A Lente de Marbury
Capítulo 33
TRINTA E TRÊS
“Porra, cara! Cê tá chapado? Eu disse Nickie quer falar com você.” Conner escancarou a porta do box até que ela saísse pela porta do banheiro. Então levou o celular ao ouvido novam ente. “Nickie? Então, ele tá aqui peladão no chuveiro. Só um segundo.”
Ele acenou com o celular, debochadam ente. Sua expressão denunciava que tinha flertado com Nickie.
O que eu poderia esperar de Conner?
Ele virou o telefone e tirou um a foto de m im .
Tam bém era de se esperar.
“Vou desligar e te m andar um a coisa agora. Segura aí, m enina.” E saiu correndo do banheiro.
“Conner, seu cuzão!”
Enquanto a água caía, ouvi m eu am igo se j ogar no chão e rir histericam ente.
“Ah, que beleza! Mandando... agora!” Ele continuava a rir.
Desliguei o chuveiro e fechei os olhos. Fiquei ali na banheira, pingando, esfregando o rosto com as m ãos.
Seth, me leve de volta.
Que se foda este lugar.
Tenho que voltar. Ben e Griffin precisam de mim.
E, num m om ento de revelação, percebi que as lentes de Henry m e levavam para Marbury, m as era sem pre Seth que m e trazia de volta.
Pense Jack. Pense.
Faz quanto tempo desta vez?
As lentes.
Porra! As lentes!
Seth!
“Caralho, Seth”, gritei.
“O quê?”, Conner gritou do quarto.
Enrolei um a toalha na cintura e saí do banheiro. Conner estava deitado de costas na cam a, chorando de rir, hipnotizado pela tela do celular. “Ela vai adorar, Jack.” Deu um a risada e continuou: “Foi m al, cara, acho que tam bém m andei para a Stella sem querer.”
“Deixa de ser cuzão.”
“Tô brincando!” Conner enxugou os olhos. “Mas eu m andei pra Nickie m esm o.”
Naquele m om ento, não m e im portava. A única coisa que eu queria era encontrar aqueles m alditos óculos.
“Porra!” Arrem essei a m ochila na parede, espalhando tudo o que estava dentro dela pelo chão.
“Calm a, cara.” A voz de Conner tinha m udado para um tom tranquilizador.
“Eu só estou brincando.”
Com os pés m olhados, chutava m inhas coisas, procurando.
“Ei, Jack, desculpa.”
“Porra!” Vasculhei o interior da m ochila. “Não é com você, Con. Não estou nem aí pra porra da foto.”
A m eia. No fundo da m ochila. Senti as hastes dobradas dentro dela. De algum a form a, tinha guardado os óculos ali, para escondê-los de Conner. Suspirei aliviado. Precisava deles.
A toalha caiu. Fiquei com pletam ente nu, de frente para a j anela aberta. Peguei a toalha e a estiquei à m inha frente. O relógio m ostrava que j á passava das seis da tarde. Da cam a, de cam isa e gravata, Conner m e olhava com preocupação.
Por que estamos bem vestidos?
“Que dia é hoj e?”, perguntei.
Conner se levantou rapidam ente e se sentou na beira da cam a. Desligou o celular e o colocou sobre m inha calça social azul-escura.
“Cara, tudo bem com você?”
Vi o m odo com o m e olhava.
Eu estava assustando Conner.
Vai se foder, Jack.
Puxei a cadeira e m e sentei à escrivaninha. Coloquei os óculos no colo e apoiei a cabeça nas m ãos.
“Que m erda!”, eu disse.
Conner se aproxim ou e se sentou perto de m im .
“Jack, o que foi?”
“Que dia é hoj e, Con?”
“Está de brincadeira, Jack?”
“Queria estar.”
“É quinta-feira, Jack. Acabam os de voltar do St. Atticus. Quinta-feira.” Conner levantou a ponta da gravata com os dedos e lem brei que Wy nn tinha insistido para usarm os gravatas quando fôssem os visitar seu antigo colégio. “E agora a gente estava trocando de roupa para sair.”
Três dias.
Não olhei para ele.
Cacete, para onde tinham ido aqueles três dias?
“Não estou bem , Con.”
Senti enj oo. Fiquei de pé, corri até o vaso e com ecei a vom itar tudo o que tinha no estôm ago.
Freddie Horvath deixou minha cabeça assim.
Não há nada que eu possa fazer. Não quero fazer nada.
Vai se foder, Jack.
“Jack? Jack!” Conner estava de pé atrás de m im , m eus j oelhos escorregavam sobre um a poça de água m orna.
Era como tinha nascido.
A viagem da minha vida.
“Jack, você está m e assustando, porra!”
A cena devia ser ridícula. Conner buscou m inha toalha e m e cobriu enquanto eu cuspia ácido dentro do vaso.
“Sai, Conner! Eu não tô bem . Eu sou todo fodido m esm o. Me deixa em paz, porra!”
Debruçado sobre o vaso, trem endo, ainda segurava a m eia que envolvia aquelas lentes m alditas. Ouvi Conner se afastando.”
“Desculpa, cara.”
“Me desculpa tam bém , Con. Me desculpa tam bém .”
Apertei os olhos. Queria m uito chorar naquele m om ento. Sentia m eus olhos cheios de lágrim as. Mas nunca tinha chorado, e não choraria ali.
Respire, Jack. Respire.
“É quinta-feira m esm o?”, perguntei.
“Você não está zoando?”
“Não.”
“Cara. Você tem que conversar com igo, Jack.”
Concordei com a cabeça, m as não olhei para ele.
E não chorei.
“Preciso m e deitar”, eu disse.
Conner abriu cam inho quando passei por ele. Desconcertado e assustado, ele m e observava com olhos arregalados, com o se eu estivesse fazendo um a coisa horrível. Ele não sabia com o reagir.
Você está fazendo uma coisa horrível, Jack, e ninguém pode impedir.
Entrei debaixo do lençol e m e deitei de lado, olhando para a parede. Sob o travesseiro m olhado, m inha m ão apertava os óculos.
Ouvi a descarga.
E, depois, um a cadeira sendo arrastada pelo chão de m adeira. Por um m om ento, pensei ser Seth novam ente, m as vi Conner ao lado da cam a, sentado na cadeira que tinha trazido, com as m ãos sobre os j oelhos, esperando por algum a coisa.
“Não m e lem bro de nada, Con.”
“Tudo bem , m as você se lem bra de quem eu sou, né?”
“Não m e lem bro de m ais nada depois de segunda. Quando a gente saiu. Não m e lem bro de nada depois da briga.”
“Não nos m etem os em nenhum a briga.”
“Eu m e m eti. Depois que você dorm iu, eu saí e acabei arranj ando briga. Bati em um cara que estava m e seguindo desde que cheguei aqui.”
“Era um policial ou um pervertido?”
“Nenhum dos dois, Conner. Ele só quer brincar com a m inha cabeça, eu acho.”
“Tem certeza?”
“É sério, Con.” Lim pei m inha garganta. “O que aconteceu de segunda até hoj e?”
Conner aproxim ou a cadeira e disse, quase sussurrando. “Sério?”
Olhei nos olhos dele. “Sim .”
Ele suspirou. “Vou ser sincero com você, cara. Tam bém não lem bro o que aconteceu segunda à noite depois que dorm i. Espero que tenha sido bom pra você tam bém .”
Conner tentou sorrir. Sem pre tentava fazer piada de tudo.
Então disse, “Você não acha que deveria procurar aj uda, cara?”
Sabia o que ele queria dizer. Conner achava que eu estava ficando doido, m as eu não m e im portava. Provavelm ente ele estava certo. “Não sei.”
Conner se aproxim ou ainda m ais.
“Na terça, acordam os tarde, depois do m eio-dia. Então, com em os e fom os correr. Andam os de m etrô pela cidade e tom am os um a cervej a. Basicam ente o m esm o de ontem , só que a Nickie e você ficaram se ligando toda hora, e você com binou de irm os a Blackpool am anhã e voltarm os todos j untos para Londres no fim de sem ana. Já com pram os as passagens de ônibus. Hoj e de m anhã fom os ao St. Atticus. Você se lem bra de algum a coisa?”
Tentei lem brar.
“Tiram os algum a foto?”
“Além da que m andei para o celular da Nickie?”, Conner em purrou m eu pé e sorriu. Quando viu que eu não reagia, ele disse, “Cara, você tá estranho pra caralho! Tá m e assustando!”
“Não é a prim eira vez que isso acontece, Con. Eu saio do ar e depois volto sem m e lem brar do que aconteceu. Mas é a prim eira vez que se passaram dias e eu não m e dei conta.”
Conner inspirou profundam ente, bem devagar.
“Para onde você vai quando isso acontece?”
“Não sei, m e diz você, Conner.”
“Vou pegar sua câm era”, ele disse.
Meu celular vibrava sobre o criado-m udo. Olhei para a tela.
Nickie.