A Lente de Marbury
Capítulo 55
CINQ UENTA E CINCO
Aquele barulho.
Mastigando.
Eu tinha um nó no estôm ago. Olhava para Conner, im aginando com o seria Marbury pelos olhos do m eu am igo.
“Aqui”, Ben entregou um a garrafa a Griffin. O m enino derram ou a água sobre a cabeça e lavou o sangue do rosto e do peito.
“Agora se veste.” Ben segurava as calças de Griffin em um a m ão e o cinto com as arm as dele na outra.
Eu estava aj oelhado ao lado de Conner, que respirava lentam ente, engasgado com o próprio sangue.
O necrófago que eu tinha visto estava escavando a cabeça de Freddie pelo buraco da m inha bala. Outro se enfiava por um círculo perfeito que acabara de rasgar logo abaixo do esterno. Mais um punhado deles com eçava a abrir cam inho pelo corpo.
Mastigando.
Nenhum deles tinha se aproxim ado de Conner ainda.
Cheguei bem perto de Conner e olhei em seus olhos.
“Ei, Jack”, ele sussurrou. “Dói dem ais.”
“Com o assim , Jack? Que porra é essa?”, disse Ben.
Ben com eçou a vir em m inha direção. Estendi o braço para que ele ficasse.
“Não, Ben. Eu explico depois.”
“Jack, m ata o filho da puta.”– Griffin disse, confuso. “Dá logo um tiro na cabeça dele.”
Olhei para Griffin. “Não posso.”
Conner estendeu o braço, tentou m e alcançar.
Segurei sua m ão.
Jack não chora.
Seth assistia a tudo de longe, perto das árvores que cercavam a clareira.
“Anda, Jack”, Ben insistiu. “Ou m ata o desgraçado ou vam os em bora. Precisam os voltar para buscar nossas coisas. Eu voto para que a gente volte.”
Ben levantou a m ão.
Griffin tam bém levantou a sua. “Assim com o eu.”
Me levantei. “Então vão em frente e m e deixem aqui.”
“Não podem os, Jack. Você concordou em fazer tudo o que a gente votasse. Todos concordam os. Você concordou.” Ben argum entou. “Vai se foder se você vai desrespeitar isso agora.”
Vai se foder, Jack.
Olhei para Seth. Sua im agem m al form ava um contorno.
“Seth, você pode m e aj udar?”, pedi. “Só m ais um a vez. Faz aquilo de novo. Você consegue?”
Seth desapareceu, m as logo reapareceu entre m im e os m eninos.
Dois dos necrófagos abandonaram o corpo de Freddie e com eçaram a cercá-lo. Seth desapareceu novam ente e, em seguida, vi que estava de pé ao lado de Conner.
E então Seth falou. Foi a única vez que escutei sua voz claram ente e não em sussurros. De certa form a, podia ouvi-lo em sua história, m as desta vez era realm ente audível. Real. A voz clara e confiante de um garoto.
“Acredito que não te verei novam ente, Jack.” Seth esvanecia enquanto vinha em m inha direção. Sentia sua presença. Necrófagos form avam um círculo em torno de nós. “Você am a aquela m enina, não am a?”
“Am o.”
“É, dá pra ver.” Vi seus lábios se abrindo num sorriso. “E quanto a este aqui, Jack. Você o am a tam bém , eu suspeito.”
Olhei para Conner.
“Você sabe quem eu sou, não é, Seth?”, perguntei.
“Desde o dia em que nasceu. Bem , talvez nunca m ais vej a você novam ente, Jack. Então, obrigado por contar m inha história.”
Seth se transform ou naquela névoa cinzenta e entrou no corpo de Conner Kirk.
Os insetos pararam , voltaram para o corpo de Freddie, com as j untas estalando.
Conner ergueu o corpo de um a só vez, convulso, com o se um a lança o perfurasse. Então se deitou de lado. Encolhido e ofegante, ele se contorceu de dor com o um anim al abatido, apertando os olhos e cruzando os braços sobre a ferida que Freddie abrira em seu abdom e.
“Jack.” Ben estava im paciente.
Ainda sem a cam isa, Griffin vestiu as calças com as arm as dependuradas e cruzou os braços.
Segurei o j oelho de Conner e o deitei de costas. Ele gem ia, com os olhos ainda apertados. Segurando seus punhos, afastei seus braços da ferida.
“Deixa eu ver isso”, tentei acalm á-lo.
O sangue tinha estancado. Os buracos que os chifres de Freddie tinham feito eram agora apenas duas fendas, e a m arca acim a da virilha, que antes ardia com o fogo, agora estava escura, nada m ais que um a cicatriz, ou um a m arca de nascim ento.
O corpo de Conner trem ia todo.
“Con?”
Ben se aproxim ou com um a das arm as na m ão, apontada para o chão. De repente, ergueu o braço, segurando a pistola na direção da cabeça de Conner.
Saltei na direção do m enino e agarrei sua cintura, acertando o abdom e com o om bro e deixando-o sem ar. Por reflexo, Ben disparou para o nada: o estam pido foi tão alto que, por um m om ento, pensei ter sido atingido.
Caím os no chão, e estiquei o braço dele e prendi seu punho com m inha m ão. Ben tentava respirar, m as seus pulm ões não respondiam . Sentado em seu peito, levantei o punho fechado.
Griffin se lançou em m inha direção, interceptando m eu golpe com as costas, e rolou com igo pelo chão.
O m enino logo se levantou, com o um m acaco, pronto para saltar novam ente.
“Para com isso, porra!” Griffin gritou, enfurecido.
Ben se sentou e pegou a arm a que tinha deixado cair durante a luta.
Fiquei entre os garotos e Conner, e j oguei o rifle para trás.
“Vai em frente, Ben!”, abri os braços. “Atira logo em m im tam bém ! Eu não ligo m ais pra essa m erda toda!”
As m ãos dele trem iam .
“Para com isso!” Griffin gritou.
Lim pando a terra da roupa, Ben deixou a arm a no chão e se levantou cuidadosam ente. Não tirava os olhos de m im .
Quando m e virei, Conner j á estava sentado. Tinha a cabeça entre os j oelhos dobrados e os braços em volta das pernas. Respirava fundo.
Olhou para m im . Não tinha m ais aqueles olhos opacos. Era ele. Era Conner Kirk sentando ali no chão, bem à nossa frente.
“Que porra é essa, Jack?”, Conner perguntou.
Olhei para Ben e Griffin atrás de m im . Estavam perplexos. Não entendiam o que tinha acontecido.
“É só um cara”, disse Griffin. “Com o a gente.”
“Tudo bem , Con?”
Conner olhou para baixo e se assustou ao ver o escalpo e os dedos decepados em torno de sua cintura.
“Porra!” Arrebentou o cordão que os prendia e j ogou o artefato m acabro no chão. Os insetos logo se aproxim aram para m astigá-lo. Em seguida, arrebentou o colar com um puxão, espalhando dentes para todos os lados. Passava as m ãos pelo corpo, com o se estivesse coberto de form igas. Quando viu o corpo de Freddie bem ao seu lado, rastej ou para perto das árvores, nu, e ficou abraçado aos j oelhos.
“Que porra é essa?” Apontava os olhos arregalados para cada um de nós, esperando um a resposta.
Conner não se lem brava.
“Está tudo bem , Con. Vai ficar tudo bem .”
Fui em sua direção, m as Conner rastej ou para trás, com o se tivesse m edo de m im .
“Está tudo bem agora.” Estendi a m ão para ele.
Conner parou, trem endo e sem ar. Eu m e aj oelhei ao seu lado.
Então vi aquela névoa novam ente, com o o vapor da respiração em um a m anhã fria, girando em torno de Conner e ganhando form a: o contorno sutil de Seth. Mesm o que agora estivesse quase im perceptível, todos notaram sua presença.
Atraídos para o centro da clareira, os necrófagos j á saíam aos m ontes pela vegetação, e se am ontoavam sobre o corpo de Freddie Horvath e em volta dos adornos que Conner tinha descartado. O som de seus cliques m ecânicos, o zum bido de suas asas, m astigando, aum entava a cada segundo.
Tam bém cercavam Seth, agarrando os contornos de seus pés descalços. De algum a form a, conseguiam prender seu espectro ali. E, então, um ruído. Com eçou baixo e distante, m as se aproxim ou até ficar terrivelm ente alto, com o m etal sendo destroçado. Ouvi um urro de dor, e os insetos negros se agarraram a Seth. Percebi que aquele gem ido horrível vinha de dentro dele.
Seth pulsava em clarões, com o da vez que o vira na estação do m etrô. Todos víam os as m esm as im agens através dele, um a proj eção trêm ula de cenas desfocadas: Seth, ainda um m enino franzino, trem endo dentro da água gelada da tina de aço enquanto Hannah ria; Freddie Horvath passando com sua Mercedes por trás das quadras de basquete do Steckel Park, em Glenbrook; eu e Conner brigando na água fria de Blackpool; eu de cuecas, olhando para o abism o lum inoso que se abria na cam a do hotel; os m ortos do vagão; dois corpos pendurados a um a árvore, um ao lado do outro e, finalm ente, o cavalinho de m adeira rolando e... tac, tac, tac. Vi tam bém outros lugares que nunca tinha visto antes: um a cidade construída apenas sobre pontes de pedra; um a floresta densa com revoadas de pássaros tão carregadas que pareciam um furacão, sentia cada batida de suas asas aos m ilhões; enorm es m ontanhas cobertas de neve e tem pestades que revolviam m ares infinitos. Infinitos.
Então ouvi um disparo.
Ben e Griffin atiravam contra os necrófagos que atacavam Seth. As criaturas negras giravam , com suas entranhas laranj a e am arelas voando pelo ar enquanto eram estraçalhadas pela chuva de balas. Girei o rifle para frente e com ecei a atirar tam bém . As im agens de Seth foram desaparecendo até sum irem com pletam ente.
Então, Seth se foi.
Ficam os todos parados no m esm o lugar. Escutava apenas o zum bido no ouvido que se seguiu à raj ada de tiros.
Olhei para Ben, Griffin e depois para Conner, que estava de pé, m eio escondido atrás de um pinheiro. Quando o barulho parou, com ecei a ouvir m ais necrófagos m astigando.
“Spot!” Griffin gritou. O cachorrinho dele tinha nos seguido. Vinha todo encolhido, com o se andasse sobre o gelo. Com eçou a balançar o rabo quando viu Griffin, m as, logo que o m enino se aproxim ou para acariciá-lo, enfiou o rabo entre as pernas. Sentia o cheiro de sangue.
“Ah, coitadinho”, – disse Griffin. “Agora j á está tudo bem .”
Andei até onde tinha visto Seth pela últim a vez. Vi algum a coisa se m exendo no chão. Tinha um brilho inconstante, que se retorcia com o o reflexo da lua em um lago soprado pelo vento.
“O que tem ali?”, perguntou Ben.
“Não sei.”
Fui m e aproxim ando, sem tirar os olhos do que Seth havia deixado.
“Caralho!” Estiquei o m ão cegam ente pelo chão e fechei os dedos. Enfiei aquilo no bolso.
“O que era?”, perguntou Griffin. O cãozinho cheirava seus pés descalços.
“Nada”, respondi. “Nada im portante.” Suspirei e olhei para Conner. Pela sua expressão, sabia que tinha visto. Ele sabia que eu estava m entindo.
Era fácil m e convencer de que estava poupando os garotos de algo que eles não queriam .
Olhei para o corpo de Freddie, que se m exia com o um fantoche enquanto os necrófagos rastej avam por baixo de sua pele, m astigando.
“Vam os em bora.”
“Ele vem com a gente?”, perguntou Ben. Cauteloso, ele olhava para Conner, que ainda estava atrás da árvore.
“Eu voto sim .” Levantei a m ão.
“Eu tam bém .” Griffin levantou a dele.
“Ele ia te m atar, Griff”, protestou Ben.
“Ele não”, respondeu Griffin. “Olha só, ele m udou. É só um m enino com o a gente. E se o Jack falou que está tudo bem , isso basta!”
“Então tá. Vam os em bora”, concordou Ben.