A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 51 de 59

Páginas do PDF

A Lente de Marbury

Capítulo 51

CINQ UENTA E UM

 

A história de Seth [4]

Consegui um trabalho de estivador em Napa. Trabalhava a sem ana toda, exceto aos dom ingos. Não era tão forte quanto m eus colegas, m as era esforçado e m e dava bem com todos. Para conseguir o em prego, tive de m entir a idade. Mas não era um a m entira de fato, afinal de contas, eu não sabia ao certo quantos anos tinha.

Ainda assim , acredito que o Sr. Pursely, o chefe do departam ento de cargas, sabia que eu não tinha 18 anos, porque não se cansava de fazer com entários sobre m eu rosto im berbe ou m eu peito liso. Mas todo dia, depois do trabalho, eu escapava e dorm ia na floresta ou em algum celeiro silencioso, desde que estivesse quente o suficiente para isso.

Os outros garotos que trabalhavam ali sabiam que eu era um forasteiro, e órfão, m as nunca m e faziam perguntas. Eu m e desdobrava para estar sem pre asseado e bem alim entado. Às vezes, desciam o rio até São Francisco para se darem com as m ulheres de vida fácil. Eles m e cham avam , m as eu j á m e considerava um pervertido desvirtuado, então pedia que respeitassem m inha abstinência.

É claro que faziam chacota de m inha pureza j uvenil sem pre que podiam , alheios à criatura vil que eu realm ente era. Ainda que nunca faltasse à m issa e atentasse para a palavra de Deus, não m e sentia m ais próxim o da luz.

Em novem bro, m udei-m e para um quarto no Sutton House, um hotel de fam ília onde podia desfrutar novam ente do sim ples conforto de ter um a cam a e tom ar banhos regulares. Lá, a falta de privacidade era m uito bem com pensada pela água quente e abundante.

Tinha dois livros: a Bíblia e um exem plar de Longfellow. Sem pre os lia antes de dorm ir, m as nem um nem outro m e traziam conforto. Enquanto um m e lem brava, noite após noite, de m inha depravação, o outro apenas trazia de volta as m em órias que tinha de Hannah. Eu sofria tão desesperadam ente por ela que algum as vezes deitava na cam a e chorava, m uitas vezes naquelas noites frias e silenciosas quando m inha solidão se tornava um a fragilidade particular. Sentia falta de cada um dos Mansfields.

Dezem bro trouxe a pior das chuvas; o trabalho se tornou um fardo. Não tinha roupas para aquele clim a e m al ganhava o suficiente para pagar m inha estada. E foi, ainda m e lem bro, no dia 12 daquele m ês, enquanto lia Longfellow recostado na cam a e sob a luz da lanterna, depois de j antar, que um a visita inesperada bateu à porta.

Não usava traj es apropriados, então puxei as cobertas por cim a das pernas e pedi que a pessoa entrasse.

E lá, pingando a água da chuva que tom ara, e coberto de lam a até os j oelhos, estava m eu irm ão, Davey Mansfield.

Ele disse, “Seth Braden Mansfield, o que diabos você está fazendo neste lugar?”

A princípio, m al o reconheci. Tinha um chapéu que quase lhe cobria os olhos e um a espessa barba castanha que eu nunca vira tão cheia. Mas quando tive certeza, pelo seu olhar e sua voz, tirei as cobertas de cim a de m im e fui ao seu encontro de braços abertos.

“Davey !” Fazia tem po que não m e sentia tão cheio de alegria. Tinha m e acostum ado à vida aborrecida fora de Pope Valley. Segurei m eu irm ão pelos om bros e olhei em seus olhos. “Algum problem a em casa?”

“Problem a, Seth? Muito m ais que problem a! Mam ãe e Hannah estão doentes com a falta que você faz, e papai não fala m ais com igo, a não ser para reclam ar quando não faço as coisas do j eito que ele gosta.”

Olhava para Davey, suas roupas ainda respingavam o chão. Naquele m om ento, tive certeza de que, na tentativa de poupar m inha fam ília de m inha depravação, fazia-lhes outro m al.

“Não quis m agoar ninguém , Davey. Tinha m edo do que poderia ter acontecido se tivesse ficado. Acredite em m im , nunca faria nada para m agoar m am ãe, Hannah ou qualquer um de vocês.”

Davey suspirou. Ele sabia m uito bem o m otivo que m e arrancara de casa, m as, m esm o assim , estava determ inado a m e levar de volta.

“Fazendo ou não fazendo m al, você j á está condenado. Você não sabe o quanto eu andei até chegar aqui, e vai voltar com igo querendo ou não. Podem os partir agora ou am anhã pela m anhã, com o quiser.”

Que estranha a vida, pensei, porque lá estava eu, sete anos depois, dando roupas lim pas a Davey para que se trocasse, da m esm a form a que os Mansfields fizeram ao m e acolher com o um de seu próprio sangue. Descem os para que a senhora Sutton desse com ida a Davey, apesar de não ser seu costum e cozinhar quando todos j á tinham se recolhido. Com o se tratava de um irm ão, ela disse, não seria um incôm odo. Tam bém disse que Davey poderia dorm ir no m eu quarto se não tivesse onde passar a noite.

Naquela noite, quando estava a ponto de adorm ecer, Davey disse, “Seth. Sobre você e Hannah, ainda não está na hora. Entenda bem , m eu irm ão. Você volta com igo agora para que m am ãe tenha paz, m as desta vez você vai se com portar com o um hom em decente e esperar o m om ento certo. Você saberá quando ele chegar. Estam os de acordo?”

“Estam os.”

“Que bom . Boa noite, então.”

Na m anhã escura e enevoada do dia seguinte, com m eus poucos pertences sobre um burro de carga entre nós, Davey e eu partíam os para Pope Valley debaixo de um a chuva fraca, m as insistente. Era dom ingo, e sentia um m au presságio por estar perdendo a m issa, m inhas m ãos trem iam bastante com cada batida de m eu coração, na expectativa de sentir o toque de Hannah novam ente.

Eu sabia que estava am aldiçoado.

O clim a prolongou a viagem ainda m ais, e j á era terça-feira à noite quando levam os aquela pobre m ula para o celeiro de papai. Im agino que Davey tenha notado m inha expressão de alívio enquanto m eus olhos percorriam aquele lugar tão fam iliar, buscando o rosto de Hannah. Sentia sua presença tão forte que m inhas pernas estavam com pletam ente bam bas.

Quando entram os pela porta da casa, m am ãe chorou e m e abraçou, sem se im portar com m inhas roupas encharcadas. Ela exaltava Davey por ter m e salvado m ais um a vez. Mas Hannah não veio. Ficou no fim do corredor m e encarando e, então, subiu para o quarto sem dizer um a palavra, com o rosto angustiado coberto de lágrim as.

Papai apagou seu cigarro. Veio até nós, m e beij ou a cabeça m olhada. “Seth Mansfield, você deve ter um a longa história para contar, não é, garoto? Agora subam e troquem as roupas para j antarem . Você quase m atou sua m ãe e sua irm ã de desgosto, m eu filho. Estavam preocupadas com você, e com Davey tam bém , ainda m ais com o frio que está fazendo.”

“Me desculpe, papai”, disse, e subi com Davey até o quarto.

Na escuridão do corredor, parei à porta do quarto de Hannah. Davey m e olhava. Ela chorava. Sentia-m e totalm ente desam parado. Levantei m inha m ão para bater, m as Davey disse, “Não”.

Abaixei o braço. Davey abriu a porta de nosso quarto e esperou. Não tirou os olhos de m im até que eu entrasse.

Era com o ele tinha dito: fosse com o fosse, eu j á estava condenado.

Na hora do j antar, m am ãe subiu para buscar Hannah. Davey olhava, preocupado, enquanto Hannah m e puxava o pescoço com os braços e m e cobria as bochechas e a cabeça de beij os. As lágrim as dela m olhavam m eu rosto. Tentava ficar ali, im óvel, ou colaria m eus lábios nos dela. Nunca tinha desej ado tanto sentir sua língua na m inha. Sentia um frio no estôm ago e enrubescia, não conseguia evitar a atração. Senti um golpe na nuca e ouvi um a gargalhada. Fiquei atordoado. Davey ria: Hannah tinha m e acertado um safanão. “Seth Mansfield, se você aprontar um a dessas de novo, vou te buscar eu m esm a!”

“É, garoto”, papai com pletava. “Acho m elhor você não m exer com essa m oça, ela é brava.”

Papai acendeu um cigarro e se sentou à m esa, olhando enquanto seus dois rapazes j antavam .

Estava afobado e m al m e saíam as palavras, m as baixei as talheres e olhei para Hannah, dizendo com um a voz vacilante e arrependida, “Hannah, m e perdoe. Não irei abandoná-los novam ente. Nunca m ais.”

As bochechas de Hannah coraram , m as só eu notei.

Naquela m esm a noite, Davey ia com igo pelo corredor, nos preparávam os para dorm ir. Vim os que Hannah estava em seu quarto, esperando, espreitando pela fresta da porta. Com a m ão firm e, Davey m e segurou pelo om bro. Sabia o que ele queria dizer, m esm o sem usar palavras.

”Pode ir dorm ir, Seth. Preciso ter um a conversa com a Hannah.”

Fiquei ali, parado, enquanto Davey entrava no quarto de sua irm ã.

Chegou o Natal. Tudo j á tinha se norm alizado, e era quase com o se eu nunca tivesse fugido de casa. Pela m anhã, fom os todos a Necker’s Mill levando com ida para tio Teddy. Oram os com ele, e papai deixou que bebêssem os um pouco de cidra quente. Gostei da bebida, principalm ente porque fazia m am ãe e Hannah rirem até corar o rosto.

Antes de voltarm os, Davey e eu fom os buscar a carroça enquanto papai fum ava e tom ava m ais um copo com tio Teddy. Há dias esperava por um a oportunidade para conversar com Davey a sós, m as m e faltava coragem .

“Davey, quero te pedir perm issão para um a coisa”, eu disse. “Estou fazendo um presente para Hannah, m as preciso que você perm ita que eu dê a ela.”

“Mas por que eu diria não?”

“Bem , quero entregá-lo a sós. Só eu e ela.”

Ele olhou nos m eus olhos. Não podia dizer que Davey não confiava em m im . Nossos laços fraternos eram fortes, e não havia segredos entre nós. Por isso, tam bém , precisava de seu consentim ento.

Davey soltou um longo suspiro. O hálito quente subia-lhe o rosto naquela tarde fria. “Espero que você se com porte com o um hom em decente, Seth.”

“Obrigado, Davey.”

E foi tudo o que dissem os.

Mais tarde, enquanto m am ãe preparava a ceia, adm irávam os os casacos e chapéus que ganháram os de presente, e papai contava histórias dos Natais de sua infância. Estava m e sentindo bastante desconfortável porque sabia que Davey observava a m im e a Hannah, e a data parecia deixar m eus pecados ainda m ais evidentes. Meus pensam entos eram invadidos pelas m em órias do últim o verão à beira do rio com Hannah. Não podia evitar.

Ganhei coragem e m e aproxim ei dela. Cutuquei seu pé com o m eu. “Tenho um presente para você.”

“Onde?” Hannah não tirava os olhos de m im , não piscava. Sob aquele olhar, era com o se eu encolhesse até desaparecer.

“Bem ”, olhei para papai, depois para Davey. “Não quero que ninguém vej a antes de você, no caso de você não gostar.”

Papai deu de om bros. Hannah estava confusa. Davey parecia estar a ponto de m e acertar um tapa. Com os olhos, eu pedia que nos desse apenas alguns m inutos, e ele não nos im pediu.

“Vam os.” Levei Hannah pela m ão. “Vista o casaco, seu presente está no celeiro.”

Olhei de relance para Davey, e saí com Hannah.

No celeiro, acendi um lam pião.

Fechei o portão.

E tranquei. Estava tão ansioso que não dizia nada, m as tam bém não queria.

Não podia tirar m inhas m ãos dela, Hannah estava linda. Tinha esperado por tanto tem po. Tentava ser um a pessoa m elhor, m as nada m ais im portava naquele m om ento em que estávam os sozinhos e finalm ente j untos. Sua pele estava tão fria e m acia. Parecia vidro para os m eus lábios.

Sua boca tinha gosto de cidra. Finalm ente m e sentia vivo de novo. Com os dedos entre seus cabelos, apertei seus quadris contra os m eus, e fui tão fraco que poderia ter atirado nossas roupas pelo chão, sem m e im portar, m as tentei pensar em Davey e em nossa fam ília e recobrei o j uízo.

“Te am o tanto, Hannah.”

“Pensei que fosse m orrer quando você foi em bora, Seth.”

Ela com eçou a chorar, e senti que lágrim as surgiam em m eus olhos, tam bém , então a abracei forte e senti o perfum e de seus cabelos.

“Não precisa chorar”, eu disse. “Tenho um presente de verdade para você.”

“Não preciso de presentes, Seth. Só preciso de você.”

“Vej a.”

Levei Hannah pela m ão até a bancada de m arceneiro de papai.

“Fiz isso para você.”

Eu tinha entalhado um cavalinho de m adeira: um Appaloosa cinza de crina preta e cascos listrados, todos envernizados. A tinta acabara de secar. Era pouco m aior que m inha m ão. Tinha usado um carretel da m am ãe com o rodinha, presa às patas traseiras por um a borracha. Mostrei a Hannah que, quando puxado para trás, o cavalinho andava para frente alguns centím etros e levantava as patas dianteiras, batendo três vezes no chão.

Rolando...

Tac. Tac. Tac.

Hannah ria, com as m ãos no rosto.

“Seth! Acho que é a coisa m ais linda que j á vi!”

Não conseguia dizer nada, apenas observava. O rosto de Hannah resplandecia, e m e hipnotizava.

“Posso brincar com ele?”

Coloquei o brinquedo sobre a bancada e, com m inha m ão sobre a dela, puxam os para trás.

“Agora é só soltar.” Eu falava com os lábios colados à orelha dela e eu peguei de propósito um a m echa de seu cabelo com m inha boca.

Rolando.

Tac. Tac. Tac.

Ela riu de novo, leve, e se j ogou em m eus braços, aos beij os.

Desaj eitado, subj ugado por m inha fraqueza, agarram os nervosam ente as roupas um do outro e caím os, em aranhados, no chão bem abaixo de nossos pés.

Lim pam os apressadam ente a terra do corpo, ofegantes. Apaguei o lam pião enquanto Hannah enfiava seu cavalinho por baixo do casaco, j unto ao peito. Com m ais um beij o, j uram os eterno am or, e voltam os à casa pelo chão enlam eado.

Sentado com m inha fam ília à m esa da ceia de Natal, sentia-m e um anim al desprezível. Quando papai com eçou as orações, tive a sensação de que m orreria ali m esm o, porque sabia que tinha deixado o dem ônio tom ar conta de m im . Hannah, ao contrário, estava radiante de contentam ento, com seu novo cavalinho sobre a m esa, entre ela e Davey. E, por baixo da m esa, roçava o seu pé no m eu.

Não dorm i naquela noite. Estava tom ado de pensam entos im puros. Tinha certeza de que Davey estava acordado tam bém , vigiando, enoj ado de m inha depravação. Ele sabia. Era um alívio que Davey não tivesse perguntado nada. Caso tivesse, teria confessado que fui fraco de novo e não era capaz de ficar longe dela.

Sabia que iria para o inferno, m as tinha m e decidido: desistiria do céu para viver com Hannah na terra.

E assim seria.

Estava resignado com m inha im pureza.

O verão depois de com em orar m eus 16 anos foi um ponto de m udança em nossas vidas, eu acho. Davey tinha se casado e, com m inha aj uda e a de papai, construiu um a casa para ele e a esposa, bem perto da nossa, do outro lado do pasto. Após a m udança de Davey, m eus encontros com Hannah se tornaram m ais fáceis.

Aos 17 anos, Hannah j á era um a bela m oça.

Às vezes, em nossa depravação, ela se esgueirava até m eu quarto no m eio da noite e dorm íam os j untos, fazendo j uras, abraçados até o am anhecer, sem que ninguém soubesse. Até que, com o estava destinado a acontecer, confirm ou-se m inha m aldição: dois m eses depois do m eu aniversário, Hannah m e disse que esperava um filho m eu.

Aquele foi o dia que m ais m arcou m inha vida, por um a série de m otivos.

Naquele m esm o dia, m am ãe e papai tinham ido visitar Davey, e eu tinha ficado em casa para em pilhar os blocos de feno que tínham os com prado para as vacas. Suava com o calor que fazia na parte de cim a do celeiro. Hannah m e observava e senti que ela estava diferente, que queria m e contar algum a coisa. Quando disse que estava grávida, tive de parar e m e sentar.

Lim pei o suor da testa e tom ei um a concha de água do balde, derram ando um pouco sobre o peito, por dentro do m acacão que usava.

“Com o você tem certeza?”

“Estou sentindo, Seth. Estou m esm o grávida.”

Adm ito que fiquei zonzo quando recebi a notícia. Olhei para ela um tanto incrédulo. Nunca a vira tão feliz. Já eu, não sabia ao certo o que sentia, m esm o tendo certeza de que aquilo acabaria por acontecer, um a vez que agíam os sem qualquer j uízo.

Hannah veio andando devagar e se sentou sobre o feno ao m eu lado. Ficam os de m ãos dadas por alguns instantes, em silêncio. Ouvia apenas m inha respiração.

Olhei pela j anela do telhado, adm irando aquele azul perfeito e as nuvens pairando sobre as árvores, sobre o lar que tive a sorte de receber.

“Bom ”, eu disse, “vou contar para papai. E será hoj e. Não podem os fazer m ais nada, Hannah. Sabíam os que aconteceria m ais cedo ou m ais tarde. Duvido até que alguém se surpreenda.”

“Você está feliz, Seth?”

Arranquei um talo do fardo de feno onde estávam os sentados e levei à boca. “Sim , acredito que eu estej a feliz com isso.”

“Obrigada, Seth.”

Coloquei a m ão sobre a barriga de Hannah e fechei os olhos. “Acho que j á estou sentindo nosso bebê aí dentro.”

“Eu tam bém .”

Beij ei seu rosto e corri os dedos por seus cabelos.

Tiram os nossas roupas e com elas fizem os um a cam a logo abaixo da j anela, por onde entrava um a brisa fresca. Passam os aquela tarde úm ida de verão ali, nus e suados, sem pudores.

Sabia que o que fazíam os era errado, que era pecado. Sabia desde o prim eiro dia, à beira do rio. Mas j á tinha sucum bido àquela depravação. Já estava além da salvação. Então, naquele dia de j ulho, deitam os na cam a de nossa união, sobre nossas roupas am assadas na penum bra do celeiro, enquanto Hannah enrolava seus dedos no m eu cabelo e eu fechava m eus olhos, ouvindo os pássaros cantar sob o sol da tarde. Agarrei-a com força e j oguei m eu corpo sobre o dela m ais um a vez.

Então, um a som bra pairava sobre nós.

Ouvindo os nossos gem idos, tio Teddy tinha subido ao celeiro à nossa procura, bufando e bradando suas proclam ações, denunciando o m al que se apossara de nós.

“Sangue do seu sangue! Irm ão e irm ã am aldiçoados! Um a abom inação!”, bram ia. Segurava o cabo quebrado de um ancinho e acertou m eu om bro. Urrei de dor e senti que ia cair, m as fiquei de pé para tentar proteger Hannah de seus ataques.

“Pagãos incestuosos!” E, m ais um a vez, m e golpeou com sua arm a im provisada, acertando em cheio m inha nuca.

Minha visão turvou por um m om ento.

Quando abri os olhos, estava com a m ão sobre a cabeça. Sentia o sangue escorrer pelo rosto, secando entre os cabelos, grudando no feno pálido abaixo de m im . Ainda estava nu e não m e lem brava do que tinha acontecido. Com ecei a recobrar a consciência quando ouvi Hannah chorando e se debatendo ao m eu lado. Com o cinto, tio Teddy fustigava suas pernas e costas furiosam ente.

Era repulsivo. Fiquei furioso, tinha de proteger m inha Hannah. Tentava recobrar as forças desesperadam ente enquanto Hannah olhava para m im , aterrorizada. Mas tio Teddy estava determ inado a fazê-la sucum bir. Hannah queria se cobrir com nossas roupas, m as sem pre que tentava, tio Teddy acertava seu braço. Suas pernas e costas ficaram cobertas de m arcas cruzadas que com eçavam a sangrar.

“Ram eira! Ram eira!”, o reverendo gritava.

Agarrei o que estava m ais próxim o, um gancho de feno, e, quando tio Teddy erguia o braço para golpear m ais um a vez, investi contra ele. Não sei se tive a intenção de feri-lo, m as a ponta do gancho entrou certeira entre suas costelas, por onde lhe escapou o ar em um j orro espum oso. Em purrei o reverendo para longe de Hannah. Ainda com o gancho enterrado no tronco, tio Teddy dava passos para trás, cam baleante.

Quando ele parou, deixou o cinto cair.

Até então, tio Teddy não percebera a gravidade de seu ferim ento. Olhou para baixo. O gancho, cravado em seu corpo, subia e descia com sua penosa respiração. E então levantou o rosto para m im , com olhos inquietos, aturdido. Deu m ais dois passos para trás, enquanto suas m ãos ensanguentadas tentavam retirar o m etal que lhe perfurava o tórax. A cada respiração do reverendo, ouvia um assobio borbulhante que soprava pela ferida e o sangue descia-lhe pelas calças até o sapato.

Tio Teddy continuou se afastando, perplexo, trêm ulo. Patético. No próxim o passo, j á não encontraria o chão. Acabou por cair do sótão, sentado sobre a carroça de papai, resignado e derrotado. Ainda agarradas ao gancho, suas m ãos não tinham m ais forças para puxar. Seu rosto em palidecera e seus lábios flácidos apenas balbuciavam sílabas frouxas.

Fui ao socorro de Hannah. “Ele te m achucou m uito?”

“Não.”

Teria m atado aquele hom em ali m esm o se a resposta fosse outra.

“Vam os pedir aj uda”, eu disse.

“Ai, Seth, olhe pra você.”Com os dedos, Hannah tocou levem ente o corte na m inha cabeça.

“Estou bem , Hannah, vam os pedir aj uda.”.

Hannah se enfiou no vestido e lavou as roupas de baixo em um balde d’água. Então, lavou o sangue que m e lam buzava e m e beij ou.

“Estou m orrendo de m edo, Seth.”

Tio Teddy gem ia baixinho, com a cabeça pendendo sobre o om bro. A enorm e poça de sangue engolia todas as tábuas da carroça onde ele tinha caído e, com a queda, a ponta do gancho em ergira de suas costas, com o o chifre do próprio diabo. Não sabia que um a pessoa podia sangrar tanto.

Vigiava o pastor enquanto vestia m inhas roupas, m as assim que com ecei a m e calçar, tio Teddy se deitou para trás e esticou as pernas, com o se fosse só tirar um a soneca. Morreu ali, no nosso celeiro.

“Não olhe”, sussurrei.

Descem os do sótão.

Tentei retirar o gancho, m as era quase com o se Teddy se recusasse a devolvê-lo. Finalm ente se soltou, com um puxão violento.

Lim pei a ferram enta na m anga da cam isa do reverendo e a j oguei de volta para o sótão.

Quando voltava à casa dos Mansfield com Davey naquela m anhã chuvosa de dezem bro, tinha certeza de que era am aldiçoado. Mas eu m esm o tinha escolhido aquele cam inho na vida: escolhera ficar ao lado de Hannah e dar m inha vida a ela. Então, no dia em que m atei tio Teddy, contei a papai toda a verdade sobre m im e Hannah e sobre o que acontecera no celeiro. Papai apenas seguiu fum ando seu cigarro enquanto ouvia. Nem m esm o perdi perdão, pois sabia que era algo que ninguém podia m e dar. Quando parei de falar, papai colocou a m ão sobre a m inha cabeça. E apenas disse que m e am ava.

“Dorm iu?”, perguntei.

Com a cabeça sobre m eu peito, Nickie estava m uda.

“Não. Eu adoro isso, Jack. Adoro ouvir sua voz... ficar aqui com você. E o que aconteceu com eles?”

“Coisas horríveis.”

“Quando você conta, parece até que você esteve lá.”

“Mas eu estive.”

“Com o?”

“O m enino agora é um fantasm a. É difícil explicar, m as ele m eio que m e deu a vida dele, eu acho. Eu m esm o não entendo direito com o funciona.” Olhei para o teto. “Eu sei que parece m aluquice m inha, m as não é.”

“Acredito em você, Jack.”

Eu m e sentei e olhei para Nickie sob a luz acinzentada que vinha da j anela. Queria saber se ela realm ente acreditava em m im ou se m e achava um doido, com o eu m esm o achava às vezes.

Ela acreditava em m im .

Me levantei da cam a. “Preciso te m ostrar um a coisa.”

Chutei as roupas espalhadas ao pé da cam a até encontrar as calças que usava na noite anterior. Apertando o j eans, sentia a form a e o peso da lente de Marbury dentro do bolso. Fechei os dedos em volta da lente, voltei para a cam a e m e deitei novam ente com Nickie.

“Olha só.” Mostrei o punho fechado,

Então abri m inha m ão.

Tentei não olhar, m as o quarto j á tinha sido inundado pela luz pálida de Marbury. Estava à beira do m aior penhasco que poderia im aginar e um sopro quente e im placável m e em purrava para as profundezas de seu abism o branco.

Não olhe, Jack.

Ainda não.

Relances de Ben Miller desm ontando de seu cavalo, Conner e Freddie Horvath. Griffin deitado de lado no chão entre eles. Queria ir para lá. Algo estava acontecendo.

Em um solavanco, perdi o ar, com o se fosse eletrocutado.

Até agora você durou mais que os outros, Jack.

Olhei para o outro lado, apertei a lente com força e a enfiei debaixo do lençol, para fazer parar.

“Você viu?”, perguntei, ofegante. Já não tinha m ais certeza se estava m esm o ao lado de Nickie. “Você viu aquilo?”

Tentava respirar, ainda sentia a força daquela lente m aldita sob o lençol.

“Você está trem endo, Jack.”

Nickie m e acariciava as costas.

Como Hannah fez daquela vez, enquanto eu tremia na água fria do poço.

“Você viu?”

“A lente? Eu via a lente. É isso que você quer dizer, Jack?”

Puxei Nickie pelo om bro com a outra m ão e virei seu rosto para o m eu. “Você não viu nada além disso?”

“Não, o que era?”

Suspirei e m e deitei de no travesseiro, trem endo, suando. Virei de bruços e fechei os olhos.

Preciso que você deite de barriga para baixo. Faça isso.

Estiquei o braço até o chão e enfiei as lentes de volta no bolso das calças de Ander.

Vai se foder, Jack.

Nickie colocou as m ãos entre m eus om bros, m assageando. “O que está te assustando, Jack?”

“Você acha que eu sou doido, né?”

“Shhh...”, Nickie beij ou m inhas costas. “Não fala assim . Me diz o que você viu.”

Ela m e beij ou de novo e se deitou sobre m im . Sentia cada parte de seu corpo contra o m eu.

Isto é real.

“Coisas horríveis.”