A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 50 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 50

CINQ UENTA

 

Um a estação.

O m etrô de Londres.

Era noite.

Estou sozinho.

O trem em erge da escuridão do túnel com o um dragão de aço, parando estridentem ente diante de m im . A porta se abre com o se fossem centenas de bocas fam intas.

Bem vindo ao lar, Jack.

Sou j ogado para trás, contra os azulej os encardidos da parede. Sinto sua superfície quente e úm ida do calor da cidade. Um nó no estôm ago. Caio sentado em um banco; os olhos arregalados, a cabeça apoiada nas m ãos. Preciso m e concentrar: tênis (brancos, Puma. Mas eu não tenho tênis dessa marca), concreto, não estou de m eias (não saio sem meias. Por que fiz isso?), calças j eans (rasgadas no joelho, as barras estão escuras e molhadas. – deve estar chovendo lá fora), m inhas m ãos estão para baixo: Elas parecem cinza, com o se não tivesse nada vivo dentro de m im .

Jack está morrendo devagar desde que entrou no carro de Freddie, e eu não aguento mais.

Força, Jack.

Força.

Com cada m úsculo das pernas, fico de pé, m as tudo gira. Estou flutuando, com o se estivesse no redem oinho da m aior privada do m undo.

Que se foda este lugar.

Me agarro a um a lata de lixo e esvazio o estôm ago.

Quase não percebi as pessoas que iam e vinham , tentando m e ignorar, fingindo que o cara doente vom itando até virar do avesso não estava ali. Passavam por m im com o partículas em um túnel de vento.

Estação Green Park.

O que eu estava fazendo ali, porra?

Quando o trem partiu, a estação ficou com o um a caverna ilum inada. Silêncio total. Sentado no banco, tentava pensar. Estava tão fraco que parecia que eu não com ia nada há dias.

Dias. Não fazia ideia das horas ou há quanto tem po tinha saído do Prince of Wales.

Coloquei a m ão sobre o peito. Estava m e sentindo m enor, leve com o um a plum a. Não entendi por que estava vestido daquele j eito. Meu cabelo estava m olhado, usava um a cam isa preta e desbotada, que não era m inha, com um buraco na barriga. “The Ram ones”, estava escrito nela. A j aqueta bege, de tecido, toda respingada de chuva, eu tam bém nunca tinha visto. Não usava cuecas, apenas as calças, que tam bém não eram m inhas. Nem cinto usava. Aquele não era o Jack.

Quanto tem po tinha se passado?

Vasculhei os bolsos. Tudo ali. Olhei o celular.

Não acreditei quando vi.

Apertei os olhos, desliguei e liguei o celular novam ente.

Era quarta-feira.

Conner e eu voltaríam os para casa na sexta, em apenas dois dias.

Tinham se passado quatro dias desde que Seth trouxera para m im a lente de Marbury, na noite em que chegava de Blackpool, depois de brigar com Conner.

Tudo culpa do Jack. De repente m e senti culpado por tratar m eu m elhor am igo assim .

Quatro dias. Não fazia a m enor ideia do que tinha acontecido ou de com o tinha chegado à estação Green Park, com aquelas roupas que não eram m inhas, em um a linha que nem im aginava de onde vinha e que não ia para qualquer lugar que pudesse m e interessar.

Quase cinquenta cham adas não atendidas: Nickie, Stella... A últim a era de Conner, vinte m inutos atrás. Várias m ensagens que não tinha coragem de ler.

Você sempre faz merda, Jack.

Assustado, liguei para Nickie. Enquanto ouvia o telefone cham ar, quase desliguei antes que ela atendesse, m as continuei na linha.

“Jack?”

“Oi.”

“Onde você está?” Parecia preocupada. Talvez decepcionada. Jack sabia que tinha estragado tudo de novo.

“Ahn. Estação Green Park.”

“Tudo bem ?” Nickie parecia ter chorado.

“Não.”

Jack não chora.

Engoli em seco. “Nickie. Preciso te ver. Conversar com você.”

“Estou ligando para você desde que você foi em bora.”

Ela obviam ente estava chorando agora.

“Eu sei. Tem algo errado. Muito errado.”

“Te procurei no hotel e o Conner está ligando toda hora para saber se eu tive notícias suas. Onde você estava? Ele está preocupado, liga pra ele.”

“Ligo, m as vam os nos encontrar, então?”

“Ah, Jack.” Ela não tentava esconder que estava m agoada. “Ontem à tarde, antes de você ir em bora, você falou que nunca m ais queria m e ver.”

“O quê?” Não podia acreditar no que ouvia, m as pensei, Porque caralho eu não acreditaria nisso?

“E... eu não sei o que está acontecendo com igo, Nickie. Preciso encontrar algum a coisa, sei lá.” Meu estôm ago se revirava de novo e as im agens daqueles quatro dias com eçavam a voltar, ainda bem fracas, com o as luzes da estação. Algum a coisa com o irm ão de Nickie, Ander. As roupas eram dele. Tinha passado um a noite na casa dela, em Ham pstead. Foi na segunda-feira. Era um quarto estranho. Pensei sobre a lente, sabia exatam ente onde a colocara – no bolso traseiro esquerdo dessa calça. Meus dedos sentiam a form a delas.

“Por favor”, eu disse. ”Posso te ver m ais um a vez?”

Nickie hesitou. Segurava a respiração para não chorar.

“Não, Jack.”

“Nickie.” Soava doente. Patético.

“Não posso te aj udar enquanto você não fizer nada para se aj udar.”

Ela desligou.

O telefone caiu da m inha m ão. O choque do plástico contra o concreto pareceu um estrondo ao ecoar pela plataform a.

Era assim que tinha de ser, pensei. Jack desm orona aqui e tudo desm orona em Marbury. Mas não, Jack não estava desm oronando. Jack estava destruindo a si próprio. Com o Nickie tinha dito. Talvez por isso Seth tenha m e trazido de volta. Pensei em tirar a lente do bolso, m as tinha noj o de m im m esm o.

Peguei o telefone e fui até o outro lado da plataform a para esperar o trem em direção a Oxford Circus e voltar para o hotel.

A chuva ainda caía quando saí da estação. Era bom senti-la em m inha pele, quente e espessa, com o sangue. Quando cheguei ao hotel, estava encharcado.

O quarto estava um caos. Minha m ochila estava vazia, tudo espalhado pelos m óveis e pelo chão. Conner não estava. Estava em York com Rachel, m e lem brei. Doía tanto. Se ele estivesse ali, talvez pudesse im pedir que Jack se perdesse de vez.

Deitado na cam a, olhava para o teto. Ainda vestia as roupas m olhadas do irm ão de Nickie. Não m e im portava. Pela segunda vez naquele m ês, eu quis m orrer. Quis m e m atar. Não via saída, as coisas não iam m elhorar. Talvez a única coisa que m e im pedia de dar um fim àquilo era não querer m e tornar um fardo para Conner, Stella e Wy nn. Deve ser m uito difícil transportar um corpo para o outro lado do oceano.

Que atencioso de sua parte, Jack.

Mas Jack não chora.

Então tom ei um a cervej a.

Vou te contar o que o Jack acha de Marbury e da lente de Marbury.

Continuo voltando para esta im agem das bonecas russas da Stella: coisas m enores contidas em outras m aiores, repetidam ente, várias e várias vezes. Acho que existe um a teoria de Física, a Teoria-M, que diz que são onze. São dim ensões, ou m undos, com o quiser. Pode ser esse núm ero m esm o, m as tanto faz no fim das contas.

Jack é um a flecha que atravessa todas as cam adas ao m esm o tem po, com a ponta perfurando o núcleo. Acho que todas as pessoas são com o flechas que apontam para o próprio centro.

A lente de Marbury seria um a espécie de prism a que separa essas cam adas. Com ela, posso enxergar o outro Jack pelo buraco da flecha.

E Marbury é o buraco.

A única coisa que sei ao certo é que Marbury é um lugar terrível. Aqui tam bém . De certa form a, é m elhor que aquele m undo sej a tão óbvio em sua brutalidade, porque ali não há qualquer dúvida sobre a natureza das coisas: o bem , o m al, a culpa e a inocência são coisas palpáveis. Não é com o aqui, onde você pode estar conversando com um m édico no parque e não saber o escroto filho da puta que ele é de verdade. Porque sem pre esperam os que tudo sej a lindo e certinho, m esm o sabendo que as coisas nem sem pre funcionam assim .

Henry acreditava que Marbury era um m undo fora de equilíbrio.

Ele precisa dar um a olhada direito neste aqui.

Abri outra cervej a e m e recostei na cabeceira da cam a. Quando arrastei o travesseiro, vi a carta que Conner tinha deixado naquela noite em que m e encontrei com Henry. Balançava o papel entre os dedos, hesitante. Seria igual a todas aquelas cham adas não atendidas, pensei. Um a lição de m oral para Jack, o m enino que só fazia m erda e tinha que dar um j eito na vida.

O celular vibrou no bolso. Deixei tocar, m as tom ei coragem para atender.

Corajoso e atencioso Jack.

Não olhei para o núm ero.

“Alô?”, eu disse.

“Onde você está?”

Era Nickie.

“No hotel.”

“Me espera aí.”

“Tudo bem .”

“Não estou aguentando m ais. Estou chegando aí.”

O novo e coraj oso Jack tam bém resolve abrir o bilhete de Conner. Mas percebi que é fácil não ter m edo quando você não tem m ais nada a perder.

Ei Jack,

É muito estranho – ter que escrever uma carta. Mais estranho é ficar tão sem jeito, logo com você. Você é mais próximo de mim que a minha própria família e não posso fingir que não está acontecendo nada. Nós temos que resolver o seu problema. Não sei como, mas eu vou te ajudar. Então, pensa e me fala. Você sabe que pode contar comigo. Se você decidir fazer alguma terapia para resolver o que aquele cara fez, eu vou com você. Já falei. Se você não quiser contar nada pra ninguém, também estou do seu lado. Ou, se quiser, conto tudo o que aconteceu pra polícia. Mas o mais importante é não deixar isso acabar com você.

Não sei qual é a história sobre aquelas lentes, mas, como falei, acho que aquele cara só está tentando brincar com a cabeça das pessoas pra ver a reação delas. Você não acha? Não tem outra explicação. É por isso que estou assustado com a sua reação. As coisas são simples, cara. São apenas lentes, que você nem sabia que existiam antes de vir para cá. Não sei por que você dá tanta importância para elas. Deixa pra lá. Somos amigos desde quando a gente mijava na fralda, cara. A única coisa que explica você ter ficado tão puto é o que aquele cara fez ou tentou fazer com você.

Espero que que você não fique puto por eu falar isso.

De qualquer forma, Jack, desculpa mesmo. Também estou mal com tudo o que aconteceu. Espero que você esqueça essa merda toda e que fique tudo normal de novo. Acho que você também quer a mesma coisa.

Sabe, depois que você saiu, fui atrás de você. Eu te vi no pub. E você nem olhou pra mim. Você estava falando sozinho, com alguém invisível, mas não tinha ninguém lá, só você, olhando para um copo de cerveja. Eu surtei, Jack. Não tinha ninguém lá.

Não fica puto, mas é verdade.

Depois que voltei, liguei pra Rachel. Combinei de ir para York na segunda passar uns dias com ela, então não vou poder sair com você e a Nickie. Não que você queira. Eu sei que você está de saco cheio de mim. Mas não preocupa, te encontro no aeroporto na sexta. Foi muito legal a viagem, mesmo com essa merda toda agora entre a gente.

Só para você saber: vou fazer o que você quiser que eu faça. E já disse: amo você, cara. (E, não, eu não sou gay. Pelo menos, não tanto quanto você ha ha.)

Conner.

Ele está mentindo para você, Jack.

Ele te seguiu.

Conner está se tornando seu inimigo aqui também.

Vai se foder, Jack.

Com o Conner não tinha visto Henry ao m eu lado? Ficam os lá até o pub fechar.

Isto é real.

E Conner tinha visto Henry da outra vez. Tinha apontado para ele naquela foto m inha com Nickie no m etrô.

Minha câm era.

Procurei entre as coisas espalhadas pelo quarto. Encontrei. Liguei e apertei o botão para ver as fotos.

Isto é real.

“Cartão sem im agens”.

Preciso de ajuda.

Não é possível. Talvez nada disso tenha acontecido e Jack esteja amarrado à cama de um pervertido na Califórnia, completamente drogado.

Henry não é real.

Conner não é real.

Nickie não é real.

Marbury é.

Por cim a do brim das calças, girei a lente com os dedos, várias e várias vezes. Tinha m edo de tocá-la. Sabia que aquilo era m inha fraqueza. Se tirasse aquela lente do bolso, perderia a cabeça e destruiria qualquer chance de m e redim ir com Conner e Nickie.

Não conseguia evitar. Queria tanto voltar para Marbury que doía. Fazia de tudo para m e distrair. Dobrei a carta de Conner e guardei. Com ecei a j untar as roupas que tinha espalhado pelo chão, enfiando tudo na m ochila, j unto com a carta. A todo instante, eu parava e ficava escutando, na esperança de que Seth aparecesse para m e tentar com seus ruídos, para eu saber que era hora de voltar para Marbury.

Mas ele não apareceu.

Tentava parar de pensar na lente dentro do bolso e de m e preocupar com Ben e Griffin.

Quando senti que com eçava a suar novam ente, abri outra cervej a e m e forcei a bebê-la.

Então m e deitei na cam a e liguei para Conner.

O corajoso Jack.

“Oi, Con.” Eu sei que é difícil ouvir a si m esm o, m as para m im , enquanto estava deitado na cam a, soava com o se estivesse m orto. Miserável.

“Jack! Onde você esteve?”, Conner parecia feliz em m e ouvir.

Feliz.

Mas eu não sabia m esm o por onde tinha andado, então tentei evitar a pergunta.

“Na casa da Nickie, saindo, por aí...”

“Ela m e disse que você term inou com ela.”

Todo m undo sabe m ais sobre o Jack do que eu.

“Devia estar m eio doido.” Tentei descontrair a conversa, m as m inha voz estava pesada dem ais. “Ela está vindo pra cá agora.”

“Que bom , então. Cara, eu tô, tipo assim , totalm ente apaixonado pela Rachel. Casaria agora se pudesse. E a gente ainda nem fez sexo. Nem parece que sou eu. São Conner, O Virgem ... Ai! Tá bom ! Parei!”

Ouvi Rachel rindo ao fundo.

“Onde vocês estão?”

“Estou na casa dos pais dela, em Harrogate. Aqui é bem legal.”

“Você vai voltar?”

“Am anhã à tarde. E aí a gente sai de noite. Vai ser a despedida, então vam os aproveitar.”

“Pois é.” Hesitei por um m om ento. “Conner, desculpa por tudo. O que você falou na carta faz sentido. Não sei o que está acontecendo com igo. Isso tudo m e dá um m edo do caralho. Quando voltar, a gente conversa sobre você m e aj udar, tudo bem ? Estou assustado pra caralho.”

“Vam os dar um j eito nisso. Prom eto.”

“Con, você sabe o que aconteceu com as fotos na m inha câm era?”

“Não, cara. Por quê?”

“Não tem m ais nenhum a foto nela. A gente tirou foto, não tirou?”

“Tiram os.” Conner ficou em silêncio por um instante. “O Wy nn não vai ligar se você não tiver as fotos de St. Atticus. Fala pra ele que deu um problem a no cartão.”

“Foi tudo de verdade, né?”

Isto é real.

Conner suspirou.

“O que vocês estão fazendo aí?”, perguntei.

“Assistindo TV.”

“Fala pra Rachel que eu m andei um oi.”

“Pode deixar.” Então Conner m udou o tom de voz. Devia estar pensando que eu tinha ficado doido. “Jack, não vai fazer besteira, tá? Relaxa e espera a Nickie chegar. Eu tam bém j á estou chegando am anhã e vai ficar tudo tranquilo, beleza?”

“Beleza. Me liga am anhã quando estiver chegando que vou te encontrar em King’s Cross. Saudade de você, cara.”

Conner riu e disse, “Gay dem ais.”

“Até am anhã, Con.”

E, então, um silêncio m órbido. Fiquei ali, estirado na cam a, esperando, com o Conner tinha pedido. Quase sentia o calor daquela m erda de lente no bolso, com o se fosse um ser vivo precisando sair para respirar, sussurrando para m im com o Seth fazia. Sabia que se tocasse apenas a ponta da unha naquela rodela de vidro, perderia a cabeça. Tentei m e concentrar, repetindo para m im m esm o: “Nickie, Nickie, Nickie...”

Olhei para o relógio ao m eu lado até cair no sono.

Meia-noite.

Tac. Tac. Tac.

Porra.

Abri os olhos e m e sentei.

Era apenas a porta. Nickie.

Zonzo, fiquei de pé. Levei as cobertas, úm idas da chuva. Ainda vestia as roupas do irm ão dela.

Meu cabelo estava caído na frente do m eu rosto quando abri a porta. Eu não penteei para trás com m inhas m ãos, era um velho m ecanism o de defesa de Jack quando não queria olhar nos olhos de Wy nn e Stella. E estava envergonhado de Nickie m e ver naquele estado.

Por alguns instantes, Nickie sorriu, cautelosa. Deixou um a bolsa de ny lon azul no chão, ao m eu lado.

“Trouxe suas roupas”, ela disse. “Lavei elas.”

Nickie ficou ali, com os braços largados ao lado do corpo, esperando na soleira da porta. Eu m e sentia tão estúpido e estava tão confuso que não sabia o que fazer, apenas abaixei os olhos e disse, “Obrigado”.

Nickie se virou para ir em bora.

“Espera.”

Fui atrás dela, m as Nickie continuava a andar.

“Nickie!”

“Realm ente, é m elhor cada um seguir seu cam inho”, ela disse.

Entrei em pânico. Não sentia o chão sob os pés. Continuei aos tropeços em sua direção enquanto ela esperava o elevador.

“Não sei o que está acontecendo com igo.”

“Nem eu, Jack. E você tam bém não sabe o quanto m e im porto com você. Não sei o que aconteceu com o m enino por quem eu m e apaixonei. Não im aginava que você era capaz de ser tão cruel e egoísta. Já estou cansada de m e sentir um a idiota e estou com m edo por você. Não quero ser parte da sua autodestruição.”

“Desculpa. Não sou eu, Nickie.” Era tudo o que eu conseguia dizer.

“Sej a lá o que for, está te transform ando em um m onstro.”

O elevador se abriu e Nickie entrou. Segurei a porta.

Seus olhos faiscavam , furiosos. “Me deixa. Estou cansada.”

Ela estava falando sério.

Recolhi a m ão.

A porta se fechou.

Me apoiei na porta, m e segurando, tentando entender por que eu não fiz nada e deixei Nickie sair da m inha vida de vez.

Não conseguia m e lem brar do Jack que Nickie tinha conhecido no barco e nem do Jack que ela não queria ver nunca m ais. E eu não conseguia encontrar m otivos do porquê deixava aquilo acontecer.

Porque estava m e tornando um m onstro.

Fui atrás dela, correndo pelas escadas, e a alcancei na calçada do outro lado da rua.

“Nickie, desculpa, de verdade. Fala com igo, por favor.”

“Não acho que posso te aj udar, Jack.”

“Nickie, eu prom eto...”

“Prom ete o quê, Jack?”

“Por favor!”

“Não.”

Ela m e deixou ali.

Fiquei sentado na calçada, olhando os carros que iam e vinham .

Pensava no que poderia ter sido diferente, os outros lugares a que poderia ter ido – ou não ter ido. Teria sido tudo tão m ais fácil se tivesse dito: “Sim , doutor Horvath, pode m e m atar agora”.

Mas resolvi reagir.

E lá estava eu, sentado num a rua m ij ada e discutindo com m inha cabeça se deveria voltar para o quarto e achar m eu m aldito telefone, para ligar para Henry Hewitt e perguntar – de novo – se o que estava acontecendo era m esm o real; ou se conseguiria levantar m inha bunda para tentar encontrar Nickie um a últim a vez.

Doía tanto.

Isto é real.

O porteiro do hotel olhava para m im .

Usava óculos.

Para de olhar para mim, porra.

Corri.

A cada passo, a cada respiração, repetia para m im m esm o, Isso é real, isso é real. Não podia perdê-la, não podia continuar a afastá-la de m im . Nickie era a única coisa a que podia m e segurar, a única coisa capaz de im pedir que Jack se perdesse para sem pre naquele outro m undo.

Ofegante, m iserável e encharcado, virei a esquina e encontrei Nickie sentada em um banco, perto da estação Baker Street.

“Nickie?”

Ela ficou assustada.

Não queria m ais assustá-la.

“Não vou desistir de você assim ”, eu disse. “Eu posso ser a pessoa que você acha que sou. Eu sou essa pessoa. Mas eu preciso de você para ser assim .”

Ela tinha chorado.

“Me aj uda, Nickie? Vam os conversar?”

Ela fez “sim ” com a cabeça.

Tudo escuro. Apenas um lençol nos cobre. Fico de pé e abro a j anela para ouvir o barulho da chuva e deixar seu cheiro úm ido entrar.

Nickie deita a cabeça sobre m eu peito, passando a m ão na m inha barriga, assim com o tinha feito em nossa prim eira noite em Blackpool.

“Dá para ouvir o seu coração”, ela sussurrou.

“Faz barulho de quê?”

“De um m enininho zangado.”

“Ah, é?”

“Bem , ele fica nervoso com tudo e com todos, m as, por dentro, eu sei que está apenas m achucado.”

“E com o você sabe?”

“Ele finge m uito m al. Ele acha que ficar triste não é coisa de hom em e tenta fazer cara de bravo.”

“Esse m enininho tem que parar de te contar coisas sobre m im .”

Abracei Nickie bem forte.

“Agora eu sei por que eu disse que não queria te ver de novo, Nickie.”

Senti seus dedos se contraindo contra a m inha pele, com o se ela tivesse sido queim ada.

“Por quê?”

“Porque eu nem lem brava o m otivo de estar usando as roupas do seu irm ão. Porque eu não m e lem bro de onde estava desde sábado à noite até quando te liguei da estação Green Park.”

Ela não disse nada. Sentia sua respiração sobre m eu peito.

“Tem algo de errado com igo, e estou assustado.”

Freddie Horvath deixou minha cabeça assim e eu vou te magoar, Nickie.

Um nó na garganta.

Jack não chora.

“Não quero te m agoar, eu te am o de verdade.”

“Você não vai m e m agoar, Jack. Deixa o Conner te aj udar. Ele conversou com igo e vi o quanto ele quer te ver bem .”

“Não quero que ele fique m agoado com igo, tam bém .”

Nickie respirou fundo. Senti o ar frio no m eu peito. “Você estava vestindo as roupas do Ander porque apareceu todo encharcado de chuva na segunda à noite. Você tinha se perdido. Era um pouco patético. Não foi a m elhor das prim eiras im pressões para os m eus pais.”

“Nossa...”

Ela riu baixinho. “Depois eles se acostum aram com o m eu am iguinho am ericano. E você dorm iu lá.”

“Com você?”

Nickie passou o dedo pelo m eu peito. Senti seu rosto se contrair em um sorriso. “E tinha outro j eito? Não dava para você ir em bora. Eu estava com todas as suas roupas. O Ander te em prestou um pij am a e você ficou no quarto de hóspedes. Você falou que tinha vergonha de fugir para o m eu quarto de noite com m eus pais em casa, m as acho que estava m esm o era com m edo de o Ander ser cium ento.”

“Agora m e lem brei dele. Desculpa, Nickie. Não posso fazer essas coisas com você. Eu sou tão perdido, fico m e sentindo culpado por tudo, por não ter o controle das coisas...”

“Shhh...”, Nickie apertou m eus lábios com o dedo.

Então m e lem brei do irm ão dela m e em prestando as roupas e tom ando café da m anhã conosco. Eu tinha dito a Nickie que estava com m edo e precisava ir em bora, m esm o que eu não quisesse. Ela não m e entendia, e chorava. E, quando entrei na estação do m etrô, queria chorar tam bém , m as o Jack não chora. Tentei m e perder na escuridão, na m ultidão que ia e vinha pelas entranhas da cidade.

Tam bém m e lem brava de ter conversado com Henry, de que ele sabia que Jack não estava aqui por inteiro. Depois de m e encontrar com ele, vaguei por Londres a noite toda, sem direção, até recuperar os sentidos totalm ente e ligar para Nickie.

“Me conta o resto da história, Jack”, ela sussurrou.

Aquela em que o Jack se mata no final?

Você não vai gostar, Nickie.

“Acho que essa história nunca vai term inar.”

“Quero dizer aquela do m enino. Seth. Você prom eteu que ia acabar de contar.”

“Ok.”