A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 11 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 11

ONZE

 

Stella ligou para o banco para em itirem outro cartão de crédito para m im . E m e deu dinheiro – ela sem pre tinha dinheiro pra m im –, então fui com Conner a um a cervej aria que servia pizza e ham búrger. Com ecei a m e sentir m elhor, acho, m as não conseguia evitar o sentim ento de vazio, com o se tivessem tirado algo de m im , deixando um buraco.

O centro do universo.

Enquanto com íam os, m eu olhar se perdia no vazio, e as im agens de tudo o que tinha acontecido se repetiam , m uito irreais. Conner percebeu o que acontecia e m e cham ou de volta, “Jack, para com isso. Tem certeza que não quer que eu conte pra ninguém ?”.

Ficam os no shopping até a hora de fechar, às dez. Com prei m ais roupas e um tênis, m as nada disso substituía o que Freddie Horvath tinha roubado. Tentava de toda form a parar de pensar naquilo, m as não conseguia.

Na volta, passam os em frente ao Java & Jazz. Vi a Mercedes conversível de Freddie estacionada em um beco entre o café e a cerca de aram e das quadras de basquete do Steckel Park.

Tinha quase certeza de que Conner tinha escolhido esse cam inho de propósito: ele ficava olhando para m im à m edida em que nos aproxim ávam os do parque. E, quando finalm ente passam os pelo Java & Jazz, eu disse, “O cara que m e sequestrou está aqui. Aquela Mercedes é dele.”

Conner parou a picape no m eio da rua e olhou para onde eu apontava. O carro de trás quase bateu na gente. Ouvi a freada estridente, e quando o carro nos contornou, dedos m édios esticados saíram das duas j anelas.

“Vai se foder tam bém !” Conner respondeu.

“O que está fazendo?”

“Vam os foder esse filho da puta!”

“Não, cara!”

Mas Conner não estava ouvindo. Eu sabia só de olhar para ele. Éram os am igos desde antes do j ardim de infância, e eu conhecia aquele olhar com petitivo de Conner Kirk. Aquilo dizia que ele não ia desistir até ganhar o j ogo. Ele estendeu o braço por trás do banco do carro e pegou um canivete.

Ele o abriu.

Senti m eu estôm ago em brulhar, e Conner disse, “Lâm ina versus pneus igual a um a luta inj usta.”.

“Não, Conner.”

“Com o assim , cara? Você tem que fazer algum a coisa. É o que você precisa.” E continuou. “Lâm ina versus teto de tecido da Mercedes igual a carneirinho na boca do lobo.”

Conner ria.

Eu suava.

“Con, para com isso.”

Ele desligou os faróis e aproxim ou a picape do carro de Freddie.

“Foda-se, Jack! Agora eu j á estou envolvido. Ninguém fode com a gente. Ninguém !”

Abriu a porta e deixou o carro ligado.

“Anda logo, Jack! É hora de um a pequena vingança.”

Minha cabeça estava a m ilhão quando fiquei ao lado de Conner olhando para o carro. Sem perder tem po, ele cravou o canivete no teto da Mercedes. Pulei com o se tivesse sentido a punhalada e ouvi o som de Conner retalhando a capota acim a do banco do passageiro.

“São as m inhas coisas ali”, eu apontei.

Conner parou.

Minhas roupas estavam dentro da Mercedes. A berm uda, as m eias e a cam isa que usava na festa, em bolados e j ogados em cim a do Vans que eu tinha usado apenas um a vez. Conner subiu no capô, enfiou o braço através do teto rasgado e abriu a porta. Não tinha alarm e. Aquele carro devia ter pelo m enos uns trinta anos.

Com ecei a ofegar quando ele abriu a porta. Vi que Conner tam bém estava assustado. E sabia que ele estava assim porque no fundo não havia acreditado totalm ente no que eu tinha contado – talvez ele tivesse m edo de adm itir que coisas assim acontecessem a garotos norm ais com o eu e ele –, m as, ver m inhas roupas no banco de passageiro daquele carro tinha trazido todo aquele m undo horrível à tona.

“Pega as roupas”, Conner m andou.

Quase passei m al de tocar m inhas próprias roupas e m eu tênis. Abri m inha carteira. Estava tudo lá, m as fora do lugar.

Exatam ente com o o Jack.

Quando peguei as roupas, vi um a caixa plástica que m e era fam iliar.

“Olha só, Con”, sussurrei.

Dentro dela, havia alguns lacres, iguais ao que Freddie tinha usado para m e prender. Conner pegou dois deles, e enrolou as fitas pretas e grossas entre os dedos. Na caixa, estavam ainda a arm a de choque de Freddie e um a cartela de com prim idos. E tam bém agulhas hipodérm icas e um recipiente contendo um líquido claro, com os dizeres do rótulo cobertos por rabiscos grossos de caneta preta.

“Caralho!” Do j eito com o falava, parecia que Conner tinha desenterrado um a tum ba. Pegou a arm a de choque, apertou o gatilho duas vezes e guardou no bolso. “Esse cara é doente. Isso é sedativo.” Ele segurou as pílulas sob a luz fraca que vinha das quadras.

“Acho que foi isso que ele m isturou na água naquela noite”, eu disse.

“E foi essa m erda que ele inj etou em você.” Conner girava o frasco entre os dedos.

“Vam os nessa, Conner.”

“Eu quero ver ele.”

Parecia que m eu coração ia sair pela boca.

“Con...”

“Me m ostra quem é o cara”, ele insistiu. “Preciso ver esse escroto.”

“Estou ficando com m edo.”

“Eu sei. É por isso que eu quero saber quem é ele. Porque aí você nunca m ais vai ter que ter m edo, cara. Me m ostra o filho da puta!”

Eu não disse m ais nada. Voltei para a picape de Conner, entrei e sentei, segurando m inhas coisas no colo. Não conseguia olhar para elas, apenas para a luz do poste no fim do beco. Fechei a porta e Conner colocou a cabeça pela j anela.

Ele suspirou. “Beleza, Jack. Vam os nessa, então.”

Naquele m om ento, ele deve ter percebido a m udança no m eu olhar, que ficou vidrado na esquina logo à frente.

Freddie Horvath vinha em nossa direção, trazendo um café, vestido para m ais um a noite de trabalho.

“Ele está vindo.”

Conner se abaixou entre os carros, se escondendo do hom em que aparentem ente tinha visto a gente ali, naquele lugar escuro. Eu trem ia m ais a cada passo que ele dava. Tinha certeza de que Freddie m e veria, m esm o que fosse quase im possível. Era com o se ele tivesse o poder de sentir m inha presença onde quer que eu estivesse.

“Vam os em bora, Conner”, sussurrei. Meu pé trem ia. Eu não via m ais o Conner. Pensei que ele j á tivesse dado a volta e fosse abrir a porta da picape, m as, logo que Freddie notou o teto de seu carro todo retalhado, Conner atacou seu pescoço com a arm a de choque e gritou algum a coisa.

O café voou da m ão de Freddie, espalhando-se sobre o capô da picape de Conner, e ele bateu a cabeça na porta da Mercedes antes de cair no chão. Conner se aj oelhou e eu o perdi de vista. Fiquei aterrorizado, só queria sair dali.

“Conner.”

“Vem cá, Jack.”

“Con, vam os em bora.”

“Vem cá e m e aj uda.”

Fiquei parado, sem saber o que fazer. Tudo estava tão silencioso e escuro. Por fim , j oguei m inhas roupas e o tênis no chão do carro, entre m eus pés. Saí da picape para a escuridão do beco novam ente.

Conner tinha am arrado as m ãos e os pés de Freddie com os lacres que tinha guardado. Os olhos de Freddie estavam fechados e ele tinha um corte serrilhado na testa, e havia um pequeno círculo de sangue no pavim ento perto do pneu da frente da Mercedes. Com o polegar, Conner forçava os com prim idos pela garganta de Freddie.

“Conner, j á chega.”

“Já era”, Conner sussurrou. “Ele engoliu tudo. Agora vem cá m e aj udar.”

“Ele se m achucou m uito?”

“Ele não está m achucado. Só está desm aiado, eu acho...”, disse Conner, enquanto lim pava na cam iseta a saliva de Freddie em seu dedo. “Mas ele vai continuar desm aiado, com certeza.”

Conner olhou para m im e sorriu. Tinha aquela típica expressão no rosto: estava ganhando o j ogo. Olhei para baixo, para Freddie Horvath. Ele parecia frágil e doente, nada parecido com o m onstro que ocupava m inha m ente desde que tinha fugido.

Chutei as costelas dele o m ais forte que consegui. Ele abriu os olhos por um m om ento, com o se fosse um balão de água que quase explodiu com o chute.

“Isso, porra!”, disse Conner.

Chutei de novo e Freddie deu um leve gem ido. Cuspi nele.

Fiquei ofegante, estava em polgado e, ao m esm o tem po, tenso. Olhei rapidam ente para os lados, m as de repente m e senti m ais acordado e m ais cheio de energia do que tinha m e sentido desde a noite da festa de Conner.

Fiquei de j oelhos, escondido ao lado de Conner entre os carros. Sussurrei, “O que fazem os com ele agora?”.

“Você lem bra onde ele m ora?”

“Fui a pé de lá até sua casa. Nunca vou esquecer. Ele m ora em Dos Vientos Ranch Estates.”

“Jack, vam os colocar esse escroto na picape e j ogá-lo na casa dele. Daí ligam os para a polícia e denunciam os as m erdas que esse filho da puta faz.”

“Tem os que revelar nossa identidade?”

“Não, eu disse que não ia contar pra ninguém . Desse j eito ele vai ser pego e vam os dar o troco.” Conner pegou a caixa de plástico. Depois, tirou a cam iseta e com eçou a lim par as partes em que tinha encostado no carro de Freddie. Olhou para m im rapidam ente, m e entregou a caixa e disse, “Você dirige”.

Manobrei a picape de Conner e parei com a carroceria bem perto de onde Freddie estava desm aiado. Então Conner abaixou a tam pa da caçam ba e j untos levantam os Freddie, cada um segurando debaixo de um braço. Nunca tinha carregado um corpo antes, e Freddie Horvath era m uito m ais pesado do que parecia. Nós j ogam os o corpo dele e Freddie caiu de cara no chão da carroceria. Acho que quebrou o nariz.

Ninguém viu nada.

Ninguém soube de nada.

Ele não se im portou com igo, e eu não m e im portaria com ele – era assim que funcionava.

Enquanto fazíam os aquilo, ouvia o j azz que vinha do café.

Depois que finalm ente term inam os, assum i o volante. Deixei os faróis apagados e saí lentam ente pelos fundos do Steckel Park, pelas íngrem es colina à oeste da rodovia 101, em direção à casa que Freddie havia m e levado.

As j anelas estavam abertas. Conner tocava clipes no DVD do carro. A m úsica estava alta e fazia m e sentir livre. Conner tam bém estava em polgado – com o braço para fora da j anela, cantava j unto com a m úsica. Eu dirigia sorrindo.

“Isso, porra!”, ele disse.”É assim que a gente resolve essas m erdas.”

Levantei a m ão direita para que ele batesse, m as Conner a apertou tão forte que doía, m as eu não ia soltar. Apertei tam bém o m ais forte que consegui.

Estava feliz por ter feito aquilo, convencido, em m eio à em polgação do m om ento, que Conner era o m elhor am igo que eu poderia ter. Tinha certeza de que ele faria qualquer coisa por m im , e eu nem precisaria pedir.

Mas, só quando chegam os à entrada da garagem daquele desgraçado, em Dos Vientos Ranch, nós notam os a carroceria da picape vazia.

Freddie Horvath não estava m ais ali.

“Ai, m eu Deus do céu!”, disse Conner.

Voltam os pelo m esm o cam inho.

O que parecia ser um m onte de cobertores velhos j ogados no m eio da Nacim iento Road, na escuridão, era na verdade Freddie Horvath.

Desliguei os faróis e parei a picape de Conner no acostam ento, debaixo de um enorm e carvalho.

–“Porra”, disse Conner. Ele ria, nervoso.

“Ele deve ter se levantado, sei lá”, concluí.

“Será que ele m orreu?”

“Que m erda, Con!”

Ficam os ali, no escuro, por não m ais que um m inuto. Não conseguíam os dizer nada. Não precisávam os. Estávam os apavorados e sabíam os.

Abri a porta.

Fom os devagar até o local onde Freddie estava estirado. As m ãos e os pés ainda estavam am arrados, e sua cabeça estava sobre um refletor laranj a na faixa central da rua. Os pés estavam virados para trás. Os olhos, vidrados, e a poça negra de sangue ao redor de sua cabeça refletia as estrelas do céu noturno. Ele expirou um a vez, e m ais nada.

“Meu Deus, Conner”, sussurrei. “Matam os o cara.”

“Não fizem os nada. A culpa é dele.”

“E agora, o que a gente faz?”

“Não encosta nele, Jack. Vam os em bora antes que alguém chegue.”

Fiquei olhando para Freddie, boquiaberto e estático.

Conner m e puxou pelo om bro. “Me dá a chave e entra na picape.”

Enquanto saíam os do local em que deixam os o corpo de Freddie Horvath, voltando pela Nacim iento Road em direção a Glenbrook – a estrada estava com pletam ente deserta –, Conner virou para m im e disse, “Nem com eça, Jack! A culpa não foi nossa, então trata de esquecer o que aconteceu. Ninguém vai ficar sabendo.”.

Exceto nós.