A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 44 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 44

Q UARENTA E Q UATRO

 

A história de Seth [3]

Em 1885, em um a m anhã de verão escaldante, tio Teddy nos visitou pela prim eira vez. Atravessou a fazenda olhando reto, a passos duros. Ia em direção à cidade. Sentado nas escadas da varanda, logo após o café da m anhã, eu observava Hannah alim entar as galinhas. Foi quando o vi ali, parado, segurando sua pouca bagagem debaixo do braço, esperando ser convidado para entrar. Davey trabalhava no m oinho e papai j á tinha saído para cuidar das vacas. A culpa parecia pesar ainda m ais sobre m im naquele dia, pois aquele hom em parecia o próprio diabo, que vinha cobrar o preço de m eus pecados com Hannah.

Tio Teddy levantou a m ão e disse, “Olá, crianças”.

Hannah deixou o balde no chão. “Vou cham ar m am ãe.”

“Vou com você. Talvez ele vá em bora.”

“Seth”, Hannah m e repreendeu. Com um leve tapa na m inha cabeça, entrou pela porta da casa.

Aos 14 anos, duas coisas eram verdades im utáveis para m im : Hannah e eu nos am aríam os para sem pre e um dia seríam os m arido e m ulher. Ela tam bém acreditava: m e dizia isso todas as vezes que fugíam os para a floresta ou para o celeiro de papai. Em nossas escapadas, nos acariciávam os e nos beij ávam os de boca aberta, com as m ãos por baixo das roupas, chegando perigosam ente perto de fazer aquilo que m eninos da nossa idade j am ais poderiam ser pegos fazendo.

Queria ser puro, ser um a pessoa boa, e sabia que era errado o que eu e Hannah fazíam os. Mas a todo m om ento, dorm indo ou acordado, era consum ido pelas fantasias do próxim o m om ento em que ficaríam os a sós.

Davey tinha 18 anos naquela época e sabia m uito bem o que estava acontecendo, m as nos am ava tanto que fazia de tudo para que m am ãe não nos visse. Sem pre nos sentíam os desesperadam ente culpados. Todos nós.

Tentava m edir as consequências do que então j á se tornava um a atração incontrolável. Às vezes, m e convencia de que papai e m am ãe receberiam bem nossa relação, m as, na m aioria delas – principalm ente quando estávam os todos bem vestidos, sentados no banco da igrej a um ao lado do outro: papai, m am ãe, Davey Hannah e eu –, sentia-m e um pecador pervertido por ter pensam entos tão vulgares.

Mas então m e senti ainda m ais culpado, de várias form as, quando o antigo pastor tinha adoecido e m orrera no fim do inverno, porque Necker’s Mill não tinha m ais um padre, o que m e deixava m uito aliviado, j á que não seria m ais escrutinado pelo Senhor a cada dom ingo.

Quando viu que ia em sua direção, tio Teddy deixou a sacola no chão e exclam ou:

“Mas que rapaz aprum ado!” Ele sorriu e estendeu a m ão, m as não a apertei com o um hom em de verdade deve fazer. Tio Teddy suava m uito, e eu contraí os cantos da boca, tentando disfarçar a repulsa que m eu rosto queria dem onstrar.

“Sou o reverendo Theodore Markoe, m as todos m e cham am de tio Teddy. Necker’s Mill ainda está m uito longe, m eu j ovem ?”

“Não m uito distante”, eu disse, e, pensei que era m elhor m udar m inha atitude, j á que Hannah e m am ãe se aproxim avam .

Mal tinha chegado, m am ãe j á m e fazia carregar a m ala de tio Teddy até a casa. Tinha convidado o reverendo para o café da m anhã, dizendo que não seria direito deixar um hom em de Deus cam inhar tanto sob aquele sol sem um a refeição decente. Prom eteu até pedir a papai ou a Davey que o levasse pelo resto do cam inho em nossa carroça.

Não foi difícil para a população local se aj ustar ao Preterism o de tio Teddy. Era um a vertente do Cristianism o m uito popular entre várias com unidades dos Estados Unidos daquela época e trazia um a espécie de alívio aos pecadores j á que, com o tio Teddy prom etia, “o acerto de contas j á estava feito” e vivíam os na era da glória de Deus.

Eu tentava acreditar naquilo sem pre que saía às escondidas com Hannah.

A única coisa que podia fazer era suportar. Quando o assunto era a m issa de dom ingo, não podíam os contestar. Davey dava o m elhor exem plo de resistência quando o desafio era perm anecer sentado por horas no banco da igrej a. Tinha m e ensinado, desde que eu era bem novo, a m e concentrar em outras coisas m ais interessantes, com o caçar e pescar. Ainda assim , devo adm itir que esperava ansiosam ente pelo m om ento das orações: era quando podia segurar a m ão de Hannah sem ter de m e esconder.

Hannah tinha pensam entos tão corrom pidos e desvirtuados quanto os m eus. Na prim avera daquele ano, com em oram os m eu aniversário de 14 anos na data em que papai tinha m e encontrado dorm indo no m eio do m ato e da lam a, com o sem pre fazíam os. Era apenas um a estim ativa da m inha idade, m as os Mansfields chegaram à conclusão de que eu era um ano m ais novo que Hannah, talvez ao verem o quanto era franzino quando m e despiram no dia do m eu prim eiro banho. Mesm o assim , com 14 anos eu j á era m ais alto que a m am ãe e m inha fisionom ia e m eu porte estavam m udando.

Então, naquele dia, pouco m ais de um m ês após a visita de tio Teddy, Davey e eu fom os nadar no rio antes do j antar, essa era a única form a de tom arm os banho no verão, pois a água do poço ficava m uito gelada. Hannah saiu escondido de casa e se esgueirou pelas árvores para nos observar. Era m uita ousadia fazer aquilo, ela nos encontraria sem roupas.

“David Ewan Mansfield!”, ela cham ou. Soava toda im ponente quando dizia nossos nom es com pletos. “Vista as roupas e volte para casa. Mam ãe está cham ando.”

Davey estava ao m eu lado, os dois com a água esverdeada até o pescoço.

“O que ela quer?”

“Não perguntei.”

Com eçam os a nadar até a m argem e gritei, “Hannah, olha para o outro lado”.

“Ela não te cham ou, só o Davey.”

“Droga.” Davey disse para si m esm o.

Foi alarm ante ouvir a reprovação de Davey. Logo ele. Talvez tio Teddy tivesse surgido em um a boa hora, afinal de contas.

Davey vestiu as calças, j ogou o resto das roupas sobre o om bro e desapareceu pela vegetação.

Ouvi a risada de Hannah.

“Davey vai ficar furioso com igo, Seth. Mam ãe nem está em casa.”

“Isso foi m aldade, Hannah, Por que você fez isso com ele?”

“Porque eu queria ficar a sós com você, ora.” Então Hannah saiu de trás das árvores onde estava escondida.

“Quer entrar na água?”, perguntei.

“Não, sai você.”

“Então olha para lá.”

“Não.”

“Então não vou sair.”

Hannah se virou e se sentou na gram a. Fiquei olhando para ela enquanto esperava pacientem ente que eu vestisse as calças.

“Pronto, pode olhar.”

Hannah estendeu a m ão e, quando a segurei, m e puxou para sentar-m e ao lado dela. Me sentei e olhei para seu belo rosto, ouvindo o sonolento barulho da água. Sabia, sem dúvida, que não havia ninguém nesse m undo de que eu poderia m e sentir tão próxim o, ou que seria m ais bonita do que Hannah, sentada sob aquele céu de verão.

“O que você está olhando?”, ela perguntou.

Fechei os olhos. “Você acredita no que tio Teddy diz? Que esse é o últim o dos m undos? O m undo da glória eterna?”

“Enquanto eu estiver com você, Seth, não m e im portam outros dias, nem passados, nem futuros.”

“Você não se sente culpada?”

“Por quê? Você se sente?”

“Não por te am ar. Mas fico com m edo, às vezes.”

“Apenas m e sinto sozinha esperando por esses m om entos em que posso ficar com você, Seth.”

Corri os dedos pelos cabelos de Hannah. Suas bochechas coravam quando a beij ei.

“Te am o, Hannah.”

Ela trouxe um livro de casa, e o lia para m im enquanto eu estava deitado na cam a, olhando para ela e m e deleitando com sua voz tão bonita.

“Lem bra onde param os?”

“A Marcha”, eu respondi.

“A Marcha de Miles Standish”, ela respondeu, encontrado o passagem no livro.

Após alguns m inutos, Hannah parou de ler e olhou para m im . “Já lem os essa parte.”

Sorri e segurei sua m ão. “Eu gosto dessa parte com os índios.”

“Nós nunca vam os chegar ao casam ento se ficarm os lendo trechos de guerra e m orte.”

“Casam ento de quem ?”

“O nosso. Ou o m eu com Brett Whitm ore, se você dem orar m uito.”

Assim com o m am ãe, Hannah adorava provocar o Davey e a m im ; e todos sabiam o quanto aquele Whitm ore gostava de m inha Hannah.

“Brett Whitm ore daria um bom m arido”, provoquei de volta.

Hannah riu e colocou a m ão sobre m eu peito nu. Fui fraco. Não resisti e puxei sua boca para a m inha língua.

Naquela tarde, sobre a gram a tenra à m argem do rio, Hannah e eu fizem os o que não deveríam os ter feito, aquilo que sabíam os ser inevitável. Depois, fiquei atrás dela à beira do rio, vendo ela agachada, com a saia levantada acim a dos j oelhos, se lavando entre as pernas.

“Te m achuquei?”

“Um pouquinho.”

“Desculpa.”

“Não precisa pedir desculpas, Seth. Te am o m uito.”

“Me desculpa.”

Eu m e sentia tão consum ido pela culpa e pela vergonha que assim que voltei para casa não disse nada a Hannah, fui direto para o quarto rezar por nós dois. Menti para m am ãe que tinha febre e m e tranquei no quarto até a casa ficar em silêncio. Juntei as roupas que podia e enfiei em um a fronha, convencido de que se ficasse m ais um dia ali, acabaria por destruir a fam ília que tinha m e acolhido.

Não m e esqueço do que testem unhei enquanto cam inhava pelas ruas escuras do vilarej o: a m aior chuva de m eteoros que j á tinha visto na vida. Com o se os céus chorassem lágrim as cintilantes por m im e por Hannah. E pela m inha alm a vil.

Em tem po, m am ãe e Hannah ficaram tão chateadas que Davey saiu à m inha procura.

Um menino chamado Whitmore.

E eu sabia, agora m e lem brava daquilo que m e conectava a Seth.

“É um a história m uito bonita, Jack”, Rachel elogiou. Via a luz tênue da vela refletida em seus olhos.

“Muito rom ântica”, concordou Nickie. “Onde você leu?”

“Vocês acreditam em fantasm as?”

Conner chutou m inha canela debaixo da m esa. “Ele está brincando. É só um a lenda da nossa região.”

“Eles ficam j untos no final?”, perguntou Nickie.

“Seth foge para um a cidade cham ada Napa e acaba sendo encontrado pelo Davey, quatro m eses depois, no inverno.”

“Chega, por ora. Acho que a gente podia fazer algum a coisa m ais anim ada. Depois, na hora de dorm ir, o Jack conta m ais historinhas.”, Conner disse.

E riu.

Segurei a m ão de Nickie. “Conto m ais depois.”

“Prom ete?”

“Prom eto.”