A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 25 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 25

VINTE E CINCO

 

O único indício de que tinha existido vida no últim o vagão eram as m alas. Havia m ais de dez delas abandonadas, enfileiradas sobre as j anelas nos com partim entos que ladeavam o corredor. Na pior das hipóteses, eu e os garotos encontraríam os roupas novas para m orrer e talvez encontrássem os um par de sapatos para Griffin.

Eu ia à frente. Ben e Griffin m e seguiam enquanto andávam os cuidadosam ente pela penum bra do corredor. Às vezes, os m eninos paravam para passar a m ão sobre a superfície fria do couro dos assentos e dos tam pos de fórm ica. Um a das m esas tinha m igalhas.

“Será que tem com ida nas m alas, Jack?”, perguntou Griffin.

“Com certeza vam os encontrar algum a coisa”, respondi. “É m elhor conferirm os tudo o que tem aqui antes de sair pegando qualquer coisa”, ponderou Ben.

“Tudo bem ”, concordei.

Abri a porta para o próxim o vagão. Um a raj ada de ar seco tom ou conta do am biente.

O cheiro de m orte era evidente. Não era o cheiro horrível e sufocante de m orte putrefata, m as percebem os que havia passageiros m ortos no vagão. Sabíam os, pelo odor seco, que estavam ali há anos.

Seis pessoas.

Mum ificadas.

Um hom em e um a m ulher sentados, inclinados para a j anela, com o se tivessem dorm indo há anos e ainda estivessem sonhando. A pele afundada, parda, com o se seus crânios fossem adornados de couro curtido. Ele estava bem vestido: calças j eans, um cinto de couro e um a cam isa azul listrada que ainda tinha vincos nas m angas.

Não queria ter de despi-lo apenas para term os roupas m elhores. Notei que Ben olhava para ele tam bém . Sabia que estava pensando a m esm a coisa.

Ficam os os três de j oelhos para conferir o que o hom em calçava. Eram novos. Tênis brancos.

Entre seu quadril e o descanso de braço abaixo da j anela, havia um a garrafa de água de um litro tam pada, três quartos cheia. Abri a garrafa para sentir o cheiro. Parecia boa, m as não bebi.

Passei a garrafa para Griffin.

Com partilham os a água cuidadosam ente, nos revezando até esvaziar a garrafa. Coloquei a garrafa vazia sobre a m esa à frente do casal m um ificado.

Na fileira seguinte, três crianças deitadas de lado nos assentos, com as cabeças apoiadas sobre um dos braços, com o travesseiros. Dois m eninos e um a m enina, não tinham m ais de 8 anos. Era difícil olhar para eles, m esm o que j á estivéssem os acostum ados àquilo.

“Parece que estão dorm indo”, eu com entei. “Parece que sim plesm ente decidiram dorm ir.”

Olhei de relance para Griffin. Podia notar seu incôm odo.

“Não deve ter sido um a m orte ruim ”, eu disse.

Encontram os um velho no fundo do vagão. Vestia um uniform e e tinha um a identificação oval, de bronze, presa à lapela da j aqueta azul-m arinho. Estava debaixo de um a m esa com os j oelhos dobrados, olhos e boca abertos.

Tinha feridas com crostas secas e escurecidas. Não tocaria aquele corpo por nada.

O próxim o vagão era o refeitório. Vibrávam os enquanto seguíam os pelo corredor. Ninguém precisava dizer; sabíam os que encontraríam os com ida e bebida. As m esas estavam postas: toalhas brancas, pratos e talheres que ainda brilhavam , guardanapos dobrados, vasos triangulares de cristal com bases circulares – e as cinzas das flores que contiveram um dia.

Havia m ais três corpos ali, sentados no chão e apoiados na outra porta. Hom ens. Os garçons da últim a ceia. “Se quiserem , podem ficar aqui procurando com ida enquanto eu confiro os outros vagões”, disse aos m eninos.

Ben respondeu a m inha faca.

Ben olhou para Griffin. A pouca água que tínham os bebido j á tinha devolvido algum brilho a seus olhos. “Vam os ficar j untos, Jack”, Ben respondeu.

Não havia qualquer sinal de resistência no rosto delgado de Griffin.

“Vam os tirar esses três do cam inho”, eu disse.

Ben puxou um dos corpos pela perna e caiu sobre nós quando ela se soltou do corpo.

“Puxem pelas roupas”, sugeri.

Eles não pesavam m uito e, após o erro sinistro de Ben, conseguim os arrastar os três corpos para trás da últim a m esa. A toalha branca que a cobria agora tapava os rostos dos cadáveres. Senti pena por arrastá-los daquela form a.

Mais vagões, m ais do m esm o. Corpos ressecados, m alas, condutores... nada indicava que qualquer coisa fora do norm al tivesse acontecido. Parecia um a viagem de trem qualquer.

O penúltim o vagão era um vagão-quarto, com um corredor estreito, revestido de painéis que ladeavam a única fileira de j anelas.

Ben correu a porta do prim eiro com partim ento e enfiou a cabeça.

Ele saiu rapidam ente, assustado, caindo sobre m im e Griffin, gritando, “Eita porra! Eita porra!”.

Caím os os três sobre o carpete ressecado. Derrubei m inha faca. Algum a coisa se m exeu lá dentro. Vi um clarão, um a som bra se estendeu pelo corredor. Um a velha saiu do com partim ento e olhou para nós, balançando a cabeça. Com o braço estendido, aproxim ou a m ão do rosto de Ben, que se levantou de um a só vez, preparado para lutar. A m ulher deu m eia volta e desapareceu corredor adentro.

Ben seguiu a aparição, cortando o ar com sua lança de m etal, estraçalhando vidros e perfurando portas, gritando, “Caralho! Odeio esses fantasm as!”.

“Ben! Ben!”, gritei e m e levantei, puxando Griffin para perto de m im , m as Ben não escutava. Ele correu até o fundo do vagão, destruindo o que via pela frente, xingando até que o espectro escapasse através das rachaduras de um a das j anelas que ele tinha acertado.

Ben soltou a arm a e caiu de j oelhos, ofegante.

Coloquei a m ão na sua nuca e disse, “Está tudo bem ”. Ele apenas olhou para o carpete entre seus j oelhos, e eu insisti, “Ben, está tudo bem ”.

Ben inspirou fundo. “Desculpa, Jack. É que ela m e deu um susto do caralho.”

Ouvi Griffin vindo pelo corredor, abrindo os com partim entos um a um .

Havia corpos deitados em quase todas as cam as, m as encontram os um a desocupada e feita, com o se o trem tivesse acabado de partir.

“Podem os dorm ir aqui depois”, sugeri.

Encontram os o m aior núm ero de corpos no últim o vagão que exploram os, antes da locom otiva. Vinte e dois, contam os. Estavam todos fardados, eram soldados. Suas m ochilas, perfeitam ente alinhadas dentro dos com partim entos de bagagem , tinham seus nom es escritos em estêncil.

Ben deixou cair a lança ruidosam ente no piso de linóleo.

“Eles têm arm as!” Ben passou por m im correndo.

Eu tam bém tinha visto.

Em Marbury, as arm as transform avam garotos com o nós em deuses.

Cada um daqueles soldados, exceto um , tinha um a ferida de bala na lateral da cabeça. Havia borrifos pardos de sangue em todas as direções. Alguns dos hom ens ainda tinham a m ão agarrada às arm as. Algum as delas estavam próxim as ao local onde os últim os espasm os m oribundos as deixaram .

Suicídio.

Todos eles. Griffin não tinha percebido, eu tinha certeza.

Ben parou onde estava, “Jack, esses caras...”

“Eu sei.”

Havia um rifle. Estava entre as pernas esticadas de um soldado sentado no chão, seu dedão ainda curvado sobre o gatilho, sua m andíbula pendendo no fim do cano, um j orro escuro de sangue e grum os encefálicos espalhados pela estam pa floral do papel de parede.

Eu observava enquanto Ben fazia um a busca pelo vagão, de cadáver a cadáver. Ele parecia tentar ler os nom es nos uniform es.

“E agora?”, perguntou Griffin.

“Pegam os as arm as”, respondi. “Olha com o as coisas estão m elhorando, Griff. Pegam os as arm as e fecham os este lugar. E vam os pegar algum as roupas dessas m ochilas. Depois, vam os procurar algo para com er e beber. As coisas estão m elhorando, Griff!”.