A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 22 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 22

VINTE E DOIS

 

Dor.

Doía m uito. Eu estava passando m al, sentia a febre ardendo dentro de m im .

Abri os olhos e estava deitado no interior do que parecia ser um a caverna, enrolado em um cobertor fedido que estava encharcado com m eu suor. Podia ver o céu branco e chapado através das reentrâncias pontiagudas de um a fenda lá no alto, e eu não sentia m inhas pernas. Tudo o que sentia era um a agonia insuportável.

Virei a cabeça para vom itar.

Vi som bras. Outras duas pessoas estavam ali com igo. Garotos. Eu os conhecia.

Mas com o? Sabia tudo sobre eles: Ben e Griffin. Meio-irm ãos. O pai de Ben tinha m orrido no com eço da guerra, quando a peste se espalhou. Era um a doença que não nos contam inava. Griffin tinha nascido quando a escuridão j á tom ava conta de tudo.

Ben Miller sentou-se ao m eu lado. Ele se inclinou quando viu eu m e m exer. Quando vom itei, foi com o se um anim al escavasse um túnel para fora do m eu corpo. Gritei.

“Ei! Faz ele parar de gritar!”, ouvi Griffin Goodrich vindo em nossa direção do lugar em que estava perto da entrada.

“Shhh...”, Ben passou um pano m olhado no m eu rosto. “Calm a, Jack.”

Depois ouvi dizer, “Ele está acordando.”

“É bom m esm o, Ben. Ou vou deixar ele aqui. Vocês dois. Dois dias aqui é tem po dem ais. A gente tem que ir em bora.”

“Vai ficar tudo bem ”, Ben tentou acalm á-lo.

“Se encontrarem a gente, não vai, não! Você quer acabar com a cabeça fincada na porra de um m uro com o Hewitt e os outros?

O cheiro de vôm ito na m inha cara m e fez querer vom itar de novo, m as eu tentava m e controlar. Minha barriga se contraía involuntariam ente, com o se rasgassem m eus órgãos. Passei a m ão pelo peito até o quadril. Estava m olhado e pegaj oso. Então m e lem brei da flecha negra, m as ela não estava m ais cravada em m im . Com a ponta dos dedos, senti os nós de um a sutura im provisada com o que parecia um cadarço.“O que aconteceu?”

“Com o está se sentindo, Jack?”, Ben perguntou.

Tentei m e sentar, m as não consegui. Respondi com um , “Uh”.

Ben lim pou m eus lábios e colocou a m ão em baixo do m eu braço. Ele olhou para Griffin.

–“Vou tentar te tirar dessa poça que você fez, Jack. Tente não fazer isso de novo se conseguir, cara.”

Ele m e arrastou para que m inha cabeça ficasse m ais próxim a da luz que vinha da entrada da caverna.

Griffin segurou um a garrafa de plástico acim a do m eu rosto.

“Foi o que sobrou”, ele disse.

Ele abriu a garrafa e despej ou um pouco de água turva e quente em m eus lábios.

Engoli.

“Valeu, Griff.” Me lem brei de que todos – pelo m enos os que restavam – cham avam o m enino de Griff. Ele tinha só 12 anos. Ben tinha 14. Pelo que sabíam os, agora éram os apenas os três. Apenas m eninos. E não víam os um a m enina havia anos. Pelo m enos nenhum a m enina viva. Ou um ser hum ano que fosse.

Sabia onde estava.

Marbury.

Griffin tam pou a garrafa e voltou para a entrada da caverna.

Com esforço, levantei o corpo, m e apoiando sobre os cotovelos.

“Quero ver se está m uito feio, Ben.”

Ben Miller veio até m im e se agachou ao m eu lado.“Não está tão feio”, ele disse. Afastou a coberta do m eu peito. “Passou por onde haveria gordura, se você tivesse um pouco. Mas não fica com raiva de m im . Foi o Griff que te costurou. Você sabe que não conseguia nem olhar, Jack, estava tão assustado que achei que você fosse m orrer.

A ferida se dobrava para fora, com o dois beiços inchados, costurados por um fio sinuoso. A pele em volta tam bém estava m uito escura, exatam ente com o a ferida das costas.

“Tivem os que rasgar sua cam isa toda para conseguir aquele fio. Ela j á estava destruída m esm o.”

Afastei a coberta. Eu vestia só um a calça larga e rasgada nas pernas. Nada além de um a calça. Havia um a enorm e faca de lâm ina reta no chão, ao m eu lado. Sabia que era m inha.”

“O que aconteceu?”, perguntei.

“Você não lem bra?”

“Não estou conseguindo m e lem brar de nada”, disse. Fechei m eus olhos, tentei im aginar Conner, Nickie, Londres.

Conner e Dana na cam a naquela festa.

Freddie Horvath.

Que m erda está acontecendo com igo?

Você ainda não conseguiu escapar de nada, Jack.

“Foi há dois dias, perto do assentam ento de Bass-Hove. Nós encontram os. Mas j á estavam nos esperando, sabiam que estávam os indo. Pegaram quase todos.” Baixou a voz até sussurrar. “Agora som os só nós três.”

Ben olhou para Griffin. “O que a gente faz agora, Jack? Estou com m edo e não tem os para onde ir.”

“Porra!”, gritou Griffin. Então ouvi o som de duas pedras pesadas batendo um a contra a outra.

Ben se levantou de um a só vez.

“Os necrófagos estão vindo”, disse Griffin. “Eu sabia! Tem algum a coisa m orta nessa caverna. A gente tinha que ter procurado m elhor. Agora esses m alditos sabem onde a gente está!”

Griffin levantou a pedra que tinha usado e a j ogou novam ente no chão, esm agando um inseto que acabava de invadir nosso esconderij o.

Eu sabia que logo m ilhares deles viriam . Milhões. E tam bém sabia o que viria atrás deles.

Ben m e alertou, “Você vai ter que cavalgar, Jack. Pega os cavalos, Griff.”

Sem dizer nada, Griffin deixou seu posto novam ente e desapareceu no véu branco da neblina.

“Me aj uda a levantar.”

Estendi a m ão para Ben.

“Fica aqui. Deixa eu pegar os sapatos prim eiro.

Eram botas de trabalho, de pares diferentes, tinham o couro bem surrado. Ben m e calçou e am arrou os cadarços segurando cada pé entre os j oelhos.

“Você vai aguentar, Jack? Não sabem os o que fazer sem você.”

Levantei o tronco até conseguir m e sentar.

Doeu.

“Acho que vou.”

Rolando e... Tac. Tac. Tac.

Aquele barulho.

Ainda segurando m eu pé entre as pernas, Ben virou o rosto em direção ao ruído.

Então vi, de pé no fundo da caverna, ao lado de Ben Miller, um m enino pálido e descalço, de olhos fundos e negros, que parecia ter a m inha idade.

Ben disse, “Maldito fantasm a! Tudo que a gente precisava. Por isso aquele necrófago encontrou a gente tão fácil.”

O m enino se sentou e abraçou os j oelhos contra o peito. Ele parecia assustado.

Pensei que havia chorado, m as sentou lá e ficou m e observando; e entendi que ele tam bém m e conhecia e que estava m e seguindo, esperando que algum a coisa acontecesse.

Podia ver as rochas da caverna através de seu corpo. Então ele foi ficando m ais rarefeito até se dissipar em um tipo de névoa, espalhando-se pelo chão onde estava sentado.

Ben olhou para m im . “Nunca fiz isso antes. Ouvi dizer que funciona. O Henry disse que j á tinha feito, você se lem bra?”

“Não.”

Não m e lem brava bem das coisas.

Ben virou o rosto para o fundo da caverna onde a névoa acinzentada pairava sobre o chão quente e disse, “Se você pode aj udar, então faça isso logo, seu m oleque! Por sua causa tem os que fugir de novo, então é o m ínim o que você pode fazer. E, se não fizer nada, os necrófagos vão te pegar”.

A névoa se condensou, com o um tapete, e o m enino estava lá de novo, agora de pé.

Rolando e... Tac.

Ele era bem m agro, quase esquelético, descalço. Vestia só um a calça rasgada presa à cintura por um a corda, que j á com eçava a se desm anchar, sem cam iseta ou chapéu. Estava suj o e m alcuidado. Seu cabelo repicado e claro descia pelo rosto, para baixo das sobrancelhas.

“E então?”, Ben perguntou, im paciente. “Se não vai aj udar em nada, pra que está seguindo a gente, porra?”

O m enino desapareceu no ar, form ando novam ente a névoa sobre o chão. A fum aça veio serpenteando em m inha direção e, antes que eu pudesse reagir, se infiltrou entre os pontos da ferida.

A névoa era m orna, podia senti-la preenchendo cada parte do m eu corpo. Eu sabia quem ele era.

Ouvi dizer seu nom e m ais um a vez:

“Seth.”