A Lente de Marbury
Capítulo 21
VINTE E UM
Tentei encontrar um a estação de m etrô, m as a m ais próxim a estava fechada. Com ecei a andar pelas ruas, sem direção. Percebi, então, que não fazia m ais ideia de onde estava. Decidi voltar para a estátua onde estávam os m ais cedo, ou pelo m enos acreditava estar indo para lá, na esperança de encontrar um a estação aberta, ou talvez um táxi.
Mas não m e im portava. Me sentia finalm ente feliz. Era a prim eira vez em que sentia algum alívio.
Ainda que não fosse durar.
A rua se alongava à m inha frente, escura e estreita. As casas, esprem idas um as nas outras, se elevavam retas e sisudas por trás de cercas de ferro e árvores esm aecidas. Não via ninguém . Talvez tivesse virado a esquina errada.
Ouvi um barulho. Baixo, com o um a pequena bola de m adeira rolando sobre um piso de tacos.
Com ecei a correr, na esperança de que os sons de m inha respiração desesperada e das pisadas cada vez m ais duras abafassem a pergunta insistente: por que isso tudo está acontecendo comigo? Continuei seguindo na direção das luzes que via e finalm ente cheguei a um cruzam ento de ruas m ovim entadas. Um a escada levava ao subsolo, o m etrô, pessoas, barulho.
Você ainda não conseguiu escapar de nada, Jack.
Ao longo de todo o cam inho de volta ao hotel, fiquei com a m ão dentro do bolso de trás, sobre a m eia que em brulhava os óculos roxos. Pensei em deixá-los no vagão, j ogá-los no rio, em m il form as de m e livrar deles, m as era tarde dem ais.
Precisava deles.
Precisava deles para ter certeza de que não estava ficando louco. Ou talvez para m e lem brar de que o que eu tinha visto ficava do outro lado das lentes, porque de fato estava perdendo a noção da realidade.
Pedi ao recepcionista um pedaço de fita adesiva e ele olhou para m im com o se estivesse im aginando que tipo de drogas precisavam de fitas adesivas. Ainda assim , m e entregou um rolo. Prom eti devolver pela m anhã.
Dentro do quarto, fechei a j anela e as cortinas. Descalcei os tênis e m e sentei à escrivaninha. Deixei os óculos dentro da m eia sobre a cam a. Peguei, então, o bloco de notas do hotel e com ecei a escrever bilhetes para m im m esm o.
Jack; Não saia do quarto.
Jack; Nickie vai ligar às 3 da tarde.
Jack Wy nn Whitm ore
Colei todos os bilhetes na porta, bem à vista.
Ouvi novam ente o som de algo rolando.
Algo estava para acontecer.
Rolava.
Tac.
Tac.
Tac.
Vinha de debaixo da cam a, de novo.
Olhei para o relógio sobre o criado-m udo. Escrevi as horas em outro papel:
12h37
Rolava.
Tac.
Fiquei de j oelhos e olhei debaixo da cam a.
Ouvi um a voz. Um sussurro:
“Seth.”
Seth.
Freddie Horvarth deixou minha cabeça assim e preciso de ajuda.
Respirando com dificuldade, m e j oguei para cim a da cam a e m e recostei na cabeceira, descalço, vestindo j eans e um a cam iseta. Em outro papel, fiz um a lista das roupas que estava usando.
Peguei a m eia e enfiei m eus dedos nela. Senti os óculos lá dentro.
Puxei os óculos para fora.
Rolava e... Tac. Tac. Tac.
“Não vai acontecer nada”, disse para m im m esm o.
Você ainda não conseguiu escapar de nada.
Coloquei os óculos.