A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 49 de 59

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A Lente de Marbury

Parte Cinco: Seth

Parte cinco

 

SETH

Q UARENTA E NOVE

 

Eles tinham capturado Griffin Goodrich.

A culpa era m inha.

Quando fom os nadar, tínham os deixado todas as arm as sobre os alforj es, perto das paineiras. Foi um a idiotice, e a culpa era m inha. Os garotos confiavam em m im para tom ar as decisões certas, para m antê-los seguros, e eu falhei.

Quando vi os Caçadores vindo em nossa direção, peguei a faca que estava usando para cortar os peixes. Os dois levavam clavas feitas fêm ures hum anos am arrados. Os ossos, cobertos de sangue seco, tinham pontas afiadas.

Conner e Freddie Horvath.

No princípio, vinham cautelosam ente pelas árvores, um deles desenhava um ângulo com o braço, planej ando a em boscada, talvez.

Freddie estava terrivelm ente deform ado, m as tinha certeza de que era ele. As m anchas pela linha lateral de seu corpo eram negras e brilhantes com o óleo. Tinha a pele toda pintada até os j oelhos. Suas m ãos retorcidas term inavam em garras recurvadas e pretas, e protuberâncias cinzentas de osso trespassavam a pele do queixo assim etricam ente, curvando-se para fora. O cabelo do escalpo que cobria sua virilha era todo trançado e balançava com o as patas de um a aranha quando ele andava. Sua m arca era um traço diagonal fulgurante que ia do om bro esquerdo até a coxa direita, com o se o cortasse ao m eio.

Mas eu observava Conner e sua m arca em form a de peixe logo acim a da virilha, e m e perguntei se ele seria capaz de fazer algum a conexão entre aquele m undo onde éram os inim igos ao outro onde éram os tão próxim os.

Quando os Caçadores se separaram , e Freddie Horvath ficou espreitando por trás das árvores, Griffin correu em direção às arm as.

Conner foi em seu encalço.

“Jack!”, Griffin estava aterrorizado, não conseguia correr m ais que Conner.

Do lado oposto, Freddie vinha em m inha direção. Ben estava com igo.

Congelei. Quando m e dei conta de que olhava diretam ente para Freddie Horvath, tudo o que tinha acontecido com igo naquele outro lugar transform ava m inha m ente em um cativeiro.

Chega, Jack.

Saquei m inha faca.

“Conner! Conner Kirk!”, gritei. Apenas por um segundo, talvez, Conner dim inuiu o passo e virou o rosto em m inha direção. Griffin se em brenhou no m ato, na direção oposta de nossas sacolas, e Conner retom ou a caçada. Corria tão perto de Griffin que quase o agarrou pelos cabelos.

Freddie hesitava, olhando para m im e para Ben, a apenas alguns m etros de distância.

“Ben, vai pegar as arm as”, sussurrei.

“Jack!” Ouvi os gritos de Griffin atrás de nós.

“Ele o pegou, Jack! O filho da puta pegou o Griff!”

Freddie vinha pela vegetação. Dava passos firm es, m as cautelosos. Ouvia o estalar dos galhos enquanto ele se aproxim ava, em punhando aquele m achado m acabro acim a da cabeça. Olhei para trás e vi Ben correndo pela clareira à m argem do rio onde estavam nossas coisas. Conner ia em disparada para dentro da floresta, carregando o m enino franzino sobre o om bro. Os braços de Griffin não paravam , esm urravam e em purravam , m as Conner seguia seu cam inho, inabalado. O cachorro os acom panhava, em vão, com um ganido estridente.

Griffin continuava gritando m eu nom e. “Jack!”

Fiquei furioso. Estava preparado para enfrentar Freddie, m as não o via m ais.

Ouvia apenas os urros abafados de Griffin cada vez m ais distantes. Logo ele se tornaram sons indistintos, com o se tivessem am ordaçado, ou m esm o estrangulado o m enino. Então, não havia m ais sons, nem m esm o os ganidos do cão.

Silêncio.

“Porra!” Chutei o chão e cortei o ar com a faca.

Ben estava logo atrás de m im , perto das nossas sacolas. Sentado sobre os calcanhares, com o braço apoiado sobre o j oelho, segurava a arm a apontada para o chão. O outro braço cobria seus olhos e vi que lutava para conter os soluços. Chorava.

Fui até lá e tirei nossas roupas m olhadas dos galhos do salgueiro, enrolei as de Ben e as j oguei para ele.

“Levanta, Ben.”

“Porra de lugar!”, ele gritou.

“Veste a roupa e vam os logo. Vam os salvar o Griffin. Ainda dá tem po, m esm o que eles estej am de cavalo, você precisa reagir. Eles não vão m atar o garoto, ainda.”

Ben sabia.

As criaturas deixariam o m enino viver até que se cansassem de brincar com ele; até que ele estivesse m ais m orto que vivo.

Então o com eriam .

Os dem ônios tinham vindo a cavalo, nos seguindo pelas m ontanhas. A culpa era m inha. Não deveria ter voltado pelo m esm o cam inho apenas para poupar Griffin da verdade sobre o suicídio da freira que m atara o velho.

A agora Griffin tinha sido capturado.

Procurava não pensar no que estariam fazendo com ele, ou em quanto tem po ainda tinha de vida.

Os captores de Griffin não tentaram encobrir suas trilhas. Queriam que os seguíssem os.

Olhei para Ben, que cavalgava ao m eu lado.

“Ben, vou te pedir um a coisa.”

“O quê?”

“Eles não podem estar m uito distantes. Provavelm ente m enos de um a hora. Quando os capturarm os, não im porta o que aconteça, por favor não m ate aquele m ais novo que saiu carregando o Griffin.”

“Aconteça o que acontecer?”, Ben não acreditava no que estava pedindo a ele.

“É.”

“Não posso prom eter isso, Jack.”

Não respondi, então ele disse:

“Se você quer que eu prom eta algum a coisa, pelo m enos vai ter que m e contar por quê. Agora não é só um velho doido, é o Griffin. Acho que a prim eira coisa que vou fazer é m atar aquele lá. A não ser que você m ate prim eiro.”

Acelerei o passo. Não queria olhar para Ben, m as ele não deixava espaço. Nem entre nossos cavalos, nem para que eu evadisse suas perguntas.

“Você vai m e contar com o sabe o nom e daquele lá ou vai m entir para m im tam bém ? Vai m e tratar com o um m enininho?”

“Porra, Ben.”

“Então?”

“Cuidado com o abism o.” Fiquei olhando para Ben em busca de algum a reação. Vi im ediatam ente que aquilo fazia sentido para ele.

“Com o você sabe?”

Não há abismo.

“Henry m e m andou dizer isso para você e para o Griffin.”

“Ele está bem ?”

“Está.”

“Não entendo essas m erdas. Ele disse que se você falasse ‘cuidado com o abism o’ a gente teria que confiar em você e fazer o que m andasse, m esm o sendo estranho.”

“Bom saber.”

Ben apertava os olhos, trilhando com o olhar o cam inho à nossa frente. Devíam os estar bem próxim os. Quase sentia a presença dos dois.

“Então você conhece aquele que estava carregando o Griffin? Do outro lugar? Onde o Henry está?”

“Conheço.”

“Quem é ele?”

“Meu m elhor am igo.”

Ben olhou para m im por alguns instantes. “Já que o Henry falou, tenho que confiar em você. Mas se a vida do Griffin depender de m im , não posso prom eter nada.”

“Acho que é j usto.”

“Jack, com o você vai para o outro lado?”

Cocei a cabeça. “Não sei. Sou levado. Estou sem pre indo de um lado pro outro. Um a parte de m im está aqui, a outra, lá, onde Henry está. Às vezes acho que vou m orrer disso. Dói dem ais. É horrível, m as não consigo parar.”

“Você pode levar a gente?”

“Se pudesse, levaria.”

“Mas o Henry te trouxe.”

“Ele deu sorte, só isso.”

“Sorte? Com o raios você acha isso? – Ben perguntou. “A cabeça dele acabou em um m uro onde em palaram partes dos corpos de toda a nossa gente, exceto nós três. O Henry te enganou para que ficasse com igo e com Griffin. Provavelm ente, sabia algum a coisa im portante sobre você. Se ele não tivesse feito isso, seu cadáver estaria ao lado do dele, e Griffin e eu estaríam os m ortos tam bém .”

Parei m eu cavalo e estendi o braço para que Ben parasse tam bém .

À nossa frente, no fim do cam inho de terra seca e rachada que subia a encosta da m ontanha, vi um breve clarão verm elho.

Freddie Horvath.

Acham os eles.

Eles estavam m uito perto.

Vi outro vulto ao lado do cavalo de Ben. Seth. Seu rosto estava inerte e os olhos, vidrados. Mal enxergava seu contorno, m as um a luz interm itente e intensa vinha de dentro dele, invadindo m eus olhos: j anelas de um trem de m etrô passando pela estação.

Era um a força que m e puxava para trás.

“Não. Ainda não.”

“Que porra é essa?”, Ben disse.

Ele tam bém estava enxergando aquilo.

“Não, caralho!”, gritei.

E um sussurro sibilante, “Seth”.

Vai se foder, Jack.