A Lente de Marbury
Capítulo 48
Q UARENTA E OITO
“Perdi a m erda dos óculos.”
Eu disse, logo que m e sentei. Henry tinha um copo de cervej a cheio na m ão e outro m e esperava sobre a m esa. Ele pulou com o se tivesse levado um soco ao m e ouvir dizer isso.
Ele deu um gole. “Perdeu com o?”
“Meu am igo, o Conner. Ele j ogou no m ar.” Em purrei a cervej a cheia para ele. “Não quero beber. Estou passando m al. Estou m e sentindo m al dem ais.”
Henry balançou a cabeça.
“Seu am igo não usou os óculos então?”
“Ele usou. Mas acho que ele não entendeu o que estava acontecendo. Não entendeu nada sobre, você sabe, nós. E eles. Pelo m enos não até hoj e de m anhã, quando ele se livrou dos óculos.
“Mas ele os j ogou fora? Você viu?”
“Vi.”
“Tem certeza?”
Eu não disse nada. Henry deu de om bros. “Nunca pensei que alguém fosse capaz de abandonar os óculos depois de estar em Marbury. Ele deve ser m uito forte.”
“Com o faço para voltar agora?”, perguntei.
“Não sei. Acho que não dá m ais.”
Olhei para m eus braços esticados sobre a m esa. Trem iam tanto que parecia que eu estava sendo eletrocutado novam ente.
Vai se foder, Jack.
“É com o se tivesse deixado um a parte de m im lá, com o se tivesse sido arrancado de dentro de m im . Estou com m edo porque só piora. O buraco. Acho que vou m orrer.”
“É assim m esm o.“
“Preciso voltar.”
“Não posso te aj udar, Jack. Não sei o que fazer.”
“Mas por que você fez isso com igo?” Bati na m esa. Era patético. “Você era m eu m elhor am igo em Marbury.”
Freddie Horvath deixou minha cabeça assim e preciso de ajuda.
“Bebe.” Henry em purrou a cervej a de volta para m im . “Você vai precisar.”
Levantei o copo e bebi. O líquido descia gelado e rasgava m eu estôm ago com o cacos de vidro.
Que brincadeira legal.
Henry via a dor que eu sentia. “Me desculpa, Jack.”
“Todo m undo só sabe pedir desculpas! É só isso que vocês fazem ! Vão se foder!”
“Agora você vai m e falar sobre Marbury ? Vai m e contar o que aconteceu lá?”
Contei tudo o que tinha visto desde a prim eira vez que fui para Marbury : os m eninos, com o Griffin tinha m e salvado, Seth, o trem , as pessoas crucificadas, o m assacre na m ontanha, o cânion e o rio. Henry ouviu tudo. Bebeu três copos de cervej a em silêncio enquanto eu contava a história. Já eu não conseguia beber m ais nada depois do prim eiro gole. Continuava m e sentindo cada vez m ais fraco. Quanto m ais falava, m ais queria voltar para lá.
Por várias vezes, tentei entender, especificar, a coisa ou a com binação de coisas que m e atraía com tanta força de volta para aquele inferno. Henry entendia, acho. Mas ele não precisava m ais se preocupar, porque não podia m ais voltar. E quanto m ais falava com ele, m aior m inha certeza de que eu estava m orrendo do lado de cá.
Estava m orrendo.
Não contei sobre Freddie Horvath em Marbury, ou sobre Nickie não enxergar nada através das lentes. Henry não precisava saber toda a patética história de Jack. Sentia-m e culpado, traído até, pois ele supostam ente era o m eu m elhor am igo em Marbury, m as aqui, deste lado das lentes, eu não ia m uito com a cara dele.
Por que tinha m e encontrado com Henry, afinal? Sabia que ele não poderia m e aj udar. Mas j á não tinha esperança, precisava de alguém que m e entendesse.
Henry deve ter visto que eu ficava cada vez m ais fraco. Talvez estivesse apenas m uito cansado, m as m inha cabeça pendia para frente e m eus olhos se fechavam . Tudo doía. Ele tocou m inha m ão. “Você viu o m esm o fantasm a de Marbury do lado de cá? Com você?”
“Só um a vez. Ele m e disse que estava com m edo. Mas esteve aqui várias vezes. Geralm ente, ele aparece quando estou indo para lá. E um a vez até fez as coisas voarem pelo quarto.”
Estávam os apenas eu e Henry no Prince of Wales. O garçom com eçava a guardar as coisas para que saíssem os.
“Sabe”, disse Henry, “há sem pre um m otivo por trás de tudo. Conheço bem aquele lugar para entender. Toda vez que um fantasm a te aj uda, ele fica m ais fraco, um pouco m ais difícil de ver. Já notou? Mas há um m otivo para isso.”
Eu tinha notado aquilo. Talvez por isso Seth não tivesse aparecido novam ente, pensei.
“Nada faz sentido nessa m erda toda. Nem lá, nem aqui”, respondi.
“Jack, eu realm ente acredito que faça sentido. Mas quem sou eu para saber?” Henry fez um gesto para o garçom . “Só m ais um a, por favor?”
O garçom acenou com a cabeça e com eçou a encher m ais um copo.
“Você sabe o bastante pra foder m inha vida.”
“Não foi de propósito. Não podia fazer m ais nada.” Henry suspirou. “Não tive escolha, você era m inha últim a chance. Você sabe. Éram os apenas algum as pessoas naquele m undo enorm e contra centenas daquelas criaturas. Você não era o único com quem m e im portava e em quem confiava, m as foi sim plesm ente o único que consegui encontrar aqui. Quando fui capturado no assentam ento, j á tínham os atravessado todo o deserto. Estávam os tentando encontrar m ais pessoas, qualquer pessoa. Mas, para onde quer que fôssem os, encontrávam os apenas m ais dem ônios nos perseguindo. Sabia o que eles fariam com igo quando fui pego. Você não im agina o quanto te ver no aeroporto m e deu esperança de novo.”
“Esperança de quê?”
“Equilíbrio, talvez. Não sei. As coisas sem pre entram em equilíbrio, não é? Marbury está em desequilíbrio. Tem os que salvar aquele lugar. E aqueles m eninos. Você pode levar certas coisas daqui para lá. Você pode fazer a diferença naquele lugar. Eu acredito em você. Tem os que salvar o que ainda é bom .”
“Senão o quê?”
“Senão tudo com eça a pender para um lado, até cair.”
“Sabe no que acredito? Que você só fala m erda.”
Henry olhou para m im , ainda sem se alterar. “Para ser sincero, queria que você estivesse certo, m as j á vivi m uito tem po naquele lugar e sei o que falo. Você vai ver.”
“Apoiei os cotovelos na m esa e afundei o rosto nas m ãos. “Eu nunca m e senti tão m al na vida. Você acha que vou acabar m orrendo sem os óculos?”
“Cuidado com o abism o”, ele disse.
“Quê?”, estava tonto, não entendi.
“Se conseguir voltar, diga isso aos m eninos. Cuidado com o abism o.”
“Por quê?”
“Porque disse a eles que você diria isso..”
O abismo, pensei. O abism o que separava o aqui e o agora de Marbury estava desaparecendo. Tinha caído nele e estava preso entre os dois m undos.
Senti um a pontada por dentro. “Quando você encontrou aqueles óculos?”
Henry sorriu. “Tinha a sua idade. Dez anos atrás, quando era apenas um m enino. As coisas eram m uito diferentes naquela época. Marbury era apenas outro lugar, sim ples e agradável.”
Ele se aproxim ou, buscando m eus olhos. “Eu m atei um hom em , Jack.”
“Com o assim ?” Mordi o lábio. Talvez ele soubesse. Talvez Henry fosse m esm o um policial louco, com o Conner disse.
“Ainda era m enino. Eu era estúpido. Foi um acidente. Mesm o assim , não consigo esquecer. Nunca contei para ninguém . Nunca ninguém descobriu.”
“O que aconteceu?”
Henry deu de om bros. “Não interessa.”
“Me interessa”, insisti.
“Foi que... apenas brigam os. Nem o conhecia até aquela noite.”
“O que você sabe sobre m im ?”, perguntei.
Henry levantou os om bros e balançou a cabeça.
“Aquilo m e corroía”, Henry continuou. “Já tinha passado um a sem ana. Chovia, eu m e lem bro. Estava atrasado e tinha perdido o ônibus da escola. Enquanto esperava, um a m ulher veio com aqueles óculos no rosto. Fiquei m aravilhado com eles. Ela sorriu e tirou os óculos, e m e disse: ‘Você é o Henry Hewitt. Te conheço de lá’. Eu não fazia ideia do que ela estava falando, é claro, m as, a m ulher m e entregou os óculos e eu não conseguia tirar os olhos das lentes. Quando olhei de volta, a m ulher sim plesm ente tinha ido em bora. Sim ples assim . No princípio, ir e voltar era m uito fácil. Mas veio a guerra e a doença e tudo desm oronou terrivelm ente em Marbury. O que eu sei sobre você? Conheço você desde que era criança. Éram os alguns dos poucos sobreviventes. Conheci seu pai e sua m ãe quando ainda eram vivos.”
“Fodam -se eles.”
Henry deu de om bros. “Você viu com o as pessoas podem ser m uito diferentes do outro lado. Mas você não é, eu acho. Por isso, deixei os óculos com você antes que eu não pudesse m ais voltar.”
“Mesm o se o que você diz sej a verdade, agora não adianta m ais”, argum entei. “Não posso fazer nada. Provavelm ente Ben e Griffin j á estão m ortos. E eu tam bém .”
“Se você estivesse, não estaria passando m al agora.”
“Você tam bém passou m al?”
Henry term inou a cervej a. “Sem pre que voltava de lá. Menos da últim a vez.”
Escuridão total.
Conner dorm ia quando entrei no quarto.
Doía tanto que eu m al conseguia ficar de pé, não conseguia respirar.
Tirei as roupas.
Sob a luz verm elha que vinha do relógio do criado-m udo, vi um papel sobre m eu travesseiro.
Estava dobrado e do lado de fora estava escrito “Jack”.
Não conseguia ler. Em purrei a carta para debaixo do travesseiro e m e deitei, encolhido.
Sabia que estava m orrendo.
Talvez não fosse real. Talvez fossem apenas as m erdas que Freddie Horvath inj etou nas m inhas veias.
Freddie Horvath me deixou assim.
Jack não chora.
Mas foda-se, de qualquer forma, Jack.
Você merece.
Ainda segurava a carta de Conner, com o se ela m e ancorasse ali, deixando a dor m ais tolerável. Eu tinha estragado tudo. Sabia. Tudo era culpa do Jack. Tudo – desde quando saí da festa de Conner até acabar preso na casa de Freddie Horvath. E, naquele m om ento, m e sentia preso novam ente – m etade neste m undo e m etade no outro. Tinha caído no abism o. Queria que Conner estivesse bem , ele não sabia o que estava fazendo.
Meu tórax se contraía em espasm os, m as eu não choro.
Rolando...
Tinha certeza de que estava ouvindo. Bem baixinho.
Rolando...
Daquela vez, por m ais tem po. Mas de onde vinha?
Tac. Tac. Tac.
Conner se m exeu.
Tac.
Debaixo da cam a.
Tac.
Outro barulho. Parecia um a m oeda girando até parar.
Tac.
Contraí todos os m úsculos do corpo. Tinha câim bras. Consegui ficar de j oelhos ao lado da cam a e m e abaixar. Meu suor m olhava tudo. Cheiro de m ar.
Quando olhei debaixo da cam a, vi um a luz clara fam iliar, ilum inando o colchão por baixo, subindo por um buraco no chão. Um a única lente.
Parecia o olho de Deus.
Era a m esm a lente que se soltara dos óculos na praia de Blackpool.
Perdi o ar. E m e perguntava se Jack não estava tendo alucinações.
Arrastei a m ão encharcada pelo chão até sentir a curva gelada do vidro.
“Seth.”
A lente de Marbury.
Meus dedos cobriram a lente, abafando a luz e escondendo as form as que dançavam naquela j anelinha.
Pense, Jack.
Pego um a m eia do chão ao lado da cam a.
Não posso deixar que Conner encontre a lente novam ente.
Conner estica as pernas e se vira de lado.
Não acorde, Con.
Vou em silêncio até o banheiro e sussurro, “Obrigado, Seth”.
“Seth.”
“Seth, m e aj uda.”