Depois
Capítulo 8
Preciso parar aqui e contar sobre Regis Thomas. Minha mãe costumava dizer que a maioria dos escritores é tão esquisita quanto um cocô que brilha no escuro, e o sr. Thomas era a maior prova disso.
A Saga Roanoke — era assim que ele a chamava — já tinha nove livros quando ele morreu, cada um grosso como um tijolo. “O velho Regis sempre serve porções bem generosas”, minha mãe disse uma vez. Quando eu tinha oito anos, peguei escondido em uma das prateleiras do escritório um exemplar do primeiro, Pântano da Morte de Roanoke, e li. Não tive problema nenhum com isso. Eu era tão bom em leitura quanto em matemática e ver gente morta (não é tirar onda se é verdade). Além do mais, Pântano da Morte não era exatamente um Finnegans Wake.
Não estou dizendo que era mal escrito, não é isso; o cara sabia contar uma história. Tinha muitas aventuras, muitas cenas assustadoras (principalmente no Pântano da Morte), uma busca por um tesouro enterrado e uma porção bem farta de S-E-X-O. Aprendi mais sobre o verdadeiro significado de sessenta e nove com aquele livro do que um garoto de oito anos deveria saber. E aprendi outra coisa, apesar de só ter feito a conexão consciente depois. Foi sobre todas as noites em que Liz, a amiga da minha mãe, dormia na nossa casa.
Eu diria que tinha uma cena de sexo a cada cinquenta páginas de Pântano da Morte, inclusive uma em uma árvore com jacarés famintos andando embaixo. Estamos falando de Cinquenta tons de Roanoke aqui. No começo da minha adolescência, Regis Thomas me ensinou a bater punheta, e se isso for informação demais para você, só lamento.
Os livros formavam uma saga, no sentido de que contavam uma história contínua com um elenco de personagens contínuos. Eram homens fortes com cabelo claro e olhos risonhos, homens indignos de confiança com olhos inquietos, indígenas nobres (que, nos livros finais, se tornaram nativos americanos nobres) e mulheres lindas com peitos firmes e empinados. Todo mundo — os bons, os maus e as peitudas — sentia tesão o tempo todo.
O coração da série, o que fazia os leitores voltarem (fora os duelos, assassinatos e o sexo, claro), era o segredo titânico que fez os colonos de Roanoke desaparecerem. Foi culpa do George Threadhill, o vilão principal? Os colonos estavam mortos? Havia mesmo uma antiga cidade embaixo de Roanoke, cheia de sabedoria antiga? O que Martin Betancourt quis dizer quando afirmou que “O tempo é a chave” antes de falecer? O que a palavra enigmática, croatoan, encontrada gravada em uma paliçada da comunidade abandonada, realmente queria dizer? Milhões de leitores estavam doidos para saber as respostas àquelas perguntas. Se alguém do futuro distante tiver dificuldade de acreditar, eu diria para você pesquisar sobre Judith Krantz e Harold Robbins. Milhões de pessoas também liam as coisas dos dois.
Os personagens do Regis Thomas eram projeção clássica. Ou talvez eu queira dizer a realização de um desejo. Ele era um sujeitinho minúsculo e enrugado cuja foto de autor tinha que ser sempre retocada para fazer com que seu rosto se parecesse menos com uma bolsinha de couro de velha. Ele não ia a Nova York porque não podia. O cara que escrevia sobre homens destemidos desbravando o caminho em pântanos pestilentos, lutando em duelo e fazendo sexo atlético sob as estrelas era um solteirão agorafóbico que morava sozinho. Ele também era absurdamente paranoico (pelo que dizia a minha mãe) em relação ao seu trabalho. Ninguém via enquanto não estivesse pronto, e, depois que os dois primeiros volumes fizeram um sucesso estrondoso e ficaram no topo da lista de mais vendidos por meses, isso passou a incluir o copidesque. Ele insistia para que os livros fossem publicados do jeito que ele escrevia, palavra por palavra.
Ele não era um autor do tipo que produz um livro por ano (o El Dorado de um agente literário), mas era confiável; um livro com Roanoke no título aparecia a cada dois ou três anos. Os primeiros quatro foram na época do tio Harry, os cinco seguintes na da minha mãe. Isso incluiu Donzela fantasma de Roanoke, que Thomas anunciou que era o penúltimo. O último livro da série, prometeu ele, responderia a todas as perguntas que os leitores fiéis vinham fazendo desde as primeiras expedições ao Pântano da Morte. Também seria o livro mais longo da série, com umas setecentas páginas. (O que permitiria à editora aumentar um ou dois dólares no preço de venda.) E quando Roanoke e todos os seus mistérios encontrassem o merecido descanso, ele já tinha contado à minha mãe em uma das visitas dela à propriedade dele no norte do estado de Nova York, ele pretendia começar uma série de vários volumes voltada à história do Mary Celeste.
Tudo parecia ótimo, até que ele caiu morto em cima da escrivaninha só com umas trinta páginas da sua magnum opus completas. Ele tinha recebido incríveis três milhões de adiantamento, mas, sem livro, o adiantamento teria que ser devolvido, inclusive nossa parte. Só que nossa parte já tinha sido gasta ou estava comprometida. Era aí que eu entrava, como você deve ter imaginado.
Bom, vamos voltar para a história.