A Lente de Marbury
Capítulo 26
VINTE E SEIS
As coisas estavam m elhorando.
Estávam os os três despidos e suj os. Ben com eçou a abrir as m ochilas dos soldados. Eu tentei esticar m eu pescoço para ver a sutura que Griffin tinha feito em m im . Já era hora de retirá-la.
Pendurada ao lado de um extintor de incêndio, havia um a caixa de m etal com um a cruz verm elha pintada na tam pa. Abri a caixa e inspecionei os obj etos: bandagens, tubos m etálicos com pom adas antibióticas – pareciam ser iguais àquela que Freddie Horvath tinha passado no m eu tornozelo naquela noite, naquele outro inferno – luvas de látex, fita adesiva, um a tesoura e um a pinça.
É a m esm a coisa, pensei – aqui e a casa de Freddie – tudo estava conectado. Talvez nada daquilo im portasse. Talvez nada fosse real.
“Griff, m e aj uda a tirar os pontos.”
Ben continuou revirando as m ochilas e separando as roupas. Às vezes, as levantava contra a luz e apertava os olhos para ler as etiquetas que traziam o tam anho das roupas que aqueles hom ens nunca m ais vestiriam .
Griffin, um garoto esquelético, parecendo ainda m ais franzino e frágil sem as roupas para cobri-lo, pegou a tesoura e com eçou a cortar o fio. Ao term inar, espalhou antisséptico por onde a flecha tinha passado, cobrindo com gaze e selando com esparadrapo. Tudo ainda cheirava a novo.
“Acho que você vai ficar bem ”, ele disse.
“Eu não tenho escolha.”
Ouvim os o barulho de algum a coisa batendo nas paredes do trem e um rolo de esparadrapo veio pelo corredor até parar perto de nós. Olham os para trás e vim os Seth, do outro lado do vagão, nos observando.
“Ok. Você j á pode sum ir daqui, porra”, irritou-se Griffin.
O espectro se esvaiu sutilm ente, agachando-se entre dois soldados m ortos. Seth olhava para m im .
De algum a form a, eu m e sentia m ais leve. Tentei olhar nos olhos de Seth, m as ele abaixou a cabeça.
Ben passou as roupas para a gente. Nos vestim os. Os m eninos j á não se lem bravam de com o era vestir roupas de baixo ou m eias, fazia m uito tem po desde o início da guerra, quando tinham sido abandonados. Ficaram surpresos por eu saber o que fazer com aquelas coisas. Tive de ensiná-los a se vestir.
Griffin não se acostum ava com a cueca.
“É pano dem ais”, reclam ou.
“Fique com elas”, insisti. “Você vai se acostum ar. É bom pra você. Confie em m im . É bom usar roupas, ok?”
Griffin não respondeu. Notei que Ben tam bém estava desconfortável.
As calças que tínham os encontrado eram largas, cam ufladas e tinham bolsos grandes por todos os lados. Cintas afiveladas as prendiam em nossas cinturas. Am arram os as pernas das calças em volta dos tornozelos, bem presas, e afivelam os os cintos de ny lon. Enfiam os as cam isas para dentro das calças. Cada um a delas tinha um nom e bordado do lado esquerdo do peito.
As cam isas de Ben e Griffin vinham da m esm a m ochila. Tinham o sobrenom e STRANGE bordado no bolso. O m eu era RAMIREZ.
“Esse nom e fica bem em vocês”, elogiei. “Provavelm ente é o m elhor nom e para se ter nesse lugar.
Ben sorriu. Os m eninos nunca sorriam . “Quer trocar de cam isa, Jack?”
Peguei a tesoura que Griffin tinha usado para cortar m eus pontos e cortei as costuras que prendiam aquela etiqueta ao m eu uniform e.
“Vou ser o cara sem nom e”, respondi. “E vocês, os Meninos Estranhos.”
As botas que tínham os encontrado eram de tecido grosso. Estavam novinhas em folha. Seus cadarços subiam até as canelas.
Griffin não sabia am arrar cadarços, m as aprendeu em apenas um a tentativa.
“É gostoso, não é?”, incentivei. Fiquei observando Griffin e Ben naquelas roupas lim pas. Era a prim eira vez que os via totalm ente vestidos.
Griffin balançava a cabeça.
Próxim a etapa: arm as.
Recolhem os tudo o que podíam os carregar. Reviram os cada m ochila e roupa e, então, cuidadosam ente, separam os e agrupam os todas as caixas de m unição e pacotes de suprim entos sobre duas m esas.
Escolhi o rifle. Girei a correia pelo corpo até que ele ficasse pendurado na diagonal atrás do m eu ferim ento. Cada um de nós guardou duas pistolas sem iautom áticas nos coldres dos cintos – um a 9 m ilím etros e um a .45 para cada um . Eram m uito pesadas, m as j á sentia o quanto aquelas coisas nos deixavam m ais fortes.
Seth continuou do lado oposto do vagão, flutuando para frente e para trás, com o um pêndulo etéreo, cruzando o corredor de um a j anela à outra. Às vezes, desaparecia por com pleto, principalm ente quando o flagrava olhando para m im . E sem pre fazia aqueles ruídos im pacientes de rolar e bater.
Por algum m otivo, não conseguia sentir pena daqueles soldados com o sentia dos outros que tinham m orrido naquele trem . Tínham os encontrado um a cena grotesca naquele vagão quando o abrim os e, quando saím os, deixam os para trás outra pior. Corpos retorcidos, com suas m ochilas abertas e seus bolsos revirados, até rasgados.
Voltam os para o vagão-dorm itório que agora tinha j anelas estilhaçadas e painéis quebrados.
Ben encolheu os om bros, envergonhado.
“Desculpa, Jack. Eu estava assustado.”
“Foda-se, Ben. Não tem problem a”, Griffin interferiu.
Coloquei a m ão no om bro de Ben e o conduzi pelo vagão onde dorm iríam os até o vagão-refeitório.
Ben conseguiu acessar o encanam ento do vagão e, com um a m angueira, sifonou a água e enchem os um balde. Agora os cavalos não vão m orrer, pensei.
“Não beba dem ais”, avisei. “Podem os passar m al.”
Havia tantos tesouros naquele vagão que não sabíam os por onde com eçar.
Griffin se abaixou atrás do bar e se levantou com algum as garrafas de bebida, que pôs sobre o balcão. Abriu um a garrafa de uísque e cheirou, apertando os olhos e as narinas.
“Deixa eu experim entar”, pediu Ben.
Olhei para Ben e ele entendeu que era um olhar de reprovação.
“Não sej a estúpido, Ben.”
“Só um pouquinho.”
O observei virando a garrafa, contando os goles que tom ou. Cinco. Ainda que Ben Miller tivesse evitado assistir enquanto o pequeno Griffin arrancava a flecha de m im e fazia a sutura com a linha da m inha própria cam isa, aquele garoto era resistente. Tinha certeza de que aqueles Meninos Estranhos eram incrivelm ente m ais fortes que eu.
“Você tam bém ”, Ben ofereceu. “Só um pouco.”
Balancei a cabeça. Griffin levantou um a lata grande. Tinha um a galinha inteira dentro dela. Ben argum entou, “Nunca terem os um dia com o esse de novo, Jack. Nunca. Então beba um pouco, tam bém ”.
Olhei para Griffin. “Vej a se consegue achar um m odo de abrir isto, Griff.” Então peguei a garrafa de Ben e disse, “Mas é m elhor você não beber, certo? Isso não faz bem , Griffin”.
“Nem fodendo vou beber essa m erda.” Griffin esfregou o nariz na m anga da cam isa. “E desde quando você sabe o que faz bem pra m im ? Você m e m andou vestir esse m onte de roupas – que elas m e fariam bem – e agora nem estou sentindo m ais m inhas bolas. Quando vocês caírem de beber, vou tirar essas m erdas de novo.”
Ben riu.
Eu bebi. Era m uito bom .
Fiquei sentado, sorrindo, alternando o olhar entre a com ida que Griffin organizava, os pés tortos dos três funcionários que havíam os escondido no canto do vagão e o espectro solitário de Seth, parado do outro lado do corredor, m e observando.
Antes de com er, levei para nossos cavalos um balde de água e outro com frutas secas, doces vencidos e pão. Conferi as rédeas para ter certeza de que estavam bem presos ao trem e inspecionei as redondezas para m e certificar de que não tínham os sido seguidos. Quando passei pelo vagão-refeitório, do lado de fora, Ben e Griffin apareceram na j anela, em pé sobre os assentos, e acenaram . Ben estava bêbado.
Mesm o que por algum as horas, sabia que ele estava certo: nós nunca teríam os outro dia com o aquele e era com o se tivéssem os ganhado m ais do que m erecíam os.
Você só está bêbado, Jack.
Você ainda não conseguiu escapar de nada.
Aquela voz novam ente. Tentava pensar em Conner e em Nickie, em Wy nn e Stella, m as m al conseguia proj etar suas feições, com o se fossem im agens de um livro que tivesse lido m uito tem po atrás.
Vai se foder, Jack.
Mas era fácil m e lem brar de Freddie Horvath.
“Você não vai falar com igo nunca?”
Seth parou. Um a som bra vaga ao lado do trem , olhando para m im . Abaixou a cabeça e com eçava a desaparecer, m as interrom pi, “Droga, Seth, não vai em bora”.
Ele apoiou a m ão no trem , com o se o segurasse no lugar.
“Você estava naquele quarto, não estava? Quando o Freddie...”
“Estava.”
“Obrigado pela aj uda. Você não precisava.”
“Você m e lem bra de alguém que eu conheço”, sua voz, quase inaudível.
Então desapareceu.
A noite em Marbury nunca era totalm ente escura. O horizonte perm anecia branco e o céu sem estrelas ficava cinzento; m as cores não eram capazes de descrever qualquer coisa naquele m undo.
Estávam os satisfeitos.
Eu e Ben m al conseguíam os ficar de pé.
Tínham os bebido dem ais. Seguim os Griffin pelos corredores m órbidos do trem até encontrarm os nossas cam as. Dorm im os.
Fui o prim eiro a acordar.
Havia dois beliches no com partim ento onde tínham os dorm ido, um para cada parede. Fiquei em um a das cam as de baixo e Ben ficou na outra. Griffin dorm iu na de cim a da qual eu estava. E cada peça de roupa que usava tinha j ogado no pequeno espaço entre os beliches. Dorm ia de bruços na cam a acim a de m im , sem roupas, quase sem respirar, com as m ãos segurava os coldres das arm as ao lado do travesseiro. Peguei suas roupas do chão e coloquei na cam a ao lado dele.
Vesti as calças e am arrei as botas. Não pus m inha cam isa nova, apenas a correia do rifle sobre o om bro. Sacudi o braço de Ben.
“Ei, estou levando água para os cavalos, tá?”
Ben m al abriu os olhos ainda grogues e cheios de rem ela.
“Hã? Ah, tudo bem , Jack.”
Dei um tapinha no braço dele. “Foi do caralho, ontem , né?”
“Dem ais.”
Fui e voltei duas vezes, enchendo o balde para os cavalos e levando a com ida que tínham os separado para eles. No dia anterior, tinha certeza de que m orreriam , m as hoj e j á estavam teim osam ente revigorados.
No deserto de Marbury, o céu estava quase branco novam ente e o chão exalava o calor que distorcia a paisagem , m esm o antes de o dia acabar de nascer.
Tinha deixado a cam isa dentro do vagão e olhei para o curativo que Griffin tinha feito em m im . Um pouco de pus, algum sangue. Coçava. Eu ia deixar que o m enino-m édico cuidasse da ferida m ais um a vez, antes de abandonarm os o trem .
Não posso ficar mais tempo aqui.
Mas j á era tarde dem ais.
Vi a silhueta de um dos Caçadores sobre a linha do horizonte, contra o branco ofuscante do céu: alto, esbelto e de m em bros esguios. Perfeitam ente inerte. Mesm o à distância, eu via a m arca verm elha em seu peito, ardendo com o um olho aberto em cham as.
Todos eles tinham m arcas diferentes sobre seus corpos. Não podiam cobri-las pois queim avam com o fogo. Eram com o faróis. Era fácil identificá-los.
Mas era im possível se esconder deles.
Sabia que ele m e observava. Eles enxergavam m elhor que nós. No m ínim o, tinham visto os cavalos ou sentido o cheiro deles.
Fiquei agachado atrás do trem enquanto a silhueta cavalgava em m inha direção, sem m edo, se aproxim ando cada vez m ais.
Tac. Tac. Tac.
A j anela atrás de m im .
Virei o rosto. Nada.
Tac.
Seth.
Ouvi o barulho de obj etos batendo nos vidros. Ouvia obj etos sendo atirados dentro do trem , quebrando contra as paredes.
Ele estava chegando m uito perto.
Em punhava um a m achadinha, que balançava displicentem ente, apontada para a lateral de seu j oelho. Não tinha arco. Ele j á teria m e atingido se tivesse um .
Seth continuava fazendo barulho dentro do trem .
“Para com isso, Seth!”
Pesei m inhas opções: acordar Ben e Griffin ou enfrentar o batedor sozinho? Então, m e agachei e m e apoiei sobre um j oelho. Eu j á podia vê-lo claram ente. Era alto e delgado com o um a flecha, não vestia nada a não ser um a tanga de penas e cabelos am arrada em volta da cintura por um a corda de tendões secos. Era feita de um escalpo hum ano. Todos usavam um a parecida. Seu cabelo caía pelos om bros em m echas retorcidas, e m anchas ovais roxas do tam anho de um punho fechado subiam pelo seu corpo, dos quadris até as axilas.
Apenas alguns deles tinham aqueles círculos.
Levava no pescoço um colar que cobria os om bros. Era feito de DVDs antigos.
A m arca em seu peito ardia em form a de um W, verm elho. Com eçava nos m am ilos e convergiam para seu abdom e definido. A m ão que segurava a arm a tinha apenas três dedos com longas garras, enorm es espetos reluzentes.
Apenas alguns deles eram assim .
Ele olhava fixam ente para m im e certam ente se perguntava por que eu estava ali parado, sem tentar m e proteger. Virou o rosto sutilm ente, levantando o nariz, e farej ou o ar.
Um de seus olhos era totalm ente branco. O outro, totalm ente negro.
Os olhos deles eram assim , de todos eles.
Ele se curvou e levantou a arm a. Olhei para os lados, para as duas pontas do trem . Ainda ouvia o barulho dos obj etos. Ben e Griffin j á deveriam estar acordados, pensei.
Desdobrei a coronha e apoiei o rifle no om bro.
Ele vinha em m inha direção a toda velocidade. Com dois tiros no pescoço, abati a criatura em um a espiral verm elha contra o chão branco, onde ele caiu m orto, em silêncio.
Abaixei o rifle e esperei. Mais três j atos débeis de sangue vazaram de seu pescoço. Ouvia o barulho do j orro e das gotas caindo no chão. Com a criatura sob a m ira, cam inhei até o círculo escarlate que crescia em baixo de seu corpo, suas pernas trançadas com o se dançasse um balé ridículo. Não sangrava m ais.
Nem respirava.
Olhei para o rosto dele.
Eu o conhecia. Brian Fields, m eu colega da equipe de cross-country do colégio, estava deitado ali olhando para o céu branco, com olhos m ortos, um buraco grande com o m inha m ão no pescoço, logo abaixo de seu j ovem queixo.
“Brian?”
Porra, isto não pode ser real.
“Brian!”
Girei o corpo e outra daquelas criaturas pulou do teto do trem e m e derrubou. Com a boca aberta, salivava sobre m im . Virei o rosto e aquela coisa lam beu m eus lábios. Vi seus dentes, afiados e longos; e com um grunhido agudo cravou um a m ordida em m eu peito.
Eu urrava de dor, m as ainda assim tentava rolar para cim a dele. Queria alcançar o rifle, m as ele estava preso em baixo de m inha perna. Ele arranhou m eu abdom e com as garras e torceu m eus testículos com a outra m ão, gritei e desisti do rifle. Lutei contra sua m ão e ele afastou o rosto, a boca escancarada. Ele estava todo lam buzado com m eu sangue, m as eu j á não sentia m ais a m ordida, apenas a dor latej ante entre as pernas, onde parecia que m inhas entranhas tinham sido tiradas de m eu corpo.
Era m eu m elhor am igo, Conner Kirk, que m e atacava.
“Conner? Que porra é essa?”
Ele tentou m e m order de novo, m irando m inha garganta, m as consegui afastar sua testa com a palm a da m ão. Sua língua fazia um som viscoso ao passar pelos lábios.
“Conner!”
Então, o estam pido de um tiro. Conner se abaixou e rolou para longe de m im . Correu para a frente do trem sobre os quatro m em bros, com o um anim al fugindo em um a caçada. Olhei para trás e vi Griffin, com pletam ente nu, tentando firm ar a m ira de sua .45. Trem endo, atirou novam ente na direção de Conner, m as acertou a locom otiva, e ele desapareceu.
Fiquei de pé, vi o sangue escorrer do m eu peito, os dois arcos de feridas escuras acim a do m eu m am ilo direito. Minhas entranhas doíam m uito, m e curvei para frente e vom itei.
Conner tinha m e m ordido.
Caí com o rosto no sal do deserto e desm aiei.
Então, senti Seth deitado sobre m im , derretendo-se de novo.