A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 52 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 52

CINQ UENTA E DOIS

 

Tinha de voltar.

À noite enquanto eu dorm ia, Seth veio.

Rolando...

Acordei.

Tac. Tac. Tac.

“Seth?”, sussurrei.

Olhei para Nickie. Ela estava de os olhos fechados. “O que você disse?”, ela perguntou baixinho.

“Ouça.” Sussurrei de novo, “Seth?”.

Nickie abriu os olhos, buscando os m eus. Apertei sua m ão contra m eu peito.

Rolando e...

Tac.

Tac.

Tac.

“É ele, Nickie. Dá para ouvir?”

“É o cavalinho, não é?”

Ouvim os o sussurro etéreo dele: “Seth”.

Suor.

Estou trem endo.

Nickie corre os dedos pelo m eu peito m olhado. “Jack, você está trem endo de novo. Está pálido.”

“Você ouviu.”

“Ouvi, Jack.”

“Então é real.”

“Está acontecendo m esm o.”

“Nickie, preciso fazer um a coisa. Me aj uda?”

“Jack, estou com m edo”, ela diz, acariciando m eu rosto.

“Eu tam bém . Mas não m e deixa fazer besteira.”

“Com o o quê?”

Não consigo responder. Os trem ores não m e deixam falar. Estou encharcando a cam a de suor e a voz de Nickie vai ficando cada vez m ais distante. “Jack? Jack, o que está acontecendo?”

Rolando...

Tac.

“Jack?”

“Não sai de perto de m im , por favor.”

Tac.

Nickie chora. “O que ele quer?”

“Não deixe eu m e perder.”

Eu acho. A lente está na m inha m ão e m e deito de novo ao lado dela.

“Nickie, fala que m e am a.”

“Jack, estou com m edo.” Nickie continua a chorar.

Sinto seu rosto j unto ao m eu, seus lábios ao m eu ouvido. “Eu te am o”, ela diz. Seu hálito é com o um fantasm a cobrindo m inha pele úm ida.

Tac.

Já é hora, Jack.

Só uma olhadinha.

Abro a m ão e os olhos.

Não nos viram . Não faziam ideia do que éram os capazes. Com a pressa, fiz Ben deixar tudo para trás naquele lugar perto do rio. Tudo m enos as arm as.

E as roupas de Griffin.

Ele voltaria conosco.

Tínham os deixado os cavalos a cem m etros de onde estávam os e continuam os a pé, sem pre nos escondendo pelas árvores e atrás do cascalho que descia das m ontanhas e se acum ulava. Antes de nos aproxim arm os m ais, puxei Ben pelo om bro, para ele olhar para m im , ver que falava sério.

“Não esquece o que eu falei. Você não pode m atar o m ais novo.”

Ben não respondeu. Apenas olhou para suas .45, um a em cada m ão, com o se dissesse que não podia m e prom eter aquilo.

Quando finalm ente alcançam os um a elevação acim a deles, Ben m e parou com o braço.

“Está acontecendo algum a coisa.” Ele espreitava por trás de um a árvore. Estávam os tão perto que podíam os senti-los.

Ouvim os sons de um a luta, alguém estava apanhando, sendo j ogado de um lado pro outro.

“Parece que estão brigando por causa do Griff, olha só.” Ele agarrou m eu om bro e m e em purrou para um ponto onde tinha um a visão clara do que estava acontecendo.

Griffin estava deitado, com os punhos am arrados às costas e o tornozelo preso por um a corda.

Freddie faz a mesma coisa aqui.

Mas Griffin estava acordado e atento. Seus olhos saltavam de Freddie para Conner enquanto lutavam .

Conner não era páreo para Freddie Horvath, seu rosto estava ensanguentado. Ele levou um soco e foi cam baleando para trás, então pegou um dos m achados e investiu furiosam ente contra o oponente.

Tentavam m atar um ao outro.

Ben ergueu um a das arm as, fazendo m ira.

“Espera.” Segurei Ben pelo braço.

Conner cortou o ar ao tentar acertar Freddie, que revidou proj etando a cabeça e as garras para frente, ele m ais parecia um leopardo que um hom em com aquelas m anchas negras ao longo da lateral de seu corpo. Freddie se atirou sobre Conner, envolvendo a cintura dele com os braços e enterrando a cara em sua barriga.

Conner urrou um gem ido terrível ao sentir os chifres do queixo de Freddie perfurando seu abdom e. A cena m e deu um nó no estôm ago. Freddie ergueu seu adversário com as garras. Conner tossia j orros de sangue sobre seu peito, e se debatia enquanto sua pele era rasgada a m ordida. Por fim , foi j ogado sobre as pedras onde Griffin estava deitado.

Ainda segurando o braço de Ben, sacudi a cabeça e virei o rosto. Senti seus m úsculos se contraindo enquanto assistia ao que Freddie estava fazendo.

Olhei novam ente. estava caído de barriga para cim a, coberto com seu próprio sangue, os olhos vidrados no céu. Mexia os braços e as pernas, m as eu sabia que ele não se levantaria m ais.

Freddie agarrou Griffin nos braços e com eçou a lam bê-lo, lam buzando seu rosto de sangue e saliva, enquanto o m enino tentava virar a cabeça, fechando os olhos e a boca. Ele gem eu quando foi puxado pelos cabelos com o se não pesasse nada, e arrastado até Conner, que ainda estava no chão. Freddie enfiou a cabeça de Griffin no sangue que se acum ulava no abdom e de Conner e abriu a boca dele com as pontas das garras negras.

“Bebe! Bebe, seu bostinha!”, Freddie disse, enfiando a cara de Griffin na ferida. Ouvia o garoto engasgar no sangue, lutando para respirar.

“Bebe!”

Levantei o rifle.

“Que se foda este lugar!”

Um tiro. Foi rápido, m as vi a fum aça e o j orro verm elho saírem por trás da cabeça de Freddie.

Vai se foder, Freddie.

Está morto de novo.

Ele soltou os cabelos de Griffin, e o m enino caiu em cim a de Conner. Freddie, perplexo, procurava pelo atirador, com o se não tivesse um a cratera atrás da cabeça, m as logo se sentou e, curvando-se para frente, m orreu.

Assim que puxei o gatilho, Ben correu pela gram a alta com as duas pistolas apontadas para Freddie.

Griffin assoava linhas viscosas e verm elhas pelo nariz, tentando lim par o sangue de Conner do rosto, se debatendo e lutando contra as cordas que o prendiam . Tentava se afastar da poça de sangue no chão.

“Griffin!”, gritou Ben.

“Por que vocês dem oraram tanto, porra?”, Griffin berrou, cuspindo de novo.

Segui Ben até a clareira. Não disse nada enquanto m e aproxim ava. Ben tentava desatar as cordas dos punhos de Griffin, que continuava cuspindo e assoando, sobre Ben e sobre si m esm o.

Fui até Conner. Seus olhos estavam arregalados: duas pedras lisas, um a branca, outra preta, sem alm a m e encarando. Com a respiração entrecortada, ele gem ia, gorgolej ando sangue. Vi sua m arca em form a de peixe e o escalpo am arrado sobre os genitais por um a corda de tripa que trespassava dedos hum anos secos e escurecidos. No pescoço, um colar de m olares, pintados do verm elho de seu próprio sangue.

Que se foda este lugar.

“Conner?” Eu olhava nos olhos dele. “Conner Kirk?”

“Jack”, Conner piscou e sussurrou.

Vai se foder, Jack.

Ouvir m eu nom e da boca de Conner era um chute no saco. Dei um passo para trás e vi o contorno de Seth ao longe. Seth desapareceu e Conner balbuciou m eu nom e novam ente.

“Jack?”

“Jack?”, Nickie insiste, sacudindo m eus om bros.

Estou dentro de um a banheira.

Gelo.

Jack não toma banho. Nunca.

Sinto a água gelada congelando a pele. A luz da m anhã vem do quarto, acom panhada dos ruídos dos carros.

Aperto os olhos. Ainda vej o im agens gravadas neles: pessoas que nunca vi, m as que sei quem são – Hannah e Davey, rindo de m im enquanto m am ãe m e dá banho na água do poço. Freddie Horvath, m ergulhando o rosto de Griffin no sangue de Conner, forçando o m enino a beber.

Conner.

Freddie Horvath.

Seth.

“Porra!” Jogo o corpo e os braços para frente de um a só vez, m eus j oelhos em ergem da água. “Puta que pariu!”

Dou um soco na água gelada.

Meu corpo está todo contraído, m eus m úsculos estão travados em protesto ao frio. Mas ainda assim com eço a sentir os suores, e o enj oo.

Náusea.

Nickie busca um a toalha e tenta cobrir m eus om bros; m eus pés m olhados escorregam pelo piso quando tento m e levantar.

Exatamente como tinha nascido.

Você vai cair, seu bosta.

Não importa.

Nada im porta quando você está vom itando suas entranhas, vendo elas se afogarem num a m aldita privada.

Trem ores.

“Jack?”

Estou entrando em colapso, im plodindo, cam ada por cam ada, tudo está sendo sugado para o vazio escabroso de um buraco negro: o coração de Jack Whitm ore. Nickie esfrega m inhas costas com a toalha para m e esquentar, e m e sinto m elhor – é com o a m ão de Hannah.

Mas desisto.

Estou cansado.

Jack com eça a chorar.

Pela prim eira vez em sua vida de m erda.

“Não aguento m ais, Nickie. Não aguento m ais essa m erda.”

Não conseguia entender. Nunca tinha m e sentido assim em toda m inha vida, e não conseguia controlar todas aquelas cenas bom bardeando m eus pensam entos. Conner m orreu em Marbury, Ben e Griffin precisavam de m im ... E por que Nickie aguentava um m inuto sequer das m erdas que eu fazia? Mas a am ava tanto. Tanto. O frio na barriga, um nó na garganta, e as lágrim as – a m erda das lágrim as – desciam pelo rosto.

“Shhh...” Ela secava m eus cabelos com a toalha, descendo pelas costas. “Você vai m elhorar, Jack. Vai ficar tudo bem .”

Nickie se levantou. Ouvi a água correndo da torneira. Voltou com um copo d’água.

“Aqui. Bebe um pouco.”

Quando deixei o copo vazio no chão, Nickie m e abraçou, bem devagar. “Isso, vem . Com calm a.”

Nickie m e levou para o quarto e m e secou. Fiquei ali, anestesiado, com o um paciente. Então, m e cobriu e se sentou na cadeira ao lado da cam a, acariciando m eus cabelos. Com o um a m elodia, sua voz repetia, “Vai ficar tudo bem , Jack. Vai ficar tudo bem ”.

Eu não acreditava nela.

Deitado ali, sentindo seu toque, m e achei ridículo por ter os olhos cheios de lágrim as. Mas não queria secá-las, não queria que Nickie percebesse, por m ais que soubesse que ela notara.

Jurei a m im m esm o que não voltaria a Marbury, e m e senti ainda m ais ridículo.

Jack, seu mentiroso de merda.

Tam bém estava triste pelo que tinha acontecido a Conner. Tinha m edo de voltar e descobrir que perdera m eu m elhor am igo, logo quando ele tinha m e reconhecido.

Ainda assim , tinha m edo de não voltar e ficar im aginando o que poderia ter acontecido a Ben e Griffin, ou a m im m esm o. Mas talvez houvesse algum a razão, com o Henry acreditava, para que eu e todos nós estivéssem os ali. Talvez eu pudesse fazer algum a diferença se aj udasse aqueles m eninos.

Seria um idiota de pensar que não voltaria novam ente.

Morreria aqui se não voltasse.

Vai se foder, Jack.

Os dedos de Nickie corriam pelos m eus cabelos.

Fechei os olhos.

Nickie se sentou ao m eu lado e não tirou as m ãos de m im . Dorm i, m e sentindo seguro.

Acordei antes do m eio-dia.

Nickie beij ou m inha testa e sorriu. “Você está bem m elhor.”

Estava envergonhado e m e sentia fraco. Afastei os cabelos do rosto. “Nickie, obrigado por ter ficado.”

“Quer que eu peça o café da m anhã?”

Então m e levantei e percebi que não vestia nada. “O que aconteceu ontem à noite, depois que ouvim os o Seth?”

“Fom os dorm ir. Acordei e você não estava na cam a, tinha ido ao banheiro. Pensei que estivesse dorm indo. Você estava trem endo de frio.”

A lente.

Arregalei os olhos e m e levantei de um a só vez, olhando para o relógio.

“Viu m eu celular?” Olhei para os dois criados-m udos. Nickie se abaixou e pegou m eu telefone entre nossas roupas no chão.

Conner tinha m e ligado duas vezes, e Henry um a.

Saí da cam a enrolado nas cobertas. Não sei por que m e sentia tão ridículo, tão frágil. Ficava verm elho só de pensar em sair sem roupa na frente de Nickie.

“O Conner deve estar em King’s Cross agora”, eu disse. “Tinha m e esquecido com pletam ente.”

Eu m e virei para o outro lado, soltando a coberta e logo vestindo as calças que pegara em prestado do irm ão de Nickie. Devia ter vestido outra roupa, m as não queria que ela percebesse m inha preocupação com aquela lente. Abotoei as calças e senti o volum e no bolso. Era bom saber que estava ali, ao alcance. Olhei para Nickie, que m e observava, o que m e deixou novam ente envergonhado.

Estava m esm o precisando sair do quarto. A chuva tinha lavado a cidade, que tinha cheiro de m ar. A cam inho do m etrô, liguei para Conner. Seu trem estava atrasado um a hora e m eia, então tom ei um café com Nickie na estação.

“Não quero voltar”, eu disse.

Ela tom ou um gole e secou os lábios com o guardanapo. “Queria que você pudesse ficar.”

Segurei a m ão de Nickie e ela disse, “Prom ete que você vai acalm ar esse m enino nervoso e assustado aí dentro?”

“Prom eto”, respondi.

E nos beij am os.

“Talvez eu possa te visitar nos Estados Unidos antes de você voltar para cá.”

Olhei Nickie nos olhos para ver se falava sério.

“O Wy nn e a Stella nem vão notar se você passar a noite no m eu quarto”, respondi.

Ela riu.

“Jack, m e fale m ais sobre isso.”

Ela passou o braço pelas m inhas pernas, sem fazer qualquer esforço para não m e acariciar, e enfiou a m ão no bolso da calça para pegar a lente.

Eu era estúpido por m e enganar ao achar que ela não sabia o que eu tentava esconder.

“É um a lente”, respondi.

“Daqueles óculos?”

“Isso. Ela se soltou no dia em que briguei com Conner, em Blackpool.”

“Mas o que ela faz?”

“Ela m e m ostra outro lugar, m as acho que a m aioria das pessoas não consegue ver nada.”

Porque a maioria delas já morreu lá, como você, Nickie.

“E esse lugar é bonito?”

“Não.”

Nickie tom ou outro gole. “Eu não consigo enxergar nada, m as o Conner consegue, não é? É por isso que vocês brigaram ?”

Respirei fundo e suspirei. “É. Mais ou m enos isso. Eu não queria que ele usasse os óculos.”

“Por quê?”

“O lugar ia fazer m al para Conner. Só isso. Queria proteger aquele cabeça dura, proteger nossa am izade, m as ele não entendeu.” De repente, era com o se m eu corpo não coubesse na cadeira, não conseguia pensar quando Nickie encostava em m im . “Você acha que sou louco?”

“Não, Jack. Ontem à noite eu vi o que essa lente faz com você.”

“E ouviu o barulho, não é? Você sabe que eu não estou inventando essas coisas.”

“Não sei em que acreditar.”

“Desculpa. Eu tam bém não entendo.” Envergonhado e atropelando as palavras, perguntei: “Você dorm e de novo com igo, hoj e à noite?”

“Acho que o Conner vai ficar com ciúm e.” Ela ficou verm elha e sorriu.

“Por favor?”

Nickie roçava a perna na m inha. Não queria ter saído tão cedo do hotel.

Não a machuque, Jack.

Não seja Mike Heath.

Eu desej ava o corpo de Nickie m ais que tudo naquele m om ento e, ao m esm o tem po, tinha noj o de m im m esm o, por quão fraco e irracional eu estava sendo.

Nickie deitou a cabeça no m eu om bro. Seus cabelos perfum ados desceram pelo m eu rosto e por dentro da gola da m inha cam iseta, refrescando m inha pele.

“Ok. Então m e conte m ais.”

“Conto o que você quiser.”

“Me conta o resto da história. Do m enino.”

Não queria contar. Seth não queria que eu fizesse.

“Não acontece m uita coisa, Nickie. E a história é triste.”

“Quero que você conte. Com o se o próprio m enino que estava brincando com o cavalinho debaixo da cam a estivesse contando para m im e para m ais ninguém .”