A Lente de Marbury
Capítulo 47
Q UARENTA E SETE
Vou te contar no que o Jack acredita quando o assunto é am izade.
Um a parte de m im – talvez a m ais sensata, um a voz que soava com o se estivesse sufocada por um travesseiro, ou talvez se afogando – sabia que Conner fazia aquilo porque m e am ava. O Jack sensato sabia. Ainda assim , persegui m eu am igo – pela rua e pela pela orla da praia, correndo e correndo ao longo de todo o reflexo trêm ulo do píer, em direção às águas escuras que o banhavam ao longe –, era com o se um enorm e dedo m édio estendido repetisse Vai se foder, Jack, este é o caminho para o fim do mundo, lá vamos nós, continue correndo!, a cabeça de Jack berrava, Foda-se esta merda.
Conner não entendia.
Ele tentava m e salvar, m as estava m e m atando.
Era com o um a flechada no peito.
Fazia quanto tem po aquilo?
“Conner! Espera!”
Conner virava o rosto rapidam ente e olhava para m im , sem sequer dim inuir o passo, com a m ão agarrada firm em ente àquelas lentes.
Preciso delas. Preciso voltar a Marbury.
Tudo o que sentia era esse inexplicável e desesperado com prom isso com Ben e Griffin, dois am igos que tinha acabado de conhecer, m as que talvez conhecesse há tem pos; e, talvez, um a necessidade enorm e de encontrar um a solução para m eus fantasm as do m undo real – Conner, que eu am ava, e Freddie Horvath, que tinha feito aquilo com a m inha cabeça – então, percebi que estava com pletam ente fodido.
Se Conner se livrasse daquelas lentes, eu sabia que estaria m orto. Lá e aqui.
Vai se foder, Jack.
Então, você tem essa horrível escolha: salvar a m im m esm o ou salvar m inha am izade. É por essa razão que os escrotos no poder transform am m eninos em soldados: para nós, o que nos une é o m ais im portante – um a bandeira, um superior, seu com panheiro – as coisas que m erecem nossas vidas, m ais do que nós m erecem os elas.
Por isso, Seth tinha fugido de m im .
Por isso Conner agora fugia de m im .
E por tudo isso eu tinha de voltar a Marbury, pelo m enos m ais um a vez. Precisava salvá-los. Afinal, Conner estava lá tam bém . Mesm o que isso significasse perder.
Fugir daqui.
Pelo m enos um a vez.
Só um a olhadinha.
“Conner!”
Foda-se este lugar.
Quando Conner se aproxim ava da água, consegui alcançá-lo. Não queria brigar, m as tinha de fazê-lo parar. Saltei e agarrei a cintura de Conner, derrubando-o com a testa na areia. Caí por cim a dele.
E não acreditava que ele queria m e m achucar, m as Conner acabou acertando m eu rosto com o cotovelo, tentando se livrar de m im . Cortou m eu lábio.
Fiquei tonto e sem ar, apoiado sobre as m ãos e os j oelhos, olhando as gotas brilhantes do m eu sangue pintarem um a constelação verm elha entre m eus dedos esticados na areia. Os óculos tinham se quebrado com a queda. Um a das lentes estava sobre a fina cam ada de água salgada: um pequeno buraco que descia até o inferno branco de Marbury.
Conner ficou de pé, encharcado e coberto de areia. Olhava para a lente aos seus pés, as hastes retorcidas ao lado dele, quase cobertas pela lam a salgada.
“Porra, Jack!”, Conner disse.
Eu não reconhecia aquele tom de voz.
Lim pei a boca, deixando um rastro verm elho pelo braço.
Vi que Conner se virava. Ele apanhou a lente solta e o que tinha sobrado dos óculos, sem olhar, e atirou tudo ao m ar.
Um a pequena onda veio, cobriu seus tênis e lavou o sangue entre m eus dedos.
A m aré estava subindo.
Naquele m om ento, Jack tinha desistido.
Abaixei a cabeça e a apoiei na areia. A m aré veio e senti a água salgada em m eus cabelos, em m inha boca e nos m eus olhos.
Era o fim . Não podia m ais voltar.
Era com o se o universo tivesse im plodido quando Conner arrem essou as lentes ao m ar.
E agora a m aré subia.
“Levanta. Deixa eu ver isso.” Conner agarrou m eu om bro. “Levanta, Jack.”
Levantei a cabeça. Lim pei o rosto com a cam isa. Um casal nos observava da praia cautelosam ente, tentando entender se estávam os brigando ou apenas brincando.
Nenhum dos dois, eu acho.
Eles se foram depois que m e levantei e olhei torto para eles.
Com m uito cuidado, Conner tentava levantar m eu rosto para ver o estrago que tinha feito.
“Tá tudo bem .” Afastei suas m ãos.
“Quem era aquele m enino?”, Conner perguntou.
Com ecei andar em direção à areia seca. Queria ir para casa, onde quer que ela fosse. Jack estava m orto por dentro.
Conner vinha atrás. “Jack, quem era aquele m enino?”
“Não sei de que m erda você está falando.”
“Eu te vi. Parecia que você estava correndo, em um a floresta. E vi aquele m édico lá. Freddie. Não estou m entindo. Mas o m enino. Ele estava te cham ando, Jack. Não sei quem ele era.
“Só um m enino. Griffin.”
Continuei cam inhando. Não queria olhar para ele.
“De onde você conhece ele?”
“Só conheço de lá. Ponto.”
“Ele estava assustado. Ele estava fugindo de m im , não é?”
Continuei andando. “Tanto faz agora.”
Não conversam os pelo resto da m anhã. Queria chorar. Mas não chorei.
Claro que as garotas sabiam que algum a coisa tinha acontecido. Viram o corte na m inha boca e que eu não conversava e nem sequer olhava para m eu m elhor am igo. Conner e eu ficam os um do lado do outro, em burrados, fingindo que olhávam os pela j anela do trem na viagem de três horas até Harrogate. Eu fingi dorm ir.
Tentei pensar em outra coisa: telefonar para Wy nn e contar que tínham os decidido estudar em St. Atticus, o toque de Nickie, Freddie Horvath.
Freddie Horvath.
Porra! Henry Hewitt e aqueles óculos malditos. Nickie não tinha visto nada neles. Nada.
Ela está morta lá, é por isso.
Como Henry.
Como todos.
Como Griffin.
Porra!
Não podia aguentar a ideia de Nickie não estar em Marbury, porque sabia o que isso significava. Talvez estivesse naquele trem , em um dorm itório. Ou talvez pregada de ponta-cabeça a um a cruz ao lado de um a loj a de bebida.
Por que Conner fez aquilo com igo?
Estava ficando enj oado.
Trêm ulo e pálido, fui cam baleando pelo corredor, m e apoiando pelos assentos com o um bêbado. Cheguei ao banheiro e, agarrado ao vaso, vom itei.
Bem-vindo ao lar, Jack.
Agarrado à pia de m etal que balançava j unto com todo o vagão, olhei para m eu reflexo no espelho. Era com o se o universo se abrisse em um precipício entre m inhas pernas, cam ada por cam ada, até revelar a im agem de Jack, ainda bebê, esparram ado no chão da cozinha.
Que brincadeira legal, não é?
Olhei para m eus olhos fundos.
Parecia um viciado.
Queria m uito quebrar algum a coisa. Fechei os punhos e quase esm urrei o vidro.
“Seth?”, sussurrei.
Nada.
“Seth? Por favor.” Im plorava com o um drogado.
Abri a torneira e m olhei o rosto.
O que ela via em m im afinal de contas? Era um perdido na vida, um covarde. E agora parecia um drogado desesperado. Faria qualquer coisa para ter aqueles óculos de volta. Até m ataria. Queria ver o fim daquilo tudo, dar um fim àquilo tudo. Mas não havia nada que eu podia fazer.
Não deixe ele se tornar seu inimigo aqui, Jack.
Você está morrendo.
Tentava pensar claram ente. Ligar para casa. Minha m ão não parava, m al conseguia segurar o telefone. Queria falar com Wy nn e Stella, pouco im portava que horas eram na Califórnia. Pouco im portava que horas eram em qualquer lugar, a não ser em Marbury.
Olhe as fotos.
Jack corre pelas fotos: eu e Nickie na cam a, j untos.
Foi bom, não foi?
Você lembra, Jack?
O dedo do m eio de Jack.
Vai se foder, Conner.
Jack sem roupas no chuveiro em Londres.
Foi quando acabava de voltar de Marbury, e três dias tinham se passado.
Vai se foder, Jack.
Espere.
Chamadas não atendidas.
Olhei para os núm eros recentes.
Henry.
Jack liga de volta.
“Já era”, eu disse.
“Onde você está, Jack?”
“Em um trem . Porra. Eu não sei. Na m erda de um trem em algum lugar.”
Puxei um a toalha de papel e enxuguei o suor da testa.
Henry fum ava um cigarro. Ouvia enquanto ele tragava. “O que aconteceu com os m eninos?”
“Não sei.”
“E com você?”
“Vai acontecer algo horrível, Henry. A gente precisa conversar. Sinto que vou m orrer.”
“Em Marbury ?”
“Não. Aqui. Acho que vou m orrer... que j á estou m orrendo. Agora.”
Ele não disse nada.
“Estou voltando para Londres. A gente precisa conversar. Hoj e. Chego às onze”, eu falei.
“Sei onde te encontrar.”
“Sim .”
Conner acha que você é um maluco, Jack.
Freddie Horvath deixou minha cabeça assim.
Minha m ão trem ia. Sentia um nó no estôm ago. “Preciso saber de um a coisa.”
“O quê?”
“Lá é de verdade? Você é real, Henry ?”
Ele não respondeu.
“Henry ? Me desculpa por ter ferrado tudo.”
Desliguei.
Quando chegam os a Harrogate, Rachel se despediu de m im e de Nickie. Fiquei aliviado quando Conner foi com ela para longe da gente. Sentam os no saguão da estação e tom am os café, esperando o próxim o trem para Leeds, onde pegaríam os outro para King’s Cross.
Senti os dedos de Nickie envolvendo m inha m ão. “Agora m e fala o que aconteceu, Jack.”
Esfreguei os olhos. Não conseguia falar.
Nickie se sentou ao m eu lado. Senti seu braço envolver m inha cintura.
“Jack?”
Levantei os om bros. “A gente brigou.”
Por um m om ento, ela pareceu irritada. “Ele bateu em você?”
“Foi sem querer. A culpa é m inha.”
“Mas por que vocês brigaram ?”
“Nada de m ais.” Ela estava ficando frustrada com as m inhas evasivas. “Coisa de hom em . Não precisava ter acontecido. Me sinto um im becil.”
Nickie colocou a m ão sobre a m inha perna. Por um segundo, só consegui pensar na noite anterior, quando ficam os j untos no chão.
“Sei que vocês são m uito próxim os. Vocês vão se acertar.”
“Não sei.”
“Jack, não posso te aj udar se você não deixar.” Nickie soava nervosa, frustrada. E com razão.
“Nossa, Nickie.” Eu a abracei com tanta força que quase derrubei a m esinha. Me esqueci do corte no lábio, até beij á-la. Com a dor, m e afastei. Mas Nickie levantou m eu rosto e m e beij ou cuidadosam ente. Jack berrava por dentro porque seus olhos com eçavam a se encher de lágrim as.
Jack não chora.
“Desculpa se m achuquei sua boca”, ela disse. “Mas fiquei esperando um beij o seu o dia todo.”
“Tam bém queria te beij ar. Não sei o que está acontecendo com igo. Estou ficando doido, sei lá. Fiquei perdido com tudo o que está acontecendo. Me sinto perdido, Nickie. Estou com m edo. É assustador.
“Me prom ete um a coisa?”, ela perguntou.
“Prom eto.”
“Prom ete que vai contar para alguém sobre aquele m édico? Conversa com alguém , Jack. Você tem que tirar isso de dentro de você.”
“Eu sei.”
“Prom ete?”
“Nossa, Nickie. Eu sou um fracasso am bulante m esm o! Eu tenho o dom de ferrar com tudo.” Não queria, m as tom ei um gole de café. Passei as costas da m ão sobre o lábio inchado. “Estou m uito m al com o que aconteceu ontem à noite. Tinha prom etido a m im m esm o que não faria aquilo.”
Nickie desviou o olhar. Percebi que ficou m agoada, e tinha certeza de que disse a coisa errada, que ela não entendeu o que eu quis dizer.
“Não quero foder a vida de todo m undo. Nunca tinha brigado com Conner antes.” Parei por um m om ento. “Não quero ser com o Mike Heath.”
“Então não sej a. Lem bra que eu te disse que você j á tem todas as qualidades que você diz que gostaria de ter?”
“Estou assustado por que tem coisas que não consigo entender.”
“Sabe o que penso sobre ontem à noite, Jack? Ficar com você foi a m elhor noite da m inha vida. A m elhor de todas.”
“Nickie, tudo o que eu quero é ficar com você”, m enti.
Jack, seu mentiroso de merda.
A verdade era que ficar com ela era uma das coisas que m ais queria. “Te am o de verdade, Nickie.”
“Am a?”, ela sorriu.
“Am o.” Olhei para m inhas m ãos, que trem iam . “Olha o que você faz com igo. Só pode ser am or. Não quero estragar sua vida. De verdade.”
Passei m eu braço pelos om bros de Nickie.
Ela m e beij ou e sussurrou no m eu ouvido, “Eu te am o, Jack.”
“Mas o que acontece com a gente sem ana que vem , quando eu voltar pra casa? Queria poder ficar. Eu vou voltar logo, Nickie. Prom eto.”
Você nunca vai voltar, Jack.
Nem para a Inglaterra. Nem para Marbury. Nunca mais.
Arrastavam um a cadeira. Conner, desanim ado, nervoso talvez, se sentou e suspirou.
Nickie se endireitou e tocou a m ão de Conner. “Rachel pediu para você voltar, Conner?”
Nickie sorria, porque j á sabia a resposta.
“Com binam os de nos encontrar em York um dia antes de voltarm os pra casa.”
“Você vai adorar lá.”
“Que bom ”, respondeu. Ele olhou pra m im , pude vê-lo pelo canto dos olhos, m as m antive o olhar fixo na m inha m ão e no copo de café vibrando na m esa. Conner lim pou a garganta. “O trem de Leeds chegou. Vam os?”
Assim que nos levantam os, Conner m e puxou pelo om bro, para que olhasse para ele. “Qual é, Jack?!” Conner falava baixo, não queria que Nickie o escutasse. Ela entendeu e se afastou.
“Desculpa, cara”, ele continuou. “Principalm ente por ter acertado a sua cara. Por favor, diga que ainda som os am igos.“
Ele estendeu a m ão para m im .
“Claro.” Apertei a m ão de Conner. Mas m e sentia m orto.
E m e senti ainda pior quando m e despedi de Nickie no m etrô de King’s Cross. Pelo m enos, alm oçaríam os j untos na segunda-feira. Ela se foi para Ham pstead, enquanto Conner e eu cam inhávam os solitariam ente até a Great Portland Street.
Já caía a noite quando chegam os ao hotel, m as ainda faltavam duas horas para m e encontrar com Henry.
Conner j ogou a m ochila no chão. Descalcei os tênis com os pés e m e sentei na cam a.
“Parece que a viagem foi m uito m ais longa”, Conner disse.
“É.”
“Quer sair e com er algum a coisa?”
“Estou cansado, Con.”
Ele tentou descontrair a conversa. “Depois de ontem à noite, aposto que está.”
Eu não disse nada.
“Quer um a cervej a, então?”
“Tá, pode ser.”
Conner tirou duas garrafas do frigobar e m e entregou um a. Descalçou o tênis e se recostou na cam a.
“Vam os ficar am igos de novo m esm o ou o quê?”
Soltei um longo e exasperado suspiro. “Conner, a gente ainda é am igo, m as agora tudo está m e fazendo m al dem ais. Me m achucando. Não sei explicar. Estou perdido e não sei se estou aqui ou lá.”
“Por isso foi bom eu ter j ogado aquele troço no m ar, Jack. Ouve o que vou dizer. Você está aqui.”
Olhei para a cervej a que segurava. O gole que eu tinha tom ado descia rasgando a garganta.
Há algo de errado com você, Jack.
“Você acha que aquele lugar existe de verdade?”
“Não, cara. Esquece aquele lugar.”
“Mas eu não term inei o que eu tinha que fazer lá. Você não devia ter j ogado as lentes no m ar, Con. Porra!”
Jack não chora.
“Já pedi desculpa, Jack.”
“Vou superar. Eu não estou bem . Estou estranho.” Esvaziei a garrafa. “Mas vou m elhorar. Não tenho escolha. O que eu posso fazer? Vou dorm ir.”
Puxei as cobertas e Conner apagou a luz.
Jack olhava o relógio.
Conner devia estar acordado o tem po todo tam bém , porque, m eia hora depois, quando m e levantei e com ecei a m e vestir, ele perguntou, “Tá fazendo o quê?”.
“Nada. Só vou sair um pouco.”
“Quer que eu vá j unto?”
”Não.”
Quando abri a porta, Conner disse, “Quando você vai parar de m e tratar assim , Jack?”