A Lente de Marbury
Parte Dois: Meninos Estranhos
Parte dois
MENINOS ESTRANHOS
DEZOITO
Acho que nunca dorm i tão bem quanto naquela prim eira noite em Londres. Quando acordei, fiquei deitado por alguns m inutos, m eu corpo afundava na cam a m acia sob o pesado edredom de penas, que parecia ser a única coisa que m antinha m eu corpo coeso. Olhei para a perfeição do dia do outro lado da j anela.
Talvez tenham sido ratos, pensei. Não im portava, não tinha ouvido m ais nada depois de dorm ir. Nem m esm o tinha sonhado.
Me levantei e abri a j anela.
Mais tarde, depois de tom ar o café da m anhã e sair para correr, enquanto desaj eitadam ente m e vestia para sair do hotel e explorar a cidade, sacudi a berm uda que tinha usado na noite anterior para procurar o celular, e os óculos de Henry Hewitt caíram nas dobras do lençol em que acabara de dorm ir.
Peguei os óculos e m e sentei na cam a. Eram m uito antigos e frágeis. Tinham hastes m etálicas douradas, delicadam ente trabalhadas com fios entrelaçados e pequeninos altos-relevos pintados de preto. As lentes pareciam ser bem m ais pesadas que o norm al, com o discos de rocha cristalina. Em um a delas, havia um a pequena lasca na borda, a coloração era irregular: roxo-claro e leitoso em algum as partes, e um tom de púrpura escuro e intenso em outras.
A HORA DA AMETISTA.
Chega, Jack.
Desdobrei a haste e estiquei os braços, levantando os óculos para ver a luz da j anela através das lentes.
Ouvi novam ente aquele som de algo rolando, m as dessa vez era m ais alto.
Quando olhei através das lentes, vi algo estranho, era difícil entender. Vi um inseto, grande, preto, brilhante e m olhado. Abaixei os óculos. Não ouvi m ais o barulho.
Pensei que os óculos funcionavam com o um telescópio se segurados à distância. Procurei por um inseto que poderia estar cam inhando pela j anela.
Mas eu havia deixado a j anela aberta.
Mesm o assim , pensei, o inseto estaria andando por ali em algum lugar. Pelas paredes, talvez pelas cortinas...
Fui até a j anela. Exam inei cada lugar e balancei as cortinas, m as não encontrei o inseto. Ele seria fácil de achar, era bem grande. Não poderia ter desaparecido assim , de repente.
Estava lá, eu vi.
Sentei de novo.
Levantei os óculos.
E os coloquei.
Você ainda não conseguiu escapar de nada, Jack.
Não m e lem bro nem de ter abaixado os braços depois. E por que m e lem braria? Após colocá-los, j á não estava m ais no hotel.
Lá estava o inseto.
O céu era com o um dom o acim a da m inha cabeça, com o o teto de um a catedral, claro e quente.
Eu estava de pé, perto de um m uro, olhando o inseto sair de um buraco verm elho-escuro do tam anho de um a am eixa podre. O ar era denso, úm ido e fétido; adocicado e putrefato ao m esm o tem po. Estava fascinado por aquela coisa repugnante. Se o pegasse, o bicho era m ais com prido que m inhas duas m ãos j untas. Nunca tinha visto nada parecido, nem m esm o em pesadelos. Ouvia a criatura m astigando enquanto desenhava um círculo em sentido anti-horário em torno da borda carnosa da concavidade de onde tinha saído, em itindo leves cliques m olhados. Então, m ais dois deles saíram do m esm o buraco úm ido. Um deles caiu perto do m eu pé, fazendo um barulho abafado. Dei um passo para trás.
Foi quando percebi que com iam a carne de dentro da órbita ocular de um a cabeça hum ana.
O corpo não estava lá, som ente a cabeça com o se estivesse pronta para conversar, fincada ao m uro, na altura dos m eus olhos, por um a grossa estaca de m adeira que trespassava a outra órbita.
“Caralho!” Dei outro passo para trás enquanto o vôm ito subia pela m inha garganta.
Tropecei em algo sólido porém m acio e caí com as m ãos abertas na terra. Ainda assim , não consegui tirar os olhos daquela cabeça presa ao m uro cinzento que se im punha diante de m im . Um dos insetos escancarava sua carapaça negra e envernizada enquanto rasgava um a das narinas com as m andíbulas. O verde vivo de suas asas vibrava, e ele zum bia com o o crepitar de um a carga elétrica. O sangue brotava do pescoço em nervuras, form ando ram ificações abruptas e reluzentes que entravam pelos sulcos do m uro.
Senti algo nas costas da m ão.
Mais um daqueles bichos.
Olhei para baixo, trem endo. E que roupas eram aquelas que eu estava usando? Não eram m inhas.
Então eu o reconheci.
A cabeça no m uro era de Henry Hewitt.
Fiquei ali, sentado na terra cinzenta. O resto do corpo de Henry estava bem próxim o a m im , m inha m ão esquerda, aberta, apoiada sobre seu peito enrij ecido.
Suas m ãos tam bém tinham sido decepadas. As m angas de seu casaco estavam encharcadas de verm elho até os om bros.
“Jack! Jack! Tem os que sair daqui! Agora!”
Me virei. Reconheci aquela voz. Alguém cham ado Miller. Ben. Tive de pensar, não tinha certeza de onde conhecia aquele nom e. Não consegui ver de onde vinha a voz.
Um zunido, e três flechas, de penas negras com o as carapaças daqueles insetos, alvej aram o m uro, bem acim a de m im .
“Jack! Aqui! Jack!”
De j oelhos, rastej ei para longe do corpo de Henry. Olhei para aquele m uro apenas m ais um a vez. Estava coberto de cabeças em paladas, além de m em bros e órgãos apodrecidos: m ãos, corações, pés, orelhas, pênis.
Que porra de lugar era aquele?
Bem-vindo ao lar, Jack.
Você ainda não conseguiu escapar de nada.
Eu rastej ava no chão. Mais flechas cortavam o ar por cim a da m inha cabeça. Pensava estar indo em direção à voz de Ben, m as não via nada. Tudo naquele lugar era um grande am álgam a: o céu branco, o solo cinzento, sem som bras, calor, neblina, o cheiro, o som de algo rolando com o aquele que vinha de debaixo da cam a.
“Por aqui! Vem !”
Levantei o queixo, olhei para o chão entulhado. Havia a carcaça de um cavalo, sua barriga aberta e suas entranhas espalhadas pelo chão. A parte de baixo do corpo de um hom em tinha sido enfiada pelo corte no corpo cavalo: o ato final e obsceno de um a perform ance grotesca.
Só o pé esquerdo estava calçado.
Onde estaria o resto daquele corpo?
Ben Miller vinha em seu sobretudo cinza-claro, suj o de borrifos de sangue, trazendo dois cavalos cansados, segurando as rédeas firm em ente com sua m ão ferida. Ele estava atrás de um a ravina onde um a avalanche de pedras tinha esm agado cadáveres e ossos. As pedras chegavam à altura dos om bros, em pilhadas ao pé do m uro de um assentam ento.
Sabia quem era aquele m enino, e tam bém tinha um a vaga lem brança de onde estava.
De onde o conhecia?
Fiquei de pé e com ecei a correr.
A flecha veio, silenciosam ente. Me atingiu do lado direito, bem abaixo de m inhas costelas.
Entrou.
Saiu.
A haste penetrou e passou, com aquelas penas negras horríveis, e vi m eu sangue colorir de verm elho o chão desbotado, com o se fosse algum a piada de m al gosto. Mas sentia m uita dor. Com o a dor de ser eletrocutado por Freddie, aum entada m il vezes e ainda m ais.
Você ainda não conseguiu.
Caí de j oelhos. Tentei im pedir a queda com a palm a das m ãos, m as m eu rosto acabou no chão, de lado, assistindo a um daqueles insetos voar em m inha direção.
“Jack! Jack!”
O garoto, Ben Miller, corria em m inha direção.