A Lente de Marbury
Capítulo 28
VINTE E OITO
Sabia onde estava.
De algum a form a, tinha m e contorcido pelo chão e acordado – se é que se pode cham ar assim – debaixo da cam a. Meu pé estava dorm ente, ainda estrangulado pelo lacre de ny lon preso ao ponto onde a barra de m etal da cam a estava soldada ao estrado. Olhei para fora em direção a um estreito facho de luz.
Vi as lentes no chão.
O sol j á tinha saído.
Que porra é essa, Jack?
Freddie Horvath me deixou assim.
O telefone tocava. Estava tocando há m uito tem po?
Quanto tempo fiquei em Marbury desta vez?
Saí de debaixo da cam a. O telefone parou.
Tinha deixado um a tesoura sobre o criado-m udo. Cortei o lacre e m e arrastei até o banheiro para vom itar, m as m eu estôm ago estava vazio. Subia apenas o m uco ácido que fazia a garganta arder. Fiquei deitado de lado no chão gelado do banheiro, encolhido, até retom ar as forças para m e m exer novam ente.
Levanta, Jack.
Você está fodido.
Chega.
Chega.
Chega.
Você está fodido de novo. Exatamente como na noite da festa. A culpa é toda sua.
Você merece isso, seu filho da puta!
Fiquei de j oelhos, liguei o chuveiro e apoiei a cabeça na beirada da banheira.
Voltei para o quarto. A água fria escorria pelo corpo, pingando dos cabelos. Deixava rastros m olhados pelo chão. O quarto estava todo bagunçado. Tinha j ogado m inhas coisas por todos os lados. Virei o relógio do criado-m udo. Seis da m anhã. Tinha de sair. Tinha de buscar Conner no aeroporto.
Tirei a cueca e fui até o chuveiro aos tropeços, apoiando as m ãos pelas paredes. Tom ei um banho gelado. Meu corpo se contraía e m eus pulm ões prendiam um grito. Não era do choque térm ico.
Com o poderia olhar para Conner agora?
Tinha m entido para m im m esm o e m e convencido de que poderia escapar de toda aquela m erda se viesse para a Inglaterra, m as era com o aquela voz dizia na m inha cabeça: ainda não tinha conseguido escapar de nada.
E agora acreditava que havia m atado Brian Fields tam bém .
Estava enj oado e pálido, trem endo, enquanto observava, sentado, pela j anela do trem , olhando para o nada, a cam inho do aeroporto.
Há mortos neste trem.
Chega, Jack.
Nas m anhãs de segunda-feira, os trens para o aeroporto de Heathrow iam lotados, m esm o na prim eira classe.
Eu devia parecer um assaltante, ou algo assim ; e tinha certeza de que todos naquele vagão olhavam para m im , fofocando sobre aquele m enino de sem blante doente e olhos vidrados, encostado com seu cabelo m olhado contra a j anela.
O cobrador veio pelo corredor, m arcando os bilhetes. Era o m esm o hom em que eu, Ben e Griffin tínham os encontrado m orto, encolhido debaixo de um a das m esas do prim eiro vagão. O hom em que tinha m orrido de olhos abertos, escondendo-se de algo. Ele sorriu para m im . Minha m ão trem ia tanto que não consegui alcançar o bilhete dentro do bolso. Tive de m e levantar e m al tinha forças para sustentar m eu próprio peso.
O sorriso do cobrador deu lugar a um olhar de preocupação, talvez de irritação. Talvez ele estivesse pensando que eu estava drogado, ou algo assim .
Eu vi você morto.
E, quando m e levantei, aproveitei para olhar ao longo do corredor. Um a m ulher e um hom em estavam sentados no fundo do vagão. Ele usava um a cam isa azul listrada, bem passada, e levava um a garrafa de água sobre o assento, perto da cintura. Am bos sorriram para m im . Três crianças brincavam nos assentos e riam : duas garotas e um garoto, todos bem vestidos.
Tam bém os reconhecia.
Entreguei m eu bilhete ao cobrador sem tirar os olhos do nom e em seu uniform e, o m esm o que tinha visto em Marbury. Logo que m e devolveu o bilhete m arcado, desm oronei sobre o assento.
Que se foda este lugar.
Esperei por Conner na saída da alfândega. Tentei agir norm alm ente, m as ainda sentia todos olhando para m im . Prestava atenção aos calçados das pessoas que vinham pelas portas autom áticas. Reconheceria os tênis de Conner. Mas j á sabia que ele não reconheceria m eus olhos; ele notaria algum a coisa diferente neles. É claro que veria. Nos conhecíam os m uito bem e não éram os capazes de esconder coisas tão graves um do outro. Então, quando Conner passou pela porta, esperei do outro lado dos cordões azuis. Ele deixou a m ochila no chão, deu a volta e m e abraçou.
Não queria que ele encostasse em m im , m as m e forcei a abraçá-lo tam bém .
Parecia que não o via há anos.
Anos e m undos.
Afastei Conner com o braço e olhei em seus olhos. Eram claros e acinzentados, com o sem pre foram . Era apenas Conner. Nada daquela m erda de um olho preto e outro branco que com certeza tinha im aginado.
Jack Maluco.
Isto é real.
“Que isso, cara?! Vai m e dar um beij inho agora?”
“Senti sua falta, seu cuzão!” Forcei um sorriso.
“Mas foram só três dias.”
Pensei naqueles três dias. Conner ficou ali, esperando que eu dissesse algo.
“Você está diferente. Aconteceu algum a coisa?”, ele perguntou.
“Acho que não”, pigarreei. “Vam os pegar o trem , acho que você vai gostar daqui.”
“E a sua am iguinha im aginária?”
“Aquela que você viu na foto e que conversou com você no celular?”, respondi. “Falando nisso, você trouxe m eu carregador, né?”
Enquanto esperávam os na plataform a, Conner vasculhava sua m ochila para provar que não tinha esquecido.
“A Stella m e encheu todos os dias para eu não esquecer. Ela até com prou outro de reserva caso você perdesse m ais um .”
“Pelo visto, eu ando m eio desligado.”
Conner riu.
“Me em presta seu celular”, pedi.
Conner m e entregou o telefone. “Vai ligar para ela? Nickie?”
“Não, depois.” Vasculhei sua lista de contatos, encontrei o que procurava, apertei o botão e levei o celular ao ouvido. Dei as costas para Conner e m e afastei alguns passos. Ele entendeu. Sabia que eu não queria ser ouvido.
Voltei e devolvi o telefone para ele enquanto o trem chegava à estação. Outras pessoas tam bém aguardavam ali e m antinham um a distância respeitosa um a das outras.
Conner colocou a m ochila sobre um dos om bros e olhou para o celular. Peguei sua outra m ala.
“Por que você ligou para o Brian?”
“Ah, por nada. Ele queria que eu ligasse quando você chegasse.”
“Ah, tá. E o que ele disse?”
“Ficou puto, porque j á está tarde lá.”
“Você anda m esm o m uito desligado, Jack”, Conner riu.
Entram os no trem . Tentei m e concentrar, m as não consegui. Conner ficou farto daquilo e m e deu um soco no peito.
“Que porra é essa, Con?”
“Para com isso, Jack.”
Ele não sabia o quanto estava certo.
“Eu sei. Desculpa”, respondi, passando a m ão no local em que tinha m e acertado.
“Não podem os fazer nada, Jack. Então, para com isso, não precisa se sentir culpado.”
“Tem razão”, concordei. “Que bom que você chegou, Con. Está cansado?”
“Não, quero sair.”
“Trouxe as coisas pra gente correr?”
“Trouxe.”
Na viagem de volta a Londres, tentava m e convencer de que estava acabado, não iria a Marbury novam ente. O Jack e o Conner de Marbury que resolvessem suas questões por lá, porque eu j am ais voltaria.
Tentava m e convencer de que m e livraria daquelas lentes m alditas.
Tentava m e convencer.
“Vam os correr uns quilôm etros pra relaxar”, sugeri.
“Boa ideia. Depois, vam os tom ar um a cervej a?”
“Pode ser.”
“E aí? Encheu a cara enquanto eu não chegava?”
“A Nickie não bebe. Eu bebi um a vez. Cervej a.”
Então, m e lem brei daquele uísque que tinha bebido com Ben Miller – quando foi aquilo?
Chega, Jack.
Para que guardar aquelas lentes?
Só desej ava que Ben e Griffin ficassem bem sem m im .
“Não m e diga que você não andou aprontando, Jack.”
Não tinha m e lem brado de arrum ar o quarto.
“E não m e diga que não trouxe a Nickie aqui e traçou ela. Esse lugar aqui ‘Jack fez m uito sexo selvagem por todo canto’.”
Senti m inhas bochechas ficando verm elhas. Com ecei a am assar os bilhetes que tinha espalhado pelo quarto, chutando m inhas coisas para o canto para poder enfiar tudo na m ochila de novo.
“Não foi isso. Ela não é dessas, Con”, expliquei. “Acho que perdi a cabeça ontem .”
Quase pude sentir os om bros de Conner desabarem quando disse aquilo.
Mudei de assunto: “Dá um a olhada neste chuveiro esquisito”.
Conner foi até o banheiro. Ouvi ele m ij ar e enfiei m inhas coisas dentro da m ochila. Conectei m eu celular no carregador e no conversor de voltagem que tinha m e lem brado de levar. Cham adas perdidas e m ensagens. Não m e im portavam .
Os óculos – De algum a m aneira tinha chutado as lentes para debaixo da cam a. Me aj oelhei para pegá-los. O lacre que prendia m eu pé tam bém estava lá.
Rolando e... Tac. Tac. Tac.
Entrei em pânico. Enterrei os óculos bem no fundo da m ochila.
Rolando...
“Shhh...”, sussurrei, im plorando. “Agora não.”
Tac. Tac.
Conner saiu do banheiro.
“É m esm o, esse lugar é m eio estranho”, ele confirm ou. “Qual lado da cam a você quer?”
“Não sendo o seu, tá ótim o”, respondi.
“Nunca se sabe”, Conner sorriu.
Abri a j anela e apontei para o Regent’s Park. “É m uito bom correr ali. Já viu alguém j ogando críquete?”
Vestim os nossas roupas de corrida. Eu estava tenso, virando o rosto em todas as direções, ouvidos atentos, esperando pelos sinais de Seth. Mas ele não se m anifestou.
Respira fundo, Jack.
Acalme-se.
Isto é real.
“Antes de irm os, olha isso”, eu disse. Liguei a câm era e percorri as fotos – as que tinha tirado no prim eiro dia com Nickie, que conseguia m e lem brar, algum as com Nickie no parque, as de nós dois j untos, quando nos despedim os no m etrô.
“Eu e a Nickie”, entreguei a câm era a Conner. “Eu acho que ela é bem real! E gostosa.”
Conner ficou analisando a fotografia por algum tem po. Aproxim ava e afastava a im agem . Então, ele sorriu e m e devolveu a câm era. “E esse cara estranho atrás de vocês? Será que é um ex-nam orado cium ento?”
Não tinha notado. Na estação de m etrô, atrás da roleta, quase encoberto pela som bra, Henry Hewitt nos observava.
Ele ainda m e seguia.
Olhei para Conner e dei de om bros. “Não conheço.”
Mas não sei m entir. Conner j á com eçava a perceber algo estranho em m im .
Com o não notaria?
“Vem cá, Con, vam os tirar um a foto j untos.”
Passam os o braço um no om bro do outro e sorrim os. Com a j anela aberta ao fundo, seguram os a câm era a um braço de distância. Apertei o botão.
Tac.
Joguei a câm era na cam a e disse, “Vam os sair desse quarto”.
A corrida foi boa. Eu puxei o ritm o, e Conner reclam ou que estava cansado da viagem , m as não dei m uita bola. Param os para beber água num a fonte e depois nos alongam os à som bra perto do lago.
Com ecei a correr novam ente e Conner veio logo atrás.
“Está com pressa por quê?”
“Ah, desculpa. Estou com a cabeça cheia.”
“Ah”, Conner respondeu, com um tom de decepção.
“Não é isso. Sabe quando você fica pensando quando corre? Com o as coisas vêm na sua cabeça?”
“Não sei, cara”, disse Conner. “Quando eu penso enquanto corro, é sobre sexo.”
“Ah, tá.”
“Pelo visto, você nunca pensa nisso, né? Mas então, Einstein, o que é que você pensa tanto?”
Então, contei a ele.
“Sabe aquelas bonecas esquisitas que a Stella coleciona? Aquelas que você abre e, dentro delas, tem um m onte de outras?”
“Sei. Então você fica pensando em bonecas quando está correndo?”
Tive de rir. E pensei que não im portava a m aluquice que eu estivesse inventando na m inha cabeça, Conner Kirk, m eu m elhor am igo, sem pre conseguiria arrancar um sorriso de m im . E por isso eu o am ava. Aquilo, sim , era real.
“Eu fico pensando, e se o m undo tam bém for assim ? E se o que vem os for apenas a superfície, o lado de fora, m as várias coisas acontecessem além do que podem os ver? O tem po todo. Em um a cam ada abaixo. E não vem os, m esm o fazendo parte disso. Mesm o estando envolvidos. E se você pudesse ver outra cam ada, com o se m udasse de canal? Ia querer ver? Mesm o que a outra realidade fosse um inferno? Ou pior?”
Conner parou de correr. Não esperava aquilo. Dei alguns passo a frente dele, então tive de recuar para onde ele estava.
“Virou m aconheiro agora, Jack?”
“Não, cara. Deixa de ser babaca.”
“Porque parece que você tá queim ando até a últim a ponta, cara!”
“Só estava pensando nisso”, sorri.
“Recom endo que quando você com eçar a pensar nessas m erdas, fale com igo para eu te convencer a pensar só em sexo”, Conner disse. “Tipo, com o um cara norm al. Sério! Alguém tem que dar um j eito em você!
“Vou m e lem brar disso”, respondi e sorri para m eu am igo. “Sabe, Conner, você é a única pessoa com quem eu posso conversar sobre essas m erdas.”
Conner deu de om bros e m e deu um tapinha nas costas. Jack, estou com sede. Você não acha que j á está bom por hoj e?”
“Tudo bem , vam os voltar.”
Conner balançou a cabeça e riu enquanto voltávam os em direção à Mary lebone Road, dizendo, “Sério, cara. Sério! Acho que eu deveria te contar tim tim por tim tim o pornô que tá rolando na m inha cabeça neste exato m om ento!
“Eu passo. Talvez da próxim a, Con.”