A Lente de Marbury
Capítulo 41
Q UARENTA E UM
Tirei o tênis e a cam isa e m e sentei na areia fria com Nickie, olhando para o oceano, com as pernas dobradas e entrecruzadas um as nas outras, abraçando sua cintura.
Era bom .
Podíam os ver Conner e Rachel andando perto do m ar, em direção ao píer. Riam .
“Parece que eles se deram bem ”, com entei.
“O que você vai fazer? Eu digo, quando as férias acabarem , Jack?”
“Não sei. Voltar pra escola, acho.”
“Você volta pra cá? Para estudar em Kent?”
“Com certeza, m as não sei se vou para aquele colégio. Acho que o Conner não gostou. Não vou ficar lá sozinho. Mas eu vou voltar pra cá, sim .”
“Você gostou da Inglaterra?”
Engoli em seco. “Gostei de estar com você.”
“Kent não fica longe de Londres. Se você fosse para o St. Atticus, im agino que a gente poderia se ver todo fim de sem ana. Quer dizer, se você quiser. Você sem pre teria am igos aqui.”
“Teria?” Olhei para o m ar. “O que você viu em m im , Nickie?”
“Eu... acho que alguém que é m uito genuíno e honesto. Um m enino que valoriza suas am izades m ais que tudo. Posso ver isso.”
Senti m inhas bochechas queim ando. Não queria que ela m e visse envergonhado, então m e deitei na areia e acabei pousando a cabeça nos tênis de Conner. Eu os em purrei pro lado.
“Estou tão cansado, Nickie. Quase não dorm i nas últim as duas noites.”
Nickie se esticou perto de m im . Deitou de lado, apoiando a cabeça na m ão. Olhava para m im de cim a. Seu seio estava encostado no m eu braço esquerdo. Sabia que ela tinha notado. Gelei. Não consegui falar, fiquei totalm ente inerte, quase sem respirar. Acho que ela viu com o fiquei tenso.
“Vocês estão saindo m uito?”, ela perguntou.
Quando ela perguntou isso, pensei no que realm ente m e tirava o sono: Marbury, Ben e Griffin. Mas o calor dela ao m eu lado tinha um a força m agnética que não deixava que eu m e perdesse nos m eus pensam entos.
“Acho. Sim ”, respondi.
“Então, hoj e a gente volta cedo pra casa. Prom eto.”
“Não, tudo bem .” Minha voz sum ia enquanto falava. Notei que m inha tim idez fazia Nickie sorrir.
Nickie tinha 17 anos e era um a m enina inteligente, j á devia ter percebido com o m e deixava nervoso. Afinal, eu j á confessara nunca ter beij ado um a m enina até aquele dia no Regent’s Park. Não devia ter dúvidas, eu acho, sobre se eu era virgem ou não.
Eu odiava ter 16 anos. Era a pior coisa. Por todas aquelas m erdas que eu li nos livros sobre “problem as da adolescência”, a m udança de voz, o m odo desengonçado, o com portam ento estranho e as m udanças fisiológicas inconvenientes com o ej aculação noturna e ereções im placáveis nos piores m om entos; ter 16 nunca foi confortável, legal e nem de longe engraçado. Com o se j á não bastassem todas essas coisas, ainda tinha de lidar com hom ens dando em cim a de m im e até um a tentativa de estupro, e o m eu am igo superconfiante, que tinha sexo quando quisesse.
E agora, m esm o com um a m enina tão incrível deitada ao m eu lado, com a pele colada na m inha, ainda m e sentia o m aior fracassado do m undo.
Odiava absolutam ente tudo o que era ter 16 anos de idade.
Vai se foder, Jack.
Vai se foder, Freddie. Eu te matei.
Ela se aj eitou, de m odo que seus olhos estavam diretam ente acim a dos m eus, e seus cabelos caiam sobre m eu rosto. “Olhe pra você”, ela disse. “Parece que está com a cabeça em outro m undo, Jack. O que é que você pensa tanto?”
Ela cruzou os braços sobre m eu corpo. Sentia seus seios apertados contra o m eu peito.
Fiquei olhando nos olhos dela, sem piscar.
“Às vezes não gosto de ser eu, Nickie.”
Ela suspirou e rolou para o lado, deitando-se de costas na areia, olhando para as nuvens. Segurou m inha m ão.
“Se você pudesse ser outra pessoa, quem você seria?”, ela perguntou.
Pensei em silêncio por alguns segundos.
“Griffin Goodrich.”
“Quem é ele?”
“Um m enino que eu conheço.”
“E o que você adm ira nele?”
Apertei a m ão dela. “Ele é forte, ninguém passa por cim a dele. E ele não é inseguro nem fica constrangido com nada.”
Ela se deitou novam ente de lado e colocou a m ão aberta sobre a m inha barriga, cuidadosam ente, lim pando a areia na m inha pele com os dedos. Era a m elhor sensação do m undo.
“Eu acho que você é tudo isso tam bém , Jack.”
Queria m uito beij á-la, m as não beij ei.
“Acho que é um bom proj eto pra m im provar que você está certa”, eu disse. “Eu quero que você estej a certa, Nickie.”
“Já tá na hora de vocês dois arrum arem um a cam a.” Era Conner, sorrindo. Segurava a m ão de Rachel. “Mas, pera aí. A gente j á tem duas cam as. Acabo de ter um a ideia sensacional para nós quatro e aquelas cam as.”
Fiquei de pé e j oguei um de seus sapatos nele. “Tam bém tive um a ideia sensacional. Vam os correr.” Então olhei para Nickie e disse, “A gente encontra vocês no quarto em um a hora. Dá tem po de vocês se arrum arem para sair sem o Conner ficar babando atrás de vocês”.
Calcei o tênis e com ecei a em purrar Conner para a areia m olhada. “Anda!”
A m aré estava baixa. Era fácil correr pela areia plana. A praia parecia se estender infinitam ente à nossa frente.
“E então?”, perguntei.
Conner m e deu um tapinha nas costas. “Não dá nem para acreditar que Jack Whitm ore arrum ou um a viagem com duas gostosas. E sozinho! Sou obrigado a dizer que estou reavaliando m eu parecer sobre sua orientação sexual, m eu am igo!”
“Cuzão!”
“A Rachel é sensacional, cara. Dá até um m edinho para falar a verdade, porque nunca saí com um a m enina que não fosse um a...” Ele hesitou.
“Vadia?”
“Basicam ente. Sim .”
“E a Dana?”
“Você não viu que m eu celular não toca desde que a gente chegou aqui? Eu term inei com ela um dia antes de vir.”
“Deu sorte.”
Conner sorriu. “Exatam ente, m eu am igo. Estou te devendo um a. Até duas.”
“Bom saber. Estou pensando em voltar para estudar um sem estre aqui. Quem sabe um ano.”
Ele estendeu a m ão e disse, “Se você vier, eu topo. Para ficar com a Rachel, eu até aguento aquele m onte de hom em e as gravatinhas idiotas.”
“Vou ligar para o Wy nn neste fim de sem ana. Vam os ver com o as coisas vão ficar.”
“E dá um j eito na m erda daquelas lentes.”
“Pode deixar.”
“Tô falando sério, Jack.”
“Pode deixar, cara.”
Continuava m entindo para ele. Ficava cada vez m ais fácil.
Fiquei assistindo televisão com as m eninas enquanto Conner tom ava banho. Com o era de se esperar, ele saiu enrolado em um a toalhinha, pingando água para todo lado, e abriu a m ochila.
“Desculpa, m e esqueci de levar as roupas para o banheiro.”
Ele levantou um a cueca da m ochila, sacudiu e, bem antes de term inar de vesti-la, deixou a toalha cair. E continuou ali procurando, despreocupadam ente, apenas de cueca, depois de m ostrar tudo para todo m undo, suas roupas até achar um a que o agradava. Olhei para Nickie e Rachel, m as elas não esboçavam a m enor reação.
Não entendia com o ele fazia aquelas coisas. Eu ficava nervoso só de pensar em trocar de roupa na frente das m eninas na hora de dorm ir. Era um a das coisas que tam bém nunca tinha feito na vida.
Balancei a cabeça para Conner, em reprovação, peguei a m ochila e entrei no banheiro úm ido.
Fechei a porta.
O silêncio e o isolam ento eram esm agadores.
Sabia que estava acontecendo de novo.
Jack, seu mentiroso de merda.
Você mente até para o melhor amigo, não é?
Ouvi algum a coisa rolando no fundo da banheira.
Olhei. Um a tam pa de xam pu, girando em círculos pequenos.
Agora não. Por favor.
Rolando e... Tac, Tac, Tac.
Freddie Horvath deixou m inha cabeça assim e não posso fazer nada.
Vai se foder, Jack.
Tente se controlar.
Sentei no vaso. Meu corpo trem ia. Seth estava ali m andando sinais de um lugar onde eu queria m uito estar.
O que está acontecendo comigo, merda?
“Não!”, sussurrei im paciente, im plorando.
Talvez Jack devesse encher a banheira.
Talvez ele devesse encher a banheira e afundar a cabeça lá dentro para acabar logo com essa merda toda.
Abri a m ochila e tentei m e concentrar em procurar as roupas que usaria, m as m inhas m ãos doentes buscavam os óculos. Tinha de senti-los, saber que estavam ali, guardados atrás do forro da m ochila. Quem sabe apenas encostar o dedo em um a das lentes. Apenas um toque. Tinha que sentir elas ali.
Chega, Jack.
“Não!”, eu im plorava a Seth, a m im m esm o, a qualquer um que fosse.
Bati os punhos fechados nas coxas, tirei as roupas e, trem endo, entrei na banheira. Abri som ente a água fria.
Fria, como mamãe me dando banho com a água do poço.
Já chega, Seth.
Rolando e... Tac, Tac, Tac.
Vamos, Jack. É só um segundo, Jack.
Vamos.
“Não! Por favor!”
Era fácil dem ais.
Sentado no fundo da banheira.
Trem endo.
A água soa com o um a cachoeira, respingando nos azulej os da parede, na porcelana branca da banheira e na m inha pele gelada.
Minha m ão tocou nos óculos.
Eu os coloquei.
Só por um segundo, Seth.
Por favor.