A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 36 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 36

TRINTA E SEIS

 

Eram quarenta e dois m ortos no total.

Meu am igo não estava entre eles.

Conner

Conferim os cada um dos corpos. O cachorro de Griffin cheirava todos, um a um , enquanto íam os j untos pela cena do m assacre. Era repulsivo.

“Vam os pegar os cavalos, Jack”, pediu Ben.

“Vam os.”

Griffin finalm ente guardou a arm a. Talvez quisesse encontrar m ais um ainda vivo. “Está doendo tudo. Por quanto tem po ainda vam os cavalgar?”

“Até a gente encontrar alguém , Griff”, respondi. “Vam os tentar chegar ao topo hoj e para ver se acham os um cam inho.”

Subíam os penosam ente a encosta até onde Griffin tinha am arrado os cavalos e, a cada m om ento, eu parava e procurava ao longe qualquer sinal de que ainda nos seguiam . Isso era estúpido.

É claro que ainda nos seguiam .

Tinha esperanças de que, ao ver a carnificina que tínham os deixado para trás, eles decidissem deixar aqueles três garotos em paz.

Quanto m ais alto, m ais fria a neblina. Chegava a se condensar. Bastante água se acum ulava entre as pedras de granito. Deixam os que os cavalos bebessem das poças. Griffin ria enquanto o cachorro tentava m order seu próprio reflexo

Ben e eu fom os até um a clareira e olham os para baixo, para o cam inho que tínham os trilhado. Já era noite, e não havia sinais de que estávam os sendo seguidos.

“Acha que tem os tem po?”, perguntou Ben.

“Do j eito que essas rochas são, acho que eles não conseguirão nos encontrar.”

“Quer continuar, então?”

“Vam os. Vam os cham ar o Griffin e continuar, Ben.”

Mas, quando voltam os para onde os cavalos bebiam , Griffin e o cachorro tinham desaparecido.

Olhei para Ben e cham ei, sussurrando. “Griff? Griff?”

“Ele deve estar só m ij ando.” Ben deu um pulo. Pegou sua arm a. Vi algum a coisa se m exendo ao m eu lado. Me virei e um hom em alto nos observava, logo ele desapareceu na neblina.

Um fantasm a.

“Odeio esses coisas, porra”, disse Ben.

“Vê se não vai atirar em m im sem querer.”

“E aquele seu fantasm a m agrelo?”

“Não sei. Foi em bora.”

“Griff?” Ben estava nervoso. Sua m ão trem ia sobre o coldre.

Contornei a água para investigar o outro lado. Vi as pegadas m olhadas de Griffin: seguiam as pedras para o leste. Era um a trilha natural, estreita, ladeada por galhos e folhas pontiagudas de pinheiros. Acenei para Ben. “Acho que ele foi para lá.”

Ben respirou fundo e m e seguiu pelas árvores.

Não m ais que vinte m etros à frente, ouvim os o cachorro latir. Griffin berrava, “Spot! Vem cá! Larga m eu cachorro!”.

Arm ei o rifle e fui em direção aos gritos de Griffin.

“Griff!”

Ben corria logo atrás.

“Solta ele!”, Griffin urrava, enfurecido.

Quando o alcançam os, encontram os o garoto sem inu, puxando a saia de um a m ulher que, por sua vez, agarrava o cachorro com os braços e prendia seu focinho com as m ãos. O bicho se debatia.

Outras pessoas.

“Griff! Volta!”, gritei, apontando a arm a para a m ulher.

Não poderia dizer que era um a cena estranha, porque em Marbury o estranho era o norm al. Mas a m ulher era enorm e, forte. Seus cabelos grisalhos esvoaçavam desgrenhados enquanto tentava se livrar de Griffin. Vestia um hábito de freira e tinha olhos desesperados, ensandecidos até.

“Pierre!”, ela cham ou. “Pierre!”

“Mary !” Um hom em veio correndo em nossa direção.

Ben j á em punhava as duas pistolas, um a apontada para a m ulher, a outra para o farfalhar que vinha das árvores na escuridão.

“Solta!”, a m ulher gritava enquanto tentava chutar Griffin.

“O cachorro é m eu!”

“Ei”, eu gritei. Queria que ela olhasse para m im , para m inha arm a, m as talvez nunca tivesse visto um a antes. “Para com isso! Devolve o cachorro!”

“A gente divide! Por favor! A gente divide!”, ela im plorou.

“Você não vai com er m eu cachorro, porra!”, Griffin a segurava pelas m angas da roupa e chutava suas pernas.

“Mary !” Um hom em surgiu atrás deles, segurando um a enorm e clava retorcida com a ponta coberta de galhos e espinhos. Ele a levantou, m as Griffin girou a m ulher entre ele e o hom em , enquanto a chutava.

“Solta m eu cachorro, porra!”

Ben levantou a arm a e apontou para o peito do velho.

“Não atira, Ben!”, gritei.

Vi que Ben não sabia o que fazer. Eram pessoas, afinal. Há quanto tem po aqueles m eninos não viam pessoas de verdade?

O hom em tentou acertar a clava nas costas de Griffin, m as o garoto era rápido. Ainda segurando as roupas da m ulher, ele se j ogou ao chão, tentando puxá-la para baixo. Parecia um inseto tentando tom bar um a árvore.

Então, Ben esticou os braços e disparou acim a da cabeça do hom em . Pierre, com pletam ente perplexo, soltou a clava im ediatam ente e cobriu os ouvidos enquanto os estam pidos ensurdecedores explodiam em cham as esbranquiçadas nos canos das arm as.

O tem po pareceu parar.

Griffin largou a m ulher, conferindo se alguém tinha sido atingido.

Encarei Ben em reprovação. Não podíam os fazer barulho, e ele sabia.

“Porra, Ben!”

“O que eu podia fazer, Jack? Aquele filho da puta ia m atar o Griff.”

A m ulher trem ia, ainda agarrada ao cão. Ela choram ingou, “Por favor, tenha piedade. Eu cozinho. Eu cozinho! Por favor! Vam os dividir? Por favor? Sei que você é um hom em de Deus. Eu cozinho para você!”.

“Você não vai cozinhar o m eu cachorro, caram ba”, insistiu Griffin.

“Griffin...”, Tentei acalm á-lo. O m enino j á se preparava para voltar a brigar. “Dona, solta o cachorro”, pedi.

Ben continuava m irando o hom em que ainda cobria os ouvidos.

“Devem ser deuses”, exclam ou, ainda trêm ulo.

“Dem ônios, dem ônios!”, disse Mary. Lágrim as enlam eadas desciam pelo rosto da freira, m as m esm o assim m e olhava desafiadoram ente; curvando-se, ela soltou o cachorro. O anim al tentou m order sua m ão, m as logo correu para se esconder atrás de Griffin, com os pelos do dorso eriçados com o penas.

Griffin deu dois tapinhas no dorso do anim al e olhou para ela. “É um a m ulher m ais velha. Não é, Jack?”

“Vocês são cruéis e infiéis”, disse Mary, enxugando seu rosto. Ela se sentou no chão e balançou a cabeça. “Dem ônios cruéis, com as m arcas escondidas. Pierre!”

O hom em abaixou as m ãos e olhou para nós.

“Conte a eles! Conte a verdade!”, a m ulher pediu a Pierre.

O hom em , velho e corcunda, encolheu os om bros com o se não entendesse o que a m ulher pedia.

Cautelosam ente, Griffin se aproxim ou da senhora, que ainda estava sentada. Tocou seu rosto com a ponta dos dedos. “É um a m ulher”, ele disse. Então, abaixou a m ão para sentir o seio dela. Mary acertou um tapa tão forte nele que soou com o outro tiro. Griffin se estatelou no chão com as arm as tilintando pelas pedras; a pancada foi tão forte que quase arrancou o garoto m agrelo de dentro das calças. Ele se levantou rapidam ente, de punhos cerrados, e avançou contra a m ulher. Griffin lhe deu um m urro bem no m eio do nariz, e ela desabou de costas no chão.

A velha soluçava, e Pierre veio ao seu socorro, acariciou seus cabelos em aranhados e balbuciou, “Mary, Mary ! Vej a o que os pérfidos e m aus fazem conosco!”

Griffin parecia se preparar para atacar Pierre tam bém , então girei o rifle para as costas e agarrei o m enino pelos om bros.

“Chega, Griffin. Ela tinha razão de te bater. Depois explico.”

O m enino ficou ali, olhando para aquele casal patético. Confuso, esfregava o rosto. Sabia que Griffin estava furioso por ter sido estapeado daquela form a e, se eu não interferisse, continuaria brigando.

Acho que Griffin Goodrich nunca chorou na vida.

“Por favor, m isericórdia”, Pierre im plorava, enquanto sua m ão trêm ula acariciava os cabelos da m ulher. “Estam os fam intos. Ela só estava m e aj udando a procurar com ida. Por favor, nos deixe ir.”

A freira fechava as narinas com os dedos ensanguentados.

Ben guardou as arm as nos coldres. “Tem m ais gente aqui em cim a?”

Pierre olhou para m im para responder. Devia ter m edo das arm as de Ben. “Alguns. Um a com unidade bem pequena.”

“Ai de m im !”, queixava-se Mary. “Ai de m im ! São dem ônios, Pierre! Aquele degenerado m e estuprou! Você não viu? Ele m e estuprou!”

A freira se curvou para frente escondendo o rosto no tecido preto do hábito esticado entre os j oelhos. Balançava para frente e para trás, com as m ãos agarradas aos cabelos, m urm urando um a prece em latim .

“E onde estão os outros?”, perguntei.

“Às vezes os vem os, aqui e ali. Eles se escondem bem , todos nós tem os de nos esconder m uito bem . Mary e Pierre, sem pre nos escondem os durante o dia. Com os fantasm as. Mas som os bons. Com partilham os nossa com ida, nossa bondade. É tudo o que tem os.”

“Já falei que vocês não vão com er m eu cachorro, porra!”, Griffin grunhiu.

“Shhh...”, interrom pi. “Eu voto para dar com ida para eles.”

Levantei m inha m ão.

“Eles são doidos”, Ben protestou.

Griffin parou de esfregar o rosto e levantou a m ão. “Vam os dar com ida para eles.”

“Tudo bem , então”, Ben m ostrou a palm a da m ão.

“Ouça”, disse para o velho. “Som os bons tam bém . Tem os com ida e vam os dividir com vocês.”

“Dem ônios!”, disse Mary, com a cabeça ainda enterrada no hábito.

“Desculpa”, disse Griffin. “Eu não te estuprei. Acho que nunca vi um a m ulher. Não que eu m e lem bre. Desculpa.”

“Tudo bem , Griff”, eu disse. Virei o rosto para o hom em e continuei. “Vam os trazer com ida. Voltam os em um m inuto, pode confiar na gente.”

“Por favor, por favor”, continuou o velho.

Com o cachorro à frente, voltam os os três para onde estavam os cavalos para levar algum a coisa para o casal idoso. Tirei duas em balagens de suprim entos que tínham os encontrado no trem dos soldados e guardei no bolso das calças cam ufladas.

Por um instante, vi Seth de pé, do outro lado da água. Sua im agem estava tão fraca que era quase um borrão. Assim que olhei para ele, desapareceu com seu sussurro característico, “Seth”.

“Precisam os nos preparar para cavalgar”, avisei. “O velho disse que tem m ais gente aqui. Não quero atrair os Caçadores para cá. Vam os voltar pela trilha que viem os até encontrar outro cam inho para o topo.”

“E até quando vam os ficar fazendo isso?”, perguntou Ben.

“Até quando for necessário, Ben. O que você quer que eu responda?” Balancei cabeça. Ben parecia se sentir culpado e m ontou seu cavalo. “Fiquem preparados que eu vou dar com ida para os doidos e j á volto.”

“Jack!”, Griffin cham ava, preocupado. “Um a das m inhas arm as sum iu!”

Em apenas um instante, enquanto com eçava a procurar a arm a de Griffin pelo chão, ouvim os dois estam pidos vindos de onde estavam o velho e a freira.

Corri.

Olhei para trás e vi que Griffin com eçava a descer do cavalo. “Não m e siga. Só venha se eu cham ar.”

Parei de correr logo que cheguei à clareira onde Mary agarrara o cachorro de Griffin. Tentei controlar a respiração e escutei atentam ente.

Nada.

Fiquei de bruços no chão, com o rifle apontado à frente. Com ecei a rastej ar.

Pés.

Vi as solas de seus pés, lado a lado, com o se estivessem deitados j untos, im aginando suas loucuras enquanto observavam o m onótono céu de Marbury.

Fiquei de pé.

A m ão da freira ainda agarrava firm em ente a pistola de Griffin. Pierre estava de olhos abertos e um pouco de sangue escorria de seu nariz. Um buraco preto com o carvão ainda borbulhava acim a de sua orelha direita. A freira tinha atirado em si própria no peito, talvez tentasse expurgar a parte do corpo que o garoto tocara com curiosidade. A boca dela, contraída, m ostrava os dentes, e os tendões saltavam do pescoço em um a expressão paralisada de fúria.

Tirei a pistola da m ão do cadáver e voltei até os cavalos.

Segurei o cano da arm a e devolvi para Griffin.

“Tom a. Tom e m ais cuidado. O velho quase teve um enfarte quando a arm a disparou na m ão dele.”

“Tudo bem com eles?”, perguntou Griffin.

“Tudo. Acho que nunca com eram tão bem . Pediram para agradecer, Griff.”

Voltam os uns três quilôm etros até encontrar outro cam inho para o alto da m ontanha. Griffin e Ben j á pareciam estar quase dorm indo sobre os cavalos, m as m e seguiam m esm o assim . Assim que virei entre dois troncos de árvores, olhei ao longo da encosta escura da m ontanha e vi duas m arcas verm elhas – apenas rapidam ente, m as eles estavam lá.

Dois deles. Em nossa direção.

Então, eles sum iram .

Talvez estivesse cansado. Talvez não pensasse com clareza, ou apenas sonhasse acordado. Não im porta o que era, sonho ou realidade, sabia que um a daquelas criaturas subindo pela m ontanha atrás de nós era Conner.