A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 56 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 56

CINQ UENTA E SEIS

 

Dois discos de vidro: perfeitam ente circulares, de um azul escuro com o lápis-lazúli. Lentes. Quando as vi no chão depois de Seth desaparecer, notei reflexos de pessoas e coisas indo e voltando do outro lado delas, da m esm a form a que tinha notado nos óculos de Henry quando os vi pela prim eira vez, em Londres.

Não deixava que ninguém as visse. O que m ais poderia fazer? Tentava fingir que não estavam lá, m as lutava para aguentar a força de sua atração. Elas m e faziam m al em Marbury, m e transform avam no m esm o Jack doente e obcecado que trem ia e suava pelo chão dos banheiros naquele outro m undo incerto.

Conner percebia o que estava acontecendo com igo.

E ficávam os os dois a im aginar com o voltaríam os a Marbury da próxim a vez. Se houvesse próxim a vez.

Dois dias se passaram .

Cavalgando para o norte, chegam os à m argem de um lago enorm e. Talvez fosse o m ar.

Não dava para saber. Não im portava. Não tinha horizonte em Marbury, nenhum ponto de referência, com eços ou fins: apenas a neblina branca infinita, sem pre presente ao longe, não im portava o quanto se andava em sua direção.

O cachorro seguia Griffin onde quer que fosse. Corria à beira da água, entre os cavalos.

Naquela m anhã, íam os lentam ente pela areia entre os destroços de um píer. Os im ensos pilares de m adeira saíam da água com o dentes irregulares, tortos e apodrecidos. Alguns deles ainda sustentavam vigas e pedaços de asfalto que form avam pequenas ilhas flutuando no branco do céu. O vento soprava a água escura que vinha até nós, onda após onda. Provei. Era arenosa, m orna e salgada.

“O que é isso?”, perguntou Griffin.

“Não sei”, respondi. “Um píer, eu acho. É um lugar onde as pessoas...” Parei. Não fazia sentido contar ao m enino coisas de um m undo que nunca veria.

Olhei para Conner. Poderia ser Blackpool em outra época, sob outra form a.

O cavalo que era de Freddie Horvath carregava a m aior parte do nosso equipam ento. Conner usava calças m ilitares que Ben tinha encontrado na m ala de um daqueles soldados e o par de botas que Griffin se recusava a usar desde que saím os daquele trem . Tam bém tinha dado a ele m eu cinto de arm as, com duas nove m ilím etros sem iautom áticas nos coldres.

Ben e Griffin se acostum aram ao m eu am igo, m as ainda estavam cautelosos. Tinham consciência, porém , de que não sabiam tudo sobre a gente. Ao m enos, Henry tinha preparado os dois para as “coisas estranhas” que veriam .

Naquela m anhã, vim os a silhueta de um a cidade que despontava no horizonte. Ficava bem rente à costa e era cercada por um a m uralha, param os nossos cavalos na praia. Os am arram os dentro de um cânion raso que surgia na encosta cinza que contornava a linha da arrebentação.

Havia alguns pássaros. Faziam ninhos de barro nos paredões rochosos. Notei que Griffin os observava, m aravilhado, enquanto voavam para dentro de seus abrigos. Deve ser incrível ver pássaros pela prim eira vez na vida, pensei.

Sentam os ali, na areia da praia, em silêncio, e observam os a cidade ao longe. Por horas.

Esperam os.

Não sabíam os se estávam os cavalgando em direção a um lugar bom ou ruim .

“Eu acho”, disse Ben, apontando para a costa e a m uralha da cidade, que a gente deve ir naquela direção, ou ir para o sul pela costa. O que não podem os é ficar aqui para sem pre.”

“Talvez a gente encontre m ais pessoas lá”, disse Griffin.

“Mas talvez sej a m elhor assim , sem m ais pessoas”, respondi.

“Cansei de ficar fugindo.” Sentado de pernas cruzadas, Griffin m exia os j oelhos, inquieto. “O Conner vai votar agora tam bém , não é? E se der em pate? A gente vai se separar?” Conner deu de om bros e virou o rosto. “Se você achar m elhor, eu não voto, rapazinho.”

“Mas ia votar em qual opção?”, perguntou Griffin.

“Não vou falar.”

“Então tá. Nesse caso, você não vota. Quando você puder votar eu falo.”

“Griffin, as coisas não são assim ”, argum entei.

“Claro que são. Ele é novo aqui. A gente tem que ver com o isso vai funcionar.”

Balancei a cabeça. Ben se levantou e disse, “Acho que a gente vai ter que deixar isso pra depois. Olhe ali, Jack. Tem alguém vindo”.

O cão de Griffin latiu e correu para o paredão onde tínham os deixado os cavalos.

Vinham do sul. Seus vultos se aproxim avam pela neblina; eram três. Corriam desaj eitados. Um deles caiu duas vezes, e nas duas foi aj udado pelos outros dois, que o levantaram apressadam ente. E corriam , tropeçavam , se aproxim ando cada vez m ais.

Sacam os as arm as. Agachados ou deitados sobre a areia, ficam os esperando e observando.

Mesm o sem enxergar seus rostos, percebi que eram pessoas quando ouvi que um deles chorava. Era a voz de um a m ulher. “Papai, são pessoas? São pessoas?”

Olhei para Griffin, deitado tão rente ao chão que estava quase invisível, m ordendo o lábio e apertando os olhos para m irar. Conner se abaixou, segurando as arm as na frente do corpo. Quando ele encostou a perna na m inha, senti o quanto estava assustado.

“Jack, que porra é essa?”

“Segura firm e, Con. Vai ficar tudo bem . É só fazer o que eu fizer.”

Ben, à m inha esquerda, nos observava.

“Vocês são gente m esm o?” Daquela vez, era a voz de um hom em que ouvíam os à distância. Eles pararam de correr antes de se aproxim arem m ais, m as suas respirações ofegantes ainda soavam com o passos na areia.

Os garotos esperavam .

“Responde”, Griffin sussurrou.

Um hom em e um a m ulher. Vestiam apenas trapos. Parte do escalpo do hom em parecia ter sido arrancado. A ferida se estendia de sua sobrancelha esquerda até a orelha, coberta de sangue coagulado, que tam bém cobria a m anga rasgada de sua cam isa.

O outro, que vinha m ais atrás, era um m enino. Vestia um a berm uda tão esfarrapada que parecia um a saia. Devia ter a m esm a idade de Griffin. Ele parou ao lado da m ulher. Seus olhos estavam sedentos e vazios; nos com eria vivos se pudesse.

Fiquei de pé. “Som os pessoas.”

O hom em relaxou os om bros e quase desm oronou de alívio. “Graças a Deus”, ele disse.

O m enino olhava para as arm as. Acho que ele não fazia ideia do que elas eram capazes.

Griffin se levantou, seguido de Ben e Conner.

Deve parecer que estam os saindo de túm ulos na areia, pensei.

“Que cidade é aquela?”, perguntei, apontando.

O hom em virou o queixo na direção que apontei. “Grove. Você não conhece?” Ele olhou para m im , surpreso. “A segurança não se com pra com nenhum tipo de ouro. Você sabe, Grove. Acham os que vocês eram soldados de lá.”

“Não, não som os”, respondi.

Confuso, olhou de relance para a m ulher e o m enino e disse, “Todos os que estavam com a gente estão m ortos. Estam os sendo seguidos. Tem os que ir para Grove”.

O hom em tossiu. Não parecia ser nada grave, apenas um a breve tosse, m as em seguida ele caiu com o rosto no chão. Tinha um a flecha negra cravada abaixo do om bro dele e outra na espinha.

Mal o hom em caiu, m ais flechas vieram em nossa direção, cravej ando a areia. Cruzavam o ar silenciosam ente.

“Caralho!”, Ben gritou. Griffin com eçou a atirar antes que ele term inasse a palavra.

Com eçam os a atirar assim que vim os os vultos das criaturas que seguiam os refugiados pela praia. Seus caçadores caem , um a um , enquanto a m ulher e o m enino se escondem atrás de nós, tapando os ouvidos com as m ãos, chorando e gem endo.

Griffin gritou. Um a flecha furtiva atravessou seu braço, e ele caiu na areia.

“Griff!”, gritei e corri até ele. “Griff!”

Ele se debatia sobre a areia verm elha de sangue.

“Griff! Aguenta firm e!” Levantei o m enino pelas pernas e braços e fui em direção aos cavalos. “Ben! Conner! Os cavalos! Griff está ferido!”

Ben e Conner se revezavam , atirando e recarregando, e as saraivadas de flechas foram dim inuindo. Tropecei, e caí sobre a areia. Tentei m e am parar para não cair em cim a de Griffin, e ele gem eu com a queda. A ponta da flecha em seu braço caiu na areia e eu vi que m inha cam iseta estava toda suj a com o sangue dele.

“Jack”, ele disse. “Jack, eu vou m orrer?”

“Não vai, não, Griff. Não diga isso.”

Continuavam a atirar. Agarrei a haste da flecha e, com a outra m ão, segurei o bíceps de Griffin. O garoto era tão franzino que m eus dedos envolveram seu braço. Retirei a flecha rapidam ente e apertei as feridas, tentando estancar o sangue.

Griffin gritava, m as não chorava.

Quando tentei m e levantar, percebi que tinha caído porque um a flecha tinha atravessado m inha panturrilha. Não podia m e m exer.

“Porra!”

Eu m e sentei ao lado de Griffin e apoiei o rifle no j oelho. As penas da flecha trem iam com os espasm os da m inha perna.

Os tiros pararam .

Silêncio.

Deitado na areia m orna, olhei para o céu.

Vi a posição do sol: apenas um clarão indefinido no branco infinito acim a de nós. Estiquei o braço e passei os dedos pelos cabelos de Griffin.

“Tudo bem aí?”, perguntei.

“Merda.”

“Vam os ficar bem , Griffin.”

“Nossa, dói dem ais.”

“Quem vai fazer os curativos agora? O Ben vai se assustar quando vir com o estam os sangrando.”

“Se ele não estiver m achucado, vai deixar de ser fresco e aprender a fazer. Ele ou o seu am igo.”

Ouvi passos na areia vindo em nossa direção e m e sentei. Doía. Ben e Conner se aproxim avam . Conner se apoiava sobre o om bro de Ben e o outro m enino vinha logo atrás. Seguia os dois com o um prisioneiro. Ben estava ferido. Quando se aproxim aram , vi um a flecha saindo direto do lado direito do peito dele. Eles pararam , perto de m im e Griffin. O outro garoto sentou na areia e nos observou com o olhar vazio, com o se estivesse entediado. Ele carregava um a flecha e desenhou círculos com ela entre suas pernas.

“Inferno!”, Ben praguej ou. “Vocês dois estão bem ?”

“Ben?” – Apontei para a flecha cravada em seu peito.

“Não furou nada. Estou sentindo a ponta nas costelas. Vai sarar rápido, m as é m elhor eu não ficar sentado. Alguém precisa m e aj udar a tirar. Merda.”

Conner franziu a testa e apertou os lábios. “Com o assim ? Que porra é essa, Jack?”

“Não sei, Con”, disse, olhando para a flecha que atravessava m inha perna. “Te acertaram ?”

“Não.”

“Matou quantos?”, perguntou Griffin.

“Todos.” Ben cuspiu e olhou para o m enino sentado na areia. “Mas a m ulher...”

Não precisou term inar a frase.

“Tem um kit de prim eiros socorros nas bolsas”, disse Griffin, deitado de barriga para cim a, olhando para o céu, com um braço cruzado sobre o peito, apertando o lugar em que tinha sido flechado.

Conner foi em direção aos cavalos.

“Não vão em bora sem m im ”, ele disse, tentando sorrir.

“Traz m eu cachorro de volta”, disse Griffin.

“Soldados!” Eu ouvi alguém gritando enquanto nos dirigíam os aos portões de Grove naquele dia, com o se chegássem os para salvá-los. Talvez não percebessem que m al conseguíam os descer dos cavalos de tão exaustos.

No com eço, eram cautelosos e escondiam -se sob as som bras de suas portas. Mas logo que a notícia se espalhou, sobre os garotos que voltaram da guerra, ficam os cercados de pessoas, m ilhares delas, dispostas a nos aj udar. Traziam com ida e água; m édicos e enferm eiras vinham nos prestar socorro, abrindo cam inho entre as pessoas que se am ontoavam .

“O Henry disse que você traria a gente até aqui”, disse Ben, pálido e ensanguentado.

Griffin vinha ereto sobre seu cavalo, com o bracinho com pletam ente enfaixado. Seus olhos brilhavam enquanto olhava toda aquela m ultidão, m esm o que m al deixassem nossos cavalos passar.

“Tem m eninas aqui”, ele disse.

“Não vai sair apalpando dessa vez, Griff”, brinquei.

Um a m ovim entação com eçou em torno do cavalo de Ben. Ele estava chutando as pessoas que se aproxim avam . Ben acertou o bico da bota na boca de um hom em , que deixou um rastro de sangue e dois dentes na queda.

“Solta m inhas arm as, porra!” Ben apontou um a das arm as indistintam ente para a m ultidão, que se afastou.

“Jack!”, cham ou Conner.

“Sai, porra!” Ben am eaçou novam ente.

“Jack!”

Vi Conner acertando coronhadas nas m ãos insistentes que tentavam alcançá-lo.

“Jack, que porra é essa?” Griffin tentou sacar a arm a com seu braço bom .

“Não!”, gritei.

“Jack!”, Conner gritava de novo.

Tentei dar um pontapé no cavalo para que ele recuasse, m as a dor que senti quase m e derrubou do anim al. Minha visão em baçou e senti o sangue colar a barra da calça à m inha perna. Vi um clarão branco refletido sobre um a fina lâm ina de água que descia por um a vidraça e, então, a fraca luz am arela de um poste.

Vai se foder, Jack.