A Lente de Marbury
Capítulo 14
CATORZE
Algum a coisa naquele hom em de óculos roxos m e am edrontava e, ao m esm o tem po, m e deixava tranquilo. É difícil explicar, m as era m ais ou m enos o m esm o que eu sentia quando olhava para Freddie Horvath.
Ele estava ali, obviam ente m e observando e, quando eu o olhava, ele não virava o rosto. Apenas continuava m e observando através dos óculos, com um sorriso no canto dos lábios, com o se j á estivesse esperando por m im .
E, considerando onde estávam os, ele parecia tão deslocado naquele lobby quanto eu: usava um sobretudo desbotado e um suéter, apesar do calor, e tinha um chapéu surrado na m ão. Parecia ser novo, uns vinte e poucos anos, m as tam bém parecia m uito cansado, com o se estivesse viaj ando há m eses. A barba por fazer, castanho-clara e irregular, dava àquele hom em um ar quase infantil e parecia que ele não lavava o rosto há sem anas. Quando passei, ele se levantou do banco do bar onde tom ava um a cervej a, tirou rapidam ente os óculos do rosto e disparou em m inha direção, com o se tivesse m e reconhecido de algum lugar. Tentei m e convencer de que estava sendo paranoico e precisava relaxar para confiar em alguém novam ente.
O que m ais cham ava a atenção nele – e agora eu sei, depois de tudo que passei, m esm o que tivesse ignorado no m om ento – eram os óculos roxos. Porque eles não eram som ente roxos, havia algo diferente neles. Quando o flagrei olhando para m im , podia j urar ter visto, som ente por um segundo, algo do outro lado daquelas lentes.
Algo branco e acinzentado, com quinas e dobras.
Algo com o dois grandes buracos que se estendiam para dentro de um a coisa que eu nunca tinha visto antes. Algo grandioso, com o abrir um a daquelas bonecas russas e encontrar algo que não parecia caber ali dentro.
E posso j urar que, por um a fração de segundo, vi tam bém pessoas do outro lado das lentes.
Ao longo de toda sem ana fiquei pensando que as drogas que Freddie Horvath tinha m e dado poderiam ter arruinado algum a coisa em m eu cérebro.
Olhei duram ente para o suj eito. Estava farto de pessoas m e encarando.
Aquela m erda nos óculos dele não deveria ser nada além de reflexos dos velhos esquisitos que vagavam pelo saguão do hotel.
Nada além disso.
Que se foda este lugar.
Os porteiros abriram as pesadas portas de vidro.
Com ecei a correr antes m esm o de sair do hotel.