A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 15 de 59

Páginas do PDF

A Lente de Marbury

Capítulo 15

Q UINZE

 

Eu corria.

Meu tornozelo ardia. Provavelm ente, estava sangrando dentro da m eia. Não olhei. A ferida não tinha sarado por com pleto.

Pois é, eu me lembro de você, Freddie.

Vai se foder, também.

Assim que eu te esquecer, você estará realmente morto.

Eu corria m uito rápido. O suor pingava do m eu queixo e dos m eus cotovelos. Às vezes, olhava para trás para ver se não tinha deixado cair um a trilha de m oedas escuras pelo cam inho.

O parque parecia se estender infinitam ente ao longo de um enorm e gram ado onde hom ens de branco j ogavam críquete. Toalhas desenhavam retângulos verm elhos e am arelos pelo gram ado onde casais enam orados dorm iam aninhados sob o sol, após esvaziarem todas aquelas garrafas de vinho.

Conner e Dana.

E todos pareciam olhar para m im .

Chega, Jack!

Um a torre de pedra do outro lado das árvores à m inha esquerda ostentava um enorm e relógio em seu topo. Cinco em ponto. Tinha de calcular que horas realm ente eram para m im .

Corri sobre um a ponte e pelas m argens do lago onde velhos j ogavam m igalhas aos pássaros que pousavam no gram ado entre a água e a pista. Contornei o perím etro do parque por trás do zoológico, em sentido horário, de volta até a entrada.

Em sentido horário.

Parei diante de um pequeno j ardim cercado, repleto de flores coloridas e cintilantes m argeando o cascalho da trilha. Estava encharcado de suor. Minha cam iseta colava à pele. Tirei ela, levei ao rosto e m e abaixei, apoiado sobre o j oelho.

“Está m achucado?”

Assustado, deixei a cam iseta cair e m e levantei.

Um velho bigodudo se curvou em m inha direção. Era um dos que j ogavam críquete. Cheirava a tabaco.

Fum aça.

“Hã?”

“Seu pé”, ele disse. “Precisa de aj uda?”

Minha m eia estava coberta de sangue no ponto onde o tênis roçava contra o que restava da m arca que Freddie Horvath tinha deixado em m im . Nem tinha notado.

“Ah!” Peguei a cam iseta, desconcertado. “Machuquei faz algum tem po, achei que j á tinha sarado.”

“Cuide disso, então”, disse o velho. “Até m ais.”

Ele se afastou.

Encontrei o cam inho de volta até a entrada do parque e virei à direita na Mary lebone Road.

O hom em dos óculos esperava por m im ali.

Parado, com as costas apoiadas na cerca de ferro do parque, ele observou quando passei a cam iseta encharcada pela cabeça. Estava sem os óculos, o que achei estranho, j á que estávam os em um am biente aberto e os óculos eram escuros. Ele ainda tinha aquele olhar, com o se m e conhecesse ou quisesse m e dizer algum a coisa.

Meu estôm ago em brulhou. Tinha certeza de que estava sendo seguido pelo que Conner e eu tínham os feito.

Olhei feio para ele novam ente, virei o rosto para a entrada do hotel e continuei a corrida, deixando-o para trás.

Tirei os tênis e as m eias. Abri a j anela, descolei a cam isa m olhada do corpo e a dependurei sobre a dobradiça. Me alonguei na cam a.

No celular, um a ligação perdida de Conner. Era bom ver o nom e dele.

Ele nem disse “oi” ou algo assim . “Jack, com o estão as coisas aí?”

“Oi, Con. Sei lá. Acabei de chegar. É bem legal. Só que tudo é diferente. Estranho. É bem fácil achar os lugares. Acabei de dar um a corrida de treze quilôm etros no parque. Você vai ver o quarto que arrum aram pra gente. É m eio esquisito.”

“Tipo o quê?”

“Ah, tem um a cam a só.”

“Não conta pra Dana. Você sabe que ela te acha m eio gay.”

“Você não contou nada pra ela, né? Sobre o que aconteceu com igo.”

“Sem essa, Jack. Você sabe que eu não faria um a coisa dessas.”

Suspirei e m e sentei na cam a, com o se visse o quarto com os olhos de Conner. “E você tem que deixar a porta do banheiro aberta para conseguir entrar no chuveiro.”

“Nossa, que gay !”

“E a água tem gosto de peixe.”

Conner riu.

”Fora isso e o povo estranho, acho que vai ser legal. Vou te buscar no aeroporto na segunda.”

“Então está tudo bem com você, Jack?”

“Con, sinto que tem alguém m e seguindo.”

Silêncio.

Olhei pela j anela, m inha cam iseta m olhada pendurada ali, convencido, agora, de que talvez alguém ouvia tudo o que eu dizia.

Chega, Jack.

Conner quis descontrair. “Rá, você? Feio desse j eito, só se você pagasse pra alguém te seguir!”

Então m e lem brei do suj eito do banheiro. Gary.

“Estou m eio paranoico”, continuei. Respirei fundo. “Mas acho que essa viagem vai ser boa para m im , e para você tam bém . Estou evitando dorm ir para m e acostum ar ao fuso-horário. Vou tom ar um banho e com er.”

“Cara, não fica aí preso dentro do hotel. Sai pra tom ar um a cervej a.”

Nós dois tínham os identidades falsas do estado de Idaho. Não que fizesse algum a diferença. E tínham os ouvido falar que era fácil com prar cervej a por aqui.

“É, pode ser”, eu disse, com o se não quisesse, apesar de achar um a boa ideia. “Ah, Con, você pode fazer um a coisa pra m im ?”

“O quê?”

“Esqueci o carregador do celular. A Stella vai m e m atar. Pode passar em casa e pegar pra m im ?”

“Caraca! Você precisa colocar a cabeça no lugar.”

“Eu sei.”

“Bom , m e dá um a ligada antes de a bateria acabar.”

“Ok.”

“E, Jack? Tá tudo bem agora, viu? Fica tranquilo.”