A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 3 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 3

TRÊS

 

Vou voltar um pouco.

Eu vivia na casa dos m eus avós naquela época. Wy nn e Stella. Acho que é algo estúpido a dizer, j á que nunca m orei em outro lugar.

Era um a das m aiores casas em Glenbrook. Wy nn a construiu quando m inha m ãe era criança. Fora assentada em um terreno que ocupava m ais de quatrocentos acres da m elhor terra de vinicultura na Califórnia Central, e era assim que Wy nn e Stella ganhavam a vida.

Nasci no chão da cozinha.

Stella disse que eu não aguentei esperar para vir ao m undo. E que por isso tinha saído pelas pernas ensanguentadas de m inha m ãe direto para o belo piso de m adeira da cozinha de Wy nn e Stella, enquanto Am y se debruçava sobre o café da m anhã, grunhindo, com as pernas travadas pela única contração que teve.

Ela tinha 17 anos.

Só a vi um a vez, de que m e lem bre, e sem pre m e incom odavam as duas vezes no ano que m e sentia forçado a dizer constrangedores olás pelo telefone.

Algum as vezes (ok, um a porção de vezes), eu ficava olhando para aquele lugar no chão – Stella desenhava círculos im aginários em torno dele quando contava a história – e desej ava que Am y estivesse no alto de um a escada, ou algo assim , para que o pequeno Jack batesse a cabeça forte o suficiente para que nunca soubesse da existência de qualquer m undo fora da m orna escuridão do útero.

Era o prim eiro fim de sem ana do verão, e todos os m eus conhecidos estariam na casa de Conner Kirk naquela noite, se em bebedando para com em orar os três m eses de férias. É claro que eu estaria lá tam bém . É isso que os j ovens fazem .

Mas o m ais im portante para m im era fugir dali. Wy nn e Stella tinham m e prom etido um a viagem de duas sem anas para a Inglaterra, e m eu voo partiria em cinco dias. Wy nn decidiu que eu visitaria sua antiga escola – a “escola de gram ática” de Kent. Ele disse que, se eu gostasse dela o bastante, cursaria o prim eiro ano lá. E eu j á sabia que gostaria o bastante, pois algo por dentro m e incom odava, m e fazendo ter um a vontade incessante de ir para o m ais longe possível daquele círculo im aginário no chão da cozinha. Conner iria com igo. Com o os pais dele tam bém tinham dinheiro, eles fizeram a m esm a proposta para que ele estudasse na St. Atticus. Se nós dois gostássem os da ideia. Seria um a oportunidade incrível para m im e para m eu m elhor am igo de fazerm os algo j untos que nós provavelm ente nunca teríam os a chance de fazer de novo.

Eu podia dizer que seria a viagem da m inha vida, m as só porque não conseguia m e lem brar claram ente de com o era estar nu e m olhado, lutando para respirar no chão da cozinha, enquanto Am y gritava e xingava, “finalm ente esse bebê m aldito nasceu!”. Pelo m enos era assim que im aginava que tudo tinha acontecido.

No fim das contas, Conner e eu acabam os ganhando m ais do que havíam os barganhado, eu achava.

Mas, naquela m anhã de sábado no início do verão, tudo parecia ter m udado quando acordei: senti que algum a coisa m udou, ficou diferente. Fazia um calor infernal e dava para saber que seria um dia longo e m uito entediante. Saí da cam a cedo e olhei pela j anela, com o sem pre fazia, vesti um a cam iseta e um a berm uda e peguei um a braçada de roupas para ficar um dia ou dois na casa de Conner. Troquei apenas um a palavra ou outra com Wy nn e Stella enquanto passava pela cozinha.

Não sei ao certo por que m e afastei tanto dos dois. Não os odiava, de form a algum a, m as talvez pensasse que fossem m e abandonar tam bém , então fazia o m elhor possível para que nem m e notassem .

“Vou ficar na casa do Conner até segunda. Os pais dele vão viaj ar no fim de sem ana.”

Wy nn levantou os óculos, olhando para m im , com o se tivesse esquecido de m e vestir, ou algo assim . Apertei a trouxa de roupas debaixo do braço.

“Ele pode vir dorm ir aqui, se quiser”, disse Wy nn.

Ah, pois é, ia ser legal, Wynn.

Dei de om bros. “Estou levando o celular.”

“Divirta-se”, disse Stella. “Nós te am am os, Jack.”

“Até segunda.”

Em purrei a porta e cruzei o gram ado m olhado até m inha cam inhonete. Iria pelo viaduto e desceria até a praia. Acabei saindo no sentido oposto, por nenhum m otivo especial, em direção a Paso Robles, m argeando as estradas de terra que traçavam quadrados perfeitos pelos vinhedos de m eu avô.

Liguei para Conner. Sabia que j am ais estaria acordado às sete e m eia de um sábado e j á estava preparado para desligar quando ouvisse aquela voz irritante da caixa postal.

Conner atendeu. Apenas um grunhido.

“Fala, Con.”

“E aí, Jack? Cara!” Podia ouvi-lo se revirando na cam a. “Sete da m anhã. Você foi preso ou o quê?”

“Estava entediado e resolvi ir à praia, m as acabei pegando o cam inho dos vinhedos até Paso. Não sei por quê.”

“Talvez porque você está sem pre perdido”, Conner respondeu.

“Quer ir à praia?”

Virei o volante com o j oelho, segurando o telefone com um a m ão enquanto passava a m archa com a outra.

Conner grunhiu novam ente.

Parecia um não.

“Estou indo praí. Ok?”

“Quando chegar, m e acorda”, disse Conner. “E m e traz um Starbucks.”

A casa de Conner era um a de um a série de casas de estuque enorm es, m uradas, sem j ardim e com telhas falsas. Ficavam tão perto um as das outras que, segundo Conner, dava para m ij ar na privada do vizinho se ele deixasse a j anela bem aberta. Ainda bem que usavam ar-condicionado. Tenho certeza de que Conner teria tentado. Nunca tinha visto a luz do sol chegar ao chão entre aquelas casas, m as era assim que as pessoas na Califórnia gostavam de viver agora. Sentindo m eus dedos queim arem enquanto segurava os dois copos de papel com café, e a trouxa de roupas debaixo do braço, abri a porta da frente com o cotovelo e fui até o quarto de Conner no andar de cim a. Sabia que ele ainda estaria dorm indo.

Joguei as roupas sobre um a cadeira e deixei os cafés no criado-m udo perto da cam a.

“Trouxe o café.”

Conner descobriu o rosto e se sentou. Olhou para m im , acenou, conferiu as cham adas não atendidas do celular e tom ou um gole do café.

“Valeu, cara.” Bocej ou enquanto coçava em baixo de um dos braços. “Parece que tem os um a longa festa, tipo, pelas próxim as duas sem anas.”

Minha viagem pela Inglaterra seria de pouco m ais de duas sem anas — dois dias a m enos para Conner. Eu iria antes e ele m e encontraria lá. Adm ito que estava bastante nervoso por ir sozinho sem conhecer ninguém , m as j am ais confessaria para Conner ou para os m eus avós. Tudo deveria seguir o plano de Wy nn e Stella, e Conner não podia ir com igo porque seu irm ão, que estava na universidade, viria visitá-los. Coisas de fam ília. Com o se eu entendesse disso.

Quando penso nisso agora, era com o se todos os envolvidos estivessem olhando nos olhos uns dos outros para ver quem piscaria prim eiro.

“Não preciso voltar para casa até segunda. Dá tem po de arrum ar m inhas coisas para a viagem ”, falei para Conner.

“Quer sair para com er? Não quero bagunçar lá em baixo antes da festa.”

“Sem problem a”, respondi.

“A Lauren está vindo. Talvez você ganhe o m esm o presente de despedida que a Dana vai m e dar. Assim não vou ter que aguentar por duas sem anas um virgem frustrado no m esm o quarto que eu, fingindo que nem pensa em sexo.”

Ele sabia com o eu m e sentia atraído por Lauren, por m ais que eu não ligasse para nam oro.

“Você j á pensa dem ais nisso por nós dois”, respondi.

Conner saiu da cam a, cabelos desgrenhados, não usava nada além de um shorts verm elho e largo. Pegou o café e, descalço, contornou a parede de vidro entre o banheiro e o quarto e entrou no chuveiro.

“É rápido”, ele disse.