A Lente de Marbury

Andrew Smith · Capítulo 23 de 59

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A Lente de Marbury

Capítulo 23

VINTE E TRÊS

 

Involuntariam ente, levei a m ão ao ferim ento.

Não senti os pontos.

Os óculos estavam desdobrados sobre o travesseiro ao m eu lado e a cam a, encharcada com m eu suor.

Precisava vom itar, lutei para tirar m inhas pernas da cam a e colocá-las no chão. Tropecei e vi os bilhetes que tinha colado na porta.

Que merda está acontecendo comigo?

Engasgando, cheguei ao vaso bem a tem po.

Quando acabei, lavei o rosto com água fria e voltei para a cam a.

Olhei as horas no relógio sobre o criado-m udo.

12h37

Nem m esm o um m inuto tinha se passado desde que colocara os óculos.

Aquilo não podia ser real.

Freddie Horvarth deixou minha cabeça assim, preciso pedir ajuda.

Já chega, Jack. Hora de dar um fim nessas malditas lentes.

Agora.

Dobrei os óculos, coloquei-os na m eia, e depois enfiei no fundo da m ochila. Precisava de tem po para pensar. Precisava de ar. Abri a j anela e olhei para as luzes que passavam pela rua.

Quem eu estava enganado? Não conseguiria m e livrar daquelas lentes.

O vidro da j anela espalhava a luz que vinha do parque.

Espalhar a luz.

É isso. Talvez aqueles óculos fossem algum tipo de prism a que filtrava o que podíam os ver, que separava a superfície, com o abrir aquelas bonecas russas, e revelassem o que estava acontecendo em outro lugar.

Dentro

Marbury.

Era a única explicação.

O centro do universo.

Cacete, você está ficando doido, Jack.

Queria olhar através das lentes novam ente, m as m e segurei.

Precisava m e segurar.

Porra, é loucura demais, Jack.

Corri até o vaso e vom itei m ais um a vez. Caí de j oelhos. Sentia frio e trem ia, coberto de suor. Apoiei o rosto sobre os braços cruzados, pairando sobre a água turva. Ouvi algum a coisa rolando pelo chão, bem atrás de m im . Tinha passado tão perto que sua vibração fez cócegas em m eus pés descalços.

Tac. Tac. Tac.

Levantei a cabeça. Nada.

Se Conner achasse que m inha aparência estivesse pior do que naquela noite que fugi de Freddie Horvath, pálido, coberto de suor e cheirando a vôm ito, seria difícil de im aginar. Estava exausto. Olhei dentro dos m eus olhos – não sei por quanto tem po – e disse: “Seth?”

Ouvi o estrondo surdo de um m urro na parede do banheiro.

Sussurei, “Você está aqui?”

Dei um passo pela porta.

Clique. Clique.

Todas as luzes se apagaram . Então, m inha m ochila caiu sozinha debaixo da j anela e algum a coisa veio rolando dela, pelo piso, e parou diante dos m eus pés.

Um papel em bolado, bem am assado.

Abri. Era o bilhete que eu tinha colado na porta – aquele com o m eu nom e. Abaixo dele, com letras de fôrm a infantis e traços trêm ulos, estava escrito EU ME CHAMO SETH.

Fiquei parado. Tudo ficou silencioso e inerte.

Desam assei o papel e o deixei sobre o criado-m udo. Entrei em baixo das cobertas, trem endo, sem m e trocar, e aguardei no silêncio até que, exausto, dorm i.

O dia se alongava em um a sucessão infindável de perguntas e dúvidas, até que se aproxim ou a hora que Nickie tinha com binado de m e ligar. Durante a corrida, pela m anhã, tinha decidido pedir aj uda, ainda que nem soubesse com o com eçar.

Ei, Nickie, você conhece algum psiquiatra bom? Porque o Jack aqui perdeu a noção da realidade e pode até ser uma ameaça para você.

Só para você saber.

Freddie Horvarth me deixou assim e nunca vou me recuperar.

Chega, Jack.

Tentei ficar longe do quarto, com m edo de ceder e usar novam ente os óculos. Cam inhei para o m ais longe que pude. Fui até o m etrô para com prar bilhetes para buscar Conner no aeroporto de Heathrow pela m anhã.

Vaguei pela cidade.

Procurei ocupar a cabeça com qualquer coisa que não fosse Marbury ou Freddie Horvath, m as não conseguia pensar em nada que não levasse a um dos dois.

Por fim , voltei ao hotel para tom ar banho. Ainda era início da tarde e o telefone do quarto com eçou a tocar assim que a abri o chuveiro.

Corri para atender, deixando pegadas m olhadas pelo cam inho e respingos sobre a escrivaninha. Tirei o fone do gancho. Tentei falar norm alm ente enquanto recuperava o fôlego. Tinha deixado o chuveiro ligado. O barulho da água parecia chuva.

“Alô?”

“Oi, Jack.”

Não era a Nickie.

“Sou eu. Henry.”

Puxei a cadeira e m e sentei. Olhei para as duas poças que se form avam sob m eus pés com a água que escorria de m inhas pernas no piso de m adeira.

Era com o nascer.

“O que foi?”, perguntei.

“Só queria saber com o estão as coisas.”

“Um a m erda.”

Acho que ele deu um a risada.

“Tenho algo que é seu. Acho que preciso te devolver”, disse a ele.

“Eles não m e servem de nada agora. Você j á deve estar sabendo... Ou ainda não foi para lá?”

“Fui, sim .” Ouvia a água, olhei para o vapor que saía pela porta do banheiro. “Mas nunca m ais volto.”

“Você não faz ideia de quantas vezes j urei a m esm a coisa, Jack. Mas você precisa voltar.”

“Por que você ligou?”

“Para saber com o você está, j á disse. Mas quero perguntar um a coisa tam bém .”

“O quê?”

“Quantos ainda estão vivos?”

“Ben e Griffin. Mais ninguém .”

“É um a pena.” Pude ouvi-lo expirar. Suspirar, talvez. Ou talvez fum asse um cigarro. “Cuide-se, Jack. Ah, só quero ter certeza de um a coisa. Com o estão as coisas em Marbury ?”

“É um deserto branco.”

“Certo.”

“Henry ?”

“Hm m ?”

“Aquilo é real?”

“Você sabe tão bem quanto eu, Jack. Claro que é. Tão real quanto qualquer outra coisa. Cuide-se. Talvez ainda nos falem os. Deste lado, é claro.”

“Não pode m e aj udar?”

“Foi por isso que disse para não m e procurar, Jack. Não há nada que eu possa fazer. Você sabe disso. E não há m ais ninguém capaz de ver através das lentes a essa altura. Tentei encontrar Griffin e Ben, m as não consegui. Fique bem . Você sabe o que deve fazer. Tenho certeza.”

Henry desligou.

Fui até o banheiro e entrei novam ente na água m orna.

Nickie m e encontrou no saguão. Ela trouxe um a cesta de piquenique, estendem os um a toalha no gram ado do parque e tom am os chá j untos. Foi um dia perfeito.

Por m ais que eu tentasse, não conseguia agir naturalm ente perto dela. Então, após várias tentativas desengonçadas de conversa – perguntando-lhe sobre a da igrej a, com o ela dorm ira depois de nosso j antar –, ela com eçou a suspeitar que algum a coisa estava m e incom odando.

“Tudo bem com você, Jack?”

Deitei-m e sobre a toalha e olhei para o azul do céu, im aginando se ele era m esm o azul.

“Eu gosto de você, Nickie.”

Ela encostou a m ão no m eu om bro. Era tão bom , nunca tinha sentido algo com o aquele toque. “Tam bém gosto de você. Quer dizer, para um am ericano você é até bem legal”, ela riu. “Bem m isterioso... e parece ser inteligente, tam bém .”

“Aconteceram um as coisas m uito ruins com igo”, suspirei.

Nickie aproxim ou o rosto e ficou bem perto de m im . Seus cabelos caíram sobre m im e fizeram som bra nos m eus olhos.

“Que coisas?”

“Alguém fez algo. Horrível. Não sei se consigo te contar ainda. Mas queria dizer pelo m enos algum a coisa. Acho que tem algo errado com igo depois do que aconteceu e não quero que isso atrapalhe tudo.” Desviei o olhar, observei os cabelos dela. Queria que eles m e cobrissem inteiro. “Espero que você tenha paciência com igo.”

“Posso ser paciente. Mas até certo ponto.”

“Desculpa, Nickie.”

Ela colocou a m ão sobre a m inha e se sentou de frente para o pequeno lago.

“Quando você quiser falar, eu vou escutar.”

“Tudo bem .”

Nickie tentou m udar de assunto, m as senti que ela se sentia m al por m im , talvez sentisse pena.

“Você deve estar em polgado para ver seu am igo am anhã, não é?”

Pensei um pouco. Ainda m e sentia m uito culpado pelo que eu e Conner tínham os feito e nem sabia com o contar para ele sobre Henry e os óculos. Talvez fosse m elhor não dizer nada.

“Estou”, respondi.

“Sabe, vou a Blackpool com a Rachel am anhã durante o feriado. Acho que vou sentir m uito sua falta, Jack, até eu voltar para Londres no fim de sem ana que vem .”

“Que ótim o!”, ironizei. “Agora o Conner vai pensar que eu inventei a história toda de ter conhecido você.”

“Se você tam bém sentir a m inha falta, vocês podem ir encontrar a gente em Blackpool. É m uito bonito lá. Aí apresentam os o Conner para a Rachel.”

“Você tem certeza que quer fazer isso com a sua am iga?”

Ela riu de novo. Parecia um passarinho cantando.

Tam bém m e sentei, com o om bro encostado no dela. Já não tinha m ais m edo. Não havia m ais m otivo. Não após o que eu tinha visto. Finalm ente consegui dizer:

“Nickie, eu nunca beij ei ninguém na vida. Você acha isso m uito estranho?”

“Não sei. Deixa eu pensar.”

Naquele m om ento, m e esqueci de tudo. Era com o se nada m ais existisse além do espaço entre m im e Nickie.

“Não, não acho”, ela respondeu.