A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 53 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 53

CINQ UENTA E TRÊS

 

A história de Seth [5]

Papai se sentia terrivelm ente m al e assum iu toda a culpa pelo acontecido. Na escuridão do celeiro, antes de sairm os com o corpo do pastor, papai m e disse que tinha pedido a tio Teddy para nos cham ar para o j antar na casa de Davey.

Eu veria m inha bela Hannah apenas m ais um a vez depois daquela m anhã em que papai e eu arrastam os tio Teddy para um a vala e o queim am os. Acho que estávam os os dois enoj ados, m as fazíam os aquilo para o bem de Hannah, e isso era tudo o que im portava. Papai estava zangado com igo, com razão, m as j uram os um ao outro que j am ais contaríam os o que acontecera a Hannah, em qualquer circunstância.

No cam inho de casa, papai parou à beira do rio. Enchi um balde d’água e, com um a escova e sabão, tentei rem over o sangue seco e escurecido das tábuas da carroça. Mas estava agarrado à m adeira. Mesm o eu que esfregasse por sem anas, sem pre veria aquelas m anchas e, quanto m ais olhava para aquelas tábuas m órbidas, m ais enxergava a nódoa na form a exata do corpo de tio Teddy, na posição em que se deitara para m orrer.

Im aginava tio Teddy m e seguindo e m arcando m inha testa com traços fulgurantes, denunciando m eus atos. Talvez atraísse um a alm a pura que fizesse a j ustiça de Deus e m e m atasse.

“Não quer sair”, disse.

Papai fum ava à beira do rio. “Achei m esm o que não fosse sair, Seth.”

Papai enrolou outro cigarro e estendeu o braço. “Tom a. Sem pre quis te cham ar para fum ar um cigarro com igo, e agora é um a boa hora.”

Eu m e sentei ao lado de papai e ficam os olhando o rio correr enquanto pitávam os nossos cigarros.

Quando chegam os, a casa era de um silêncio fúnebre. Sentia-m e um m onstro pelo sofrim ento que tinha causado à m inha fam ília. Fui à cozinha e beij ei m am ãe, m as ela não disse nada, olhando fixam ente o j antar que cozinhava. Era um fardo pesado dem ais para ela, pensei. Jam ais perdoaria o que tinha feito à sua filha.

Deixei papai e subi as escadas. Ele sabia que eu procurava por Hannah.

Ela estava sentada na cam a, adm irando o cavalinho que tinha ganhado de Natal. Parecia tanto tem po atrás.

Deixei a porta aberta. Hannah entendeu que eu tinha j urado não m ais a desrespeitar papai e m am ãe.

“Oi, Hannah.”

Ela ergueu os olhos m arej ados, então eu m e sentei ao seu lado, passando os dedos por seus cabelos m acios. “Você está cheirando à fum aça.”

Hannah colocou o cavalinho no colo.

“Fum ava com papai.”

“Papai não te acha um depravado. Eu tam bém não.”

“Hannah, eu quero que você saiba que tudo o que eu fiz foi em nom e do pelo m eu am or por você, e agora as coisas serão com o sem pre sonham os.”

Abraçados, nos beij am os.

“Dói m uito?”, perguntei.

“O neném ? Não, ele não m e dá dores.”

“Não, suas costas e as pernas.”

“Ah, isso vai sarar.” Hannah segurou m inha m ão. “Seth, e eu quero que você saiba que tudo o que eu fiz nesta vida foi pelo m eu am or por você.”

E nos beij am os m ais um a vez, e durante esse beij o ouvim os alguém bater insistentem ente na porta. Procuravam por m im e por papai, queriam nos levar em bora.

As m ulheres choravam .

Estava feito. Não resisti, nem papai. Tam bém não tivem os qualquer ím peto de fugir.

Depois de nos levarem para fora, acorrentaram nossos punhos. Tinha tanto m edo que m inhas pernas estavam bam bas, m as papai perm anecia im pávido. Virei o rosto. Mam ãe e Hannah se abraçavam na varanda, olhando enquanto nos levavam .

Foi a últim a vez em que nos vim os.

Justiceiros de Necker’s Mill. Já os conhecíam os da igrej a e um deles trabalhava no m oinho com Davey. Eram cinco: dois nos levavam em um a carroça, e os outros três seguiam a cavalo.

O m aior deles, senhor Russ, guiava a carroça. Era um suj eito bronco, bastante irritadiço.

“Dois calhordas idiotas, é o que vocês são! Alvin Hanrion viu tudo o que aconteceu, do início ao fim .”

Hanrion vinha a cavalo, confirm ando com a cabeça, com o um fantoche.

“O que vocês tinham na cabeça desafia m inha com preensão”, continuou Russ.

“Eu suponho que desafia”, respondeu papai.

“Não carece de levar vocês até Napa se podem os fazer o serviço deles aqui.”

“Não carece”, concordou Hanrion. Os outros, sisudos e m al-barbeados, apenas nos encaravam .

“Aqui está bom ”, ordenou Russ.

A quinze quilôm etros de casa foi o local onde decidiram enforcar a m im e a papai.

Russ levou a carroça até um a árvore, olhando para cim a e para baixo, escolhendo o galho com a altura certa.

Parou a carroça e puxou o freio.

Fui tirado da carroça, não suportava m ais tanta agonia. Deixaram papai lá e Russ disse, “Prim eiro o pai, depois o m enino”.

“Não tem necessidade de m achucar o m enino”, papai protestou. “Fiz tudo de própria vontade.”

“Não foi o que o Hanrion viu”, Russ respondeu.

Dois deles m e agarraram pelos braços, um de cada lado, e m e colocaram de pé. Estava trem endo m uito, com o se estivesse congelando, m as era pleno verão.

Por cim a de um galho, Hanrion arrem essou um a corda, que balançava de um lado para o outro sobre a carroça.

“Levem a carroça para perto do tronco, para caber o m enino”, Russ disse.

Com um laço e um nó corredio, Russ colocou a corda em torno do pescoço de papai, e depois o puseram de pé. Papai olhou nos m eus olhos, m as eu não consegui suportar e olhei para baixo. Ele não disse um a palavra sequer. Olhei para suas pernas. Papai não trem ia ou se debatia. Apenas olhei seus pés.

Hanrion esticou a corda pelos galhos de um a outra árvore. Papai ficou na ponta dos pés

Ouvi o freio se soltando.

A carroça foi para a frente.

Olhava apenas para os pés de papai.

Papai não se debateu quando a carroça foi para a frente e o deixou sem apoio, m as eu ouvi o estalar seco de ossos se quebrando em seu corpo no exato m om ento em que ele m orreu.

Não consigo m e m exer sozinho.

Três dos hom ens m e colocaram na carroça.

O corpo de papai pende com o se não tivesse peso, as pontas de seus pés roçam as tábuas da carroça. Tudo ao m eu redor parece am plificado. Minha respiração era com o um furacão dentro da cabeça, com o se estivesse subm erso. É com o se o m undo tivesse se reduzido a apenas um m etro ao m eu redor.

Os hom ens m e seguravam ao lado de papai.

Ainda não consigo olhar para ele. Sinto-m e profundam ente culpado e envergonhado. Se não fossem m eus cam inhos tortos, papai não estaria ali.

Percebo que m inhas m ãos estão atadas atrás de m im . Tento m e lem brar de um a prece, m as não m e vem nada, além da m inha própria voz m e dizendo, Por que Deus me ouviria depois de tudo o que eu fiz no mundo Dele?

Quando os hom ens soltaram m eu braço, eu caio.

Os hom ens dizem algum a coisa, estão praguej ando, m as não ouço nada, apenas o estrondo incessante em m eus ouvidos.

Truculentos, dois deles m e põem de pé novam ente.

Russ arrem essa a corda sobre o galho e sinto sua ponta m e acertar as costas na queda. Ainda estão m e segurando.

Vej o Hanrion pegar a ponta da corda com as duas m ãos.

O outro hom em está ao seu lado, m e olhando enquanto urina na m esm a árvore que tinham escolhido para enforcar a m im e a papai.

Russ passa o laço pela m inha cabeça, arranhando-m e as orelhas. Sinto cada um a das rebarbas daquela am arra espetar enquanto ele aperta o nó.

Isso m e deixa tonto antes m esm o de Hanrion com eçar a segurar um a das pontas.

Quando ele am arra a corda na árvore, faço com o papai fez. Sou forçado a ficar o m áxim o que consigo na ponta dos pés.

Os hom ens descem . O som de suas botas sobre a m adeira da carroça ressoa com o trovões. O freio cede. As rodas se soltam e a carroça com eça a se m over.

Enxergo o horizonte através das árvores.

Nunca vira cores tão espetaculares.

Penso em m inha Hannah e sinto seu cheiro, m esm o que j á não entrasse ar pelos m eus pulm ões. Estou flutuando.

Meus pés se debatem .

Meus sapatos voam .

Chutando.

Minhas calças caem com a força dos chutes.

Não tiro os olhos do horizonte.

Nunca tinha visto nada tão perfeito.

Dói.

Meu estôm ago se revirava novam ente.

“Merda.” Era tudo o que conseguia dizer, a única palavra. Apertei os olhos com as palm as das m ãos. Estavam cheios de lágrim as pela segunda vez naquele dia. “Merda.”

Senti a m ão de Nickie, descansando suavem ente sobre m inha perna, seus dedos m e apertando ligeiram ente, com o se estivesse assustada.

“Desculpa, Seth”, eu disse.

Só tirei as m ãos do rosto quando senti o abraço de Nickie. Ela deitou a cabeça no m eu om bro e chorou.

Tudo está tão alto. Eu ouço estrondos, assim com o Seth.

Tenho que tocar a lente, m as ainda não consigo m over as m ãos.

“Jack, deve ter um m otivo para ele ter te escolhido”, Nickie sussurrou.

Quem? Freddie ou Seth?

Ou Henry?

Tento respirar, estou sufocando.

“Ele sabia quem eu sou. Whitm ore Foi o nom e que Hannah deu ao filho dele.”

Agora sei que preciso voltar, e Nickie diz, “Te am o”.