A Lente de Marbury
Capítulo 34
TRINTA E Q UATRO
“Agora entendi o que você falava sobre o seu am igo.” Nickie riu.
“Que vergonha.” Tinha dado as costas para Conner, que não percebeu. Ele estava ocupado procurando m inha câm era, revirando as coisas que eu tinha chutado pelo chão. Percebi que ainda estava sem roupas e m e senti ridículo.
“Na verdade, você não está nada m al na foto”, ela disse. Quase via o sorriso em seu rosto enquanto ela falava. “A Rachel tam bém acha.”
“Nossa.” Peguei a toalha do chão e enrolei na cintura. Passei por Conner e entrei novam ente no banheiro. “O que você faria se a Rachel fizesse algo parecido com você?”
“Se ela tirasse um a foto m inha, eu descontaria apresentando o Conner pra ela.”
Afobado, eu procurava o que vestir na pilha de roupas que tinha deixado no arm ário do banheiro. Eu devo ter guardado elas lá, m as não m e lem brava. Vesti um a cam isa cinza e m e olhei de relance no espelho.
Nickie m e fazia sorrir.
Conner insistia para que eu m e vestisse logo e reclam ava, dizendo que estava com fom e, m as m esm o que eu tivesse im plorado ele não m e deixaria sozinho no quarto. Encontram os um restaurante italiano onde faziam pizzas brotinho. Conner bebia cervej a e tentava m e convencer a beber tam bém , m as daquela vez não quis beber nada.
Enquanto com íam os, ele passava na câm era as fotos que tiram os desde segunda-feira.
Algum as delas pareciam fam iliares enquanto Conner contava tudo o que tínham os feito – da m esm a form a com o aconteceu quando falei com Nickie naquela nossa prim eira noite –, ainda assim , três dias era um espaço de tem po enorm e para preencher.
Na últim a foto, estávam os eu e Conner de cam isa branca e gravata, um apoiado no outro, com o verde vivo de um cam po de futebol ao fundo.
Sorríam os.
“Deu para refrescar a m em ória?”
“Mais ou m enos. Na verdade, não”, suspirei.
“Você acha que aquele negócio que o Freddie inj etou em você fez algum a coisa com a sua cabeça?”
Freddie Horvath deixou minha cabeça assim, preciso pedir ajuda.
“Não sei, Con. Acho que sim . Talvez.”
Estava nervoso. Não deixava de pensar que tinha deixado as lentes debaixo do travesseiro. Precisava guardá-las em um lugar seguro. Estava m e sentindo envergonhado. Continuava olhando ao redor para ver se Henry continuava a m e seguir. Acho que Conner percebeu. Tentei relaxar e tom ei um gole de água, m as engasguei.
“Então, a gente gostou o suficiente de St. Atticus para passar um sem estre ou dois aqui?”, perguntei.
Conner balançou a cabeça. “Continuo esperando que você com ece a rir e m e diga que está só de sacanagem , Jack.”
Mal toquei na m inha com ida.
Não tinha fom e.
“Acho que você gostou bastante, m as você é todo assim , desse j eito seu. Mas pra m im , bem ... Eu sei é que eu não gostei da ideia de um m onte de hom em j unto no m esm o lugar.”
Isso m e fez rir. “Seu bizarro, você só pensa nisso.”
Conner ficou sério. “Queria poder te aj udar, Jack.”
“Tam bém queria que você pudesse.”
“Quando a gente voltar pra casa, faço o que você quiser pra te aj udar a colocar a cabeça no lugar. Se não quiser contar pra ninguém , não contam os. Ok?”
Ele não sabia.
Jack não tinha salvação.
Pelo menos, não do lado de cá.
“Tudo bem , pode ser”, respondi.
“Tem certeza que não vai querer um a cervej a?”
“Não, valeu, Con. Pode tom ar outra se quiser, te levo pro hotel.”
Esperei.
Estava deitado no escuro. Olhava pela j anela de vez em quando, sem fazer barulho. Queria ouvir se Conner j á tinha dorm ido. Era insuportável. Acho que ele tam bém estava m e ouvindo, m e vigiando.
Aquelas lentes pareciam abrir dois buracos no travesseiro, entravam na m inha cabeça.
Suando, tirei a coberta e olhei para a j anela novam ente.
“Tudo bem , Jack?”
“Um a m erda.”
“Vai dorm ir.”
“Tá.”
Senti Conner rolando na cam a. Ainda estava m e vigiando. Só queria que ele parasse e fosse dorm ir.
Conner sussurrou, “Não m e sinto nem um pouco culpado pelo que aconteceu com aquele cara”.
Rolei para o lado e olhei para a parede. “Não quero falar disso, Con.”
“Só pensa no que ele teria feito com você. Se não tivesse fugido, você nem estaria vivo agora.”
“E daí, porra?”
“O que aconteceu com ele foi um acidente. Não. Foi culpa dele. E ele teria feito as m esm as m erdas com outro cara logo que tivesse outra chance. Você viu na TV o que eles descobriram sobre ele. Então, que se foda esse cara.”
“Tá.”
“Fala, então.”
“Falar o quê, Con?”
“Fala, vai se foder, Freddie.”
Foi difícil soltar aquelas palavras. Soou com o um sussurro. “Vai se foder, Freddie.”
“Mais alto.”
“Não, chega.”
“Não vou deixar você fazer isso, Jack.”
“Fazer o quê?”
“Sei lá, qualquer m erda contra você m esm o.”
“Mas não sou eu que faço essas coisas.”
“Então quem é, cara?”
“Chega, Con. Vai dorm ir.”
Esperei e finalm ente ouvi aquele ruído: o som de um a circunferência de m etal que rolava, tom bando, girando em sequência, bem fraco, perto da parede, em um m ovim ento triangular entre a m inha m ochila e a j anela. Um a m oeda.
Rolando e...
Segurei a respiração, levantei a cabeça e olhei para Conner. Ele dorm ia.
Tac.
Enfiei a m ão em baixo do travesseiro. Sentia um alívio em ondas tranquilizadoras que percorriam m eu corpo enquanto m eus dedos entravam pela m eia e se aproxim avam dos óculos. Mas tam bém m e sentia culpado.
Só uma olhadinha.
Tac.
Só um segundo, Jack.
Um segundinho.
Tac.
Puxei os óculos, desdobrei a haste.
Mas Conner m e olhava.
“Que porra é essa?”, Conner se levantou de um a só vez, com o se acordasse de um pesadelo.
Minhas m ãos trem eram . Quase derrubei os óculos. Tentei m e virar e colocar a m ão em baixo do lençol. Naquele instante, enxerguei através das lentes. Apenas um a breve im agem : a expressão de raiva e preocupação de Griffin enquanto trocava o curativo no m eu peito. Um a luz tênue e arroxeada se espalhou pelo quarto, com o a luz de um a televisão ligada no escuro.
Tac. Tac. Tac.
O ruído vinha de trás da m ochila, m ais duro e insistente.
Conner segurou m eu pulso com força.
“Que porra é essa, cara? Fala!”, insistiu.
Não sabia o que responder, só queria que ele parasse de olhar para m im . “Um rato, sei lá.”
“Não. Na sua m ão.”
Conner tentava tirar m eu braço das cobertas.
“Solta, Con!”
“Você viu aquela m erda? Deixa eu ver.”
Soltei os óculos.
Tac. Tac.
Virei o corpo e cobri as lentes com a perna.
“Porra, Con. Para com isso.”
Quando levantei a m ão, afastei Conner, fechando o punho. Ficam os ali, um olhando para o outro. Estava sem ar.
Tac.
“O que é isso, Jack?”
“Shhh...”
Respirei fundo.
Fique calmo, Jack.
“Você viu aquela m erda?” Conner se sentou na cam a de pernas cruzadas. Senti o calor do corpo dele, quase encostado em m im . Ele estava ofegante. “Me m ostra.”
“Não posso.”
“Você viu aquilo? Deixa eu ver, cara.”
Conner sabia que eu estava escondendo algum a coisa debaixo da perna. Ele m e em purrou, m as passei a m ão pela cam a e escondi os óculos atrás das costas.
“Para, Con. Sério.”
“O que é isso aí?”
“É...” Não sabia o que responder. “Ah, esquece, não vale a pena.”
“Eu quero ver. Quero ver aquilo de novo.”
Eu apertava as lentes na m ão. Parte de m im queria esm agá-las. Mas a m aior parte, não.
Levantei os j oelhos. “O que você viu, Con?”
“Você vai m e m ostrar esse negócio aí na sua m ão ou não vai?”
“Antes, m e fala o que você viu.”
Conner olhou para m im . Via o retângulo desbotado da j anela refletido em seus olhos. Não piscavam . “Eram cenas. Um film e resum ido em m eio segundo, vindo de dois buracos. Com o dois olhos. Era tudo branco. Vi um as pessoas correndo de um lado para o outro, pareciam hom ens das cavernas, e eu estava lá com eles. Estava todo m undo praticam ente pelado, com endo em volta de um a fogueira. Era com o se eu estivesse lá. Depois, vi um m onte de insetos asquerosos. Foi m uito bizarro. Você j á viu isso, Jack? Você viu aquilo? Foi um sonho ou o quê?”
“Não foi.”
“Foi o que, então, Jack?”
Fiquei aterrorizado.
Por favor, Con, não vá para lá.
Não faça isso.
“Não vale a pena.” Suspirei. “Olha, vou te pedir um a coisa e quero que você m e prom eta, porque som os am igos. Sem discussão. Ok? Prom ete?”
“Prom eto, Jack. Você sabe que eu faço tudo por você. Nem precisa pedir. Não quero discutir contigo.”
“Prom ete então que não vai m ais olhar pra isso?”
Tirei os óculos debaixo do cobertor e dobrei as hastes. Mostrei os óculos na palm a da m ão e Conner não tirava os olhos deles. Dentro deles. Eu sabia que ele podia ver algo. Eu o observava. Eu olhava direto nos olhos dele.
Não piscávam os.
“Olha pra m im , Con.”
Ele olhou para m im .
“Que porra é essa, Jack?”
“Não sei, Mas é ruim e vou m e livrar deles.”
Enfiei os óculos dentro da m eia novam ente.
“Você tem que cum prir a prom essa, Conner.”
Então estendi a m ão e Conner a apertou. Mas tinha dúvida nos olhos dele. Eu o conhecia havia m uito tem po, ele não conseguia esconder nada de m im .
Enfiei a m ão em baixo do travesseiro úm ido e deixei as lentes lá. Conner ainda seguia m inha m ão com os olhos.
“Aquilo tudo estava acontecendo de verdade?”, ele perguntou, sem tirar os olhos do travesseiro.
“Se você viu, então é real.” Fiquei olhando para o teto, com os braços atrás da cabeça. “Você tam bém viu, então, não estou ficando doido.”
“E o que você vai fazer?”, ele perguntou.
“Preciso dar um fim neles. Você não entende, preciso dar um fim neles. Acho que j á sei o que vou fazer.”
“Deixa eu dar m ais um a olhada, Jack. Só m ais um a olhadinha. É rápido.”
Conner tentou colocar a m ão por baixo do travesseiro, m as o segurei pelo om bro e o afastei. “Você prom eteu. Confia em m im . Não vam os brigar por causa disso.”
Então, soltei Conner. Não sei com o tive coragem , se tivéssem os m esm o brigado, ele acabaria com igo. Mas Conner tam bém relaxou e se deitou no lado dele da cam a.
“Desculpa, Jack. Desculpa.”
“Tudo bem .”
“Mas que porra é aquela lá?”
“Não sei, deve ser o inferno. Aquele lugar fode com a sua cabeça, Con.”
“É por isso que você anda tão estranho?”
“Deve ser.”
“Vai acontecer com igo tam bém ?”
Eu pensei que Conner estivesse realm ente assustado.
“Não.”
“De onde eles vieram ?”
“Não sei. Você se lem bra do cara com quem briguei outra noite? Foi ele que m e deu esses óculos.” Sentia o suor com eçando a escorrer sobre m eu peito. “Preciso m e livrar disso.”
“Sério, Jack. Posso dar m ais um a olhada?”
“Confia em m im , cara.”
“Posso?.”
“Não.”
Quando Conner dorm iu, perdi o controle.
Vai se foder, Jack.
Saí da cam a devagar, sem fazer barulho. Nem um a vibração sequer. Fui ao banheiro levando os óculos.
Sentia um frio na barriga, vibrava, com o se tivesse 5 anos de idade, acordando na m adrugada antes do Natal, naquela época em que ainda acreditava não haver nada de m au no m undo.
Estava encharcado de suor. Abaixei a tam pa do vaso e m e sentei, trem endo – e sentia que estava sendo eletrocutado novam ente por Freddie Horvath, pálido, suado, de cueca, trem endo com o um viciado.
“Me traz de volta logo, Seth. Antes que ele acorde.”
Tac. Tac. Tac.
Apenas um minuto.
Só uma olhadinha.
Coloquei os óculos. De algum lugar, ouvi Conner ao longe:
“Jack! Abre essa porta, porra!”
Tac.
“Jack!”
Tac.