Conner Kirk de verdade. O Conner do m undo de cá.
Chega, Jack.
Você sabe que não vai deixar Ben e Griffin sozinhos.
Quanto tempo você acha que aguenta até pegar aqueles malditos óculos de novo.
Quanto tempo até Conner perguntar onde você está escondendo eles.
Conner tossiu e se aj eitou no assento. Seu j oelho bateu no m eu.
“Desculpa, Jack.”
Conner nunca diria isso pra m im .
Que se foda este lugar.
Suspirei. “É, pois é, desculpa tam bém , Con.”
“Com o assim ?”
“A gente não vai conversar m ais, é isso?”
Um a m ulher grisalha se virou e com eçou a olhar para nós pela fresta entre os dois assentos da frente.
“Deixa de m erda”, Conner sussurrou.
“Ahã. Que nem aquele Gary do banheiro do aeroporto.”
“Você sabia o nom e dele?”
“O filho da puta se sentou do m eu lado no avião e se apresentou. Ficou m e cantando o tem po todo, m e cham ou para sair em Londres... Então a aerom oça sentiu pena de m im e m e levou pra prim eira classe depois do cara tentar agarrar m inhas bolas.”
“Cara, por que você só atrai esse povo bizarro?”, Conner riu.
“Pois é.”
“Então”, ele disse, “quem vai falar prim eiro?”
Senti m eu corpo ficar tenso. Olhei para os assentos à frente. A m ulher não olhava m ais. Mesm o assim , abaixei a voz e m e inclinei para ele. “Você. Me conte sobre com o foi.”
Conner olhou em volta, tinha um a expressão estranha, de culpa. Aquilo m e assustou dem ais. Quer dizer, ali estava aquele cara – m eu m elhor am igo, crescem os j untos –, sabíam os todos os detalhes da vida um do outro. Não havia segredos ou constrangim entos entre nós. Nem m esm o quando o flagrei fazendo sexo com a nam orada – até m e convidou, com o se não fosse nada dem ais, com o se eu passasse por ali e ele m e cham asse para j ogar bola.
Mas, naquele m om ento, no ônibus para Blackpool, enquanto tentava encontrar as palavras para m e dizer o que tinha visto pelas lentes de Marbury, m eu m elhor am igo parecia assustado, constrangido e nada confiante. Nunca tinha visto Conner Kirk naquele estado em toda m inha vida.
“Achei que estava ficando doido ou algo assim ”, com eçou. “Com o se não estivesse acontecendo de verdade.”
“Eu sei.”
“Quantas vezes você foi pra lá?”
Não tinha certeza. Levantei os om bros e balancei a cabeça.
Conner olhou para os j oelhos. Em aranhava os dedos e apertava até as unhas ficarem brancas. “No período que fiquei, com ecei a m e lem brar de coisas daquele lugar, e quem eu era. Era com o preencher todos esses buracos, com o se j á soubesse toda a história daquele lugar, m esm o sem nunca ter ouvido nada sobre isso antes da noite anterior.”
“Quanto tem po você ficou?”
“Dois dias.”
“Não foram nem cinco segundos no banheiro, Con.”
“Não faz sentido, Jack. Fiquei lá dois dias.” Conner olhou pela j anela por um instante. “No início, era com o se estivéssem os no deserto. Era noite, m as o céu não estava todo escuro, só cinza-claro. Não tinha estrelas. Tinha sem pre um a neblina que não sum ia. Fizem os um a grande fogueira.”
“Eu estava lá?”
“Você? Não. Não estava. Mas tinha um as pessoas que eu conhecia. Sabia o nom e deles e tudo m ais, m esm o sem nunca tê-los visto na vida.” Conner finalm ente relaxou os dedos, passando a palm a das m ãos pelas coxas. “Era com o se a gente fosse uns hom ens das cavernas, ou algo assim . Uns cem , pelo m enos. Era um tipo de festa enorm e. Estava quase todo m undo pelado. As m ulheres totalm ente peladas e os caras, só de tanga, m ais nada.”
Olhou para m im com o se pedisse desculpas. “As tangas eram de cabelo de gente, Jack. Eu lem bro disso. Bizarro dem ais, né? Era um banquete, a gente tinha m atado um cavalo com um m artelo e colocado na fogueira para assar. Tam bém estavam assando um cara. Todo m undo destroçando o cara e com endo. Eu tam bém com i.”
Eu percebi que ele estava assustado enquanto falava. “Lá não é aqui, Conner. É outro lugar. Deve ser o inferno.”
“Lá som os diferentes”, continuou. “Não som os pessoas de verdade. Os olhos zoados, um todo branco, outro todo preto. Alguns caras têm m anchas na pele, outros têm espinhos. Algum a doença do caralho fez aquilo com a gente, espalhou pra todo m undo.
Nem todo mundo.
“Lem bro de algo coisa sobre isso”, com entei.
“E todo m undo tinha um as m arcas, e elas brilhavam , sei lá. Pareciam tatuagens, m as pegavam fogo. Não sei com o cham ar aquilo.”
“A sua é aqui.” Apontei para o lugar onde tinha visto a m arca dele. “Com esse form ato.”
Desenhei com os dedos.
“Você m e viu?”
“Vi.”
“Quando?”
“Você não se lem bra?”
Conner olhou para frente e fez um não com a cabeça.
“Onde fica a sua?”
“Não sei.”
“Sério, Jack. Eu fico conferindo toda hora para ver se a m arca ainda está lá. Porque aquela porra era real dem ais.”
“Levei um a flechada, Con. Aqui.”
Levantei m inha cam isa e apontei o lugar por onde a flecha tinha passado.
Então, m e virei. “Entrou aqui e saiu por aqui. Quase m orri. Não sei dizer quantas vezes olho para ver se a ferida está aqui.”
Conner se aproxim ou, tentando encontrar algum vestígio do ferim ento que eu não tenha visto.
Ele estava irrequieto, suas m ãos não paravam no lugar. “E então, naquela noite, depois de com er, rolou um a orgia absurda, Jack. Todo m undo fazendo sexo com todo m undo, em qualquer lugar. Durou a noite toda, até todo m undo desm aiar e dorm ir. Eu ficava pensando com o era do caralho viver assim e não queria voltar para cá. Mas pensei em você, e lem brei que estava em Londres, m as lá as coisas eram tão intensas que não queria voltar pra cá.”
Lem brei que Henry Hewitt tinha m e perguntado um a vez com o era Marbury para m im . Acho que ele tam bém deve ter duvidado da própria sanidade e teve de perguntar. Com a descrição que Conner tinha feito de Marbury, nem parecíam os estar naquele m esm o lugar, naquela m esm a época. Mas não m e sentia m elhor: sabia que estávam os os dois lá, ainda que separados.
Conner esfregou os olhos. “É com o se tivesse um a guerra rolando, não é?”
Confirm ei com a cabeça.
“De m anhã, era tudo branco”, continuou. “Com o se fosse um a nevasca, m as era um deserto e era m uito quente. A gente estava seguindo um grupo de soldados que tinha ido na frente, m as nosso grupo estava m ais atrás porque estávam os quase todos a pé, com m ulheres grávidas e crianças tam bém . O obj etivo era chegar às m ontanhas. Era um a m ontanha bem escura e escarpada. E eu era um dos caras no com ando, eu era im portante. Então, depois de algum as horas, passam os por um lugar onde havia um m onte de corpos pregados em postes, de cabeça para baixo. A m aioria sem cabeça, escalpelados. Cortaram o pinto e as bolas dos hom ens. E tinha uns insetos grandes pra caralho com endo os m ortos. Dava para ouvir eles m astigando.”
“Necrófagos”, com pletei.
Conner olhou para m im com os olhos arregalados. “Isso! É assim que a gente cham ava aqueles bichos. Você viu, então?”
“Vi tudo, Con.”
“A gente continuou indo para as m ontanhas e, bem antes da segunda noite, encontram os os soldados. Todos m ortos. Tinham sido m assacrados. Tinha tripa e sangue para todo o lado, não dava para saber qual parte era o quê. Os cavalos deles tam bém . Foi a pior coisa que eu j á vi e nem tenho certeza se vi de verdade. Depois, a única coisa de que m e lem bro é de estar no banheiro com a cabeça debaixo da pia e você falando com igo. E foram dois dias, m erda. Só m e lem bro que a gente tinha, tipo, brigado e, de repente...”
“Para m im é a m esm a coisa, Con. Tudo igual.”
“Mas e você? O que você viu?”
Não sabia o que dizer a ele.
Pois é, Con. A gente estava tentando se matar, cara. Você me mordeu e tentou abrir um buraco no meu peito com a boca. E, por falar nisso, eu fui um dos caras que massacrou seus amiguinhos na montanha. Pois é! A mesma merda que você passou.
Ah, e sabe essa doença que você tem? Péssimas notícias sobre isso, Con.
Legal, né?
Então, eu m enti. De novo. Com o poderia dizer a verdade para m eu único am igo? “Era o m esm o lugar. Mas só tem dois caras com igo. Dois m eninos, na verdade. Um tem 12 anos e o outro, 14. O resto m orreu.”
“Nunca m ais quero ver aquilo, Jack.”
Foi isso que o Jack disse também.
“Você não vai.” Olhei para ele. Sabia ele estava m e dizendo a verdade a verdade – sej a lá o que isso significasse. “E você não se lem bra de ter m e visto m esm o?”
Conner balançou a cabeça. “O que você fez com os óculos?”
“Nada.”
“Vam os quebrar aquilo.”
Não posso.
Não respondi.
“Ah, e que saber de m ais um a coisa, Con?”
“O quê?”
“Tam bém tem fantasm as lá. Um deles está m e seguindo. O nom e dele é Seth, é um m enino. Ele j á apareceu no quarto do hotel algum as vezes, então eu sei que Marbury é real. Você j á ouviu os barulhos que ele faz, ele fica batendo no chão.”
Conner engoliu em seco. Vi seu pom o de adão subir e descer. “Eu acho que sei desses fantasm as, m as não consigo m e lem brar.”
“Sei que é difícil se lem brar das coisas, Con, m as sei m uitas coisas sobre esse m enino.”
“Tipo o quê?”
“Vou te contar.”