A Lente de Marbury
Capítulo 12
DOZE
Stella provavelm ente achou que a viagem era o m otivo de eu estar tão fechado nos dias que se seguiram . Na quarta-feira, noite anterior à m inha partida, os j ornais com eçaram a noticiar sobre o m édico que tinha sido assassinado e abandonado no m eio da rua, e com o a busca em sua casa o ligara a um garoto de 14 anos, desaparecido desde o verão passado. Suspeitavam da existência de outros, m as disso eu j á sabia.
Conner tinha até um pouco de orgulho daquilo. Mesm o que ele tivesse tanto m edo quanto eu de serm os descobertos, ele falava sobre com o éram os heróis por term os encerrado a carreira de um escroto. Me assustava pensar naquilo, porque m e sentia com o um anim al sendo caçado, então pedi a ele para não tocar m ais no assunto.
Não dorm i nas três noites seguintes ao que fizem os com Freddie Horvath; devia estar parecendo um m orto-vivo quando Conner e m eus avós m e levaram até o aeroporto de São Francisco. Fiquei m uito dividido ao longo de todo o traj eto: não queria ir sozinho, m as tam bém não queria ficar em nenhum lugar perto de onde eu e Conner acidentalm ente m atam os alguém . Não im portava se a vítim a tam bém era um assassino.
Stella e Wy nn pediram para esperar pelo avião com igo.
“Vam os tom ar um café”, Stella propôs.
“Quero tentar dorm ir no avião.” Tentava m antê-los bem longe de m im , com o se estivessem m e segurando à beira de um abism o no qual eu quisesse que m e deixassem cair.
“Café é um a boa ideia”, disse Wy nn.
Olhei o celular. Faltavam duas horas para o voo.
“Preciso ir ao banheiro prim eiro”, eu disse. “Já volto.”
“Vou com você”, sugeriu Conner.
Suspirei. “Tanto faz.”
Deixei m inha m ala de m ão com Stella e Conner e eu abrim os cam inho entre as centenas de rostos anônim os que iam e vinham . Senti cada um deles nos olhando, com o se soubessem o que tínham os feito.
“Estou passando m al.” Apoiado na pia, eu j oguei água fria no rosto.
Conner m e observava pelo espelho, logo atrás de m im .
“Vai ficar tudo bem , Jack. Quanto m ais a gente deixar o tem po passar e nos afastarm os daquela segunda...” A voz dele sum iu. “Vam os ficar bem . Eu sei disso.”
Dei de om bros e peguei algum as toalhas de papel.
Eu não queria olhar para o m eu am igo, e ele sabia. Conner m e segurou pelo om bro e deu um a chacoalhada.
“Olha só. Vam os tentar nos divertir o m áxim o que der quando eu chegar lá. Vam os tentar, cara. Só alguns dias e eu vou estar lá com você!”
“Não sei se vou dar conta, Con. Não consigo nem dorm ir.”
Não tínham os notado, m as um hom em carregando no braço um a j aqueta cinza dobrada tinha saído da cabine e ficou ali, parado, nos observando em silêncio. Conner olhou para m im , depois para o hom em e sorriu para m im dizendo, “A gente é gay m esm o, e daí? Algum problem a, seu escroto?”.
O hom em desviou o olhar para o chão, envergonhado, e tratou de sair.
Em purrei Conner, de leve.
“Seu sem noção!”
Conner riu. “Vai dizer que não achou engraçado?! Você viu com o aquele cara tava olhando pra gente?”
Tentei sorrir de volta.
Am assei as toalhas m olhadas e as j oguei no cesto. Saí e fui ao encontro de Wy nn e Stella.
Nunca andei sobre um lago congelado. Só consigo im aginar com o seria – enfrentar a possibilidade de a qualquer m om ento afundar os pés entre pedaços afiados de gelo e ficar subm erso em águas escuras, lutando contra o frio, tentando enxergar, contorcendo-se para achar o cam inho de volta à superfície e tem endo que tudo aquilo aconteça novam ente nos próxim os passos.
Era exatam ente assim que m e sentia enquanto m e afastava de Conner e m eus avós para passar pelo prim eiro portão a cam inho do em barque.
Não tinha volta.
Até a tripulação do avião, que m e cum prim entou quando entrei segurando a passagem na m ão trêm ula, parecia saber quem eu era. Com o se cochichassem uns para os outros enquanto eu passava pelo corredor de em barque, “Olha, o m enino que m atou o doutor Horvath”.
Senti que estava pálido.
Coloquei a m ala debaixo do assento e um travesseiro entre m eu om bro e a j anela de plástico. Olhei para o céu da Califórnia do lado de fora, preso entre dois m undos, no m eio de lugar-nenhum , naquele avião que m e levava para outro dia em outro lugar.
Então, o hom em que há pouco tem po olhava para m im e para Conner no banheiro se aproxim ou e m e cum prim entou. Enfiou sua j aqueta cinza no com partim ento de bagagens acim a do assento e sentou-se bem ao m eu lado.
Então é assim que vai ser daqui em diante, não é?
Tentei m e convencer de que era absurdo pensar que todos sabiam e que estavam m e seguindo e observando. Lutava para respirar, eu suava e sentia o estôm ago em brulhar novam ente.
“Viaj ando sozinho?”, perguntou.
Encarei o hom em , na esperança de que m e deixasse em paz. Ele cheirava a sabão de banheiro público e tinha a m esm a aparência de todos os executivos de m eia-idade que você poderia ver em um avião.
“Vai para Londres sozinho?”, ele insistiu.
“Vou estudar. Em Kent.” Minha voz soava distante, com o se outra pessoa respondesse por m im .
“Ah, é?”, ele disse. “Seu am igo não vem j unto?”
“Na próxim a segunda.”
Vai embora.
Olhei em torno, na esperança de encontrar um assento vago na classe executiva. Todos ocupados. Fingi que estava tentando dorm ir.
“Bem , vocês vão se divertir bastante.”
Algo sobre com o ele disse aquilo m e deu m uita raiva. Sabia o que ele queria dizer.
Ele continuou, “Tenho um escritório em Londres. Se é a sua prim eira vez lá, posso m ostrar todos os lugares legais no fim de sem ana.” Ele estendeu a m ão. “Meu nom e é Gary.”
Não apertei a m ão dele.
Ele se aproxim ou, quase sussurrando, “Conheço as m elhores boates, se é que você m e entende.”
Sussurrei de volta, “Me deixa quieto, porra.” Pluguei o fone de ouvido no celular, dei as costas para aquele Gary e fechei os olhos.
Teria um a longa viagem pela frente.
Acordei quatro horas depois quando a aerom oça m e perguntou o que queria para j antar. Gary estava com a m ão debaixo do m eu cobertor, afagando m inha perna. Estava tentando desabotoar m inhas calças.
Pensei, Por que isso está acontecendo comigo? Não sabia o que a aerom oça tinha dito, então respondi apenas sim , abaixei a bandej a, olhei bem nos olhos de Gary e disse em alto e bom som para todos ouvirem : “Se você não tirar agora a m ão do m eu pinto eu vou te m atar, seu cretino”.
Em um m ovim ento rápido, Gary puxou a m ão e olhou para frente, fingindo não saber o que estava acontecendo. A aerom oça ficou preocupada, talvez um pouco assustada. Ela se afastou do carrinho sem servir com ida a nenhum de nós dois, seguiu para a frente da cabine e deu um a olhada rápida através da cortina que nos separava da prim eira classe.
Gary pigarreava e dedilhava nervosam ente sua bandej a.
Se pudesse, eu teria pulado da j anela. Tentei pensar em Conner, que nos encontraríam os em alguns dias, que nos divertiríam os novam ente; m as acabava por m e ver de novo na casa de Freddie, preso à cam a –, e depois via o corpo dele contorcido no m eio da rua.
Pânico.
Senti que estava prestes a perder o controle e fazer algo absurdo. Lem bro-m e de m e encolher no assento, pensando por que tinha entrado naquela droga de avião, convencido de que não iria suportar as próxim as duas sem anas. Gary em purrou o carrinho da aerom oça e foi em direção ao banheiro. Vi a luz de “ocupado” se acender no painel acim a de m im .
A aerom oça veio. Seu olhar era suave e focado em m im .
“Querido, tem os um lugar vazio na prim eira classe”, ela disse. “Vam os pegar suas coisas e você vem com igo. Tudo bem para você?”
Concordei com a cabeça.
“Tudo bem .”
Ao longo de toda a viagem , senti que ainda estava sob o efeito das drogas que Freddie tinha m e dado. Não assisti a nenhum film e; cochilei algum as vezes durante o resto da noite e no com eço da m anhã.
Não sonhei.
Nunca m ais vi Gary. A tripulação deixou que eu saísse do avião antes dos outros passageiros, e eu m e apressei pelos corredores interm ináveis de Heathrow até desaparecer na m ultidão de pessoas que esperavam na fila de im igração no enorm e salão de desem barque.
Após pegar a m ochila, tive de ir até a alfândega. Um a série de hom ens uniform izados m e olhava, talvez procurando um sinal claro de que havia algo errado com aquele garoto pálido que tinha aparecido ali sozinho. E com o não encontrariam ? Eu estava totalm ente perdido, nada fazia sentido. Fixei o olhar na placa am arela com um a seta apontando para o em barque de trens e m e concentrei em continuar andando, com m edo de olhar pra trás, com m edo de parar.
Meu Deus, eu estava passando m uito m al.
Foi naquele m om ento que com ecei a perder o controle.
Agora eu sei.