A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 39 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 39

TRINTA E NOVE

 

A História de Seth [2]

Blake Mansfield m e encontrou dorm indo à beira da estrada quando eu tinha 7 anos de idade. Pelo m enos acho que tinha. Naquela m anhã de m aio, ele levava alguns bezerros e um porco para vender em Necker’s Mill. Quando m e viu ali, achou que eu estava m orto, então parou.

Eu era tão franzino, ele m e contou que a princípio ele pensou se tratar de um bicho até descer e olhar m ais de perto. Eu vestia apenas um par de calças rasgadas e estava m ais suj o que o porco que ele levava na carroça.

Não tenho a m ais vaga lem brança de onde venho ou de com o acabei ali à beira da estrada naquela m anhã. Já fazia m uito tem po e eu m uito pequeno. Mam ãe costum ava dizer que eu era um m acaquinho e um a coruj a tinha m e pegado pela cauda e m e j ogado no chão. Mas papai, com o passei a cham ar o Sr. Mansfield, dizia que eu estava suj o dem ais para ter vindo de um a árvore, que tinha sido tirado de um buraco no chão por um coiote e que a m inha sorte foi que eu cheirava tão m al que o coiote não quis m e com er.

O im portante é que papai m e colocou naquela carroça, m e levou até Necker’s Mill e m e apresentou a todos com o eu filho. Foi quando ganhei o único nom e de que m e lem bro: Seth.

E foi isso.

Talvez ele tenha salvado a m inha vida, m as a m inha m aldição tam bém com eçou naquele dia. Não im porta. Eu faria tudo de novo. Foram os m elhores m om entos da m inha vida, nunca tinha am ado alguém até conhecer Hannah, a filha de Blake.

Ela era um ano m ais velha que eu e seu irm ão, Davey, tinha 11 anos quando fui adotado. Nenhum deles j am ais questionou m eu direito de fazer parte da fam ília. Os Mansfields eram assim .

Então, não m e im porta se caí de um a árvore ou se fui tirado da boca do próprio inferno, tudo o que m e lem bro é de que m inha vida com eçou em um a m anhã azul de prim avera, no ano de 1878, em um a fazenda num lugar cham ado Pope Valley, na Califórnia.

A prim eira coisa que m am ãe fez quando m e viu naquele dia foi m e abraçar. Ela m e beij ou a cabeça suj a com o se eu fosse um filho que retornava após um a longa viagem . Todos m e cercavam , fazendo perguntas, m as eu só falaria a prim eira palavra m eses depois. Então, m am ãe m e levou ao poço, tirou m inhas calças esfarrapadas e as j ogou no chão, dizendo que cheiravam tão m al que nem pegariam fogo. Ela m e deu um banho na água m ais fria que j á tinha sentido. Hannah e Davey riam , m as m am ãe os repreendeu e disse que eles seriam os próxim os na banheira se não respeitassem e não fossem bonzinhos com o novo irm ão deles.

Ficaram quietos, então. Mas m am ãe m e deixou ali, sem roupas, na tina de aço que parecia m ais um a m anj edoura que um a banheira, e voltou para a casa para buscar algum as roupas de Davey para m im . Antes de ir, advertiu Davey de que, se ele m e provocasse por qualquer razão ou m e fizesse chorar, daria suas calças para m im e que ele teria de usar vestido até que pudesse costurar outras para ele.

Ela era assim , sem pre nos provocava, nos fazia rir e nos deixava preocupados ao m esm o tem po. Com o crescia m eio m etro por m ês, segundo papai, Davey tinha várias roupas que j á não lhe serviam m ais.

“Não dê ouvidos a ela, Seth”, disse Davey. “Tudo o que ela diz é para deixar você pensando, pensando...”

Fiquei ali, trêm ulo, sem entender o que ele queria dizer.

“Pobrezinho, está trem endo tanto!” Era Hannah que se aproxim ava. Com eçou a esfregar m inhas costas com as m ãos, para cim a e para baixo, subindo pelo pescoço até m eu cabelo. No com eço, tive m uito m edo dela, m as após sentir seu toque, quis ficar ali para sem pre.

Pelo m enos até ver o que m am ãe trazia para m im . Ela m e vestiu dos pés à cabeça, até com roupa de baixo e sapatos, que logo tirei. Estava m e sentindo um príncipe em um palácio.

Papai enrolou um cigarro e acendeu, olhando para m im :

“Agora sim parece um Mansfield.”

“Seth Mansfield. É um nom e digno”, confirm ou Davey.

Hannah m e aj udou a enrolar um a das m angas da cam isa nova. “Ele não fala nada, m am ãe. Será que ele é russo?”

“O m enino é tím ido, m eu am or. Esta cabecinha deve estar cheia de coisas para dizer.”

Então, m am ãe olhou para Davey. “Que tal você levar Seth ao rio para ver se ele é um bom pescador?”

“Pescador ou isca?” Ele riu.

Mam ãe m e deu outro beij o na cabeça e um tapinha nas nádegas, gesticulando com os braços para que fôssem os logo. Olhei para Hannah. Parecia um tanto sentida. “Mam ãe, quero ir tam bém .”

“É coisa de m enino, Hannah.”

Davey corria em direção a floresta o m ais rápido que podia, e eu ia logo atrás.

“Com o você sabe isso tudo dele?”

“Não faço ideia, apenas sei. O m ais estranho é que Wy nn m e disse que os Whitm ore vêm de Pope Valley tam bém . Quando voltar para a Califórnia, vou procurar saber se tinha m esm o um a fam ília Mansfield lá em 1878.”

Não contei a Conner sobre m inha ligação com Seth, nem que entrava no m eu corpo e curava m inhas feridas. Tam bém não contei que tinha m edo de Seth ir em bora e nunca m ais voltar. Sabia que ele ficava m ais fraco toda vez que m e aj udava.

“Sei m uito m ais coisas sobre ele. Às vezes, acho que ele não quer que eu conte nada, m as às vezes acho que devo contar.”