A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 19 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 19

DEZENOVE

 

Subitam ente, levantei as m ãos e senti um choque.

Lá estava eu, sem cam isa, encharcado de suor, sentado na beira da cam a olhando pela j anela aberta, onde um a de m inhas cam isas trem ulava eteream ente com a brisa gelada, dependurada no fecho. Devo ter saído para correr. A cam isa estava ensopada.

Era noite.

Minhas m ãos trem iam .

Olhei para m eu lado direito e esfreguei o local atingido com a m ão.

Os óculos roxos estavam caídos no chão perto do m eu pé. Com os cotovelos sobre os j oelhos, apoiei a cabeça nas m ãos. Estava coberto de suor. Fechei os olhos bem apertado e senti o ardor provocado pelas gotas de suor que escorriam sobre eles.

Ok.

Que merda era aquela, Jack?

Vam os pensar: o que tinha acontecido j am ais poderia ser real. Freddie Horvath deixou m inha cabeça assim.

Freddie Horvarth deixou minha cabeça assim e preciso pedir ajuda.

Tinha de pensar. Colocar a cabeça no lugar.

Me deu vontade de tom ar um a cervej a. Seria bom . E real. Fui até o frigobar e abri um a garrafa. Wy nn e Stella ficariam sabendo. Stella ficaria furiosa. Aquilo seria bom , tam bém . Wy nn e Stella. Eles eram reais. Bebi. Não desceu bem .

Calma, Jack.

Acendi cada luz daquele pequeno quarto, de interruptor a interruptor.

Aqui

Eu estava aqui.

Deste lado: Inglaterra. Nove da noite. A últim a coisa de que m e lem brava era de estar sentado na cam a depois do café da m anhã, e de sacudir as cortinas à procura de um inseto.

Insetos.

Daquele lado: As piores coisas que j á tinha visto na vida. A cabeça de Henry Hewitt em palada em um m uro. Um m uro de corpos dilacerados. Flechas. Um m enino cham ado Ben Miller gritando o m eu nom e, puxando dois cavalos atrás de cadáveres e rochas. E eu, atingido por um a longa flecha negra. Ainda podia sentir a dor, a vibração da haste que oscilava a cada respiração e pulsação de m eu sangue, a dor, queim ando, esfaqueando cada nervo do m eu corpo.

Corri até o vaso e vom itei.

Sentei na beira da cam a. Não vestia nada além da cueca, e estava todo m olhado. Fechei a j anela e tom ei outro gole daquela cervej a quente e espum ante. Meu cabelo pingava água sobre os om bros e o chão de m adeira. Fui ao banheiro novam ente e dei um a conferida no am biente. Tinha tom ado um banho. Um a toalha, tênis de correr, a berm uda e as m eias espalhados pelo chão. As roupas estavam úm idas e cheiravam a suor. Provavelm ente eu tinha saído para correr de novo.

Por que não consigo me lembrar?

Freddie Horvath fez alguma coisa com a sua cabeça e é melhor pedir ajuda, Jack.

Procurei as roupas que ia usar depois do café da m anhã e esvaziei os bolsos da calça sobre a cam a.

Os óculos. No chão. Pensei nos óculos. Não queria olhar para eles, então tateei ao redor. Senti que m eus dedos tocaram a haste fina dos óculos, então eu os peguei e os enfiei dentro de um a das m eias suadas.

Não queria ver aqueles insetos novam ente.

A cervej a com eçava a subir. Queria outra. Sentia-m e culpado por beber, m as tam bém m e sentia bem .

Porra! O Jack se sente culpado por tudo.

Abri outra cervej a e voltei para a cam a.

A bateria do celular tinha acabado. Tentei lem brar se tinha conversado com Conner, com qualquer um que pudesse confirm ar que eu estava ali hoj e. Passaporte, dinheiro, papéis dobrados. Encontrei o cartão todo borrado que Henry Hewitt tinha deixado no pub debaixo de um copo de cervej a.

Enquanto tom ava outro gole, peguei o papel e esfreguei a tinta preta com o polegar. Balancei a cabeça.

Devo estar ficando louco.

Não, estou completamente maluco.

Havia um pedaço de papel am arelo, do tam anho de um cartão, guardado entre as folhas do passaporte. Era um bilhete de um passeio de barco pelo Tâm isa, e tinha sido em itido naquela tarde.

Muito bem. Aparentemente, Jack Maluco tinha ido passear de barco.

Liguei a câm era. Fiquei atordoado, com o se fosse perder os sentidos. Eu m e aj oelhei e apoiei cotovelos na cam a, com o se fosse rezar, segurando a câm era na altura dos olhos. Avançava as fotos um a a um a: Mary lebone Street em frente ao parque, um a foto borrada da estação de m etrô, barcos no rio e as Câm aras do Parlam ento. Depois, fotos de um barco coberto por um teto de vidro: a London Bridge e, finalm ente, eu, sorridente, de pé em um dia ensolarado, apoiado em um corrim ão verm elho no convés de um barco, sob o céu azul perfeito da cidade.

Acho que fiquei olhando aquela foto por m eia hora, exam inando cada detalhe.

Eu parecia feliz ali, de pé, de calça j eans larga e cam isa branca com os dizeres COLÉGIO GLENBROOK, CROSS-COUNTRY, as m ãos no bolso, com um boné virado para trás, o cabelo caindo sobre um dos m eus olhos, desalinhados por um a brisa que sentia que m e lem brava de sentir, que m e relaxava. Sorrindo.

Fiquei m e perguntando quem teria tirado a foto?

Tentei ligar o celular novam ente, irracionalm ente esperando que ele ligasse.

Vesti um a cam iseta e calça j eans. Então guardei os óculos de Henry, ainda enrolados na m eia, no bolso de trás. Calcei m eus Vans.

E então voltei ao Prince of Wales.