A Lente de Marbury
Parte Três: Blackpool
Parte três
BLACKPOOL
TRINTA E UM
Cavalgávam os pelas colinas, através de um a floresta de crucifixos.
A princípio, ao ver aquelas form as indistintas em m eio à névoa da distância, pensei que fossem árvores. Seria tão bom encontrar árvores de verdade. Talvez nas m ontanhas, quem sabe.
Mas não eram árvores. Eram fragm entos de postes e outras estruturas, presas em X um as às outras por cabos frouxos. Arm ações do que tinham sido tendas, reviradas entre as rochas e ravinas daquele lugar que um dia tinha sido um a pequena com unidade. Cada um a delas decorada com três ou m ais cadáveres.
Aquilo tinha acontecido uma semana antes.
Talvez alguns dias.
Há mais pessoas em algum lugar.
Não podemos ser os únicos que restaram.
Cavalgávam os em fila, Ben na dianteira. Eu ia atrás de Griffin, observando o em balo dos cavalos sobrecarregados pelas sacolas que tínham os im provisado com os pertences dos m ortos. Com o cobertor im undo que eu tinha usado, Griffin tinha im provisado um assento entre seus alforj es. Ele olhou para trás enquanto os cavalos nos carregavam através do caos de destroços.
Necrófagos ainda cam inhavam pelos restos m ortais que tinham escavado, entrando e saindo de m angas e golas. As carapaças salientes m ovim entavam os trapos que restaram das roupas enquanto faziam seu ruidoso banquete.
Havia m ulheres tam bém . Não dissem os nada, não precisávam os. Cada um de nós sabia o que o outro estava pensando.
Quase todos os corpos estavam pendurados de cabeça para baixo, aqueles com cabeça tinham o pescoço arqueado para trás, com o queixo virado para o chão num ângulo quase im possível. Hom ens e crianças, adornados, cada um deles, com estacas ensanguentadas ou flechas. Todos tinham sido despidos, escalpelados e castrados e tinham o ventre rasgado e a cabeça em carne viva com o sangue coagulando ao sol. De um a das estruturas, pendiam os corpos de dois garotos e a carcaça de um cão. A pele tinha sido totalm ente retirada, das orelhas até as patas.
Cavalgam os.
“Talvez encontrem os algo que possam os usar por aqui”, Griffin disse.
Ele apontou em direção a um abrigo im provisado com os destroços de um a loj a de bebidas.
“Estam os bem abastecidos por agora”, respondi.
Havia um a velha rua asfaltada que ladeava a com unidade. Cavalgávam os com facilidade por onde o asfalto escuro em ergia do chão cinzento. O cam inho com eçava à altura daquela paliçada m órbida e subia em linha reta até as escarpas das m ontanhas ao norte.
“Tem algum a coisa lá no fim ?”, perguntou Ben. Parou e virou o cavalo para nós. “Alguém tem ideia?”
“Um m ilagre, talvez”, Griffin respondeu.
Ben apertou os olhos. Viu algum a coisa vindo atrás de nós, podia dizer pela expressão em seu rosto.
Dei m eia-volta. Um cachorro branco de pintas pretas tinha seguido nossos cavalos. Ele se encolhia enquanto cam inhava, tentando passar despercebido.
O cachorro se aproxim ou, parou e se sentou no asfalto com orelhas e cabeça abaixadas. Era pequeno, talvez nem chegasse à altura nos nossos j oelhos. O anim al trem ia, m as não de frio. Não naquele calor infernal.
Griffin desceu do cavalo e endireitou as calças. Quando ele se aproxim ou, o cão se contorceu todo e disparou pela estrada. Em seguida, parou de novo e olhou apreensivam ente para trás em direção a Griffin.
“Não precisam os de um cachorro estúpido seguindo a gente”, protestou Ben.
“Nunca tive um cachorro”, disse Griffin, desapontado.
Ele m ontou novam ente e recom eçam os a cavalgada em direção às m ontanhas. Griffin olhou para trás e sorriu. O cão voltou a nos seguir.
“Vou dar um nom e pra ele. Spot”, disse Griffin.
Ben olhou para Griffin e balançou a cabeça. “Com o você está, Jack?”
“Estou bem ”, respondi. “Esse rapazinho sem pre faz eu m e sentir m elhor. Ele sabe com o m e aj udar.”
“Já tem os um espírito atrás de nós, não precisam os de m ais um a coisa nos seguindo.”
“Não estava falando do fantasm a.” Sorri. “Estava falando do Griffin.”
“Não enche”, Griffin riu. Então, deu m eia-volta, abriu os braços e disse em tom doce, “Vem cá, garoto!”
“Cachorro idiota”, Ben resm ungou.
“Não estava falando com o cachorro, estava falando com o Jack.”
Rim os.
Ao cair da noite, subindo a prim eira cadeia m ontanhosa, vim os claram ente a planície desértica do alto de nossos cavalos. Mas não tínham os com o saber se havia alguém seguindo nossa trilha.
Havia vida nas m ontanhas. O ar era m ais fresco. Com os pescoços enfiados na vegetação, os cavalos pastavam . Antes do anoitecer, prendem os os anim ais e descarregam os nossa bagagem . Tínham os encontrado um a clareira entre vários arbustos.
Sentam os em círculo. Ben e eu descalçam os as botas, gem endo baixinho. Griffin j á estava descalço, com o de costum e. Tinha vindo descalço por todo o cam inho. Ben m e entregou um a garrafa de água e com eçou a separar o que com eríam os: um a lata pequena de salsichas e um pacote de am endoins. O cachorro se escondia atrás de Griffin, m as sem pre que o m enino tentava acariciá-lo, se esquivava e corria.
Ben balançava a cabeça enquanto observava.
“Vou dar um pouco da m inha parte pra ele com er”, disse Griffin.
“Você não precisa fazer isso”, respondeu Ben. “A gente tam bém pode dar um pouco.”
Ben olhou para m im .
“Tudo bem ”, concordei.
Tirei a cam isa, dobrei e coloquei no chão entre as pernas. Pressionei o curativo no peito com a palm a da m ão. Doía m uito, não apenas a m ordida. Ainda não tinha esquecido a im agem grotesca de Conner naquele outro m undo.
“Quer que eu troque o curativo?”, perguntou Griffin.
“Pela m anhã.”
Ben deu um a salsicha a Griffin. “Tom a, vê se ele com e.”
O cão não se aproxim ava para com er. Então, Griffin deixou um pedaço no chão, cham ando pelo anim al, até que ele finalm ente chegou m ais perto. “Bom garoto, Spot.”
“Pelo m enos essa coisa não com e”, disse Ben.
Eu não tinha percebido que Seth estava sentado ao m eu lado. Mas logo desapareceu ao ouvir o com entário de Ben.
“Ele m e aj udou”, eu disse. “Mais de um a vez.”
“Nós tam bém o aj udam os“, respondeu Ben. “Quando saím os da caverna. Já viu o que os necrófagos fazem com os fantasm as?”
Tentava m e lem brar. Eu sabia. A m em ória estava lá em algum lugar.
“Desde que fui flechado, não consigo m e lem brar das coisas.”
Tentei m e lem brar da im agem de Conner à qual estava acostum ado, m as só conseguia ver as criaturas que tentaram m e m atar pela m anhã enquanto alim entava os cavalos.
Aquele não podia ser Conner.
“O Henry falou que você ia com eçar a esquecer as coisas”, disse Griffin. “Você acha que a gente não sabe, Jack? Você acha que ele não contou pra gente?”
A vegetação se agitava. Um a das castanhas pardas caiu de um galho espinhoso e rolou pelo chão até parar aos m eus pés. E então rolou de volta para a escuridão, em purrada por um a m ão invisível.
Tac.
“Para com isso, Seth”, eu disse. ”O que o Henry falou para vocês?”
“Ele disse que você m udaria.” Ben se curvou para frente, olhando para m im . “Disse que te conhecia de outro lugar e que você ficaria diferente.”
“Tem m ais com ida?”, perguntou Griffin.
Ben vasculhou um a das sacolas. “Espera, acho que tem bala.”
“Bala?”
“E então”, continuei, “estou diferente?”
Os galhos estalavam . Três gravetos caíram sobre m eu pé.
“Shhh...”, eu disse.
“O que ele quer?”, perguntou Griffin.
Olhei ao redor à procura de Seth na escuridão. “Não sei. Então, estou diferente?”
Ben abriu um saco de balas azuis. “Aqui, abram as m ãos.”
E ele despej ou pequenas balas coloridas em nossas m ãos.
Griffin com eu um a bala e fechou os olhos. “É a m elhor coisa que j á com i na vida.”
Dei um tapinha em suas costas. “Pode ficar com as m inhas.” E passei m inhas balas para as m ãos do nosso m enino-m édico.
“Viu?”, disse Ben. “É assim que você m udou. Um a sem ana atrás você não teria feito isso, Jack.”
“Tem algum a m enina lá?”, perguntou Griffin.
Olhei para ele sem entender.
“Lá no outro lugar”, ele explicou.
“Tem .”
“Eu e Ben estam os lá?”
“Não sei. Espero que sim . O Henry disse que sim .”
“É um lugar legal?”
Desviei o olhar de Griffin para Ben. “Não. É a m esm a coisa.”
“Conta m ais”, pediu Ben.
Pensei em Conner, Nickie, Freddie Horvath.
“Melhor não. Mas não faz diferença.”
Rolando e... Tac. Tac. Tac.
“Seth”, eu disse.
“Fica quieto, porra de fantasm a”, disse Ben.
Os galhos estalavam ainda m ais e m ais gravetos partidos caíam do alto nas m inhas pernas.
“Posso contar a história dele. Do fantasm a”, eu disse. Vi o rosto de Seth entre os arbustos atrás de Ben.
“Tom a”, disse Ben. E despej ou m ais balas nas m ãos de Griffin. “Agora acabou.”
O cão se aproxim ou tim idam ente e se sentou ao lado de Griffin. Ele ofereceu um a bala verm elha ao anim al e acariciou seu dorso. O bichinho se retorcia todo.
“Fala dele, então”, pediu Griffin.
“Tudo bem . O que vou contar foi a prim eira coisa que fiquei sabendo dele, m as não é o com eço da história, é o m eio. Acho que é a parte que ele quer que vocês saibam .”
“Com o você sabe?”, perguntou Ben.
Não sabia com o responder. Minha ligação com Seth era profunda, m as eu não a entendia totalm ente. Não era com o im aginava ser assom brado por um fantasm a, com o via nos film es e lia nas histórias. Para m im , não havia nada de assustador, nem se com parava a ser assom brado pelos ecos do que Freddie Horvath tinha feito com igo.
A im agem m ais vívida que eu tinha de Seth era ele e o pai carregando o cadáver de um hom em em um cam po. Foi um episódio decisivo na vida dele, um destino do qual não conseguiria escapar.
Assim com o eu, quando coloquei os óculos que Henry tinha deixado sobre a m esa naquela noite no Prince of Wales.
“É...”, precisei parar para entender o que estava sentindo. “Todas as vezes que Seth m e aj udou era com o se eu pudesse ver tudo sobre ele. – É quase com o se eu fosse ele. Não existe diferença, e eu posso falar por ele.”
A História de Seth [1]
Aj udei a papai a tirar o corpo de tio Teddy da carroça. Era um a pequena carroça de m adeira, de quatro rodas, que usávam os para transportar lenha e, às vezes, anim ais. Tio Teddy era m uito pesado. Nunca tinha carregado um hom em m orto. Nunca tinha visto um m orto antes. Era difícil transportar o corpo dele, estava endurecido pelo frio da m anhã; e m etade de seu sangue devia ter vazado na carroça.
Papai fum ava um cigarro. Para m im , era um feito com o ele fum ava sem usar as m ãos enquanto carregávam os tio Teddy até a beira de um a vala que ladeava a estrada.
Sem querer, acabei descalçando tio Teddy e j oguei seu sapato no chão e, com custo, consegui segurá-lo pela barra das calças. Não queria que papai pensasse que eu era fraco.
Tentam os j ogá-lo em um bueiro. Papai retirou a grade de aram e que o tam pava, m as era im possível em purrar o corpo para dentro. Tivem os de deixá-lo ali, com a cabeça enfiada no buraco. Papai voltou à carroça para buscar as coisas que tinha trazido para queim á-lo.
Tio Teddy não era m eu tio. Não era parente de nenhum de nós, apenas o cham ávam os assim . Mas papai tam bém não era m eu pai. Era um hom em que tinha m e encontrado dorm indo à beira de um a estrada de terra, havia nove anos, quando eu tinha 7 anos de idade. Papai e m am ãe m e adotaram , e passei a viver com eles, além de Davey e Hannah, que eram com o irm ãos para m im . Eram m uito especiais, principalm ente Hannah.
“Não vam os ser presos, papai?”
“Não, Seth. Só é preso quem é pego. E ninguém vai nos pegar.”
As cham as com eçavam a se espalhar. Eu tentava fugir da fum aça, m as ela m e alcançava, com o se tio Teddy estivesse m e seguindo.
Papai j ogou m ais lenha.
E ele estava errado.
Fom os pegos.
Tac. Tac. Tac.
Interrom pi a história.
Griffin dorm ia deitado de costas, descalço, com a cam isa para fora da calça e torcida em torno do corpo, o que o fazia parecer ainda m enor. Seu cachorro estava esticado, colado à sua perna, m as nos observava de olhos bem abertos.
“O que fizeram com ele?”, perguntou Ben.
“Com o garoto? Seth?”, eu disse. “Ele foi enforcado.”
“Ah.” A expressão de Ben se abrandou. Talvez tenha ficado com ovido com a história.
Então, os arbustos atrás dele chacoalharam violentam ente, e ouvim os um grito de dor que fez o cão se levantar e rosnar.
“Não vou contar m ais nada.” A im agem pálida de Seth apareceu em m eio aos galhos retorcidos, olhando para m im , suas m ãos esguias um a sobre a outra, um a leve neblina perm eando o em aranhado espinhoso. “Tudo bem , não vou contar m ais nada.”
Ben esticou as pernas. “Você acha m elhor nos revezarm os para dorm ir?”
“Acho um a boa ideia”, respondi. “Pode dorm ir prim eiro, fico de guarda.”
Ele não discordou. Com a cabeça em um a das sacolas, deitou-se de lado, virado para Griffin.
Era fácil o bastante ver aquelas criaturas à noite. Fiquei de pé. Seth estava bem ao m eu lado, tão perto que podia sentir um tipo de calor vindo de sua presença. Andei até a borda da clareira e olhei para o im enso deserto.
“Quem é você?”, sussurrei.
“Ninguém ”, respondeu Seth.