Depois

Stephen King · Capítulo 54 de 72

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Depois

Capítulo 53

Naquela época, nós estávamos tão bem que eu poderia ter ido estudar em uma escola particular. Minha mãe me mostrou livretos da Dalton School e da Friends Seminary, mas escolhi ficar em uma pública e estudar na Roosevelt, casa dos Mustangs. E foi tudo bem. Foram bons anos para a minha mãe e para mim. Ela conseguiu um cliente superimportante que escrevia histórias sobre trolls e elfos da floresta e homens nobres que saíam em missões. Eu arrumei uma namorada, mais ou menos. Mary Lou Stein era uma espécie de intelectual gótica apesar do nome de garota comum. Era também cinéfila. Nós íamos ao Angelika uma vez por semana e nos sentávamos na fila de trás, lendo legendas.

Um dia, pouco depois do meu aniversário (eu tinha chegado à grandiosa idade de quinze anos), minha mãe mandou uma mensagem de texto e perguntou se eu podia passar na agência depois da aula em vez de ir direto para casa. Não era nada de mais, só uma notícia que ela queria me dar em pessoa.

Quando cheguei lá, ela serviu uma xícara de café para mim (incomum, mas não inédito na época) e perguntou se eu me lembrava de Jesus Hernandez. Eu falei que sim. Ele foi parceiro da Liz por alguns anos, e minha mãe me levou junto umas duas vezes quando ela e Liz jantaram com o detetive Hernandez e a esposa. Fazia muito tempo, mas é difícil esquecer um detetive de um metro e oitenta chamado Jesus, mesmo quando a pronúncia é Rê-sus.

— Eu amava os dreadlocks dele — comentei. — Eram irados.

— Ele me ligou pra contar que a Liz perdeu o emprego. — Minha mãe e Liz tinham terminado havia muito tempo, mas minha mãe pareceu triste mesmo assim. — Ela acabou sendo pega transportando drogas. Muita heroína, pelo que Jesus falou.

A notícia me atingiu com força. Liz não foi boa para a minha mãe depois de um tempo e também não foi boa para mim, mas foi ruim mesmo assim. Eu me lembrei dela fazendo cócegas em mim até eu quase molhar a cueca e de me sentar entre ela e a minha mãe no sofá, nós três fazendo piadas idiotas sobre os programas, e da vez que ela me levou ao zoológico do Bronx e comprou um algodão doce que era maior do que a minha cabeça. Não esqueça também que ela salvou cinquenta, talvez cem vidas que teriam sido perdidas se a última bomba do Thumper tivesse explodido. A motivação dela podia ter sido boa ou podia ter sido ruim, mas aquelas vidas foram salvas mesmo assim.

Aquela coisa dita na última discussão voltou à minha mente. Coisa séria, minha mãe falou.

— Ela não vai ser presa, vai?

— Bom, ela saiu pagando fiança agora, Jesus disse, mas, no fim das contas… acho que tem uma boa chance de que vá, querido.

— Ah, porra. — Pensei na Liz de macacão laranja, como as mulheres daquela série da Netflix que minha mãe via às vezes.

Ela segurou a minha mão.

— Tá, tá, tá.